Uma hora dividido por dois são dois minutos
Um minuto dividido pela raiz de agora pouco
Demasiado
Dez minutos vezes quanto são meio dia?
Um baseado.
domingo, 29 de dezembro de 2013
quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Cítricos
Cítricos de arte; cinema, música
moda, vinho, café, teatro, pus
de direito constitucional, de política
de choperias
mesmo de botecos
cítricos de shampoo, de máquinas de lavar
de bebedouros de barro
cítricos na alegria
E na vida alheia
cítricos de paraquedas que nunca saltaram de paraquedas
Cítricos:
Não como limonada na cachaça
Como ameixa estragada,
Framboesa sobrada na geladeira,
Tamarindo que virou piada.
moda, vinho, café, teatro, pus
de direito constitucional, de política
de choperias
mesmo de botecos
cítricos de shampoo, de máquinas de lavar
de bebedouros de barro
cítricos na alegria
E na vida alheia
cítricos de paraquedas que nunca saltaram de paraquedas
Cítricos:
Não como limonada na cachaça
Como ameixa estragada,
Framboesa sobrada na geladeira,
Tamarindo que virou piada.
quarta-feira, 13 de novembro de 2013
domingo, 10 de novembro de 2013
Domingo
Cogito
outro gole de ti,
engasgo.
com um pelo teu na garganta.
já faço coleção
te trago,
quando dou por mim
roncamos leve
trouxemos sim
dormimos de
conchinha.
outro gole de ti,
engasgo.
com um pelo teu na garganta.
já faço coleção
te trago,
quando dou por mim
roncamos leve
trouxemos sim
dormimos de
conchinha.
Simetria
A primeira garota que eu já amei virou um homem durante um feriado de Corpus Christi. Na mesma época que eu deixei de viver de aluguel e ocupei um prédio abandonado no centro da cidade. Tatuamos nossos nomes nas costas um do outro e nos mudaríamos para Teresina, antes da grande enchente de 1989. Ele, ela na época, aprenderia a tocar acordeão e nós viveríamos de fazer música na rua, eu no agogô a acompanhando. Nossa primeira filha se chamaria Catarina, porque Sofia, a primeira escolha, seria tão comum quanto "Fernanda" ou "Renata" nessa próxima geração. Meu amor era leonino, por isso sempre tinha opiniões fortes sobre variadas coisas, o que a tornava irritante diversas vezes. Nunca conheci ninguém com tanta certeza. Na dúvida, terminei a relação, mas esqueci uma garrafa de Jack Daniel's na casa dela. Sem ter cara para voltar e pedi-la de volta, a garrafa, me tranquei no porão e fiquei 6 meses sem beber. Até receber um telefonema anônimo que me revelou que a primeira garota que eu já amei transou com um homem em um banheiro público durante o Carnaval da cidade maravilhosa de 2007. Machista na época, me deixei ferir de orgulho. Mas a primeira vez que eu morri de verdade estava em baixo d'água, de onde ouvi que ela queria outra pessoa e terminei nossa relação na frente, embora fosse óbvio que fosse este o intuito dela ao começar o assunto. No fundo, depois, culpei tudo o fato de não termos conseguido passar para o mestrado na mesma cidade. Ela queria estudar balé, mas não conseguirá manter sua dieta, ganhara peso e estresse, suas performances caiam de qualidade. "Esporte maldito", dizia. Talvez por isso tenha mudado de vida.
Eu, por minha, me perdi logo em seguida, não sabia mais nem o que era saudade ou cartões postais. Passei as férias vivendo de sorvete napolitano pouco antes da primeira chuva de meteoros que a cidade do Rio de Janeiro presenciou. Na mesma época recebi seu e-mail, me contando as novidades, que tudo andava bem. Exceto eu, que deslocara o dedão do pé esquerdo. Vivia à base de remédios. Logo em seguida não sabia mais o seu novo nome. Tanto que certa vez, pasmem, me perdi em alguma esquina de Copacabana, recobrando a consciência com um grupo de jovens tentando me ofender por estar de saia curta. A escuridão disfarçou minhas estrias. Não sabia mais pra que lado ficava o Centro da cidade. Recebi um telefonema, a pessoa do outro lado tocava um piano, uma sonata. Mentira, estávamos no Brasil, ela tocava um cavaco, um samba, ou alguém tocava ao lado dela. Ou ainda nada disso. Me dizia para estar lá às 3 da manhã do dia seguinte e eu estive. Reconheci a meia-calça pendurada no varal de longe. Trocamos um abraço e um beijo, conheci seu novo homem. As coisas iam bem, só teriam que se mudar em breve. Muito se fala da bolha imobiliária, ainda não fecharam casa própria. Nova Iguaçu é uma opção. Eu queria me manter por aqui também, mas devo botar o apartamento pra alugar, combinei com a corretora. Cocaína não cai do céu. Verdade ou não, soa bem. A segunda vez que eu morri foi naquele trem da volta da casa dele. Não por dor de cotovelo, mas pelo calor, 3 de dezembro. Fazia tempo que não comia tanto açúcar por 1 real. O primeiro garoto que eu amei se chamava Daniel e dividia suas bolas de gude comigo. Decoramos juntos "Faroeste Caboclo" inteira. Da terceira vez que cheguei em casa, o meu companheiro da época havia me abandonado, um bilhete colado em post-it no monitor selou a relação. Nem lembro o que estava escrito, mas senti gratidão por ter deixado nosso casal de gatos bem alimentado e comigo. Ela sempre odiou gatos, porque haveria de levá-los? Meu último pedido tinha sido para comprar uma dúzia de ovos, arroz, que tinha acabado, e ração pros bichanos. Cadê? Pasmem, estava tudo ali, em cima da tampa baixa do fogão. Esqueceu uma calcinha atrás da geladeira. Vou guardar, caso ligue perguntando. Uma boa pessoa, que seja feliz.
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Saliva
Tem gosto de saliva, mas não é boca
Tem gosto de boca, mas não é a sua
Tem gosto seu, mas não é bom
Tem gosto bom, mas não é meu
Tem gosto meu, mas não tão eu
Sobra no prato
De lado
De banda, sozinha
Te sobra no cantos dos dentes, onde a língua não chega
Se fosse (a) minha.
Tem gosto de boca, mas não é a sua
Tem gosto seu, mas não é bom
Tem gosto bom, mas não é meu
Tem gosto meu, mas não tão eu
Sobra no prato
De lado
De banda, sozinha
Te sobra no cantos dos dentes, onde a língua não chega
Se fosse (a) minha.
terça-feira, 22 de outubro de 2013
Cotidianices nº 01
Comando que você dá pro seu Cérebro: "hoje só vamos ter 2 horas para estudar, esse tempo tem que render, colega!" Como ele interpreta: "ah, claro! mas você está se sentindo tão bem esta manhã, que tal praticar violão, cavaquinho, oboé e trompete ao mesmo tempo? Ou tentar escrever um soneto? Não! Melhor mesmo é fazer aquela sua receita de café com sorvete de flocos, acho que sobrou de ontem! Não! Que tal assistir pornografia? Não! Tentar um novo barbeado, pega a gilete! Não! Passa logo máquina zero! Não! Compartilharam um novo artigo do Reinaldo Azevedo, aquele cara que você "adora"! Não! Vamos ler as últimas tirinhas do Laerte! Não! Saiu um novo episódio daquela série! Não, espera! Agora só falta meia hora, não deu pra fazer nada. Melhor dormir mais um pouco, então."
Acorda atrasado pra aula, pro trabalho, pra vida. Obrigado, Cérebro.
Acorda atrasado pra aula, pro trabalho, pra vida. Obrigado, Cérebro.
domingo, 6 de outubro de 2013
Romã
Cuidado que a gemada desanda assim
Não adoça demais
E se o dedo ficar preso no ferrinho da batedeira?
E se o chuveiro queimar amanhã de manhã?
Me espreme esse cravo
Me espreme esse cravo
Decora um Sol no teto do meu quarto
Morde
É tanto amor, amor, que acho que meu amor vai se engasgar.
sábado, 5 de outubro de 2013
Outro no. 01
Hoje sonhei que fumava 2 maços de Marlboro Vermelho
Enquanto assistia a Retrospectiva do ano de 1968
Mas nós já estamos em 2070, parece
e não fumo há 1 mês e meio;
Esse poema é só isso:
um pesadelo.
Enquanto assistia a Retrospectiva do ano de 1968
Mas nós já estamos em 2070, parece
e não fumo há 1 mês e meio;
Esse poema é só isso:
um pesadelo.
Pípula (Poema Até Segunda Feira)
"De tudo ao meu amor serei o espanto
De estar tarado e nu feito um indígena,
Um ex-escravo da Pedra do Sal
do Cais do Porto
Piroca ao vento na Avenida Rio Branco
Meu bloco na rua, a Hora, o Dia
O Cavaco, a Flecha afiados: 'Alegria, Alegria'
Em coro (sem Esperanto)."
De estar tarado e nu feito um indígena,
Um ex-escravo da Pedra do Sal
do Cais do Porto
Piroca ao vento na Avenida Rio Branco
Meu bloco na rua, a Hora, o Dia
O Cavaco, a Flecha afiados: 'Alegria, Alegria'
Em coro (sem Esperanto)."
sexta-feira, 4 de outubro de 2013
Kill The Rich
Um dia vou ser famoso:
1. como um homem bomba;
2. se infiltrando na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro em pleno dia de votação de algum projeto de lei azarão que irá de ser aprovado pela base governista;
3. vestindo um pijama amarelo xadrez e dinamite;
1. como um homem bomba;
2. se infiltrando na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro em pleno dia de votação de algum projeto de lei azarão que irá de ser aprovado pela base governista;
3. vestindo um pijama amarelo xadrez e dinamite;
4. contando até 10 ao ritmo, ao andamento, ao som dos Dead Kennedys;
5. explodindo sua carne e a carne daquela gente;
6. lamentando depois a perda dos inocentes;
7. vibrando agora a morte dos culpados;
8. cujos pedaços ficariam juntos-e-misturados;
9. e tanto espalhados que algum faxineiro ainda meses depois varreria uma unha ou um dente despercebidos pelos socorristas, pela perícia policial e pelos médicos legistas pra dentro do saco plástico da lixeira com um meio sorriso pra estampar a situação;
10. vou ser famoso como esse homem bomba tal (descoberto posteriormente após exame de DNA de se tratar do filho mais velho de uma influente autoridade política na antiga capital), que conheceríamos muito mal então mas pertenceria à História;
7. vibrando agora a morte dos culpados;
8. cujos pedaços ficariam juntos-e-misturados;
9. e tanto espalhados que algum faxineiro ainda meses depois varreria uma unha ou um dente despercebidos pelos socorristas, pela perícia policial e pelos médicos legistas pra dentro do saco plástico da lixeira com um meio sorriso pra estampar a situação;
10. vou ser famoso como esse homem bomba tal (descoberto posteriormente após exame de DNA de se tratar do filho mais velho de uma influente autoridade política na antiga capital), que conheceríamos muito mal então mas pertenceria à História;
11. mas menos famoso, espero eu, que aquele que escritor que escreveu, embriagado, um poema metafórico,
12. que, uma vez censurado pelos meios de repressão de sua época,
13. involuntária e simbolicamente inaugurou o que posteriormente, no âmbito formal, viria se confirmar como o terceiro período Ditatorial deste país.
terça-feira, 1 de outubro de 2013
23min
─ Ó, é dia seguinte e ele já tá cogitando, e semeando, sexo com outras garotas
─ Semeando como?
─ Finalmente marcou um bar com a Eduarda. A garota é um amor, meio bobinha, mas gente fina. Queria ver como ela fica bêbada...
─ Semeando como?
─ Finalmente marcou um bar com a Eduarda. A garota é um amor, meio bobinha, mas gente fina. Queria ver como ela fica bêbada...
─ Mas... mas isso não é normal? Dar umazinha logo pra não dar trela pra dor de cotovelo?
─ Ah, é que ele é canceriano
─ Ah...
─ Com ascendente em peixes
─ Eita!
─ E parece que a lua é em Virgem
─ Coitado
─ Um milagre estatístico ser hétero
─ Pois é
─ Temos sorte dele não estar enchendo o mural com canções do Radiohead ou Bob Dylan
─ Radiohead é fossa. Mas por que Bob Dylan?
─ Sei lá, ele tem umas músicas meio deprê também, ele vive falando deles
─ É
─ Mas eu curto a fase anos 60, do Bob Dylan
─ Eu não, pra mim isso de fase só vale pra Lua, cheia, minguante...
─ Mas, voltando, ele até que tá indo bem, achei que ia ser pior
─ Por quê?
─ Da outra vez foi terrível. Eu que tenho que escutar, né? Virou a noite falando que a garota era cega, que eles deviam ficar junto...
─ Tsc...
─ ...e agora disse que faria sexo oral nessa como ninguém, que ela tava perdendo a melhor foda da vida dela e tal...
─ Ele chegou a falar isso pra ela, pra essa de agora?
─ Pior que falou. Vergonha alheia. Chegou em casa bêbado e ela tava on line ainda, já viu...
─ E ela?
─ "Visualizado há 20 horas atrás", nunca respondeu
─ Deve ter ficado arrasado
─ Ficou. E ligou pra ela 15 vezes na mesma noite. Ela só derrubando a ligação
─ Acordou de ressaca, vomitou em cima do gato, quebrou os vinis dela?
─ Ela já tinha pegado os discos de volta. O gato desviou do vômito. Mas acordou de ressaca, sim.
─ Estranho já estar tão bem hoje
─ Espera, ele compartilhou alguma coisa
─ O quê?
─ "Yesterday", dos Beatles
─ Cancerianos
─ Cancerianos
─ Coitado, minha irmã tinha um namorado com esse problema também, ligava de madrugada pra bichinha perguntando se ela tava sonhando com ele. Ixe, coisa chata!
─ Opa, fui clicar e deu indisponível, deve ter apagado...
─ E agora?
─ Aposto que vai postar alguma do Portishead. Ele mesmo comentou uma vez que era um trunfo, triste e sensual. Tipo "tô deprê mas tô metendo"
─ Não conheço essa banda
─ Ah, lá! "Glory Box"
─ Deprê já tá, vamos ver se vai meter mesmo
─ Não fala isso que eu arrepio.
