A quase distância do conhecido que acena de longe;
A quase proximidade do amor antigo que sorri amarelo, puxa o dispositivo móvel para lhe evitar o olhar, atravessa para a outra calçada e para a pessoa do outro da tela acena de longe;
A quase saudade da doença que quase lhe matou e você sente a falta porque aquela coisa de quase morte até fazia bem porque você bebia mais, ou porque você comia melhor, ou porque você escrevia tal fúnebre, embora, nunca realmente próxima, esta morte apenas acenava de longe;
A quase rua que tu virou e era na verdade uma viela e tu te pegou jogando bola com as crianças que te pediram para tocar, tio, toca, pra mim, tio e tu tocou, e tentou fazer uma embaixadinha, mas tu calçava sapatos, mas teus ossos e articulações não são mais os mesmos, e a bola escapou, e tu riu, e a molecada nem viu porque já corria no contra-ataque e o gol marcado por entre os chinelos foi como outro sorriso amarelo, acenando de longe;
O frio quase calor que lhe força a deixar os pés de fora da cama mas com o corpo ainda coberto e você poderia fechar a janela para que se tornasse de vez calor e justificasse o ar condicionado, mas tem a conta de luz, e você podia escancarar a janela e aceitar de vez o calor da ponta dos lábios pontudos dos pernilongos teimosos, mas tem sua alergia, ou você podia pular pela janela para que fosse você a se tornar de vez calor em si pelo impacto no asfalto,
num calor de um
baque
só,
mas a preguiça, de toda forma é maior e você assim permanece, com os pés de fora da cama, com o resto de corpo ainda coberto, e você, para a janela, só acena de longe;
num calor de um
baque
só,
mas a preguiça, de toda forma é maior e você assim permanece, com os pés de fora da cama, com o resto de corpo ainda coberto, e você, para a janela, só acena de longe;
Um filme quase bom na sessão Coruja, ruim o bastante pra você não se empolgar, bom o bastante procê não se levantar, tipo Dança com Lobos, e o sono, quase, quase chegando, e você bocejando e o sono enfim chegando e você sonhando ouvia os gritos mais horríveis, e são como seus familiares gritando, só que são centenas de vocês pois você está se vendo e contemplando sua existência através do momento de horror que deve ser quando formigas são carbonizadas vivas pela água quente, e você a formiga, é a sua avó humana que joga essa água quente, e é outro você, minúsculo e humano, assistindo você, minúsculo e inseto, sofrer, e você não sabe se o pavor vem de se afogar ou de ser dilacerado como num vulcão, como no centro da Terra, mas você acorda com alguém falando alto e é só aquela cena daquele moço Índio Lakota acenando ao longe para o Kevin Costner;
A quase madrugada, estúpida e desesperada, quase madruga porque tornou a ser as onze horas do dia anterior, ou a noite anterior, um domingo que voltou a ser sábado, horário de Verão e você vagando pelo Centro, sem prever fins lucrativos, vê uma criança desequilibrada e desastrada cair de um muro, que que essa criança está fazendo na rua? e esta metáfora lhe angustia então você agarra forte a mão da noite escura, e você e as baratas sobem para a Lapa Selvagem, sobem a Joaquim Silva, sobe a Celaron, aqui as baratas seguem outro rumo, mas você vai e sobe uns 70 degraus e então depois você finalmente se cansa de subir; você se cansa de viver mas ainda assim acena de longe, do fundo da fotografia do casal de turistas que da base da escadaria se retrata pelas mãos e pela câmera de um terceiro desconhecido, você acena de longe, acena de muito longe para uma memória que não vai ser sua.
E, para esta quase carta que você nunca vai ler, de um longínquo ponto possível do universo, ofuscado por estrelas que não nos permitem lhe ver, você, ainda assim, nos acena.
E, para esta quase carta que você nunca vai ler, de um longínquo ponto possível do universo, ofuscado por estrelas que não nos permitem lhe ver, você, ainda assim, nos acena.
