sábado, 30 de agosto de 2014

Drops #6

Dentre minhas anotações para futuros escritos, encontro: "Sonhei que parcelava em 24 vezes uma viagem para Nova Iorque e passava perrengue no estrangeiro por ter estourado o limite do cartão de crédito." Até nos meus sonhos cinematográficos meu nome vai parar no Serasa. 

Drops #5

Boa parte dos seres vivos deste planeta te somará em algo
Porém (e não se assuste quando isso acontecer ─ lembre-se que a ordem dos fatores não altera o produto)
Há quem te multiplicará.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Joanetes

Tu és radical nos sentimentos e atos, nem tanto nas intenções. Processa as distâncias como quem se sara um câncer. Degusta os abismos com o mesmo cuidado que mergulha os pés em uma bacia morna pra aliviar joanetes. Teu compasso sincopado, teu calor vazando pelas esquinas e curvas do corpo, te encontro em todos os cantos, como um sorriso só em diferentes cantigas e rostos. Por ver em ti tamanho alumbramento, os Verões da província se apressam e as frutas cítricas da estação te acontecem mais cedo, kiwi, acerola, seriguela, limão, contudo, presam por tua gastrite. Ainda decorada de tanta alegria o que me cativa de fato em ti é teu ódio. Cativa-me a forma como rasuramos os muros racistas e brancos que historicamente censuram a senzala e o grafite, trilhas de asfalto mal sinalizadas que se estendem ao longo do caminho menos óbvio entre a viela, o boteco, a doceria e o lençol molhado no teu quarto. Fazemos amor pelos terrenos baldios espalhados nesta capital oriundos da especulação imobiliária. Desejo-te a embriaguez logo cedo, te quero tão bem que te imagino vestida de anil, de firmamento, calçando o chão de terra batida pra combinar com a vestimenta. Desenho-te esculpida em palavras aqui, mulata de café, caucasiana de açúcar. Doçura esta derretida apenas na língua que ela quer.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Drops #4

─ Qualquer dia agora vamos morrer das coisas que gostaríamos de ter morrido nunca.

─ Duas retas paralelas se encontram no infinito
Podia ser Poesia
É algo ainda mais belo: Geometria Hiperbólica.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

À Quatro Olhos Haikai Concreto

Dois míopes se beijando se convém
Porque só dá pra se beijar de perto
E de perto enxergamos bem.

sábado, 23 de agosto de 2014

A Metalurgia da Lágrima (ou "Monólogo em Areia e Dedo: Vinte Oito")

Ontem morreu Yolanda. Carrego comigo o que ela levava consigo e cado mais de memória, rascunhos, munido de abraços, de flechas e alvos. Estamos no Hemisfério Sul de chamas e manchas, amarelos são nossos desertos, amarelos são nossos dentes, negra é a cor da minha pele e da esperança, branca é saudade em todos os idiomas possíveis. Meio Sol amarelo para uma estrela inteira. Estamos somos esse espaço de vento e vácuo entre a tradução do que disseram que nos dizem e a palavra que eu improviso para te fazer crer no novo acordo gramatical da língua portuguesa e sua constante teimosia em não banir de vez a existência dos hifens. Somos o glóbulo ocular dilatado no escuro e o hemisfério direito do cérebro que nos orienta politicamente pra esquerda. Somos o mistério dos vultos logo pela manhã e dos amores que cabem no buraco do dente. Esperamos anoitecer para chegar na Urca e arriscar a Lua. Queria este tal de amor bandido porque deve ser o único tipo de crime que ainda não cometi. Acabei de criar uma estrela e ela te cabe atrás da orelha. Sou o meio termo entre o sim e o não, por isso pairo no ar alguns bons segundos antes de me estabacar no chão. Mantenho suas fotos bem perto de mim que é pra me lembrar que eu preciso do seu céu nublado pra sair assim no Centro da cidade e fazer compras ou simplesmente passar na tabacaria e discutir a metafísica. O que os deuses nos dizem para vestirmos no templo de São Salomão? Pregam a nudez. Se seu coração tá frio basta misturar Feijão porque o Feijão tá quente.

Você que me elogiava o sorriso mas que eu sabia cada seu jeito de pedir perdão. A foto mais esquecida que rasurada. Pouco te culpo porque também mantenho portas abertas. Lembro de ti na beira da janela, na beira da minha boca (mas como esse rapaz gosta de falar de boca, eim?). Que me elogiava os dentes, o formato do nariz, minha coleção de calendários passados, mas que eu sei que estava apenas me estendendo seu cartão de visitas. Cantávamos: Música pra ser diferente. Música pra roer os dentes. Música pra contar os gametas. Música para explodir o planeta. Música de colorir o horizonte. Música pra minha tempestade adiante. Voltávamos três a quatro vezes às frases desconexas: Gosto de azeitona caindo bem ao paladar é sinal da idade. Rasgada a pele ainda resta o terremoto. Admito aqui e publicamente que sou cego do olho direito. Uma das melhores coisas que o homem pode aprender a fazer na vida é gostar de samba. Batucando nos dentes, mesmo se pés de barro, morro dos prazeres que você me dá. Ninguém faz samba de amor no juramento, só sobre política. Escrevo seu nome no arroz por dois reais ou por qualquer contribuição. A Assimetria do Beijo. Meu anjo, minha anemia congênita é o que há de mais chique em mim. A tentação de queimar todos os aparelhos celulares da cidade em uma só grande chama tóxica. A saudade é cor que dá e passa. Sinto sua falta como se a Rosa de Hiroshima me fosse o despertador pela manhã e hoje fosse segunda feira. Embora sábado.