─ Deprê já tá, vamos ver se vai meter mesmo
─ Não fala isso que eu arrepio.
domingo, 29 de setembro de 2013
Abraço
Estou aqui, irmãos, dá licença, senhores, dá licença, estou aqui, irmãos, pra falar, pra falar do evangelho do Senhor, tá entendendo? Muitas vezes, a gente acorda de manhã, e acorda saudável, com todas as perna, com todos os braço, co'saúde, co's filho bem, indo pra escola, e a gente nem para, senhores, irmãos, a gente nem para agradecer ao Senhor pela prosperidade em nossa vida. Muitas vezes, irmãos, senhores, desculpa o incômodo na viagem, mas é preciso falar no nosso Senhor, o moço, o moço aí, meu príncipe, por favor, tire o fone de ouvido pra escutar a palavra, porque não é sempre, tá entendendo, não é sempre que o Senhor bate na nossa porta querendo dar o seu amor, espalhar sua palavra e vocês precisa entender. A salvação, senhores, desculpa, mas é preciso agradecer, sim, ao nosso Pai, por ter dois braço, duas perna, uma cabeça, ter todos os dedo, agradecer por poder trabalhar e agradecer, se tiver desempregado, por ter saúde pra procurar o emprego, tá entendendo, meu príncipe, minha princesa? E se num tiver saúde, e nem emprego, se tiver sem braço, sem perna, tem que agradecer e pedir, sim, por estar vivo, então, são tantas benção que a gente pode agradecer, que a gente deve, meu príncipe, princesa. Porque quem tem o amor do Pai tudo suporta, tudo crê, e espera, e pode esperar, e crer, na volta d'Ele. Isso tá no Coríntios, versículo 13, tá lá. Também porque se você tá casado, se você achou uma mulher, isso é visto com muitos bons olho aos olhos do Senhor, o Pai. Se você achou tua princesa, o teu amor, o teu príncipe, isso é visto com bons olhos, porque, já dizia nos Provérbios, versículo 18, que quem encontra uma esposa, encontra algo muito bom, encontra as benção do Senhor. E a gente precisa louvar, amar, mostrar o nosso amor pro Senhor, que ele tá voltando, e ele tá voltando. Se você, e se você, meu príncipe, minha princesa, tá ai se deitando, entende, se deitando com gente do mesmo sexo, se você tá ai transando, homem com homem, mulher com mulher, mas se você, assim, se você não tá matando, não tá fazendo mal a ninguém, o Pai, o senhor, sabe, ele vai te perdoar. Que que adianta, entende, entrar na igreja, subir no ônibus, pregar a palavra do Senhor pra tanta gente, perturbar a viagem dos outro, porque, sabe, se você só sabe jurar o mal, pregar o mal às pessoa, porque não pode. Quem ama, ama, e se você aceita o senhor, e se tu faz o bem, minha princesa, meu príncipe, obrigado por ter tirado o fone, se você aceita, se você ama, você faz bem aos olhos do Pai. Tudo o que Deus faz durará eternamente, Eclesiastes, versículo 3. É essa mensagem que eu queria deixar pros senhores passageiros, e deixar aqui o meu bilhetinho, com uns trecho da Bíblia e aqui tem também uma balinha de Tamarindo, pra adocicar sua viagem. Mas não precisa dar dinheiro não, porque ninguém é obrigado, se quiser dar uma contribuição, o Pai agradece, minhas criança lá em casa agradece também. E fica aí meu desejo de bom fim de semana. Tenham os senhores uma boa volta pros seus lares. hoje é sexta, muita gente vai sair aí, pra beber, o que o Senhor não gosta, mas, vocês sabe, que até ele bebia vinho, então, no final o Pai perdoa. Deu no jornal que o cometa Halley tá voltando. Não dá pra ver, mas o céu tá cheio de estrela. São muitas as glórias do Senhor. Então, se for dirigir, toma cuidado, bebe pouco, se for brigar, não briga, que o Pai tá entre nós, e a gente precisa se cuidar, né, gente? O Senhor está voltando. Se cuida, meu príncipe, minha princesa, fica aí na paz, tá entendendo, a paz e o amor consola. Felicidade. Bom sábado, bom domingo. Se Deus quiser minha mulher volta pra casa já-já. Piloto, ô Piloto, pode me deixar aí depois desse sinal? Deus te abençoe. Abraço.
sábado, 28 de setembro de 2013
Metáfora
Uma aranha pequena estava na parede do banheiro. Enquanto fazia minhas necessidades ela acabou me chamando atenção devido o seu ziguezague a caminho do vidro do box. Mais perto pude notar que ela era perneta ou o termo que valha para aracnídeos. Do original total de 8 patas, ela possuía apenas 5, dentre estas uma ainda me parecia comida pela metade. Comovi-me com a situação e tentei ajudá-la, tentando resgatá-la com um papel higiênico, sem ter a mínima ideia do que de fato eu viria a fazer depois disso. Quando se aproximava do papel, após desviar nas duas primeiras tentativas, ela subiu apressadamente pelo meu braço. Eu, assustado, com a outra mão a esmaguei. Era dessas aranhas de pernas magras, que só comem mosquito e seus próprios parentes, que normalmente não metem medo em ninguém. Agora, sob o sentimento fúnebre que me trouxe seu viscoso cadáver, entendo que ela era uma espécie especial de animal chamada "metáfora." Estas criaturas foram criadas por Deus para habitarem as casas dos seres humanos e os estimular a refletir sobre sua própria existência, reavaliar suas decisões e objetivos, passarem a amar mais quantitativa e qualitativamente melhor o seu próximo. Mas esta benção foi morta pelas minhas mãos, por conta de um susto qualquer. E eu ainda tive nojo de sua gosma fluída, lavando minha mão repetidas vezes, mesmo antes de encerrar minhas necessidades primárias. Toda minha intenção em resgatá-la de seu martírio se findou fútil e pretensiosa. Senti-me a caricatura viva do Renato Aragão em pessoa.
Nasal
O seu nariz
Parece o bico de um tucano
Mas eu sempre gostei de tucanos e aves em geral
(Esclareço por meio deste parêntese que minhas tendências políticas beiram ao anarquismo, estando, eu, muito mais voltado para as cores vermelho e preto.)
(Como dizia.)
O seu nariz,
é lindo
quero beijá-lo
esquimó
com o meu nariz
quero apertar
quero morder
e quer saber?
Roubei pra mim.
Não gostou?
Vem buscar.
Parece o bico de um tucano
Mas eu sempre gostei de tucanos e aves em geral
(Esclareço por meio deste parêntese que minhas tendências políticas beiram ao anarquismo, estando, eu, muito mais voltado para as cores vermelho e preto.)
(Como dizia.)
O seu nariz,
é lindo
quero beijá-lo
esquimó
com o meu nariz
quero apertar
quero morder
e quer saber?
Roubei pra mim.
Não gostou?
Vem buscar.
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
Ofego (ou Monólogo em Areia e Dedo: Dezoito)
Ofego, engasgo. Acordo ensopada, me viro o relógio, são três e meia da manhã. Estico meu braço mas não te alcanço. Você não está aqui, o que é óbvio. Parece que você se esqueceu um pouco na minha pele, que me deixou crescer a barriga. Sinto sua falta quanto ouço aquele blues que descobrimos juntos, aquele que a Nina faz, que tem até filme. Quando te pegava, apertava e dançava pela sala, com as cortinas escancaradas para os vizinhos notarem e terem o que comentar durante o jantar. Sinto você quando estou no ponto esperando um ônibus. Quando o silêncio me pega pela garganta. Quando o Rio de Janeiro brinca de inverno. Quando volto, à noite, dos lugares onde você não estava. Quando apago as luzes, por analogia. Quando tenho de ir ao banheiro sozinha. Quando acendo um bom livro. Quando até, como agora, sento e escrevo qualquer coisa, me faz falta seus contrapontos, palpites, verdades, que eu nunca cri, repentes. Suas rimas. Te sinto quando fecho as janelas e o seu cheiro não empesteia meu quarto. Falta o tato de te tocar, amassar, lamber, paladar. Falta a careta que os outros fazem, inconformados com nossa paz. Você, aqui, me mata, angustia, me dá câncer. Mas sinto sua falta quando mato as aulas de Yoga. Depois que faço sexo com outras pessoas. Queria você aqui, agora, na pinha palma da mão ou atrás da orelha. Queria você encravado na minha boca, conformado, te lambuzar de batom. Queria te queimar lentamente e afogar este fogo em cada célula do meu pulmão, que te beberia, e beberia e engasgaria.
Ofego, engasgo. Acordo ensopada, me viro o relógio, já são quatro e meia. Estico meu braço no escuro e me encontro na cabeceira. Esbarro sem intenção na secretária, a eletrônica, que repete a mensagem. Pouco me importa como vai sua vida. De que adianta pedir desculpas se já fez o que fez? Se fodam sua esposa, seus filhos, e como? Como se atreveu a parar de fumar? Que bom isso traz? Era nosso alicerce geral, como nos conhecemos, o isqueiro rosa, a piada frutinha mas como, quando?
Ofego, engasgo. Acordo ereta, calcinha molhada, me viro o relógio, já são nove e meia. Estou atrasada pro trabalho de novo. Ainda bem que estou desempregada. Alivio a tensão na cama mesmo e pego no sono de novo. Fantasio com a nossa viagem pro interior do Pará, onde era impossível achar um baseado. Onde transamos sob o Sertão e parafraseávamos trechos fictícios de Guimarães Rosa, fictícios pois nós nunca tivemos sucesso em terminar sequer um livro dele.
Ofego,
engasgo, me viro a casa, já são meio dia. Parece que invadiram meu
quarto e levaram os móveis. Mas o caminhão de mudança ainda não chegou. O teto me olha preguiçoso, cético.
Ofego, engasgo, me viro o dia, já tem meia casa. Hoje o dia passou
voando. Visto o coturno, saio sem chave, deixo a porta aberta. O teto cansou de me ver ofegar e engasgar.
Ofego, engasgo, me viro a casca, tem sangue no lençol. Alívio, é o batom. Não sei que dia é mas pelo samba dos vizinhos deve ser Domingo.
Ofego, engasgo, me viro a casaca, a folhinha atrás da porta confirma o Domingo. Acabou o Cigarro. Amanhã é feriado, tá tudo fechado.
A sinusite dá trégua, ofego menos. Engasgo com um pedaço de unha. Acabou o calendário.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Verão nº 02
Vestido amarelo me dá tesão e vontade de comer pizza. Sua calcinha é da mesma cor? Mesmo na praia eu não me arranco a camisa, vai que ela repara na minha barriga, nas minhas estrias?
domingo, 22 de setembro de 2013
Morena, Moreno
Moreno, Morena
para uns, eufemismo
de Negro, de Negra
superlativo táctil
que me importa
queria ter te amar
Moreno, Morena
queimar tua pele
te desbravar
debaixo da roupa
na epiderme
torrar
o contraste do Sol
Morena, Moreno
para uns os seus olhos
castanhos ou negros
valem menos
que ardósias,
que abacates ou anis
mas quem te quero despir
castanho, castanha
pro inferno com a lógica
caucasiana
quem prefere tua casca
pouco se fode com a estética valorativa que exclui
que quem prefere tua cama
muito se esbalda por isso
sê fálico ou vulva
Morena ou Moreno
que me agarra pela nuca
que me crava à unha os pelos
meus mosaicos
meus arcanjos, minhas anjas
são à tua semelhança
teu corpo, composição
molhado ou molhada
que pode cair chuva, geada:
há de ser quente
de te derreter manteiga
de te esfregar no pão
de me esfarelar pelo chão do quarto
Morena, Moreno
havemos de renascer
nós quatro.
para uns, eufemismo
de Negro, de Negra
superlativo táctil
que me importa
queria ter te amar
Moreno, Morena
queimar tua pele
te desbravar
debaixo da roupa
na epiderme
torrar
o contraste do Sol
Morena, Moreno
para uns os seus olhos
castanhos ou negros
valem menos
que ardósias,
que abacates ou anis
mas quem te quero despir
castanho, castanha
pro inferno com a lógica
caucasiana
quem prefere tua casca
pouco se fode com a estética valorativa que exclui
que quem prefere tua cama
muito se esbalda por isso
sê fálico ou vulva
Morena ou Moreno
que me agarra pela nuca
que me crava à unha os pelos
meus mosaicos
meus arcanjos, minhas anjas
são à tua semelhança
teu corpo, composição
molhado ou molhada
que pode cair chuva, geada:
há de ser quente
de te derreter manteiga
de te esfregar no pão
de me esfarelar pelo chão do quarto
Morena, Moreno
havemos de renascer
nós quatro.
sábado, 21 de setembro de 2013
Ovos
─ Queria comer uma coisa doce. Você ainda tem crises de identidade? Tipo "o que eu sou, o que eu quero, o que eu pretendo passar pras pessoas?"
─ Até que não. Agora é mais "eu sou uma merda, o que quero eu não tenho, o que pretendia passar já passou." Deixa que eu te faço uma gemada
─ Mas não põe muito açúcar. Às vezes você não acha que o seu tempo tá acabando?
─ Depois dos 30 eu penso nisso. Também não gosto de muito açúcar.
─ Mas não põe muito açúcar. Às vezes você não acha que o seu tempo tá acabando?
─ Depois dos 30 eu penso nisso. Também não gosto de muito açúcar.
Primavera
Um catador de latas, aqui no começo da Rua dos Andradas com o Camelódromo, passou por mim e, querendo me chamar atenção, usou o nome "John Lennon" como vocativo. Desabafou que estava com calor "pra caralho", me pediu um isqueiro, disse que hoje era dia 21, que estava por começar o Equinócio da Primavera. Confessou rapidamente enquanto acendia o baseado que tinha uma prima chamada Vera e que ela batia nele, quando criança, com um varapau. E que ele gostava de correr dela assim: e assim o resto da história não pude ouvir porque não ia seguir correndo um estranho nessas circunstâncias. Subiu nessa pressa a Rua Uruguaiana mas sem derrubar nenhuma lata do saco plástico enorme que carregava. Observação: sim, me devolveu o isqueiro antes de partir.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
O Parto da Macieira
Esse lençol está uma catinga. No alto do teto, nas esquinas das paredes, teias de aranha acumuladas, quando não as próprias. Que dia é hoje? Primeiro? Setembro tem 31 dias? Não, 30. É dia primeiro. Esse lençol amarelo e lembro como ontem seu passado branco. Um lado de mim que não pesa ou pondera está pensando em levantar, preparar o café, o misto quente ou o que tiver sobrado na geladeira e trazer aqui de volta para cama. Embaixo daquela pilha de roupa costumava haver um poltrona. Deve haver ainda ─ não tenho certeza. Reconheci a nuca dela de longe e cheguei cheirando. De longe, é claro. Comentei da saudade, ela concordou. A mureta da Urca estava especialmente azul hoje. A câmera lomográfica que ela tinha na bolsa testemunhou tudo: disse que o mundo podia ter o tempo inteiro aquela estética. Começamos falando de Heidegger, da cena musical/cultural paulista, do nosso repúdio à militância de determinados partidos de esquerda. 3 garrafas de cerveja depois falávamos de nosso apreço por biscoitos de gergelim e sobre a dúvida jamais sanada, afinal, "que animal era o Praga?", do Xou da Xuxa? Foi quando reconheci sua nuca novamente. Dessa vez mais perto, mordi. Mordi também seu pescoço e levei embora até minha casa. Não estou escrevendo tão rápido quanto penso. Ou quanto as coisas aconteceram. Percebi que vinha da praia, enrolada numa canga tropical. Odiava o adjetivo "étnico" atribuído à moda com influências africanas recentemente. Comentou que morria de vontade de saltar de parapentes. E eu de cair de paraquedas. Na cintura dela. O tufo empoeirado do meu teto balança agora com o vento. Como moro próximo ao litoral, penso que ele é constituído, também, por diversos grãos de areia. Quem sabe um deles veio diretamente de uma rua do Nepal. Antes de me estender por esse caminho sou interrompido. Ela tosse, ajeita o cabelo e vira o corpo para o lado. Pergunto para mim se ela reparou que tem três pratos de comida sujos na beira da janela. Sua calcinha amarela foi parar em cima do ventilador. Já deve fazer tempo desde o perfume, mas ela ainda tem seu cheiro. Levanto para preparar café. O relógio da Central do Brasil marca 8 e meia. Ele sempre se atrasa. Na mureta ela me disse sobre a dificuldade de achar sapatilhas de seu tamanho. Me confessou que sua cerveja favorita era justamente a que bebíamos. Demonstrou não ter medo de barata. Eu confessei já ter filhos, ser divorciado. Confessei minha ablepsifobia. Meu fanatismo pela Maria Bethânia. Ela me disse que era homem, pelo menos por enquanto. Confessei que eu também. Minha cadela adorou sua visita, matando uma saudade como se não a visse desde filhote. Quebramos o abajur. Bebemos erva cidreira. Acabamos com um maço de Marlboro Branco. Estou levando o café com pão torrado ─ acabou o queijo e o presunto ─ para a cama. O feriado de Outubro vai cair logo Sábado. O retrato da minha filha deve ser o único objeto não empoeirado nesta casa.
