sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Nova Guanabara

As Olimpíadas de Inverno hão de chegar no Rio de Janeiro, garantidas por carregamentos de neve vindos de Bariloche e das Cordilheiras dos Andes, um verdadeiro colossal empreendimento turístico. O evento será estruturado com financiamento do Estado em articulação com uma certa empresa terceirizada estrangeira. O conchavo, por conta de uma série de decretos aprovados rapidamente pela Câmara, será tratado exclusivamente por esta empresa, recém fundada, em consultoria conjunta à Secretaria de Turismo Municipal.

Os carregamentos de neve hão de chegar, se sustentar e adaptar ao novo cenário fundado nesta cidade, graças às maravilhas oriundas das novas tecnologias de climatização customizada de ecossistemas de médio porte. Hão de chegar mas posteriormente os envolvidos se espantarão com uma nova onda de calor que irá surgir, superando quaisquer expectativas previstas, em um efeito 10 vezes mais intenso que o El Niño, destruindo a aparelhagem que havia permitido climatizar a cidade semanas antes. As crostas nevadas que estavam amontoadas em nossas serras, então, irão se derreter, fato intensificado fatidicamente pelo feriado prolongado, pelas peles morenas se aproveitando do período, pelo dezembro carioca, que irá se impor sobre os objetivos transnacionais ao se adiantar para os meados de julho.

Toda neve importada derretida e escorrida dos elevados se acumulará, ao nível do mar, em um gigantesco parque aquático natural gratuito de água doce pelos bairros do Centro, Zona Sul, Norte e Oeste, seguidos de um dilúvio de 10 semanas, igualmente fora de época, similarmente milagroso. Os escorregadores serão instalados ao longo das encostas dos morros e serras, e dentro de poucos anos nossa fauna e flora se adaptará. Moraremos no pântano tropical oriundo desta branda catástrofe. Coqueiros se multiplicarão pelas novas encostas e seu conteúdo líquido voltará a custar menos de um real diante de tanta oferta. Após uma fracassada tentativa de patentear estas árvores, vetada por iniciativa popular, a empresa terceirizada estrangeira decretará falência removendo suas atividades do país. Outro exemplo de iniciativa frustrada será a grande pista de patinação instalada na Lagoa Rodrigo de Freitas.

Tamanho o choque hídrico causará grande abominação dentre as classes altas pois igualmente ao longo da cidade se formarão novos manguezais, desvalorizando vertiginosamente todos os imóveis da região visto estarem em pé de igualdade infraestrutural com o restante da capital fluminense e consequentemente estourando a bolha imobiliária ali antes estabelecida. As comunidades removidas pela Prefeitura por conta das obras e mesmo índios que habitavam séculos antes a Floresta Atlântica reverterão sua diáspora rumo a seus lares, fortalezas, aproveitando-se no caos causado pela má administração dos governantes, que viriam a ser depostos, diante deste cenário inesperado.

Um meteoro com substâncias extraterrestres misteriosas mas muito similares às propriedades do sabão e do cloro, então, cairá sobre a nossa baía purificando suas margens e leito em totalidade de todo petróleo e demais dejetos. Histórias, casos, pesquisas fortuitas, a partir daí, irão ser inspiradas pelo evento aqui descrito, retratando estes fatos em estudos acadêmicos, cinema, canção e outras formas de conhecimento e cultura. A Nova Guabanara, como será chamada, passará a ser considerada "A Primeira Maravilha do Mundo Pós Moderno", derrocando o Cristo, cuja redenção não evitou que seus pedaços, durante o dilúvio, se espalhassem pelo Oceano Atlântico. Nesta Baía, em manhãs ensolaradas, o limite entre o azul do céu e da água será quase indiscernível no breve horizonte. Isto confundirá constantemente os embriagados que virarem a noite em sambas e rodas da renascida Zona Portuária e resolverem testemunhar o nascer do dia. Tal similaridade, contudo, nunca ludibriará as famintas gaivotas.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Monólogo em Areia e Dedo: Trinta e Dois (ou "Armagueria")

O gosto pelo amargo me faz tempo, desde o café molhado no pão, pequena, desde aquele pedaço minúsculo de cravo que usavam para ornar as sobremesas, desde os chocolates que sobravam na caixa de chocolates que ninguém comia eu caía de boca e me lambuzava. Acabou, e quando digo e repito sobre o gosto e apreço pelo amargo que possuo as pessoas se estranham e associam com o meu humor. Eu que defendo que pra mim amargo é doce, doce no metafórico, amargo no paladar. Comida é comida, estado de espírito é outra ciência. A linguagem é minha e eu faço dela o que vier. E eu vou, me aponte o dedo na cara pra armar uma palavra, uma ferida, um julgamento, que hei de desviar e apontar para direção inicial que sua seta armava, que eram às minhas costas, e lhe subverter o intento dizendo: sim, é por ali que fica a rua tal, duas quadras depois da Casa de Saúde estará a "Amargueria".

