quarta-feira, 15 de junho de 2011

For The Marimbondos

Prefeito passado me bateu a porta
Me pediu a identidade
Me brindou a sorte
Governador passado me jurou de morte
Invadiu minha sede
Me tatuou à força mentiras nas costas
Presidente passado
E o retrasado também
Me fincaram uma faca no pescoço
Me fizeram o sangue de tinta
E tingiram as ruas em meu nome
E quem saiu de gótico fui eu
E quem saiu de louco fui eu
E a tal da violência
O tal do crime
Foi de mim que veio
Mas de mim quem veio
Além de mim
Além da boca calada
Aquém da boca gritada e da garganta cortada
Que hora é marcada
Se a hora marcada não tem secretária certa
Não tem precisão
Tem necessidade
Não tem dia certo pra dizer não
E hoje eu digo não, chega
Chega
Quem manda na minha boca sou eu
Quem corta minha garganta sou eu
Quem estanca o sangue
E quem levanta sou eu.

sábado, 11 de junho de 2011

Quitutes Matutinos Num Jardim Qualquer

O seu pão de queijo
Boca aberta enquanto pouco
Café: percevejos

Canção Nenhuma

Amor de perdição
Amor de caridade
Amor dorme na calçada
E pede esmola nas manhãs
Amor não é bossa nova
E nem carnaval
Amor não é latino
Nem estadonidense
E é ainda menos
Parisiense
Amor não é
Uma necessidade
Ou vontade
Amor não é
Uma declaração de amor
Mas pode até ser
Algum filme do Almodovar
Só que só
Os da década de oitenta

Amor de salvação
Amor não é coisa alguma
Nem essa canção
É canção nenhuma
Amor só no ponto final
No pingo dos i's
Pingos de chuva
Gotas de suor, ou sal
Ou água e água-ardente
Pão de Açúcar e Coca-cola
Ou gordura e pão de queijo
Pingos de chocolate
Testemunhas
No canto da boca dela
Na barra do vestido
Amor é o que sobrou do seu perfume
Por dentro à minha blusa
É este céu escancarado
Incrédulo
Nublado
Amor, gotas de lágrima
E sorvete
Não tem diferença.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Haikai que Já Foi Meu

E teu
Moranguinho
Lavanda se entregando a página o caderno
Mancha de tinta da caneta tua
Nas unhas minhas

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Crisálidas

Esse sorriso preso
na barra da calça
seus pés mordem minha boca
você me fez ferida
e beijou pra me sarar
que tipo de fé eu acredito
vir de bonde e só, caiada
atraso o tchau pra te fazer ficar
mas parece que acabou
o nosso tempo aqui
parece que acabou
o nosso tempo aqui
eu vou jurar por zeus
que eu vou te construir
um relógio novo
só pra ele quebrar
e o tempo parar de vez
mas não faz
esse abraço preso assim
por dentro da blusa
me tira pra dançar
me tira pra transar
me tira pra viver
me tira pra chorar
me tira pra encenar
aquela cena cortada
do filme de nós dois
mas não faz assim
não faz frio e beiço
não deixa nevar por nós dois
deixa essa enchente pra lá
abre esse céu
que tá um dia tão bonito lá fora
abre esse céu da boca
e me devolve aquele riso
esse sorriso preso
na barra da calça
arrastando atrás de ti
enquanto você vai embora.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Plurais

Não se beija mais o amor com mesmas bocas
De cor, a sílaba aberta, a noite recita os versos guardanapos
Os braços cruzados aguardar um bonde velho
Ninguém mais anda o bonde por estas bandas e a noite é só
A noite e só
Poucas bandas andam e tocam pelas vielas do subúrbio
Amor de perdição, amor de reza e pecado
Há de passar, então, no ônibus já lotado
Direto do ponto
E há você, implorar, carona
Tropeçar, ralar, correr, atrás
Se perder de graça sem graça pela acuidade
Pela cidade perdida parida em seu ventre
Enfim pedir bater entrar pela porta de trás
O ponto
Final
Bem quando o tédio tinha em mãos passaporte
Viagem
Sua Nova Iorque, já passada e curta metragem curto
Sua Paris, dos retratos analógicos de jamais ser de novo
A vida inteira

De que estética beberia este amor moderno?
Que trem bala perdido cortaria o ar e o som das bocas que estalam
"Até logo"
Impaciência
Narizes a fungar os fungos nos bastidores de cada lágrima já secada
Pares e pares de íris cujo plural não há
Não há
Cuja cor castanha
Nos tempos de agora
De pressa e de cólera
Encara o vilipêndio do próprio espelho que a fita
Já tão poucos os lençóis
Tão poucas manchas de sangue
De virgindades metafóricas
Ou lenços, fronhas, papéis dobráveis
Pra aquecer a superfície encharcada
As Íris
Sós na quietude do bairro esquecido
Que fica por debaixo do cais do porto
Indiferentes suor que luz do dia transpira em si

Mas amor estende saudade
Sob mesmo chão que sol castiga
Que seus joelhos desconhecem
Mas mesmo amor faz artigos indefinidos se definirem
Apurar gramática, recitar Camões
O amor se renova em cólera
Perfura mais fundo o corpo fundo
Até, das profundezas, emergir o firmamento
E o amor reconhece, neste, velho estimado cartão postal
Deitado, estirado neste céu
Cujas estrelas...
Ah, as estrelas!
Cujas estrelas tem na nuca tatuado o seu nome.

domingo, 5 de junho de 2011

(Poema à) Moda Antiga

Até temos as palavras
Porém, demasiado
O silêncio