Autópsia da Melancia
Obedece seu pai. Desce da cama. Doce só depois da janta. Fica de zagueiro. Só dessa vez. Você é bonito de rosto. "Cu" não leva acento. Cuidado com esse peso. Cuidado com a língua. Cuidado que, pra isso parecer um coração, tem que tatuar direito. Para de fumar. Bebe menos café. Se alimenta melhor. Se forma logo. Bom que dá pra prestar concurso público. Isso dá câncer. Bate na madeira. Não fala assim com sua mãe. Não goza dentro. Terça-feira tem entrevista no Centro. Alice ligou, pediu pra você retornar. Leva o guarda-chuva. Pelo visto vai chover. Beija a boca dela. Apara a barba. Vai pelo Santa Bárbara pra evitar o trânsito. Por que você não faz como sua irmã? Você vai morrer cedo. História da Arte não dá futuro. Do que que você tá com medo? Quando você vem ver os seus sobrinhos? Acho que tô grávida. Começou a chover. Você está sendo desligado da empresa. Vai se chamar "Magda". Alarme falso. Como acha que esse brinco fica em mim? Esse vestido te cai bem. Parece que você vai ficar careca. Teatro não dá dinheiro. Mão na cabeça e cala boca. Me fode. Já esqueci. Aham. Não. Sim. Massageia aqui. Corre que deu merda. Beija a boca dele. Você concorda com o conceito do paradigma da democracia moderna? Já pensou em ser um doador de órgãos? Você definitivamente vai ficar careca. Quero te comer. A sociedade antecede a política. Acho que tô grávida mesmo dessa vez. Perdeu, perdeu. Quer um conselho? Te encontrei. Acha que eu tô velha pra passar a pintar o cabelo de vermelho? Ninguém vai descobrir. Marquei o pediatra pra semana que vem. Tio, você é muito legal. Por que Alice não veio? Passar batom nas horas vagas é super normal. Você acaba de ser promovido. Sua filha tá te chamando. Parece que aí vem outro. Não entra em pânico. Lembra quando a gente acreditava em cupido? Não esquece de deixar o carro no mecânico. Chupa. Pra que lado fica o sul? Até que você sabe sambar. Olha o tamanho da sua testa. Me leva no colo? Pai, o céu da boca também é azul?
terça-feira, 17 de setembro de 2013
4 Certezas
vai dar tudo certo
¿Q?
errado nada dará, vá.
─
"nhom, nhom, nhom".
(onomatopeia que se faz quando se abraça alguém.)
─
(as rádios, AM e FM, confessam, no mesmo horário)
"Começa agora a Voz do Brasil."
─
(do item acima)
O tema de abertura d'O Guarani não tem culpa.
─
"nhom, nhom, nhom".
(onomatopeia que se faz quando se abraça alguém.)
─
(as rádios, AM e FM, confessam, no mesmo horário)
"Começa agora a Voz do Brasil."
─
(do item acima)
O tema de abertura d'O Guarani não tem culpa.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Ofega
Pois não
Eu estou tão cansado
quanto muitos Padres estão cansados
do sacerdócio
tão cansado quanto Vênus está
de ser confundida com uma Estrela ao anoitecer
cansado como as Rádios AM
falando sozinhas
como o pó do Giz
no sistema respiratório dos professores
do primário-ginasial
de pouco tempo atrás
cansado como a pilha de roupas no meu quarto
de seu êxodo diário entre poltrona-e-cama
como os meninos engraxates que/
não, os meninos engraxates estão mais cansados
do que eu
tanto quanto cansados estão
os motoristas de ônibus
de camisetas com o logo estampado
"Gentileza gera gentileza."
Mas não há ninguém tão cansado como
o cometa Halley está
de passar raspando pela Terra
de esperar o belo e cataclísmico dia
que vai acabar de vez com a humanidade.
Eu estou tão cansado
quanto muitos Padres estão cansados
do sacerdócio
tão cansado quanto Vênus está
de ser confundida com uma Estrela ao anoitecer
cansado como as Rádios AM
falando sozinhas
como o pó do Giz
no sistema respiratório dos professores
do primário-ginasial
de pouco tempo atrás
cansado como a pilha de roupas no meu quarto
de seu êxodo diário entre poltrona-e-cama
como os meninos engraxates que/
não, os meninos engraxates estão mais cansados
do que eu
tanto quanto cansados estão
os motoristas de ônibus
de camisetas com o logo estampado
"Gentileza gera gentileza."
Mas não há ninguém tão cansado como
o cometa Halley está
de passar raspando pela Terra
de esperar o belo e cataclísmico dia
que vai acabar de vez com a humanidade.
domingo, 15 de setembro de 2013
25min
─ "A lagartixa da cozinha sempre me assusta quando eu acendo a luz e a encontro, estabanada, no canto da pia ou do fogão. Mas, depois do susto, vem o alívio de ser apenas uma lagartixa e não algo pior. Algo pior como um jacaré, um escorpião, uma ratazana ou, pior: um representante da Unicef pedindo caridade como os da Sete de Setembro. Ou como uma Testemunha de Jeová. Enfim. Quantos sustos se tem nessa vida seguidos de alívios assim? "É só piolho" quando podia ser caspa. "É só gases" quando podia estar grávida. Quantas fogueiras, lampiões causaram pequenos infartos quando acesos? Quantos corpos pelados espalhados pelos cômodos? Quantos retratos redescobertos? Quantos espelhos indiscretos? Quantos objetos foragidos retornando, pródigos, às gavetas? E, numa tentativa desesperada pra nos salvar do espanto, quantas lâmpadas já se queimaram?"
─ Gostei, muito bom. Também não gosto de lagartixas
─ Obrigado, mas não era bem isso que eu/
─ Faz de novo?
─ O quê? Quer que eu leia de novo o text/
─ Nãaao, faz de novo aquele negócio que você fez agora pouco...
─ Tá.
─ Gostei, muito bom. Também não gosto de lagartixas
─ Obrigado, mas não era bem isso que eu/
─ Faz de novo?
─ O quê? Quer que eu leia de novo o text/
─ Nãaao, faz de novo aquele negócio que você fez agora pouco...
─ Tá.
Anos Dourados
Inveja branca negra mulata amarela.
Medo de paraquedas
de paraíso
de para-brisas
da utilização do hífen
no novo acordo ortográfico.
Espinhas. Góticos. Educação. Física. Dependência. Química. Cantina. Da. Serra. José Serra. Presidente. Sisos. Praia. Verão. Natal. Shoppings. Internet. Discada. Carteira. De. Trabalho. Serviço. Militar. Obrigatório. Voto. Obrigatório. Religião. Obrigatória. Vestibular. Obrigatório. CPF Obrigatório. Obrigatório, tudo o que for obrigatório.
Drama-drama-drama. Viver sem café ou cigarro. Ou shampoo anti-caspa. Pegar os pais transando. Crença na volta de um novo Messias. Crença em amor à primeira vista. A adolescência já foi tarde. Nada ficou.
Exceto essa vontade de reclamar de tudo,
Que é pra sempre.
sábado, 14 de setembro de 2013
26min
─ A garota indiana chegou me mordendo a orelha. Estava rolando um cool-jazz-bossa-nova qualquer coisa com um atabaque-bongô misturado ao fundo e nosso planeta já tinha virado as costas pra estrela mais próxima daqui. Falando da mordida assim parece outro conto exótico-erótico-bukoviskiniano-qualquer coisa, mas se tratava só de uma aposta: quem acertasse, ou ficasse mais perto-perto, o horário que a apresentação da banda ali do Museu começaria a se apresentar poderia ter a orelha mordida por quem perdeu. Aproveitando-me do estado já levemente eufórico da menina, vide o álcool, foi uma ótima ideia, ninguém ia sair perdendo, no fim. Ela, do alto da metade de sua terceira década de vida, e traumatizada com a pontualidade carioca ─ vivera no Rio de Janeiro nos últimos 3 anos de então ─ apostou em meia hora de atraso. Jurava que o atraso era coisa de brasileiro, oposto cármico dos ingleses. Aliás, era de lá das Grã Betânia da vida, filha de imigrantes indianos, nascida em Birkenhead, Liverpool, sei lá. Sobre a aposta, me chamou de trapaceiro e avisou que ia buscar mais um drink, jornada que lhe custaria meia hora por conta da fila gigantesca. Encontrei outros dois rapazes do albergue, um turco bisneto de um ex-general do império do antigo império Otomano que tinha vindo pro Brasil aprender português após se apaixonar, também, por uma mineira. O outro era paulista, como eu, que eu conheci no café da manhã coletivo daquele mesmo dia ou do anterior. Outro empregado de escritório gastando o saldo do cartão de crédito na Bahia durante as férias. A Estrela terminava de se pôr, atrás da Baía de Todos os Santos, quando a banda emendou outro tema. O pianista tava tocando algum Noturno de Chopin com uma levada swingada, eu ia me jogar na pista que se formou ali na hora pra dançar, e foi isso. Deve ter demorado menos de meia hora, ela chegou e me mordeu a orelha, com força, e eu gritei de susto/
─ Caô
─ Pô, tô empolgado contando aqui a história e você me corta assim?
─ Porque é caô, vai dizer agora que comeu a indiana?
─ Tá, não transamos, mas trocamos uns beijos
─ Esse teu jeito de contar a história também, como se tivesse declamando um fado, sei lá, tu é pretencioso pra caraca, cara
─ Poxa, tu é meu amigo ou não é?
─ Sou, por isso tô te falando, essa história soa muito furada. Conta a verdade agora
─ Que verdade?
─ Que que você foi fazer na Bahia ano retrasado? Tu é rato da cidade, samba só pra não pagar de gringo e só quando vai pro Rio duas vezes ao ano ver tua família. Desembucha
─ Ah, cara. Mulher, né? Sempre
─ Sempre. Falando nisso, hoje tem Happy Hour marcado com as garotas. A Eduarda parece que vai
─ Será que agora sai?
─ Sai
─ Fechou, então
─ Aliás, eu dei uma lida no teu blog, essa palhaçada de dividir as histórias em "Atos" é uma puta palhaçada também, tá pensando que tá escrevendo o quê, opera?
─ Pô, cara...
─ Mas fora isso, tá bem maneiro o escrito, tu devia sair dessa porra aqui e lançar um livro
─ Como se fosse fácil
─ Eu mesmo um dia largo tudo e abro minha própria cervejaria. Tenho até fórmula. O segredo tá em tratar a cevada como gente, com amor
─ Acho que já vi essa história em algum filme
─ Também acho.
sexta-feira, 13 de setembro de 2013
Post-its
Entrar no Parlamento como se invadisse uma piscina de bolinhas. Quebrar um protocolo como se cheirasse um livro fresco. Roubar um beijo como se saltasse de paraquedas. Chorar como se toma uma ducha quente após 12 horas de trabalho. Cantar Nina Simone como se granada de mão sem pino. Amar alguém como se corre atrás de um ônibus no Mergulhão da Praça XV.
O Pedido
─ Hoje eu sonhei que me joguei pela janela;
─ Que enquanto pairava no ar, o sol se punha, entrava e saía ano, nasciam meus filhos, meus cisos, e eu não envelhecia;
─ Mas quando atingia o chão, bom tempo depois, conforme meus ossos se espalhavam pelo concreto, finalmente, chegava o dia do meu aniversário;
─ Agora, morto, um ano mais velho, o meu crânio, quando parou de rolar pelo chão, ficara em frente a uma vela acesa, cravada em um bolo de fubá; o bolo tinha por trás de si um espelho, através do qual eu percebia que agora era uma caveira;
─ Com curiosa tranquilidade eu cantava parabéns e fazia um pedido;
─ Finda a canção, faltava-me fôlego para apagar a vela; tudo o que conseguia era puxar um fio de ar, que mais era o vento da rua soprando e ressoando pelos buracos dos olhos e ouvidos do meu crânio no chão, soando como assobio nos dentes que ainda restavam na altura da minha antiga boca;
─ Uma hora ventou mais forte, o assobio retumbou agudo e, finalmente, cessou da vela o fogo;
─ Já o pedido, pelo contrário, se realizou não só facilmente como logo em seguida: uma garoa fina caiu borrando o manuscrito no pedaço de parede branca bem ao lado; manuscrito escrito pelos ossos da minha mão que, enquanto isso tudo acontecia, não paravam de registrar os acontecimentos com um pedaço de tijolo partido.
27min: Ato I
Eu não sei tocar piano, então eu escrevo. Lá vamos nós de novo, escrever sobre escrever. Isso você chama de inspiração? Seria melhor arrumar essa mesa, tirar as teias de aranha do canto das paredes, do teto. Lavar roupa, lavar o banheiro, lavar as costas. Eu poderia estar vivendo, mas estou escrevendo. Eu poderia estar amando, mas estou escrevendo. Poderia estar roubando, matando, matando insetos, poderia estar beijando, beijando meus gatos que estão lá fora na chuva. Escrever sobre a chuva enquanto está chovendo, ótima ideia, poderia estar tomando os remédios que eu deveria ter ingerido horas atrás. Vamos, conte uma história, pense uma história. Início, meio, desenvolvimento, e fim. Você é bom com encerramentos, Codas, grand finales, vamos. Que história há pra contar, todas as histórias já foram contadas. Reconte e fim, pronto, allegro. Algo que já aconteceu, já enterrado, como as sementes de hortelã no quintal estão enterradas pelo cimento. Como as outras sementes de outras plantas cujo nome sei lá se molham de água e inventam sabe-se como de renascer do concreto e laçar seus galhos e folhas do sufoco ao ar livre. Estamos nós e elas 27 minutos mais velhos agora. Justifique o texto, alinhe, corrija as vírgulas, os acentos e conte o que tiver pra contar. Se for mais fácil cantar, cante, que seja, conjugue. Conjugar. Fevereiro, 2 de fevereiro, Iemanjá, dia primeiro, dia 15, e 5 meses depois seu aniversário. Conjugar que verbo, que verso. Vamos. Não sabemos tocar piano, então os dedos fingem talento e datilografam essas coisas. Datilografar é um verbo mais bonito que digitar. O silêncio quebra, o movimento da Sonata muda o arranjo, retoma o allegro moderato. Parece um filme em branco e preto, como o de Tom, Vinícius e Chico, só que é um filme, não um retrato. Cante, conte. Pra alguém algum fato não acontecido.