"Doceria" já passou, guloseimas de café, rum, canela, gengibre é que vende lá, sim, é a segunda à esquerda, sempre à esquerda. É uma delícia, pode confiar. Se duvidar, se me caçoar da minha mania, irei lhe dizer, "cabe mais espaço na minha garganta que em seu intestino inteiro!" Querer e fazer são as maiores forças que regem nossas vidas, quando temos as circunstâncias materiais que nos permitam. Por isso que se eu quero, eu me despenteio mesmo. Respeito menos você se seu cabelo está sempre no lugar, mas não declaro guerra por pouco assim. Ascendente em Capricórnio para segurar o Sagitário. Saturno retornou e já está fazendo o caminho da volta. Conversa de boteco, nunca fui de mapas.

Se já tivesse filhas falaria que levassem um casaco que lá fora o gosto do sereno era amargo! O carburador dos carros era doce, portanto, melhor serem evitados. O sinal fechado furado, o corpo atropelado, salgado e doce, respectivamente. O gosto do pescoço daquela coisa que você provou uma vez apenas e já estava com saudade de provar de novo tem gosto amargo também. É amargo o riso gratuito que me cai da boca quando. Faço cara de acorde menor, me elogiam. Agora se faço Sol, natural, perguntam se me aconteceu uma tragédia. Não entendo vocês, humanos.

Rogaria

A lava que lhe ressurge das fendas dos ossos
O estrondo tectônico, cardíaco, leucócitos
O dilúvio das pálpebras ganhando alforria
O fio magro de morte na noite, a gritaria.

A canção que tomaram da mão lhe estalando os dedos
A tarde que removeram o teto realocando o colo
O pão dormido comido doado feito caridade
O cobertor cobrindo porque deu vontade.

O inferno que faz quando a resposta chega
A pergunta latente quando o vaso quebra
O lugar das coisas importando menos
A cor da rosa transcendendo Vênus.

A palavra rimada deliberada conforme convém
O entrelaçamento quântico entre nós três
O Armagedão pra cada aniversário, vendaval ou fevereiro
A carne que não pertence a quem a língua chegou primeiro.

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P.S: (versão alternativa com a segunda estrofe)

O verde das veias que queriam respirar clorofila
O branco das unhas ferindo as costas, gengiva
O nublado óbvio que se enxerga da janela fechada
O dublado cínico tateado na palavra afiada.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Precaução

Cuidado
É preciso cuidado
A pressa é desastrada
O desespero despedaça
Cuidado
com o caminho reto escrito no mapa
com o teto baixo, a cabeça e o salto
Cuidado com a esperança
Com o abraço mal dado
Cuidado com o labirinto e a labirintite
A fruta cítrica! se atente à gastrite
Água doce também mata sede.

Cuidado
O castanho dos olhos
Vai brotar montanha acima
Alternando passos redundantes e pequenas revoluções
Demorará? Sim
Mas vai.

Mas vá
Dissipar-se o nublado da janela
A fome cinza de Sol e força
Precisa continuar faminta
O corpo quer o corpo quer cuidado
O corpo cabe do seu lado
O corpo saliva, aperta, cheira
Chover faz bem, mas
Cuidado!
que nem todo azul existe
pra lhe enfeitar o quarto
Cuidado se corta
Se cuide.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Curta Longa Vida de um Poeta Nas Metrópoles

Era um poeta insuportável. Recitava repertório próprio como troféu na grande maioria das oportunidades, nos arredores dos centros culturais, nos refeitórios das universidades, assembleias políticas. Charada sincopada boicotada pelos serões da província por ser mais decifrável que receita de soro caseiro. Bisneto de imigrantes armênios, foi sobrinho-neto de terceiro grau de um certo escritor menos aclamado na literatura destes lados do leste-europeu; contudo, desinibindo a distância, frequentemente se gabava do fato. Adorava nostalgicamente o acordo-ortográfico de 8 de dezembro de 1945, "pois quando era", segundo suas palavras, "a língua portuguesa ainda mantinha seu esplendor característico". Tinha noção clara do que era e do que não devia ser arte: no teatro, origami, gastronomia, música - embora preferisse, secretamente, barulhos de cachoeira gravados em fitas cassete que uma roda de samba ou sinfonia. Morreria de peste negra se isso ainda existisse. Contentou-se em falecer de febre tifoide contraída em uma viagem para Tocantins. (A verdade é que apenas faleceu por se recusar a ser atendido por um médico cubano.) Seu primeiro e único livro escrito fora publicado postumamente apenas na Internet e viralizou nas redes sociais por umas duas semanas.

