quarta-feira, 5 de abril de 2017

Um monstro de poeira e ódio nasce no meio da praça. Começa sussurrando racismos, depois o sussurro vira frase em plena voz, e fala de corrupção, roubalheira, as pessoas ficam desacreditadas mesmo. Segue gritando, e parece que as pessoas gostam porque tem uma afeição ao berro e o utilizam mais do que como forma de expressão: algo dito mais alto que o saudável parece ter mais sustentação que qualquer argumento, independente de sintaxe, de lógica, de ética. E agora os culpados são os índios, são os homossexuais, são os imigrantes.

Esgoelando-se em coro com o monstro de poeira e ódio, as pessoas se esquecem de opressores reais. Aliás, estes, que oprimem, estão ali do lado dos oprimidos que concordam também com a criatura, porém com mais propriedade, e vão gritando, juntos. Desacreditados, mas agora desintimidados.. A descoberta nova coragem realmente se sustenta no ato de gritar por si só. Esquecem, por exemplo, de reclamar também do patrão, que está ali com eles, que lhes faz trabalhar a hora extra mas evita de pagá-la, que assedia diariamente, que os minimiza.

Não que estejam satisfeitos, estes oprimidos, mas estão desanimados, e na tentativa de reanimação o grito de tentar retocar alguma ordem nas coisas. Como arrumar o quarto destroçando ele com uma serra elétrica. Tem que prender todo mundo mesmo. Tem que matar todo mundo mesmo. Tem que derreter geral num gole de lava porque estão decepcionados mesmo, e nessa brincadeira, vão tornar o monstro de poeira e ódio na maior decepção de suas vidas desde que nos prometeram pra sempre tardes de temperatura amena e noites de abraços quentes. 

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Monólogo em Areia e Dedo: 36 - Aceno de Longe

A quase distância do conhecido que acena de longe;

A quase proximidade do amor antigo que sorri amarelo, puxa o dispositivo móvel para lhe evitar o olhar, atravessa para a outra calçada e para a pessoa do outro da tela acena de longe;

A quase saudade da doença que quase lhe matou e você sente a falta porque aquela coisa de quase morte até fazia bem porque você bebia mais, ou porque você comia melhor, ou porque você escrevia tal fúnebre, embora, nunca realmente próxima, esta morte apenas acenava de longe;

A quase rua que tu virou e era na verdade uma viela e tu te pegou jogando bola com as crianças que te pediram para tocar, tio, toca, pra mim, tio e tu tocou, e tentou fazer uma embaixadinha, mas tu calçava sapatos, mas teus ossos e articulações não são mais os mesmos, e a bola escapou, e tu riu, e a molecada nem viu porque já corria no contra-ataque e o gol marcado por entre os chinelos foi como outro sorriso amarelo, acenando de longe;

O frio quase calor que lhe força a deixar os pés de fora da cama mas com o corpo ainda coberto e você poderia fechar a janela para que se tornasse de vez calor e justificasse o ar condicionado, mas tem a conta de luz, e você podia escancarar a janela e aceitar de vez o calor da ponta dos lábios pontudos dos pernilongos teimosos, mas tem sua alergia, ou você podia pular pela janela para que fosse você a se tornar de vez calor em si pelo impacto no asfalto,
num calor de um
baque
só,
mas a preguiça, de toda forma é maior e você assim permanece, com os pés de fora da cama, com o resto de corpo ainda coberto, e você, para a janela, só acena de longe;

Um filme quase bom na sessão Coruja, ruim o bastante pra você não se empolgar, bom o bastante procê não se levantar, tipo Dança com Lobos, e o sono, quase, quase chegando, e você bocejando e o sono enfim chegando e você sonhando ouvia os gritos mais horríveis, e são como seus familiares gritando, só que são centenas de vocês pois você está se vendo e contemplando sua existência através do momento de horror que deve ser quando formigas são carbonizadas vivas pela água quente, e você a formiga, é a sua avó humana que joga essa água quente, e é outro você, minúsculo e humano, assistindo você, minúsculo e inseto, sofrer, e você não sabe se o pavor vem de se afogar ou de ser dilacerado como num vulcão, como no centro da Terra, mas você acorda com alguém falando alto e é só aquela cena daquele moço Índio Lakota acenando ao longe para o Kevin Costner; 