Dobre o travesseiro pela metade, em dois. Isso, agora deite. Durma, porque amanhã às seis de novo. Sonhe e sonhe pouco, para ficar fácil de esquecer, beber café, tomar banho, sair e trabalhar. Isso, deixe me preparar o café. Ótimo, o gás acabou. Lembre de passar na distribuidora a caminho de casa na volta. Se vista, desça as escadas, a chuva para, deixe-se o guarda chuva em casa. Abra o dicionário para achar aquela palavra, esqueça a palavra que buscava distraído pela ilustração do mamoeiro, em uma página da letra M. Vá para o trabalho, a rua está alagada, um presente da chuva. Vire e faça a volta pela rua do Andradas, à sua esquerda. Olhe dos dois lados. Na verdade, de um lado só, o esquerdo novamente, a Marechal Floriano só tem uma mão agora. Pare no ponto certo, espere o ônibus, ótimo, pegue esse, cortará a Avenida Rio Branco direto e, então, Aterro. Em dois minutos estaremos lá. Ônibus quase vazio, o que é estranho pelo horário, talvez a chuva. A chuva, pare de falar dessa chuva, ela já passou. Temos 5 pessoas dentro do ônibus. Fale com todas elas. Duas são o motorista e a trocadora. Tarefa mais fácil, bom dia, motorista, bom dia, trocadora (ou cobradora?). No acento amarelo há uma senhora, diga bom dia pra ela também. Vamos, é fácil. Bom dia, senhora. Ela responde bom dia de volta. Ótimo, ganhe confiança, restam-lhe ainda 3 cumprimentos. Dois acentos azuis ocupados por um pai e sua filha. A filha está de pé, deve ter aprendido a ficar nesta posição há poucos meses. Do alto de seus, talvez, 80 centímetros, pula no acento. Diga bom dia pro seu pai, e cumprimente a filha, diga que ela está linda neste vestido vermelho bordado, e dê bom dia para a menina também. Bom dia, senhor, sua filha é linda. Ele me diz que não, não é minha filha, é minha irmã. Peça desculpas. Desculpas. Ele diz que não, tudo bem, retribui o bom dia. Diga que sua irmã é muito linda, e que ela terá um dia bom. Sua irmã é muito linda, parece que ela terá um dia bom. Ele agradece, e diz que ela terá sim, um ótimo dia, pois o acompanhará no trabalho. Faltou o bom dia da menina, diga. Bom dia, mocinha, se divirta no trabalho. Ela te olha com dois grandes olhos castanho-escuros. Seu irmão diz para ela retribuir bom dia, o que ela não faz, pois vira a cara para janela, que está fechada. Seu irmão insiste que ela retribua, mas diga que não é necessário, que criança é assim mesmo e deseje que eles passem bem. Não precisa, criança é assim mesmo, passem bem. Acene com a cabeça, siga adiante. A quinta pessoa dentro do veículo é uma moça. Aparentemente de sua faixa etária. Será um alvo mais difícil. Encerre este parágrafo.
Ela está lendo um livro de Mario Vargas Llosa. Você nunca leu nada de Mario Vargas Llosa, puxar assunto a partir disso seria constrangedor. Então se cale. Sente no acento ao lado. Não, não do lado dela, parecerá um tarado ou psicopata, o ônibus está quase vazio. No outro, deixe o corredor entre vocês dois. Isso, vamos. Um bom dia. Vamos? Agora vai soar estranho, ela pensará que você tem um certo tipo de retardo mental. Você disse bom dia para todos os passageiros, o que diabos você tinha na cabeça? Não, só sente, fique calado. Você não é obrigado a dizer bom dia para ela também. Porque você passou a se referir a si mesmo em terceira pessoa? Pare, agora. Pronto. Diga bom dia pra ela. Não, melhor, pergunte se ela tem isqueiro. Isso não faz sentido, não se pode fumar no ônibus. O que ela irá pensar, que você quer roubá-la descaradamente? Roube-a, isso. Sei lá, só pergunte se ela está gostando do livro, parece estar na metade. Agora ela te olhou de volta, agora tem certeza que você é só mais um tarado. Não, você só entrou no ônibus disposto a falar com todos ali presentes. Porque, porque queria fugir da rotina, talvez. Você não tem más intenções. Ela linda. Você poderia ter más intenções com ela. Mas não tem, é só isso. Porque não, então? Posso simplesmente puxar assunto a partir disso. Pedir licença, e explicar exatamente isto, nestas palavras. Ela vai te achar maluco, mas antes maluco do que tarado. Isso, vamos. Sente no acento mais próximo ao corredor, ela não está pela janela, ficará mais próximo. Vamos. Bom dia. Ela olha de volta, parece incomodada, um pouco, de ter sido interrompida da leitura. Continue falando. Sim, é, é estranho, mas só estou dizendo bom dia porque hoje eu acordei querendo fugir da rotina. Peguei esse ônibus, vi que tinha poucas pessoas, e pensei, "nossa, porque não dizer bom dia para todos os presentes?" Sim, é, é meio estúpido, mas aqui está, bom dia e boa leitura. Espero ler qualquer coisa de Mario Vargas Llosa esses dias. Desculpe o incômodo. Ela está rindo, mas volta à leitura. Melhor assim. Puxe outro assunto. Não, abra outro parágrafo, chegue logo ao trabalho. Não, ela interrompe, diz que tudo bem, que também nunca tinha lido nada de Mario Vargas Llosa. Pergunte se ela está gostando. Você está gostando? Ela responde que não sabe ainda se está gostando, que preferia saber espanhol de verdade para ler o original, tem medo dessas traduções de livros de bolso, pois aquele é um livro de bolso. Mas que não sabe espanhol mesmo e que portanto é isso. Ela tem dois olhos grandes castanho-escuros, como a menina do irmão que na verdade já desceu do ônibus no primeiro ponto de Botafogo. Pela bolsa ela deve estar indo para Praia Vermelha. Pergunte isso. Você estuda na Praia Vermelha? Ela diz que sim, que faz jornalismo. Vocês tem menos de um minuto juntos. Faça uma reviravolta na trama.
Acontece que um senhor resolve tentar a sorte e atravessar a via expressa do Aterro. Atropelado e estatelado, o trânsito para. Os bombeiros chegam, vocês estão paralizados no meio do caminho, mais ou menos na altura da rua São Clemente. Daria para ir a pé daqui, mas voltou a chover. Chuva, chuva, chega de chuva. Ela pergunta o que será que houve. Você se levanta e vai perguntar pro motorista se ele consegue ver porque o trânsito está assim. Ele explica o que você já sabe, que passou alguém de moto fazendo o caminho contrário e acabou lhe dizendo. Muito bom. Temos agora vários minutos de conversa com a moça. Mas que que raios você quer com ela? Fique quieto, digo. Explique pra ela o ocorrido. Ela solta um palavrão, baixo, mas você tem boa leitura labial. Retira um guarda chuva da bolsa e grita pro motorista abrir a porta, pois ela tem que descer. Ela, educadamente agora, te diz que tem prova dentro de 10 minutos e não pode perder mais tempo. Deseja bom dia, muito prazer, e se atira pra fora do ônibus no meio da chuva. Maldita, maldita chuva, que quando ajuda, atrapalha. Peça pro motorista abrir também o ônibus. Amaldiçoe o acaso de ter deixado your umbrella em casa, e vá atrás dela. Ponto parágrafo.
Não, não corra, ponha o casaco por cima da cabeça para parecer menos sem noção, e alcance a altura dela naturalmente. Ela anda firme, mas também não corre. Provavelmente evita de molhar os pés demais, está com sapatilhas. Puxe assunto a respeito. Essas sapatilhas não são a melhor opção para dias assim, não é? Ela responde que sim, ri de qualquer jeito, e pergunta se você também estuda na Praia Vermelha. Responda que não, mas que já estudou lá, e que na verdade agora está indo para o trabalho. Estou indo pro trabalho, mas já fiz UFRJ e peguei matérias lá, sim. Ela pergunta o que você fazia na UFRJ, mas a buzina estridente dos próximos carros parados no meio do caminho nos obriga a mudar de assunto. Chegamos na altura do túnel, o corpo está coberto, os paramédicos parecem estar esperando os policiais para registrar a ocorrência. Os policiais já estão chegando, mesmo a pé, o carro deve estar estacionado quadra abaixo. Ela comenta que tem que passar no Shopping antes para sacar dinheiro, e que vai ter que apertar o passo caso se atrase. Despede-se novamente e dispara na sua frente. Vá atrás dela e diga que tem que fazer o mesmo caminho. Agora você está ficando assustador. Só diga que também está atrasado e passe por ele. Também estou atrasado, bom dia. Pronto, menos traumático. Ela queria nada mesmo. Ela te alcança de novo, já estão quase na altura da passarela subterrânea em frente à rua da Passagem, quando ela pede o seu email. Não o telefone, o email. Modernidades fora, passe o seu. Agradeça aos céus ter um endereço fácil de decorar e engraçadinho. Explique-o. Sim, é uma longa história, mas "com acento" é escrito por extenso, mesmo. Ela se despede dizendo que quando terminar o livro te escreverá dizendo o que achou. Vira o caminho contrário descendo a passarela, e bem, você já está 27 minutos atrasado para o trabalho. Pegue outro ônibus agora, porque daqui não há mais contenção no trânsito. Comece outro ato.
Não, não corra, ponha o casaco por cima da cabeça para parecer menos sem noção, e alcance a altura dela naturalmente. Ela anda firme, mas também não corre. Provavelmente evita de molhar os pés demais, está com sapatilhas. Puxe assunto a respeito. Essas sapatilhas não são a melhor opção para dias assim, não é? Ela responde que sim, ri de qualquer jeito, e pergunta se você também estuda na Praia Vermelha. Responda que não, mas que já estudou lá, e que na verdade agora está indo para o trabalho. Estou indo pro trabalho, mas já fiz UFRJ e peguei matérias lá, sim. Ela pergunta o que você fazia na UFRJ, mas a buzina estridente dos próximos carros parados no meio do caminho nos obriga a mudar de assunto. Chegamos na altura do túnel, o corpo está coberto, os paramédicos parecem estar esperando os policiais para registrar a ocorrência. Os policiais já estão chegando, mesmo a pé, o carro deve estar estacionado quadra abaixo. Ela comenta que tem que passar no Shopping antes para sacar dinheiro, e que vai ter que apertar o passo caso se atrase. Despede-se novamente e dispara na sua frente. Vá atrás dela e diga que tem que fazer o mesmo caminho. Agora você está ficando assustador. Só diga que também está atrasado e passe por ele. Também estou atrasado, bom dia. Pronto, menos traumático. Ela queria nada mesmo. Ela te alcança de novo, já estão quase na altura da passarela subterrânea em frente à rua da Passagem, quando ela pede o seu email. Não o telefone, o email. Modernidades fora, passe o seu. Agradeça aos céus ter um endereço fácil de decorar e engraçadinho. Explique-o. Sim, é uma longa história, mas "com acento" é escrito por extenso, mesmo. Ela se despede dizendo que quando terminar o livro te escreverá dizendo o que achou. Vira o caminho contrário descendo a passarela, e bem, você já está 27 minutos atrasado para o trabalho. Pegue outro ônibus agora, porque daqui não há mais contenção no trânsito. Comece outro ato.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
Alma Gêmea
Em comum a gente tinha:
─ A preferência por Trakinas
─ A cerveja favorita
─ Enfiar em tudo rima
Já bastava, senhorita.
─ A preferência por Trakinas
─ A cerveja favorita
─ Enfiar em tudo rima
Já bastava, senhorita.
Meio Termo
Entre a banana e o mamão: o melão
Cavaquinho fica entre o violão e o pandeiro
E no meio do abraço e o beijo...?
Um pão de queijo.
Cavaquinho fica entre o violão e o pandeiro
E no meio do abraço e o beijo...?
Um pão de queijo.
Repente Logo Cedo
Eu não sou de nada
Porque não sou de ser
Só que dá preguiça
quem tem preguiça
pra levantar a voz
mais de três palmos do chão
A primeira do plural "é nós"
Escala muro o meu grafite, irmão
Tatuo meus rascunhos ─ sim
Seguro o palavrão
agarro pela mão
e levo na praça
pra comer sorvete
Mais que três vezes
te jurei amor
embola a língua falar que "me convém"
mais de três vezes
mas me faz bem te ver
e te ver tentar também
mais que três vezes
dizer que amou alguém.
Porque não sou de ser
Só que dá preguiça
quem tem preguiça
pra levantar a voz
mais de três palmos do chão
A primeira do plural "é nós"
Escala muro o meu grafite, irmão
Tatuo meus rascunhos ─ sim
Seguro o palavrão
agarro pela mão
e levo na praça
pra comer sorvete
Mais que três vezes
te jurei amor
embola a língua falar que "me convém"
mais de três vezes
mas me faz bem te ver
e te ver tentar também
mais que três vezes
dizer que amou alguém.
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
Uruga
Um pedinte realmente necessitado; dois pedintes universitários pintados de Coringa e Batman, (que se dizem) calouros de Engenharia da UERJ; um pedinte da Unicef; um panfleto pra VM; outro panfleto pra empréstimo; outro pedinte da Unicef, agora uma argentina que me obriga a repetir três vezes o meu refrão decorado "não vai dar/eu já sei do que se trata/e eu não topei"; um palhaço fazendo malabares do qual você se esquiva; não, obrigado, não preciso de outro chip da Tim; não, não quero cartão C&A; ─ uma pesquisa? pois não ─ se pretendo comprar um eletrodoméstico ainda este ano? não ─ então tá, de nada; respira; finalmente em casa: a Uruguaiana deve ser a maior rua do Centro do Rio de Janeiro.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
19:47
─ Que que foi isso?
─ O quê?
─ Esse vulto amarelo que passou pela minha cabeça?
─ Ah, deve ter sido uma das minhas calopsitas. Ou foi a Dani, ou foi o Jão
─ Você deixa suas calopsitas soltas assim?
─ Não tão soltas, tem grades na janela
─ Ainda assim, deixa elas soltas no seu apartamento assim? E se o cachorro pegar?
─ Ah, o Feijão? Ele adora elas, só ia brincar. Faz nada
─ E se elas cagarem pelos cômodos?
─ Eu limpo. Mas elas costumam fazer as necessidades naquela área da cozinha ali. Perto da comida
─ Por que você deixa elas soltas assim?
─ Por que as deixaria presas?
─ Elas estão presas aqui de qualquer jeito
─ Era isso ou passar todos os anos da vida delas naquela gaiola suja do aviário, no petshop que tinha aqui perto. 2 meses depois ele fechou, aliás, então iam doá-las de qualquer jeito
─ Mas..