Escrevo boa parte disso enquanto ando, a esmo, mesmo, resmo, torremos, enquanto ano pela rua, década passada. Se deserta demais quando o verso vem, adentro um café, quero dizer: gostaria de dizer que adentro um café, um pub, uma biblioteca, mas a verdade é que adentro o que tiver para adentrar. Agora, por exemplo: estou em um açougue, muito embora vegetariano seja. Adentro botecos, casas com portões abertos, evito só delegacias. Vou dizer algumas frases só pelo prazer de saber que você nunca ouviu nenhuma delas anteriormente: Joguei um grampeador no sanitário. Outra? Escovar os dentes de cabeça pra baixo. Um elefante atrás da geladeira. Adoro quando percebo que decorei o som dos passos de alguém. Te quero banhada de vinho barato que custe menos de 10 reais porque não acreditamos na indústria do consumo, embora agora Nike e Adidas. Odeio quando me dão bom dia. Sabia que você ia compartilhar da minha velhice. Nem todos os dias se leva na carteira um parabrisas, nem todos os dias se amanhece um parasol, nem todo céu que calha azul é paraíso. Eu era do tipo que chegava mais cedo só pelo prazer de te esperar fumando um cigarro.

Sonhei-me plena Uruguaiana madrugada passada, rindo, falando alto, mastigando Mentos de maçã verde, gravando mensagens de voz e enviando as de texto para meus amigos no celular, era feriado, era madrugada mas a sensação era de final de tarde, clima campestre pleno deserto do centro da cidade, de qualquer forma, veio uma pessoa estranha, branca pálida e vestida de luto, me perguntando: que que você tá fazendo aqui? E eu nesse instante digitava nomes de frutas diversas para o outro com quem conversava por mensagens e me interrompi, pedi que repetisse e repetiu: o que caralhos você tá fazendo aqui? E eu, estou voltando pra casa, desculpa, e ela: vai, vai embora logo que você tá atrasado, atrasado pra cacete, some da minha frente, limpa esse dente, encara essa torpente, foge pela tangente, me esquece que fui gente, me empurra de constante, me esquece elefante, e eu, assustado com a falta de sentido do que ouvia, as rimas, corri, atravessei a Presidente Vargas, nenhum carro vinha, de ambos os lados, atravessei a pista um, a pista dois, correndo, a pista três, e na pista quatro, um ônibus vermelho gigante freia, inclusive os vidros eram vermelhos com pontinhos pretos, parecia uma grande joaninha sob quatro rodas, e eu observo minhas mãos, carregando o celular ainda, que não me foi roubado, mas acontece que ele se trata de um Nokia Mobira Cityman 150, modelo do final da década de 80 que, além de ser maior que um pote de sorvetes, definitivamente não acessa a dispositivos remotos ou tem conexão direta à Internet, e eu encantado com o espanto acordo com a buzina que finalmente é tocada e soa, ou fica aqui apenas minha impressão de ser, como uma explosão de granada direto no peito.

Remarcaram a data do Armagedão final da humanidade. Nem tava com tanta tempestade assim. Segue a doçura em anexo pra cada pedaço que restar de paz aqui. Lembro-me que quando terminei a Baía de Guanabara, restava uma saudade submersa querendo um amor que me matasse a fome e me matasse a dúvida do que comer. Estudos afirmam que a quantidade de pressa na vida de um ser humano é diretamente proporcional a quantidade de desertos se formando nos espaços dos dentes, nas salas de cinemas em dias de estreia e nos armários deslocados dos terrenos baldios. Assim que se explode a usina nuclear na mão, segundos distante de se chocar com a muralha do patriarcado. Que não seja a nossa mão dilacerada embora assim que se morra pela revolução. Como a gota de chuva solitária caindo na lagoa intacta, só se vive ressoando por todas as partes. Agora: imagina às centenas de milhares?