A quase madrugada, estúpida e desesperada, quase madruga porque tornou a ser as onze horas do dia anterior, ou a noite anterior, um domingo que voltou a ser sábado, horário de Verão e você vagando pelo Centro, sem prever fins lucrativos, vê uma criança desequilibrada e desastrada cair de um muro, que que essa criança está fazendo na rua? e esta metáfora lhe angustia então você agarra forte a mão da noite escura, e você e as baratas sobem para a Lapa Selvagem, sobem a Joaquim Silva, sobe a Celaron, aqui as baratas seguem outro rumo, mas você vai e sobe uns 70 degraus e então depois você finalmente se cansa de subir; você se cansa de viver mas ainda assim acena de longe, do fundo da fotografia do casal de turistas que da base da escadaria se retrata pelas mãos e pela câmera de um terceiro desconhecido, você acena de longe, acena de muito longe para uma memória que não vai ser sua.

E, para esta quase carta que você nunca vai ler, de um longínquo ponto possível do universo, ofuscado por estrelas que não nos permitem lhe ver, você, ainda assim, nos acena. 

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Sentença

Havia calor debaixo do abraço
E o pedido de desculpas sob o estrondo
da porta batendo após a despedida
rompeu-se no escuro da noite,
partido em dois

Havia uma mão levantada, uma faca afiada,
uma marca de soco na parede
cujo golpe não mirava o azulejo

Havia uma mancha de sangue no canto da pia,
no canto da boca,
e neste canto alto que agora vara a madrugada
também há:
desafia a própria cicatriz

Havia a morte, e ela, sempre ela,
correndo perigo sob o afago razo,
por um triz
cambaleia entre a guerra
e a gagalhada

Havia calor debaixo daquele vestido,
havia amor em cada fio de tecido e cabelo
e ainda há
mas tal o conjunto não é mais "seu"
(abra e feche as aspas, pois nunca foi)
envie pro inferno seus pronomes possessivos
e sua arma recém utilizada
contrariada, hipócrita
em forma de adeus

Há ainda muito terremoto por tremer
e deve caber você no seu lugar
que jamais haverá este rio
desaguando no seu mar.