─ E não daria pra soltá-las na Floresta da Tijuca porque a maior probabilidade é de que não iam se adaptar
─ É estranho mas faz sentido
─ Só um pouco
─ Me arruma um copo d'água?
─ Claro, minhas maneiras estão péssimas ultimamente. Pode se sentar no sofá, mas, ó, do lado esquerdo. O direito é do Feijão e ele vai vir prestar reclamação com muita braveza contigo. Né, Feijão? O segundo nome dele é Tropeiro.
─ O quê?
─ Esse vulto amarelo que passou pela minha cabeça?
─ Ah, deve ter sido uma das minhas calopsitas. Ou foi a Dani, ou foi o Jão
─ Você deixa suas calopsitas soltas assim?
─ Não tão soltas, tem grades na janela
─ Ainda assim, deixa elas soltas no seu apartamento assim? E se o cachorro pegar?
─ Ah, o Feijão? Ele adora elas, só ia brincar. Faz nada
─ E se elas cagarem pelos cômodos?
─ Eu limpo. Mas elas costumam fazer as necessidades naquela área da cozinha ali. Perto da comida
─ Por que você deixa elas soltas assim?
─ Por que as deixaria presas?
─ Elas estão presas aqui de qualquer jeito
─ Era isso ou passar todos os anos da vida delas naquela gaiola suja do aviário, no petshop que tinha aqui perto. 2 meses depois ele fechou, aliás, então iam doá-las de qualquer jeito
─ Mas..
─ E não daria pra soltá-las na Floresta da Tijuca porque a maior probabilidade é de que não iam se adaptar
─ É estranho mas faz sentido
─ Só um pouco
─ Me arruma um copo d'água?
─ Claro, minhas maneiras estão péssimas ultimamente. Pode se sentar no sofá, mas, ó, do lado esquerdo. O direito é do Feijão e ele vai vir prestar reclamação com muita braveza contigo. Né, Feijão? O segundo nome dele é Tropeiro.
14:50
─ Você cortou o cabelo?
─ Sim
─ Agora-agora?
─ Sim, que que tem?
─ Você pegou a tesoura da minha mesa, foi no espelho do banheiro e cortou o seu cabelo?
─ Sim, mas só a franja
─ Como assim? Como você fez isso?
─ Ah, eu peguei uma escova emprestada com a Katrine, pra pentear antes
─ Mas você está em horário de trabalho
─ Tecnicamente eu cortei no meu horário de almoço
─ Você não podia esperar até chegar em casa?
─ Em casa eu só janto, brinco com o cachorro, ponho ração pras minhas calopsitas e durmo, não ia ter tempo nem paciência pra isso
─ Mas aqui você tem?
─ Claro
─ E final de semana?
─ Sábado e domingo eu tenho mais o que fazer, vou ver meu filho que mora em São Paulo com a mãe, ia deixar pra fazer isso no banheiro do avião?
─ É, não dava
─ Pois é.
─ Sim
─ Agora-agora?
─ Sim, que que tem?
─ Você pegou a tesoura da minha mesa, foi no espelho do banheiro e cortou o seu cabelo?
─ Sim, mas só a franja
─ Como assim? Como você fez isso?
─ Ah, eu peguei uma escova emprestada com a Katrine, pra pentear antes
─ Mas você está em horário de trabalho
─ Tecnicamente eu cortei no meu horário de almoço
─ Você não podia esperar até chegar em casa?
─ Em casa eu só janto, brinco com o cachorro, ponho ração pras minhas calopsitas e durmo, não ia ter tempo nem paciência pra isso
─ Mas aqui você tem?
─ Claro
─ E final de semana?
─ Sábado e domingo eu tenho mais o que fazer, vou ver meu filho que mora em São Paulo com a mãe, ia deixar pra fazer isso no banheiro do avião?
─ É, não dava
─ Pois é.
segunda-feira, 9 de setembro de 2013
sexta-feira, 6 de setembro de 2013
Apesar da sexta-feira, da calmaria, das nuvens que tomavam o seu tempo pra passar dum lado do céu pro outro; apesar da remela ainda no canto do rosto, ela parecia apressada. E me pediu para escolher "logo" um; segurei o gaguejo e disse "a boca". E, após 2 segundos de silêncio, enquanto ela esboçava tipo um sorriso, continuei dizendo: "mas eu sou suspeito", em tom de alerta, " ─ pra mim quase sempre é a boca."
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
11:37
─ Não te respondi porque um fulano me levou o celular quando eu voltava da Lavradio ontem
─ Eu já fui ladrão também.
─ Hoje acordei meio xenófoba
─ Já fui francês também
─ Você vai no aniversário da Isa?
─ Vou. E já fui mulher também
─ Gostou da experiência?
─ Muito
─ Faria de novo?
─ Com toda certeza
─ Hoje sonhei que transava com 5 caras ao mesmo tempo. E outras duas mulheres. Um deles tentava enfiar o negócio até na minha orelha. Acordei e era um mosquito me mordendo ali.
─ Pois eu já fui à Passárgada também
─ Já teve um sonho assim? Que que será que é?
─ Não sei. Sonhei ontem que fazia sexo com uma única mulher, o amor da minha vida
─ Alguém em específico?
─ Nina Simone
─ Bom gosto. Necrofilia?
─ Ela ainda tava viva
─ Menos mal. Faz tempo que não dou umazinha, vai ver por isso o sonho
─ Já fui Mahatma Gandhi também
─ Conheci um cara bonito essa semana. Faz filosofia contemporânea comigo
─ Pois já fui Simone de Beauvoir também. Mas e aí?
─ O conheci da forma mais inusitada: eu reparei que ele tava tentando desenhar a minha mão
─ Nossa. Isso eu nunca fui
─ Né? Papo vai, papo vem, ele disse que gostava de desenhar pedaços do corpo dos outros, dedos, pernas...
─ Xoxotas...
─ Olha, ele não mencionou, mas espero que sim
─ O approuch Jack-Rose-Titanic-eu-sou-artista nunca há de falhar. Aliás, acho que já fui Leonardo Dicaprio.
─ Eu já fui ladrão também.
─ Hoje acordei meio xenófoba
─ Já fui francês também
─ Você vai no aniversário da Isa?
─ Vou. E já fui mulher também
─ Gostou da experiência?
─ Muito
─ Faria de novo?
─ Com toda certeza
─ Hoje sonhei que transava com 5 caras ao mesmo tempo. E outras duas mulheres. Um deles tentava enfiar o negócio até na minha orelha. Acordei e era um mosquito me mordendo ali.
─ Pois eu já fui à Passárgada também
─ Já teve um sonho assim? Que que será que é?
─ Não sei. Sonhei ontem que fazia sexo com uma única mulher, o amor da minha vida
─ Alguém em específico?
─ Nina Simone
─ Bom gosto. Necrofilia?
─ Ela ainda tava viva
─ Menos mal. Faz tempo que não dou umazinha, vai ver por isso o sonho
─ Já fui Mahatma Gandhi também
─ Conheci um cara bonito essa semana. Faz filosofia contemporânea comigo
─ Pois já fui Simone de Beauvoir também. Mas e aí?
─ O conheci da forma mais inusitada: eu reparei que ele tava tentando desenhar a minha mão
─ Nossa. Isso eu nunca fui
─ Né? Papo vai, papo vem, ele disse que gostava de desenhar pedaços do corpo dos outros, dedos, pernas...
─ Xoxotas...
─ Olha, ele não mencionou, mas espero que sim
─ O approuch Jack-Rose-Titanic-eu-sou-artista nunca há de falhar. Aliás, acho que já fui Leonardo Dicaprio.
06:45
─ Chegou cedo
─ É
─ Trânsito?
─ Também
─ Sua letra ainda é feia?
─ Você fala demais pra essa altura da manhã
─ Foi mal
─ Ela deve ter piorado um pouco com esse frio, com essa chuva...
─ E esse câncer de pele aí?
─ Quê?
─ Nada, é a matéria do jornal na tua mão
─ Ah, não tinha reparado ainda, você até me assustou agora
─ Tem coisas mais interessantes pelas quais morrer, não acha?
─ Você às vezes parece falar como se essa conversa fosse parar no seu blog...
─ É que já fui bloggeiro
─ ...ou livro
─ É que já fui poeta também
─ Eu tô indo pro banheiro, deixando você falar sozinho
─ Pois eu já fui água de bica também.
─ É
─ Trânsito?
─ Também
─ Sua letra ainda é feia?
─ Você fala demais pra essa altura da manhã
─ Foi mal
─ Ela deve ter piorado um pouco com esse frio, com essa chuva...
─ E esse câncer de pele aí?
─ Quê?
─ Nada, é a matéria do jornal na tua mão
─ Ah, não tinha reparado ainda, você até me assustou agora
─ Tem coisas mais interessantes pelas quais morrer, não acha?
─ Você às vezes parece falar como se essa conversa fosse parar no seu blog...
─ É que já fui bloggeiro
─ ...ou livro
─ É que já fui poeta também
─ Eu tô indo pro banheiro, deixando você falar sozinho
─ Pois eu já fui água de bica também.
09:37
─ Nunca tinha reparado
─ No quê?
─ No quanto sua letra é feia
─ Nossa, obrigada
─ Que simpatia a sua
─ Desculpa, é que você é mocinha, linda, tem alguns objetos cor de rosa, embora não todos, geralmente usa vestido, a gente espera que a letra duma pessoa assim vá ser impecável
─ Não sei se agradeço ou te mando tomar
─ Desculpa, eu sou meio estabanado até pra falar
─ Tudo bem, sou bem resolvida com minha caligrafia. Mas e esse maço de cigarro aí, eim?
─ Onde?
─ Na sua mochila, nessa partição de fora
─ Ah, é... não é meu
─ Jura?
─ Mentira, é sim, é que tô tentando parar
─ Você vai morrer cedo
─ ...
─ É
─ Isso é uma espécie de vingança por eu ter criticado sua caligrafia?
─ Com certezamente, aqui é Ascendente em Escorpião com Marte em Leão, querido. Brincadeira, também sou ex-fumante e também sou dessas que falam sem pensar
─ Tá há quanto tempo sem fumar?
─ 3 meses. E sem recaídas. Digo, às vezes rola um baseado aqui e ali com os amigos, mas nem isso eu fumaria em casa, por exemplo
─ Boa. Maconha eu não fumo
─ Algo contra?
─ Não, já até provei, mas me dá umas bads, fico paranóico, me dá até medo de cachorro, coisa que não sinto, sóbrio, desde moleque
─ Que brabo, isso já me aconteceu também, mas só nas primeiras vezes
─ Cocaína também não tomo
─ Também não
─ Mas bebo, quer marcar um boteco qualquer dia desses?
─ Não, obrigado.
─ No quê?
─ No quanto sua letra é feia
─ Nossa, obrigada
─ Que simpatia a sua
─ Desculpa, é que você é mocinha, linda, tem alguns objetos cor de rosa, embora não todos, geralmente usa vestido, a gente espera que a letra duma pessoa assim vá ser impecável
─ Não sei se agradeço ou te mando tomar
─ Desculpa, eu sou meio estabanado até pra falar
─ Tudo bem, sou bem resolvida com minha caligrafia. Mas e esse maço de cigarro aí, eim?
─ Onde?
─ Na sua mochila, nessa partição de fora
─ Ah, é... não é meu
─ Jura?
─ Mentira, é sim, é que tô tentando parar
─ Você vai morrer cedo
─ ...
─ É
─ Isso é uma espécie de vingança por eu ter criticado sua caligrafia?
─ Com certezamente, aqui é Ascendente em Escorpião com Marte em Leão, querido. Brincadeira, também sou ex-fumante e também sou dessas que falam sem pensar
─ Tá há quanto tempo sem fumar?
─ 3 meses. E sem recaídas. Digo, às vezes rola um baseado aqui e ali com os amigos, mas nem isso eu fumaria em casa, por exemplo
─ Boa. Maconha eu não fumo
─ Algo contra?
─ Não, já até provei, mas me dá umas bads, fico paranóico, me dá até medo de cachorro, coisa que não sinto, sóbrio, desde moleque
─ Que brabo, isso já me aconteceu também, mas só nas primeiras vezes
─ Cocaína também não tomo
─ Também não
─ Mas bebo, quer marcar um boteco qualquer dia desses?
─ Não, obrigado.
segunda-feira, 2 de setembro de 2013
Samba Vermelho
Dia desses achei um batom teu perdido aqui no quarto; desses que tu tinha mais pra escrever em guardanapo; Na falta da própria, até tua boca tentei imitar, me travesti e passei o batom teu; beijei o espaço; beijei o espelho, o abajur, o Santiago, porteiro novo que tu não conheceu; e o Saramago, à cabeceira, que me emprestou e também já esqueceu; Apaguei as luzes, assisti a rua me dando audiência; vesti um vestido certa vez e dessa vez nem era aquele teu, nem era meu, era de Ivete, que nessa história caiu de para-brisas; O paraquedas do meu carro me avisa; pega carona com sei-lá-alguém; e a própria paciência atrasa a rima e atende pr'outro nome; Dia desses senti saudades tuas mas a noite escura me atendeu o telefone.
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
Outra
Um trago
um teco
um troço
um moço
um toco
um bolo
um masso
um doce
um beiço
um choro
um gozo
um queijo
um beijo
um cheiro
um meu
um seu
um teco
um troço
um moço
um toco
um bolo
um masso
um doce
um beiço
um choro
um gozo
um queijo
um beijo
um cheiro
um meu
um seu
um vão.
domingo, 18 de agosto de 2013
Clandestino
Eu não sei cantar
Eu não sei chorar
quando eu canto, grito
quando eu choro, riso
Eu não sei morar
Eu não sei nadar
quando eu moro, fujo
quando eu nado, asas
Eu não sei beijar
Eu não sei morrer
quando eu beijo, mordo
quando eu morro, Cristo
Eu não sinto sono
não sinto vergonha
quando acordo, orquestra
se pudor, nudismo
Eu não sinto medo
Eu não sinto pena
quando temo, mudo
se lamento, sertanejo
Eu não sinto frio
Eu não sinto falta
quando esfrio, o Rio
e se é saudade, Bahia.
Eu não sei chorar
quando eu canto, grito
quando eu choro, riso
Eu não sei morar
Eu não sei nadar
quando eu moro, fujo
quando eu nado, asas
Eu não sei beijar
Eu não sei morrer
quando eu beijo, mordo
quando eu morro, Cristo
Eu não sinto sono
não sinto vergonha
quando acordo, orquestra
se pudor, nudismo
Eu não sinto medo
Eu não sinto pena
quando temo, mudo
se lamento, sertanejo
Eu não sinto frio
Eu não sinto falta
quando esfrio, o Rio
e se é saudade, Bahia.
sábado, 17 de agosto de 2013
Noise, Please
O silêncio se quebra fácil. Até um bocejo o desfaz por dois segundos. Até um zíper se abrindo ou fechando. Até se coçar a cabeça. Até a poesia, se dita em voz alta. Até esse poema bobo, se amplificado. Bem baixinha, até uma ereção. Até o som da ponta do lápis quebrando, a caneta caindo no chão da Biblioteca. O cachorro reclamando de fome quebrou o silêncio. O coral de moleques na rua te acordando os pais pra te chamar pra jogar bola, também. Sua namorada te chamando pra deitar.
