segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Outra

Um trago
um teco
um troço
um moço
um toco
um bolo
um masso
um doce
um beiço
um choro
um gozo
um queijo
um beijo
um cheiro
um meu
um seu
um vão.

domingo, 18 de agosto de 2013

(Recado)

Quem sabe um dia o homem olha pro lado.
(Dado)

Clandestino

Eu não sei cantar
Eu não sei chorar
quando eu canto, grito
quando eu choro, riso

Eu não sei morar
Eu não sei nadar
quando eu moro, fujo
quando eu nado, asas

Eu não sei beijar
Eu não sei morrer
quando eu beijo, mordo
quando eu morro, Cristo

Eu não sinto sono
não sinto vergonha
quando acordo, orquestra
se pudor, nudismo

Eu não sinto medo
Eu não sinto pena
quando temo, mudo
se lamento, sertanejo

Eu não sinto frio
Eu não sinto falta
quando esfrio, o Rio
e se é saudade, Bahia.

sábado, 17 de agosto de 2013

Noise, Please

O silêncio se quebra fácil. Até um bocejo o desfaz por dois segundos. Até um zíper se abrindo ou fechando. Até se coçar a cabeça. Até a poesia, se dita em voz alta. Até esse poema bobo, se amplificado. Bem baixinha, até uma ereção. Até o som da ponta do lápis quebrando, a caneta caindo no chão da Biblioteca. O cachorro reclamando de fome quebrou o silêncio. O coral de moleques na rua te acordando os pais pra te chamar pra jogar bola, também. Sua namorada te chamando pra deitar. 

Mas, disperso no vácuo, nada perturba o silêncio. Nem gritos de torcida. Nem sua respiração, seu coração batendo. Nem a enchente em plena segunda feira. Nem a sexta feira. Nem o ano novo, réveillon. Nem os seus erros gramaticais. Nem esquecer uma tolha molhada em cima da cama. Nem o choro de suas crianças. Nem um samba enredo. Nem uma revolução, nem uma nota de rodapé. Nem orgasmo. Nem a Aquarela do Brasil, nem mesmo na voz de Elis Regina, quebram o silêncio no espaço. Porque o som, nele, não se propaga.

Portanto,
sejamos terráqueos
e façamos silêncio
apenas quando nos convir.

Dois

Não me mate de fome
tenho mais o que fazer
não me mate de medo
tenho mais o que viver
não me mate com a gramática
mais o que aprender
não me mate de câncer
tenho mais do que morrer
não me mate com o sufuco
tenho mais a quem beijar
não me mate no escuro
tem mais Sol pra me queimar
não me mate de sono
tenho mais que levantar
não me mate de saudade
(menos rio do que mar)
não me mate de tédio
eu tenho mais o que fazer.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Amarrota

Faz bem às vezes o amor se acabar
me cura o câncer
me clareia a olheira
põe ferro no meu sangue
me amarrota a blusa
me afrouxa a fivela do cinto
me passa um bloco na frente de casa
me arranca os cisos
me apaga o cigarro
me salva a humanidade
que tava um Armagedom só
me gosta o sotaque
me despenteia o cabelo
e outras coisas boas
que não podem esperar 'té fevereiro.

domingo, 11 de agosto de 2013

Parece

Parece que a falta que fazia faz mais não
parece que o domingo é assim porque sim
parece que a pressa que passou, passou
parece que a febre sua agora é minha também

parece que o silêncio já vai tarde
parece que a noite vai chegar mais cedo
parece que a gente vai morrer um dia
parece que a gente vai viver sambando.

Cores

Que cor minha cara pinta na cara sua
quando a minha cara fica assustada, nua
Que cor o seu corpo perto e vinha
Que cor que tem sua lágrima minha

Que cor te completa a rima
Que cor abstrata o sonho seu
Que cor sua testa sua
Que cor te abre o apetite
Que cor te enche o estômago
Que cor acaba primeiro na tua aquarela
Que cor cê sabe de cor
Que cor sua falta faz na minha cara pálida
Que cor tem a cara da cara de chuva

Eu sou da sua cor
eu tatuo o seu nome
com as cores que o céu fazia
no dia que acabou o amor
Eu sou a sua cor
seja você azul, ou verde-rosa
Seja negra sua paz
Seja quente sua cor lilás. 

Vertical

derrama
derrama
a cabeça
palpita
a barriga
cresce
o horizonte
chega
a boca
arranca
a roupa
no chão
o olho
castanho
o cheiro
é bom
o corpo
transborda
a barriga
incha
o meu
é seu
o corpo
esfarela
nos cantos
nos pratos
nas colchas
tapetes
cadeiras
chuveiros
bueiros
o corpo
derrama
a cabeça
não manda. 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Seca

Se quer meu sangue, me tatua o nome
se quer morrer, me faz um filho
se tem tesão, te quebro o óculos
se tá com tosse, te engasgo a vista
se foi à vista, te devo um beijo
parcelado, 'te roubar um abraço
se gergelim, te curo o câncer
se se embaça, te queimo um cigarro
se tiver fim, que aperte e goze
se fizer mal, que aperte e goze
se me duvida o incêndio, então me fura
se quer atalho, vem, me abre as pernas
se tá com sede, bem e me abre a boca
se quer chover, chora e assim me seca.

domingo, 4 de agosto de 2013

Brisa

Eu quero ser
sua ferida favorita
Eu quero ser
O doce que lhe falta o armário
Quero lhe ser
um novo dia, todo dia
se você flor
que eu seja a brisa
se você brisa
que eu seja a flor
mas se você for
que eu seja eu.