Carta Aberta a uma certa Luiza

Luiza, me diz se esse é seu nome mesmo, me diz se é esse seu nome. Eu ando confuso, ansioso, atarefado, embora geralmente só fique de barriga pra cima esperando o Sol nascer às seis - aliás, quando chega o horário de Verão mesmo? porque eu não aguento mais levantar 5 e pouca da manhã achando que tô atrasado. Eu ando chato, eu minto muito mas minto mal, me desminto mais rápido do que o transformador aqui da rua dando problema depois que chove forte. E quando eu penso em me jogar no mundo, vem mais um boleto pra pagar ou outra fatura atrasada do catão. Espero, sinceramente, que você receba essa carta aberta de coração aberto, porque o mundo e a gravidade não cabem na tela de celular nenhum. E o perigo estúpido de ser feliz está sempre ali latente, como quando a gente fuma, e diz que fuma só quando bebe, mas corta a cena a gente se pega abrindo uma lata de cerveja embaixo do banho, embaixo da cama, só pra puder fumar alis também. Eu te mando essa mensagem, Luiza, daqui do fim do mundo, daqui do tédio dessa fila do Mundial, acabou a luz aqui também e as pessoas ameaçaram quebrar o mercado inteiro, mas ninguém faz isso, né? Carioca mais ladra que morde. E o gerente, assustado, veio gritando calma-calma, e as pessoas palavreando palavreados, e a moça do caixa, estressada, aproveitou o furdunço pra acender um cigarro, e ninguém, pela adrenalina, se tocou que ela tava fumando em lugar fechado, a não ser eu, claro, porque eu que cedi o isqueiro. E eu aqui, frustrado em ter que deixar umas compras pra trás, derreteu o sorvete, rançou a carne; e ansioso para abrir logo a janela do quarto pra tirar o cheiro de guardado; e hoje parece que ninguém vai beber porque amanhã é dia útil de novo. Poxa, Luiza, hoje parece que não vou fazer nada-nada outra vez. O ano já tá acabando, réveillon, carnaval tá aí na porta e a gente aqui perdido em alguma capa de caderno Tilibra-década-de-90. A cafeteira explodiu, deixei o miojo queimar a ponto de estar indissociável da panela e recebi um recado de um ex-namorado, ou seja; vamos morrer aqui, rapidinho?
Escrevi muito pouco esses últimos meses; parece que eu só consigo escrever sozinho, o que é angustiante porque tem mais 9 pessoas lá em casa. Mas Luiza, vem, me diz aí seu sobrenome, me diz seu telefone, por mais que imaginária você deve ter familiares, você deve estar também conectada. Descobri uma ferida no céu da boca e não faço ideia de onde ela surgiu; descobri também outra ferida do lado de dentro da cuca, mas essa eu imagino bem de onde veio. Lembra daquele dia, você reclamando da sua família, você ameaçando incendiar a Presidente Vargas com seus movimentos de polidance no primeiro poste que aparecesse na frente? Pois é, eu lembro, e sinto sua falta. Vamos beber um café qualquer dia desses pra eu te mostrar minha tatuagem nova? Fica tranquila que eu desisti de tatuar os três porquinhos e a casa de tijolos no pescoço. Na real tatuei no peito um lobo enorme e tô aqui pensando que vai ser muito engraçado quando eu for soprar as velinhas do bolo do meu aniversário no ano que vem.

domingo, 19 de junho de 2016

Crônicas da Micro-política Carioca #1

Cumprimente todos os dias o motorista do bus e seja raramente retribuído; esqueça de fazê-lo um dia e receba, no instante seguinte em que perguntar se o veículo passará no antigo Jardim Zoológico, um sonoro "BOM DIA PRA VOCÊ TAMBÉM, DESGRAÇADO".
(Não passava, aliás.)

domingo, 5 de junho de 2016

One More Cup of Coffee For The Road

Após 7 anos de vício fiel, concluiu que não havia chances de não haver um cigarro perdido dentro do quarto, amassado que fosse, esfarelado que estivesse. Assim começou sua missão, e mergulhou em bolsos de calças, nas arestas insuspeitadas de suas paredes e quinas, embaixo de móveis, cadeiras, cama, colchão, fronhas; quem sabe de dentro de um livro, um tabaco achatado surgisse em surpresa? Obviamente dissecou as dezenas de maços findados espalhados, todos religiosamente vazios, por conta de buscas anteriores similares. Mas já são 7 anos de vício fiel, deve haver, nessa casa, que inferno!, pensou; e os bares fechados, as lojas de conveniência inconvenientemente trancadas, a madrugada e os amigos que jamais respondem o telefone a partir de certa hora; tudo só aumentava a agonia. E a salvação veio do banheiro, do cesto de lixo revirado. Debaixo do mal cheiro inesperadamente óbvio um cinzeiro esvaziado dias atrás tinha um cigarro quase inteiro, apagado provavelmente por conta de qualquer banho, telefonema ou atraso. Sentou no azulejo gelado mesmo, riscou o isqueiro e deu seu trago: seu último trago, depois de 7 anos.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Aquelas Canções

Canções são como gatos de rua
Não adianta correr pra abraçar
Menos ainda agarrar pelo rabo
Que ambos nos contra-atacam
Retalhando

Solução?
Resta sentar, esperar
Beber seus tragos
Até elas virem nos cheirar os pés
Roçar nas pernas
E, talvez, sentar no colo

Nunca nossos, nunca nossas
Mas da rua, soltos
Ninguém é de ninguém
Nem as canções
Muito menos os gatos
Ainda mais aqueles
E aquelas
Do centro da cidade.