Mas, disperso no vácuo, nada perturba o silêncio. Nem gritos de torcida. Nem sua respiração, seu coração batendo. Nem a enchente em plena segunda feira. Nem a sexta feira. Nem o ano novo, réveillon. Nem os seus erros gramaticais. Nem esquecer uma tolha molhada em cima da cama. Nem o choro de suas crianças. Nem um samba enredo. Nem uma revolução, nem uma nota de rodapé. Nem orgasmo. Nem a Aquarela do Brasil, nem mesmo na voz de Elis Regina, quebram o silêncio no espaço. Porque o som, nele, não se propaga.
Portanto,
sejamos terráqueos
e façamos silêncio
apenas quando nos convir.
Dois
Não me mate de fome
tenho mais o que fazer
não me mate de medo
tenho mais o que viver
não me mate com a gramática
mais o que aprender
não me mate de câncer
tenho mais do que morrer
não me mate com o sufuco
tenho mais a quem beijar
não me mate no escuro
tem mais Sol pra me queimar
não me mate de sono
tenho mais que levantar
não me mate de saudade
(menos rio do que mar)
não me mate de tédio
eu tenho mais o que fazer.
tenho mais o que fazer
não me mate de medo
tenho mais o que viver
não me mate com a gramática
mais o que aprender
não me mate de câncer
tenho mais do que morrer
não me mate com o sufuco
tenho mais a quem beijar
não me mate no escuro
tem mais Sol pra me queimar
não me mate de sono
tenho mais que levantar
não me mate de saudade
(menos rio do que mar)
não me mate de tédio
eu tenho mais o que fazer.
terça-feira, 13 de agosto de 2013
Amarrota
Faz bem às vezes o amor se acabar
me cura o câncer
me clareia a olheira
põe ferro no meu sangue
me amarrota a blusa
me afrouxa a fivela do cinto
me passa um bloco na frente de casa
me arranca os cisos
me apaga o cigarro
me salva a humanidade
que tava um Armagedom só
me gosta o sotaque
me despenteia o cabelo
e outras coisas boas
que não podem esperar 'té fevereiro.
me cura o câncer
me clareia a olheira
põe ferro no meu sangue
me amarrota a blusa
me afrouxa a fivela do cinto
me passa um bloco na frente de casa
me arranca os cisos
me apaga o cigarro
me salva a humanidade
que tava um Armagedom só
me gosta o sotaque
me despenteia o cabelo
e outras coisas boas
que não podem esperar 'té fevereiro.
domingo, 11 de agosto de 2013
Parece
Parece que a falta que fazia faz mais não
parece que o domingo é assim porque sim
parece que a pressa que passou, passou
parece que a febre sua agora é minha também
parece que o silêncio já vai tarde
parece que a noite vai chegar mais cedo
parece que a gente vai morrer um dia
parece que a gente vai viver sambando.
parece que o domingo é assim porque sim
parece que a pressa que passou, passou
parece que a febre sua agora é minha também
parece que o silêncio já vai tarde
parece que a noite vai chegar mais cedo
parece que a gente vai morrer um dia
parece que a gente vai viver sambando.
Cores
Que cor minha cara pinta na cara sua
quando a minha cara fica assustada, nua
Que cor o seu corpo perto e vinha
Que cor que tem sua lágrima minha
Que cor te completa a rima
Que cor abstrata o sonho seu
Que cor sua testa sua
Que cor te abre o apetite
Que cor te enche o estômago
Que cor acaba primeiro na tua aquarela
Que cor cê sabe de cor
Que cor sua falta faz na minha cara pálida
Que cor tem a cara da cara de chuva
Eu sou da sua cor
eu tatuo o seu nome
com as cores que o céu fazia
no dia que acabou o amor
Eu sou a sua cor
seja você azul, ou verde-rosa
quando a minha cara fica assustada, nua
Que cor o seu corpo perto e vinha
Que cor que tem sua lágrima minha
Que cor te completa a rima
Que cor abstrata o sonho seu
Que cor sua testa sua
Que cor te abre o apetite
Que cor te enche o estômago
Que cor acaba primeiro na tua aquarela
Que cor cê sabe de cor
Que cor sua falta faz na minha cara pálida
Que cor tem a cara da cara de chuva
Eu sou da sua cor
eu tatuo o seu nome
com as cores que o céu fazia
no dia que acabou o amor
Eu sou a sua cor
seja você azul, ou verde-rosa
Seja negra sua paz
Seja quente sua cor lilás.
Vertical
derrama
derrama
a cabeça
palpita
a barriga
cresce
o horizonte
chega
a boca
arranca
a roupa
no chão
o olho
castanho
o cheiro
é bom
o corpo
transborda
a barriga
incha
o meu
é seu
o corpo
esfarela
nos cantos
nos pratos
nas colchas
tapetes
cadeiras
chuveiros
bueiros
o corpo
derrama
derrama
a cabeça
palpita
a barriga
cresce
o horizonte
chega
a boca
arranca
a roupa
no chão
o olho
castanho
o cheiro
é bom
o corpo
transborda
a barriga
incha
o meu
é seu
o corpo
esfarela
nos cantos
nos pratos
nas colchas
tapetes
cadeiras
chuveiros
bueiros
o corpo
derrama
a cabeça
não manda.
terça-feira, 6 de agosto de 2013
Seca
Se quer meu sangue, me tatua o nome
se quer morrer, me faz um filho
se tem tesão, te quebro o óculos
se tá com tosse, te engasgo a vista
se foi à vista, te devo um beijo
parcelado, 'te roubar um abraço
se gergelim, te curo o câncer
se se embaça, te queimo um cigarro
se tiver fim, que aperte e goze
se fizer mal, que aperte e goze
se me duvida o incêndio, então me fura
se quer atalho, vem, me abre as pernas
se tá com sede, bem e me abre a boca
se quer chover, chora e assim me seca.
se quer morrer, me faz um filho
se tem tesão, te quebro o óculos
se tá com tosse, te engasgo a vista
se foi à vista, te devo um beijo
parcelado, 'te roubar um abraço
se gergelim, te curo o câncer
se se embaça, te queimo um cigarro
se tiver fim, que aperte e goze
se fizer mal, que aperte e goze
se me duvida o incêndio, então me fura
se quer atalho, vem, me abre as pernas
se tá com sede, bem e me abre a boca
se quer chover, chora e assim me seca.
domingo, 4 de agosto de 2013
Brisa
Eu quero ser
sua ferida favorita
Eu quero ser
O doce que lhe falta o armário
Quero lhe ser
um novo dia, todo dia
se você flor
que eu seja a brisa
se você brisa
que eu seja a flor
mas se você for
que eu seja eu.
sua ferida favorita
Eu quero ser
O doce que lhe falta o armário
Quero lhe ser
um novo dia, todo dia
se você flor
que eu seja a brisa
se você brisa
que eu seja a flor
mas se você for
que eu seja eu.
segunda-feira, 29 de julho de 2013
Estatela
Contra o que estatela
o ponto final
o sinal fechado
e a cara feia estática
contra a plástica
e todo amor que é pré-fabricado
contra o que se fecha
se mais cadeado
se jaz baleado
se faz de flecha
e se atira
e mata
e quebra com a ponta dentro
Contra o que é do contra
me perde pela casa
contra a mordida que leva a orelha embora
só deixa o beijo que arde
e se arde
que arda mais.
o ponto final
o sinal fechado
e a cara feia estática
contra a plástica
e todo amor que é pré-fabricado
contra o que se fecha
se mais cadeado
se jaz baleado
se faz de flecha
e se atira
e mata
e quebra com a ponta dentro
Contra o que é do contra
me perde pela casa
contra a mordida que leva a orelha embora
só deixa o beijo que arde
e se arde
que arda mais.
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Te
Queria ter te esquecido
quando a culpa, o cupido
picaram o meu coração
Queria te ter do meu lado
quando o futuro e o passado
me encravavam o dedão
Queria ter te querido
quando o verbo e o umbigo
me embaçavam o tesão
Queria te ter guardada
te ter saída ou cilada
te proteger ou perdão
Mas não me perdoo
Pois ter te ferido, querida
Ser te o abismo, prisão
Ser te a gaiola, o cuidado
Ser te eufemismo, o vão
Só deu em silêncio
E o silêncio não rima com nada.
quando a culpa, o cupido
picaram o meu coração
Queria te ter do meu lado
quando o futuro e o passado
me encravavam o dedão
Queria ter te querido
quando o verbo e o umbigo
me embaçavam o tesão
Queria te ter guardada
te ter saída ou cilada
te proteger ou perdão
Mas não me perdoo
Pois ter te ferido, querida
Ser te o abismo, prisão
Ser te a gaiola, o cuidado
Ser te eufemismo, o vão
Só deu em silêncio
E o silêncio não rima com nada.
sexta-feira, 12 de julho de 2013
Pois é.
Eu não assisto Televisão. Eu não ando de guarda chuva. Eu não conjugo a 1ª pessoa do plural. Eu não acredito em automóveis. Duvido da gravidade e da teoria da relatividade. Eu não levo fé na existência de romance, bromance: sequer sei o que é um lance. Não creio no vírus da Dengue. Duvido da previsão do tempo. Quando eu era pequeno cavei buracos pelo jardim do prédio inteiro atrás de fósseis. O síndico do prédio deu um esporro nos meus pais. Apanhei. Cresci e jamais vi um fóssil, ou mesmo osso sequer que não fosse da galinha ou da costela do boi. Não virei arqueólogo. Os dinossauros não existem.
Não há mais lixeiras na Presidente Vargas. Não há mais Inverno na cidade do Rio de Janeiro. A palavra "não" não foi desconsticionalizada da língua portuguesa. Não duvido do amor. Só não tenho paciência. Não acredito na Revolução. Nunca fui com a cara do Faustão. Nunca gostei de sorvete de passas ao rum. Nunca fiquei resfriado. A democracia representativa não me satisfaz. As cicatrizes pelos meus braços e pernas ganhas em partidas de futebol na infância não me satisfazem. A vontade agora minha de morrer asfixiado com gás de cozinha também não me satisfaz. Porque eu não virei arqueólogo. E os dinossauros não existem.
Não há mais lixeiras na Presidente Vargas. Não há mais Inverno na cidade do Rio de Janeiro. A palavra "não" não foi desconsticionalizada da língua portuguesa. Não duvido do amor. Só não tenho paciência. Não acredito na Revolução. Nunca fui com a cara do Faustão. Nunca gostei de sorvete de passas ao rum. Nunca fiquei resfriado. A democracia representativa não me satisfaz. As cicatrizes pelos meus braços e pernas ganhas em partidas de futebol na infância não me satisfazem. A vontade agora minha de morrer asfixiado com gás de cozinha também não me satisfaz. Porque eu não virei arqueólogo. E os dinossauros não existem.
quarta-feira, 10 de julho de 2013
Dois Astrônomos
─ Amanhã de manhã você vai me amar ainda?
─ Ainda vou te amar mesmo quando o universo observável principiar o processo inverso do Big Bang e toda vida, todas as estrelas, planetas; enfim, quando toda matéria, conhecida e não conhecida por nossa ciência, hoje presente passar a se concentrar novamente no espaço equivalente a uma bola de ping-pong
─ Mas não era equivalente ao buraco de uma agulha?
─ Não há consenso
─ E você sabe que o indício de que o universo irá iniciar o processo contrário do Big Bang é nulo, e que a hipótese mais provável é que em algum momento as galáxias e aglomerados irão se distanciar tanto entre si que sequer poderão mais exercer força de atração umas pelas outras; certo?
─ Hm...
─ E que passarão a vagar eternamente no nada
─ Que seja
─ Embora isso signifique que você irá me amar eternamente
─ Exatamente
─ Embora nossa vida, quando muito, irá durar apenas mais uns 75 anos
─ E se a medicina até lá inventar finalmente a fórmula da longevidade e estender a vida humana, ou mesmo fazer dela ilimitada?
─ Não teríamos dinheiro pra bancar isso, amor. Somos professores, ferrados, duros, com uma aposentadoria que vai ser desvalorizada ano após ano pelo INPS
─ Às vezes você sabe mesmo acabar com o clima
─ Ah, não fica assim, eu me contento com 75 anos de amor. Também me contentaria em me tornar uma partícula ínfima ocupando o mesmo buraco de agulha que você e todo resto de matéria do universo, em nível quântico. Seríamos dois átomos apaixonados
─ Já que o primeiro caso é o mais provável, melhor pararmos de fumar hoje mesmo
─ Amanhã.
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Vida
Vida
vida, vida, que
me jurou que eu ia
ser quem eu quisesse
deu prato quente de comida
numa noite fria
me estendeu um agasalho
a manga era curta
me ensinou ortografia
tirou o acento das palavras
quando deu meio dia
me falou pra cuidar da saúde
(já estava no nono cigarro)
me recitava poesia
me lambia o ouvido
me mentia as horas
me explorava a mais valia
seu corpo que era macio
que cheirava pele e pelo
seu corpo me escondia
meu corpo duro e feio
marcado de amor
trabalho, receio
deitava e apodrecia
Vida
me promulgou Constituição
que não cumpria
me deu voz de prisão
sem anistia
ou dom da fala
eu que já jurara, antes, juras
por igrejas e outras vias
me engasguei com seus cabelos
com a ponta das tuas unhas
Vida, quem sabe um dia
te cheiro o corpo, cocaína
me arrancas a íris
e a noite vira companhia
me amanhece e gozo
e acordo
da epilepsia
urgente, por fim, carinho
e antes que me mate, vida:
alegria.
vida, vida, que
me jurou que eu ia
ser quem eu quisesse
deu prato quente de comida
numa noite fria
me estendeu um agasalho
a manga era curta
me ensinou ortografia
tirou o acento das palavras
quando deu meio dia
me falou pra cuidar da saúde
(já estava no nono cigarro)
me recitava poesia
me lambia o ouvido
me mentia as horas
me explorava a mais valia
seu corpo que era macio
que cheirava pele e pelo
seu corpo me escondia
meu corpo duro e feio
marcado de amor
trabalho, receio
deitava e apodrecia
Vida
me promulgou Constituição
que não cumpria
me deu voz de prisão
sem anistia
ou dom da fala
eu que já jurara, antes, juras
por igrejas e outras vias
me engasguei com seus cabelos
com a ponta das tuas unhas
Vida, quem sabe um dia
te cheiro o corpo, cocaína
me arrancas a íris
e a noite vira companhia
me amanhece e gozo
e acordo
da epilepsia
urgente, por fim, carinho
e antes que me mate, vida:
alegria.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Outra
A gente nem é da mesma cidade
A gente nem guarda os mesmos segredos
A gente nem tranca as mesmas janelas
A gente nem cria os mesmos atrasos
A gente nem goza os mesmos pecados
A gente nem treme pelos mesmos medos
A gente nem batuca na mesma cadência
A gente nem sua sob o mesmo Sol
A gente nem reza pro mesmo Deus
A gente nem duvida do mesmo Deus
A gente que gira, se entonteia
Se perde e gosta e cochila pra seia
E vai parar no ponto final
A gente sobrevive o mesmo Natal
A gente quando divide o mesmo queijo
A gente quanto vive a mesma casa
A gente brinca de fazer calor
E aprende que o amor tá na cabeça,
na ponta do pé pra tocar lâmpada
na ponta do abraço e num pouco da dor.