domingo, 7 de setembro de 2014

Monólogo em Areia e Dedo: Trinta e Quatro

Foi pego imprimindo livretos de poesia no trabalho. Chamado para comparecer ao RH, esperava sua carta de demissão; contudo, fora promovido ─ o que por si só já é de uma poeticidade e bom gosto literário finíssimo por parte de seus superiores. Ao saberem da sucessão dos fatos, por entre os demais funcionários a moda pegou na repartição. Todos imprimiam os livros que curtiam, de 'bom gosto' ou não. Começaram a agendar grupos de leitura e saraus com pessoas de outros setores e funções. Encerravam as atividades duas horas antes do expediente toda primeira e terceira quinta-feira do mês para os coletivos e toda terça para as recitações. Muitos começaram a levar seus escritos próprios. O índice de produtividade de serviço, contrariando os alarmistas, aumentou e o primeiro empregado, que estivera na vanguarda de imprimir coletâneas de versos de Leminski, Torquato, Fiama, Cecília, Florbela, Drummond e Pessoa fora promovido novamente. Tais práticas foram tornadas institucionais dentro da empresa para evitar quaisquer empecilhos legais.

Em outro recital levara seu primeiro petardo autoral. Antes de recitá-lo, porém, já havia notado que a plateia daquele dia estava composta tanto por superintendentes, secretários, procuradores, inspetores, agentes executivos, como por estagiários, acessorialistas, zeladores, motoboys, copeiras; pessoas das mais variadas sortes a trabalhar no mesmo edifício. Conforme se erguia de seu assento com o papel em mãos e se pusera diante da multidão, tremulamente surpreendeu suas testemunhas ao amassá-lo e arremessá-lo contra o chão, pisando-o repetidamente, acinzentando sua textura branca. A plateia assistiu ao ritual em silêncio; e, então, após cerca de 10 segundos quando só se podia ouvir os ruídos do ventilador de teto, o protagonista que descrevo se abaixou, desembaraçou o papel, sobretudo empoeirado mais por seus pés que pelo chão limpo, varrido (inclusive duas vezes por dia e pelas mesmas faxineiras ali sentadas a assistir o espetáculo) e, finalmente,  leu as seguintes palavras que continha impressas:

"Sou um poema em carne viva.
O amasso e a sujeira me fazem parte do verso,
Como a cicatriz e o suor fazem parte do corpo."

Fora aplaudido de pé. O presidente em pessoa, que esperava ansiosamente este telefonema em sua mesa, desceu do último andar e compareceu àquele auditório para cumprimentar-lhe e informar os fortuitos procedimentos e trâmites, que, após assinatura de portarias e respectivas publicações no Diário Oficial da União, além dos demais detalhes técnicos e burocráticos, tornariam possível o ato de lhe ceder e nomear ao cargo mais importante dentro da hierarquia da empresa a qual faziam parte.

Obs.: Sua trajetória seguiria os mesmos moldes meteóricos ao longo da década seguinte exceto por um período temporário de afastamento da produção literária para se dedicar à carreira política. O retorno, após homérico fracasso eleitoral ao cargo de Governador do Estado, foi em seu quinto e mais bem vendido livro de poesia, chamado: "Lições de Esgrima", subtítulo: "...ou como sobrevivi por entre percevejos sem sair fedido".

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Convinced of The Hex (ou "Monólogo em Areia e Dedo: Trinta e Cinco")

Estava no supermercado, planejava levar só três ou duas coisas, mas aquilo é, você vê um arroz que te lembra a tapioca que lembra o leite que lembra que te falta o café. A mão já não dá conta de carregar tanto palpite que a memória dá. Eu vou, então, à quase invisível região destes estabelecimentos onde os cestos plásticos se encontram para continuar a empreitada doméstica. Diante da pilha, a única que tinha, aliás, quase da minha altura, observo a primeira opção: cesto sujo de carne, qualidade não identificada. Deixo de lado, no chão. Próxima opção: poeira, muita poeira branca. Um pacote de leite em pó deve ter estourado, parece véspera de Natal fora de época pras duas formigas perdidas ali. Como povo é porco, penso. Depois em casa considerei a hipótese de ser "cocaine", mas isso é outra dissertação, já. Os artrópodes costumam ter outra onda, até onde estudei. Terceira opção: cesto limpo, arejado, ventilado, contudo: esqueceram uma lista de ingredientes, anotada num pedaço, mesmo, de folha de caderno. Guardei, joguei o que carregava na mão, soterrei o papel, adiei a hora de lidar com esse detalhe e prossegui a jornada. 