A gente nem guarda os mesmos segredos
A gente nem tranca as mesmas janelas
A gente nem cria os mesmos atrasos
A gente nem goza os mesmos pecados
A gente nem treme pelos mesmos medos
A gente nem batuca na mesma cadência
A gente nem sua sob o mesmo Sol
A gente nem reza pro mesmo Deus
A gente nem duvida do mesmo Deus
A gente que gira, se entonteia
Se perde e gosta e cochila pra seia
E vai parar no ponto final
A gente sobrevive o mesmo Natal
A gente quando divide o mesmo queijo
A gente quanto vive a mesma casa
A gente brinca de fazer calor
E aprende que o amor tá na cabeça,
na ponta do pé pra tocar lâmpada
na ponta do abraço e num pouco da dor.
sábado, 8 de junho de 2013
Anil
Azul como o anil, a bala
tatua a mão no peito a estrada
pra brincar de ver no espelho um caminho
ouça outras saudades que guardei de ti
dentre tanto espaço em branco
dentre tanto dente e leite
e distâncias e abraços:
Você cheirando à manteiga,
você me guardando um segredo,
e torcendo pra dormir com a chuva
mais chuva
mais chuva...
veja agora minha boca aberta
como se fosse milagre;
nascer arco íris nessa parte da cidade.
tatua a mão no peito a estrada
pra brincar de ver no espelho um caminho
ouça outras saudades que guardei de ti
dentre tanto espaço em branco
dentre tanto dente e leite
e distâncias e abraços:
Você cheirando à manteiga,
você me guardando um segredo,
e torcendo pra dormir com a chuva
mais chuva
mais chuva...
veja agora minha boca aberta
como se fosse milagre;
nascer arco íris nessa parte da cidade.
quarta-feira, 29 de maio de 2013
Valsa Canção Entre Pai e Filho
E são tantas canções pr'essas bandas da vida
Que eu me perco e atrapalho pro que te cantar
E na rádio não tem ninguém falando a língua
Que sua avó e a TV me ensinaram a falar
Nesse mesmo idioma que eu te disse eu te amo
Te escrevo uma Valsa, bem brega, falando:
Do seu novo medo de aprender a voar
De cair, se ralar, encravar suas unhas
Dessa vontade besta de fazer sentido
Sasafa, tapampãm de ser compreendido
E esse medo tão besta de se apaixonar
Mesmo meio sem braço, sem perna, sem baço
N'Avenida Brasil, num acidente de trânsito
E perder, logo agora, o seu celular
E perder, logo o nome, e o telefone
De toda galera e sua nova paquera:
E esquecer de repente de como é a cara dela
E pensar que você que quebrou o seu carro
Quando resolveu, Deus, não ligar a seta
E perceber, de repente, que lhe falta um dente
Mas tudinho dá certo pros recém casados
Embora vocês nem se tenham beijado
E pensar que já que não se lembra do rosto
Bem que ela podia se parecer bem
Com aquela atriz, da Nouvelle Vague
Que 'cê queria comer, se engasgar e morrer:
E esse medo, já besta, well, não se equivale
Que o seu medo mais besta de comida à kilo
Essa história já deu, não faz nenhum sentido
Sua vontade louca de ter outro corpo
Já passa, sossega, toma um banho frio
Vai, come um sorvete e tira um cochilo.
Que eu me perco e atrapalho pro que te cantar
E na rádio não tem ninguém falando a língua
Que sua avó e a TV me ensinaram a falar
Nesse mesmo idioma que eu te disse eu te amo
Te escrevo uma Valsa, bem brega, falando:
Do seu novo medo de aprender a voar
De cair, se ralar, encravar suas unhas
Dessa vontade besta de fazer sentido
Sasafa, tapampãm de ser compreendido
E esse medo tão besta de se apaixonar
Mesmo meio sem braço, sem perna, sem baço
N'Avenida Brasil, num acidente de trânsito
E perder, logo agora, o seu celular
E perder, logo o nome, e o telefone
De toda galera e sua nova paquera:
E esquecer de repente de como é a cara dela
E pensar que você que quebrou o seu carro
Quando resolveu, Deus, não ligar a seta
E perceber, de repente, que lhe falta um dente
Mas tudinho dá certo pros recém casados
Embora vocês nem se tenham beijado
E pensar que já que não se lembra do rosto
Bem que ela podia se parecer bem
Com aquela atriz, da Nouvelle Vague
Que 'cê queria comer, se engasgar e morrer:
E esse medo, já besta, well, não se equivale
Que o seu medo mais besta de comida à kilo
Essa história já deu, não faz nenhum sentido
Sua vontade louca de ter outro corpo
Já passa, sossega, toma um banho frio
Vai, come um sorvete e tira um cochilo.
domingo, 26 de maio de 2013
Cicatriz
Se eu não posso falar sobre você agora
Então quando?
Se não faz bem te desejar mal assim
Então como?
Se não te como, não te durmo, não te ponho na cama
Não te cubro, não te sou travesseiro
Se não te sei mais o nome
Foi quando você se tornou meu vício
Não é amor, repito, é vício
Que se assusta se astronomia
Que me prega astrologia
Que me promete antropofagia
Que eu reconheço de banda, mais ou menos
Que eu lembro assim pelo cheiro
Que entra na sala e pergunta que música é essa
Que me deixou de lembrança uns pelos,
E a pressa.
(Febre que é febre se toma quente
Medo que é medo dá de repente
E por que não posso te tirar a pele agora
Se te é conveniente.)
Então quando?
Se não faz bem te desejar mal assim
Então como?
Se não te como, não te durmo, não te ponho na cama
Não te cubro, não te sou travesseiro
Se não te sei mais o nome
Foi quando você se tornou meu vício
Não é amor, repito, é vício
Que se assusta se astronomia
Que me prega astrologia
Que me promete antropofagia
Que eu reconheço de banda, mais ou menos
Que eu lembro assim pelo cheiro
Que entra na sala e pergunta que música é essa
Que me deixou de lembrança uns pelos,
E a pressa.
(Febre que é febre se toma quente
Medo que é medo dá de repente
E por que não posso te tirar a pele agora
Se te é conveniente.)
terça-feira, 21 de maio de 2013
Duas Luas
O meu amor tem uma cor que é só sua
Que é cor nenhuma
O meu amor sofre de hipoglecemia
E ainda bebe café sem açúcar
Ainda acredita na Lua
E nas Marés
O meu amor mistura catuaba com vodka
E não tem calos nos pés
A voz do meu amor me corta
Como a tesoura sem ponta a cartolina
Dorme bem tarde e ronca
Baba aqui como se eu fosse sua fronha
O meu amor tem crenças tão estranhas
Que até o Deus que deu seu papel título
Duvida ser verdade
O meu amor acredita em eternidade
E me promete que nosso amor irá durar
Um pouco antes o fim da Sessão da Tarde
O meu amor não sabe voar
Mas se compõe de nuvens
Evita a luz como o arco íris evitaria
Se já não tivesse estado o prisma
O meu amor detesta poesia
Mas se apaixona e cisma
Evita intimidades com Internet ou celular
Pediu pra eu baixar outro dia
Um jeito outro de abraçar
Puxei a tomada e achei debaixo da cama
Um beijo ou dois pedindo banho
Sabão passado, torneira aberta
O universo e o seu tamanho
Rachamos os beijos como dava
E levamos o resto pra viagem
Enquanto descobríamos o caminho
Deciframos física quântica
Dos infernos que passamos
Evitamos fazer contas
O meu amor não me jura fidelidade
E nem eu garanto muito mais
Que um copo d'água
Saudade
Chimarrão, de vez em quando
Duas luas de Netuno
Prometo rimas, quando der
Conforme a idade
E o que mais couber na pochete
O meu amor tem me feito dor e é só meu
Dela é o tanto de saliva que eu deixo
Nos panos dos vestidos que eu vejo
Nos cantos e pescoços que eu cheiro
Enquanto ela toma banho com os seus sais
Consigo e ponto e isso.
Comigo é um sorriso
O cheiro do perfume, que a estranha ao lado veste, que faço de conta o seu
Enquanto o outro lado da rua ali
Não vira o lado da rua em mim.
Que é cor nenhuma
O meu amor sofre de hipoglecemia
E ainda bebe café sem açúcar
Ainda acredita na Lua
E nas Marés
O meu amor mistura catuaba com vodka
E não tem calos nos pés
A voz do meu amor me corta
Como a tesoura sem ponta a cartolina
Dorme bem tarde e ronca
Baba aqui como se eu fosse sua fronha
O meu amor tem crenças tão estranhas
Que até o Deus que deu seu papel título
Duvida ser verdade
O meu amor acredita em eternidade
E me promete que nosso amor irá durar
Um pouco antes o fim da Sessão da Tarde
O meu amor não sabe voar
Mas se compõe de nuvens
Evita a luz como o arco íris evitaria
Se já não tivesse estado o prisma
O meu amor detesta poesia
Mas se apaixona e cisma
Evita intimidades com Internet ou celular
Pediu pra eu baixar outro dia
Um jeito outro de abraçar
Puxei a tomada e achei debaixo da cama
Um beijo ou dois pedindo banho
Sabão passado, torneira aberta
O universo e o seu tamanho
Rachamos os beijos como dava
E levamos o resto pra viagem
Enquanto descobríamos o caminho
Deciframos física quântica
Dos infernos que passamos
Evitamos fazer contas
O meu amor não me jura fidelidade
E nem eu garanto muito mais
Que um copo d'água
Saudade
Chimarrão, de vez em quando
Duas luas de Netuno
Prometo rimas, quando der
Conforme a idade
E o que mais couber na pochete
O meu amor tem me feito dor e é só meu
Dela é o tanto de saliva que eu deixo
Nos panos dos vestidos que eu vejo
Nos cantos e pescoços que eu cheiro
Enquanto ela toma banho com os seus sais
Consigo e ponto e isso.
Comigo é um sorriso
O cheiro do perfume, que a estranha ao lado veste, que faço de conta o seu
Enquanto o outro lado da rua ali
Não vira o lado da rua em mim.
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Erratas
Tiago porque fumava
Sofia porque preferia escrever seu nome com PH
Rodrigo por ser militante do PSol
Rebeca por não gostar de sexo oral
Bárbara pela chapinha mal feita
Diana, sua voz irritante
Eduardo por não ter saído do armário
Hannah fazia escândalo quando ria
Renata tinha nome e sobrenome comuns
Dinho por me desejar bom dia
Zelda porque não tinha desgosto nenhum
Leonarda por se mudar pra São Paulo pra fazer doutorado
Fernanda, por ter emagrecido e passado a me ignorar
Fred, roncar alto e babar
Juliana por pintar o cabelo de vermelho
Izandro por pintá-lo de azul
Marcelo não penteava o cabelo no espelho
Fernanda não fazia a barba
Luiz tinha cara de criança
Virgínia por ser reacionária
Clarisse andava armada
A outra Bárbara por achar que cachaça é água
Roberto por me recusar um cigarro ontem
Rita nunca tinha ouvido falar em Chico Buarque
Ariadne porque era homem
Verônica era bonita demais
A segunda Verônica também era bonita demais
Enquanto Rodolfo torcia pelo Corinthians
E o Maurício pela Nossa Senhora da Paz
Damião achava que Paris era capital de Londres
Miguel tossia como se estivesse morrendo
Gustavo por ter me achado na Internet
Alan era muito exigente
Beatriz porque não se depilava
Mustafá não era árabe e cria na ONU
Já a Jenifer estudava letras e não tinha futuro
Ana frequentava a Igreja Universal do Reino de Deus
Cláudio porque não era eu
Ruan, um marxista
Pedro Vítor, um governista
Fernanda Karoline tinha nome no Serasa
Tamires, porque de vez em quando rimava
Sócrates por ter sabotado, na Feira de Ciências, o nosso trabalho
Cláudia, por ser imersiva e por seu vício em gelatina
Bernardo gostava de ver televisão aos domingos
Marcela tinha voz agradável e era viciada em nicotina
Alexandra era perfeita: eis o problema
A vigésima Fernanda me fazia programa
Nestor tinha caspa e ia ficar careca
Davi nunca usava desodorante
Álvaro vivia com pressa
Nelson era adepto de Nietzche praticante
Carolina por dizer cedo demais que me amava
Cecília, por recitar poemas
Alice, por odiar paraquedas
Julieta por se lembrar da Cremogema.
E Clarice, com c, que eu ainda nem conheci
Eu amo e odeio por estar sempre aqui.
Sofia porque preferia escrever seu nome com PH
Rodrigo por ser militante do PSol
Rebeca por não gostar de sexo oral
Bárbara pela chapinha mal feita
Diana, sua voz irritante
Eduardo por não ter saído do armário
Hannah fazia escândalo quando ria
Renata tinha nome e sobrenome comuns
Dinho por me desejar bom dia
Zelda porque não tinha desgosto nenhum
Leonarda por se mudar pra São Paulo pra fazer doutorado
Fernanda, por ter emagrecido e passado a me ignorar
Fred, roncar alto e babar
Juliana por pintar o cabelo de vermelho
Izandro por pintá-lo de azul
Marcelo não penteava o cabelo no espelho
Fernanda não fazia a barba
Luiz tinha cara de criança
Virgínia por ser reacionária
Clarisse andava armada
A outra Bárbara por achar que cachaça é água
Roberto por me recusar um cigarro ontem
Rita nunca tinha ouvido falar em Chico Buarque
Ariadne porque era homem
Verônica era bonita demais
A segunda Verônica também era bonita demais
Enquanto Rodolfo torcia pelo Corinthians
E o Maurício pela Nossa Senhora da Paz
Damião achava que Paris era capital de Londres
Miguel tossia como se estivesse morrendo
Gustavo por ter me achado na Internet
Alan era muito exigente
Beatriz porque não se depilava
Mustafá não era árabe e cria na ONU
Já a Jenifer estudava letras e não tinha futuro
Ana frequentava a Igreja Universal do Reino de Deus
Cláudio porque não era eu
Ruan, um marxista
Pedro Vítor, um governista
Fernanda Karoline tinha nome no Serasa
Tamires, porque de vez em quando rimava
Sócrates por ter sabotado, na Feira de Ciências, o nosso trabalho
Cláudia, por ser imersiva e por seu vício em gelatina
Bernardo gostava de ver televisão aos domingos
Marcela tinha voz agradável e era viciada em nicotina
Alexandra era perfeita: eis o problema
A vigésima Fernanda me fazia programa
Nestor tinha caspa e ia ficar careca
Davi nunca usava desodorante
Álvaro vivia com pressa
Nelson era adepto de Nietzche praticante
Carolina por dizer cedo demais que me amava
Cecília, por recitar poemas
Alice, por odiar paraquedas
Julieta por se lembrar da Cremogema.
E Clarice, com c, que eu ainda nem conheci
Eu amo e odeio por estar sempre aqui.
quinta-feira, 9 de maio de 2013
Quase 30 Anos
"Eu tenho quase 30 anos, pois é. Tem gente que com essa idade já aprendeu a escrever o próprio nome. Eu não passei da letra N. Estão por aí fazendo filmes, abraçando árvores, militando contra a violação dos direitos humanos. Eu muito mal uso aparelhos telefônicos da década de 90, por acidente taquei fogo nas hortelãs do meu quintal, não fiz nada quando a Light cortou a luz de casa, mesmo com as contas pagas. Tem quem esteja escrevendo livros, defendendo teses de mestrado, viajando pro exterior para visitar civilizações extintas, compondo sinfonias. E eu aqui ainda comendo meleca e enrolando para escovar os dentes. Eu tenho quase 30 anos e tudo o que fiz foi aprender a fumar cigarro. E espremer espinhas, que minha pele oleosa ainda cultiva. O meu café é intragável, o meu arroz parboilizado; conheço um cara que já tá na França pra fazer petit gâteau e escargot. Tive que recorrer ao dicionário para escrever 4 das palavras da frase anterior. Já tenho 26 e ainda não me livrei da caspa e do chulé. Mas aprendi a cortar as unhas do pé. Até rimou, podia fazer um poema daqui, se eu. Já vi militantes políticos entrando em conflito direto com a polícia, gente sendo presa. Gente militando contra o sionismo, que sabiam direito o que é sionismo. Nessa idade. Nessa idade a única especialidade que eu domino é a preguiça. E jogos de baralho, sueca, pôquer Texas Hold 'em, canastra. Ainda não aprendi a gostar de fígado. Nunca troquei chuveiro. E ainda não usei aparelho, apesar dos dentes tortos. Existe alguém de 30 usando aparelho? Provavelmente minha hora de dormir já passou. Eu aprendi a ser ateu, mais pra ser do contra que por coerência. Se morasse na Holanda, onde 44% da população é ateia, provavelmente militaria o Umbandismo. Até contemplo a ideia de se ter filhos. Embora nunca achei ninguém pra me ajudar a criar. Tem colegas do tempo de escola que já começaram famílias. Quem sabe eu adoto. Mas quem deixaria um analfabeto adotar alguém? Um dia eu passo a letra J e aprendo a escrever seu nome, que começa com o L. E o meu, que começa com V. Daí deixam eu adotar, nem que seja um gato. Você percebeu que eu tenho uma noção vaga da ordem do alfabeto. Um dia aprendo a escrever a palavra amor. Me falaram que só tinha quatro letras. Eu só sei a letra A, estou há um quarto do caminho. Quatro letras. Existem palavras menores que a palavra amor?"
quarta-feira, 8 de maio de 2013
O Medo Costurado
O medo costurado; remendo menos, mais machucado.
O medo eu tenho sim mas o que que sou pra repetir o acerto.
Que pra tanto temer a pressa, o trabalho, a obrigação, o prazer, a goteira, o inseto mesmo após de morto.
Que é você para me ler-repreender a próclise, a dúvida, a métrica, a vírgula, a ética, o êxito.
Que medo faz pra escrever quem não larga o dicionário; que curva a curva faz e evita o óbvio; medo do completo, do concreto, do pronome pessoal do caso reto; do repente de não se ter assunto; de cavar o quintal e achar defunto; do Sol explodir antes do prazo.
Medo do ponto parágrafo.
Seu medo aqui na boca ainda me fazendo cicatriz.
Quem sangra quem primeiro? era o meu medo quem não fiz.
01:28
Que amar amei, disso pouca dúvida
Questiono todo o desespero aqui necessário
Se podia ser abismo, cavado estava o chão
Se podia ser montanha, apontada e riste ao céu.
Questiono todo o desespero aqui necessário
Se podia ser abismo, cavado estava o chão
Se podia ser montanha, apontada e riste ao céu.
terça-feira, 9 de abril de 2013
Flora
Por onde andam esses braços,
por quem respiram os espinhos,
compasso bate esse peito,
cinco por quatro, seis por oito,
cinco por quatro, seis por oito,
que grito gritam suas mãos
se são um soco no rosto de alguém,
quem é mais ou menos um verbo,
se são um soco no rosto de alguém,
quem é mais ou menos um verbo,
mais ou menos maior?
E por que vai, atrás de quem, que beco?
Parida e nascida a saudade
entope artéria, amor, tabaco, gastrite.
O enfarto maior e menor
pede licença pra vida; pergunta:
O enfarto maior e menor
pede licença pra vida; pergunta:
— mais ou menos feto?
mais ou menos fato?
menos acidental,
mais animal?
— mais ou menos concreto:
e quem cala que sabe pro que porque calou mas e mais:
você que ainda precisa do mar pra ver se aprendeu a voar,
me fecha as portas quando há muito já faço leito nas lajes.
me fecha as portas quando há muito já faço leito nas lajes.
Moinho
E de repente,
amor
de câncer ou carinho,
se estatela
e morre
pelo caminho,
na tempestade,
no chão plantado
ao seu redor.
amor
de câncer ou carinho,
se estatela
e morre
pelo caminho,
na tempestade,
no chão plantado
ao seu redor.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Qualquer Dia Desses
"Diz que o céu tá verde, os cachos brancos, luar castanho
Que a água é raza, a conta atrasa, o cedo estranho
Afoga, engasga, bebe, tosse o comprimido
Abriga, aponta, fere, cuida, ontem à sós, domingo
Ainda a minha ré bemol como seu dó sustenido
Pena que piedade é peso e a paz um vinco
Troquei a caligrafia e a lapiseira zero cinco
Só que assim, bem digitado, não te faz diferença
Acendo um incenso, lembrei agora que hoje é terça
Qualquer dias desses nós vamos salvar o mundo
E se o problema é esse, é melhor mudar de assunto
(...)
Saltar de paraquedas, descolar as nossas juntas
Que qualquer dia esse quarto vai deixar de ser um canto
Qualquer dia o dia vem e verde o seu o meu balanço
Almoçar, ralar na escada, esconderijo o seu terraço
Mas se o problema é meu, muda a marca do seu queijo
Quebra prato, lua, perde até o vão da minha chave
Me pede goiabada, lambe o beiço e ri que eu vejo
O buraco do sofá que esconde a vida sem verdade
Acaba a boca, vou ser sincero, me ser defunto
Qualquer dia desses nós vamos mudar de assunto
E se o problema é esse, vamos só salvar o mundo."
Que a água é raza, a conta atrasa, o cedo estranho
Afoga, engasga, bebe, tosse o comprimido
Abriga, aponta, fere, cuida, ontem à sós, domingo
Ainda a minha ré bemol como seu dó sustenido
Pena que piedade é peso e a paz um vinco
Troquei a caligrafia e a lapiseira zero cinco
Só que assim, bem digitado, não te faz diferença
Acendo um incenso, lembrei agora que hoje é terça
Qualquer dias desses nós vamos salvar o mundo
E se o problema é esse, é melhor mudar de assunto
(...)
Saltar de paraquedas, descolar as nossas juntas
Que qualquer dia esse quarto vai deixar de ser um canto
Qualquer dia o dia vem e verde o seu o meu balanço
Almoçar, ralar na escada, esconderijo o seu terraço
Mas se o problema é meu, muda a marca do seu queijo
Quebra prato, lua, perde até o vão da minha chave
Me pede goiabada, lambe o beiço e ri que eu vejo
O buraco do sofá que esconde a vida sem verdade
Acaba a boca, vou ser sincero, me ser defunto
Qualquer dia desses nós vamos mudar de assunto
E se o problema é esse, vamos só salvar o mundo."
sábado, 23 de fevereiro de 2013
Dois p'ras Oito
─ Então machuca. Vai, fura, fere. Mata;
─ Gente, pra que tanto drama?
─ Brincadeira, mas vai, pode morder
─ Perdi a vontade
─ Tudo bem
─ Esses dias sonhei que você tava lá em casa, pelada na minha cama, me esperando voltar do trabalho
─ Logo você que diz que não sonha com sexo
─ Pois é, mas não transávamos, eu sentava na beira da cama, pegava um copo de café...
─ Logo você que não bebe café à noite
─ Pois é, é, eu pegava um copo de café, te oferecia, você recusava, daí eu sentava quase em cima da sua perna e ligava a TV, tava passando alguma coisa do Woody Allen; não era Woody Allen, digo, nada que eu possa associar assim de cara, mas pela estética, estilo, era, e perguntava se você já tinha assistido aquele filme, e você dizia que sim, que era bom mas não se comparava com os trabalhos antigos e mais engraçados dele
─ E a gente não transava depois?
─ Não. Na verdade eu acordei depois dessa cena. Não, pera, antes eu tive um outro sonho, tinha uns monstros que evoluíam e/
─ Será que a gente é gay?
─ Acho que não.
─ Por quê?
─ Porque sim; sabe, esse último final semana saímos eu, Beta, Ricardo e Olívia. Ricardo terminou namoro com o Douglas outro dia, né? Lá depois da trigésima vodka com limonada até pensei em pedir pra ele ficar comigo, sabe, como experimento antropológico?
─ E por que você não pediu?
─ Porque sei lá, achei a ideia engraçada, interessante, mas desisti. Acabei me arrumando com uma garota lá. No final das contas foi até melhor, acho que o Ricardo não ia levar na boa assim a situação
─ Por quê?
─ Sei lá, eu acho ele meio careta, você não acha? Aquelas opiniões sobre maconha, cigarro, monogamia... Ele, apesar de gay, nem é tão moderninho assim
─ Não entendo porque uma coisa necessariamente precisa ter a ver com a outra
─ É, não tem. 'Cabou o maço.
─"Cabou" não, comprei hoje.
─ Então esse é o velho, olha
─ É, tem outro ali na bolsa. Pera.
─ Vai destrancar a faculdade?
─ Não sei, acho que sim. Tenho esse semestre praticamente livre. Talvez destranque, talvez comece a fazer pilates e um outro curso de outra coisa
─ Que coisa, for instance?
─ Francês, coreano...
─ E lá tem curso de coreano no Rio de Janeiro?
─ Nada, só em São Paulo. Mas é só possibilidade
─ Coreano por quê? Se inspirou na atual cena de música pop/
─ Claro que não. Acho interessante a cultura. Provavelmente vou desistir antes de qualquer coisa, assim como desisti de mandarim ou japonês
─ Decorar dois mil carácteres da noite pro dia não é fácil pra ninguém
─ Não, não é
─ Quantas vezes você chutaria que falamos a palavra "não" hoje?
─ Adorei a pergunta. Não faço ideia. Opa, mais um. Sei lá, são oito da noite... falamos umas 50 vezes?
─ Li uma pesquisa esses dias que aponta que as palavras mais ditas por 70% dos brasileiros homens é "bunda" e pelas mulheres é "não". Dizemos elas umas 70 vezes por dia mais ou menos
─ Você inventou essa estatística agora
─ Sim, inventei. Vamos casar quando?
─ Nunca, já te falei. No máximo, no máximo podemos ser é amantes
─ Certo
─ Quem estava falando agora? Quem está falando agora?
─ 'Faço ideia, perdi a conta dos tracinhos
─ Eu também.
─ Evitei falar a palavra "n...", você reparou?
─ Sim. Pára de botar ponto onde não tem!
─ "Pára" não leva mais acento. Opa, mais uma vez a palavra maldita. Literalmente, mal-dita...
─ Sabia que eu te amo? Sabia que eu acho que tô com piolho?
─ Sai daqui então
─ Brincadeira
─ Claro, risos, tem sorvete ainda na geladeira?
─ Tem, napolitano, que você odeia
─ Já te falei que o que eu odeio é passas ao rum. Napolitano eu só não gosto. Tem uma certa diferença entre gostar e odiar, sabe?
─ Sei. Me faz massagem quando voltar?
─ Aonde?
─ Nos pés
─ Lavou essa porra hoje?
─ Até que sim
─ Vou pensar no seu caso e já volto.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Quase Grato
Obrigado pelos cantos
Obrigado pelos gritos
Obrigado por seu sangue
e pelos sorrisos
Obrigado pela noite
Pela luz poente
Por cada átomo de oxigênio
e pelo absorvente
Obrigado pelos dentes
Obrigado pelas cicatrizes
Obrigado pelos beijos
Transas, abraços ou atrizes
Obrigado pelo cigarro
Outra vez, obrigado pelo cigarro
Pelo terremoto de toda vez que anoitece
Pel'os seus erros
Obrigado por não me emprestar seu carro
E por ter passado no supermercado
Obrigado por não me agradecer
Obrigado por estar aqui
Por entender que quando peço silêncio
Quero Carnaval sem rim
Por todo o amor que faz quando se pedra
Em mim.
Obrigado pelos gritos
Obrigado por seu sangue
e pelos sorrisos
Obrigado pela noite
Pela luz poente
Por cada átomo de oxigênio
e pelo absorvente
Obrigado pelos dentes
Obrigado pelas cicatrizes
Obrigado pelos beijos
Transas, abraços ou atrizes
Obrigado pelo cigarro
Outra vez, obrigado pelo cigarro
Pelo terremoto de toda vez que anoitece
Pel'os seus erros
Obrigado por não me emprestar seu carro
E por ter passado no supermercado
Obrigado por não me agradecer
Obrigado por estar aqui
Por entender que quando peço silêncio
Quero Carnaval sem rim
Por todo o amor que faz quando se pedra
Em mim.
Poema no Chão
Hoje é um belo dia p'ra se plantar cebolas. P'ra escrever um poema a dedo na beira d'água da praia ou no guardanapo que veio sobrando do fast food. Hoje é um dia bom para se tirar férias ou aprender a tocar trombone. Um momento ideal para inventar segredos ou uma receita de bolo de cenoura com mel. A hora certa para comer torrone. E comer paçoca. De escrever outro poema no verso da fatura vencida do cartão de crédito.
Hoje é meu dia do ano favorito para pedir desculpas. Então aproveito: me perdoa. O céu está mais p'ra cinza, tem nada de bom p'ra comer na geladeira, o dipirona abaixou a febre que já levantou de novo e voltou a esquentar; mas, me perdoa. Pela pressa, pela tosse, pelo susto, por lavar suas roupas sem amaciante. Hoje é meu dia favorito para pedir desculpas; amanhã também será. Outra data igualmente útil para se beber suco de laranja e sentir saudade. De pegar uma nova doença, ser diagnosticado em estado terminal e sarar a tempo de ver o pôr-do-Sol do Arpoador.
Hoje vou tirar o poema que você me deu do chão e guardar. Descascar cebolas e chorar. Ver você brincando e rindo no balanço do parque e chorar ainda pelas cebolas. Encontrar joaninhas perdidas no xadrez da toalha do piquenique. Qual foi a última vez que tínhamos visto joaninhas? ─ Hoje.
Assinar:
Comentários (Atom)