Feitas as compras, shampoo anti-caspa, farofa e biscoito da vaquinha inclusos, me meto na fila. Chega minha vez, começo a empilhar tudo na esteira do caixa. Esvaziado o cesto, antes de começar a me lamentar de ter pego compras além dos limites do limite do meu cartão, reencontro o tal do papel, e, enquanto aguardo a pessoa na frente terminar de pagar, começo a ler os detalhes da lista, que descrevo a seguir, incluindo notações:

2 dentes do filho de um agente qualquer;
5 kilos de pata de Mascavus;
30 mililitros de sangue do moço do açougue (o moreno, baixinho, monocelha);
*** 70 gramas de unha de Ogro idoso, abordar falando em idioma Raásvikán a senhora que às 16 horas e quinze ficar parada por 5 minutos no freezer de sorvetes. Ela repassará mais detalhes; 
16 bifes de Unicórnio Transgênico; *para o aniversário da Joca*
3 caixas de Leite de Cabra Alpinista;
1 pacote de salgadinhos recheados com escama de Orque e Charpe;
1 desodorante de maçã verde;
30 sacos de sal;
179 pacotes de milho *qualquer marca, barata, baratíssima*.

De boca aberta, naturalmente. Viro o verso, ainda descubro anotado um endereço, entre aspas: "Rua Oswaldo Cruz, 545, Conglomerado B, Apartamento 5902." Antes que eu enfarte a moça do caixa me grita e organiza com a frase: "senhor, forma de pagamento?" Eu digo, ainda perplexo: cartão. Penso nos prédios da rua, que por acaso conheço, já trabalhei por ali, e com certeza não há nenhum prédio que tenha quase 60 andares. Me interrompe, outra vez, gritando "débito ou crédito?" Respondo: crédito. Não, débito. Crédito, desculpa. Claramente irritada, me empurra a máquina, por sorte acerto a senha de cara, as compras, por sorte, de novo, haja sorte, gente! a própria atendente ajudou e já estão na sacola. É, retomo o caminho de casa. Com o papel dobrado no bolso, óbvio. Provavelmente a peça mais bem pregada que já eu vi na minha vida. Ou, alternativamente, as bruxas não apenas existem, mas como são cariocas, moram no Flamengo e tem uma compulsão bizarríssima por pipoca.

Quinta Feira, 4 de Setembro de 2014:

O homem limpa a escorrida gota de suor cinza de onde já esteve o cavanhaque aparado. A caixa de sapatos pintada de prata pesa muito além agora do que pesava 5 horas mais cedo. As nuvens de chuva quase negras de tanto peso anunciam a próxima tormenta pela garoa que começa a garoar enquanto escrevo esta frase. A gota d'água transparente misturada com certa porção de dióxido de carbono risca também sua testa e, misturada ao suor, torna mais escuro o tom cinzento do líquido que lhe escorre. Prevendo a ardência que esta gota causará se lhe tocar a vista, como quem revive em meio segundo uma tortura evitada e temida rotineiramente, enxuga com o dedo indicador esquerdo a ameaça. Uma criança transita, para, aponta o seu rosto e pergunta para mãe, com quem anda de mãos dadas, se este senhor é feito de pedra. A outra, pois eram duas, de idade ligeiramente avançada pela comparação em altura, repreende-lhe respondendo que ele é feito, na verdade, de moedas de cinquenta centavos derretidas. A mãe puxa a mão de ambas e atravessa a catraca que separa o saguão da Estação. Parado na plataforma, apoia sua caixa no cimento seco, retira do bolso uma embalagem de lata que logo se revela ser um maço de cigarros protegidos no alumínio. Suga do filtro, suave, o trago cuja fumaça engasga e escapa pelo nariz quando a multidão começa a correr para outro ramal. Se aquieta e termina o cigarro quando percebe que está, acidentalmente, no lugar correto. O cenário descrito aqui em preto-e-branco-retrô poderia ser um trecho cinematográfico. Contudo, apenas é o homem estátua, após mais um dia de trabalho artístico pelas ruas da cidade, observando seu trem para Campo Grande adentrar a Central do Brasil. 

"─ O Homem Estátua Voltando Pra Casa."¹

¹ (Título alternativo.)