Para todos os efeitos, ninguém chega na hora. Para todos os efeitos, vertigem alguma. Só se morre antes do outro lado do espelho. Para toda metalurgia existe uma lágrima, para cada metáfora, a fusão do metal quente derretendo a pele mole feito a manteiga se derrete na sua virilha. Você não está entendendo nada do que estou dizendo. Eu quero catapora, eu quero abrir uma escola. E quero que você se esqueça, por cinco minutos que seja. Não vamos falar de ratos, de boatos, vamos rimar quando der na telha e se der que dê gostoso, que dê bem dado, por cima, embaixo, de bruços, de lado. Que se é pra cantar é pra cantar na beira do rouco, se é pra respirar que se ofegue como se fosse o fim do mundo. Fenhoso, frivolento, esculpo adjetivos, tempero a paisagem. Me nasço dentes nas palmas da mão e te mordisco o corpo no aperto. Mesmo as paredes dessa casa estão desgastadas do relacionamento entre eu e Frida Kahlo. Tentei te ilustrar uma imagem que te chocasse mais mas mais chocante que o cenário diante de nós agora não há, foca e imagina: a cidade está em chamas sendo invadida por 250 milhões de vespas e a estrela que nos rodeia despedaça pedaços de plasma que caem e cortam nossa atmosfera como lençóis coloridos diversos, parangolés pamplonas sendo jogados de revoadas de aeroplanos e prédios de 90 andares. Presenciando a história por intermédio de suas telas, a multidão atônita registra o momento derradeiro da humanidade em suas câmeras celulares.

Drops #3

Amo-te como bomba nuclear, como guerra de cerol no ar. Amo-te como deveríamos violar a maioria dos tratados de paz que não assinamos e coçar o que nos coça pelo lado de dentro com tesoura sem ponta. Amo-te porque nosso amor não nos redime nem salva nem preenche os espaços em branco com a caligrafia escrota nem rasura os afobados com corretivo líquido nem nos implica com a falta de vírgula nem nos interroga o predicativo do sujeito ou sujeito do predicado. Amo-te e grito porque a rouquidão me dói a garganta e te faísca a labirintite e ambas estão sujeitas fatidicamente a se curar do estrondo.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Trigésimo Quinto Domingo do Ano

Neste instante, num mercado na Praça da Bandeira, alguém passa o equivalente a 500 reais em compras de caixa de cerveja. A atendente do caixa julga com olhos de quem vai passar o final de semana no serão ou vigília da Igreja, embora seja menos assídua do que costuma vender. O comprador olha com a cara de quem tá prestando atenção em outra coisa, com o fone de ouvido ligado no rádio AM, com jeito e trejeito de quem deve ter erguido as mãos pros céus no momento que perguntou pro camelô e ele confirmou o fato abismado de ter encontrado um celular que ainda capta ondas de rádio AM. Ela pensa nas panelas sujas guardadas dentro da geladeira, oxidando, ansiosa, ela, em voltar pra casa e retirá-las, pois o celular descarregou, não tem como avisar quem ou alguém deste acidente por sua pressa mais cedo, sorte que hoje o turno acaba meio dia, mais 30, 40 minutos pra fechar o caixa, embora o movimento hoje esteja fraco, molenga, em parte provável pelo calor inesperado, estamos em agosto e parece dezembro, pensa num repente, quem sabe consegue fechar as contas em tempo recórde para já adiantar o almoço, quem sabe consegue até transar rapidinho com o marido, porque os meninos só voltam depois da tarde, hoje tem reunião do coletivo da igreja, antes das 17h certeza que não pisam em casa, talvez até dê tempo de testar aquele brinquedo que ela mesma arranjou com aquela colega, e que mostrou pro homem mas que desconversou e disse que tava com sono, mas que ela conhece o figura com quem trocou aliança e jurou amar e sabe que de tanta coisa uma coisa que com certeza ele é: é curioso. Domingo Deus fez pra gente testar nossa fé na vida e descaralhar esse tédio, essa birra, pensa consigo mesma e ri. Sai de mim carapuça, pensa ele, ouvindo do rádio a descrição dos placares do dia anterior da série B, já pensando no hipotético desempenho de seu time no próximo ano, mas se arrepende do pessimismo, e estala os lábios como quem fecha a porteira. Aproveita e pensa no presente também, calcula brevemente o placar de logo mais, se pergunta de quanto o time hoje vai perder, sua expectativa inicial espera que apanhe menos do que da última vez, embora se pudesse desejar desejava que essa má fase passasse logo, e também, se pudesse, se não fosse pecado, pedia que o chefe se jogasse de vez da ponte Rio e Niterói pro negócio do bar passar logo pros sócios que estão loucos para vendê-lo praquela cervejaria aí que tá dando na TV agora. Lugar bem localizado, choveu proposta, mas o velho é teimoso e fica. A cerveja, claro, neste caso seria pra outra oportunidade, além daquela tarde, para o serviço do dia seguinte, deixaria no comboio que fica ali perto. Mas um fio de esperança lhe faria desviar pelo menos três latinhas daquele engradado que já veio aberto  e guardá-las naquele canto mais gelado da geladeira, torcendo para o milagre do imprevisto surpreender sua tarde, na verdade, seu Domingo todo. 

Drops #2

"Como quem permanece no canal para assistir mesmo a propaganda. Amo-te como quem ama igualmente o sorvete em seus diferentes estados de liquefação."

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

À Minha Irmã Leoa (Por Mais Manhãs de Aniversário)

Espalho teu nome no espaço
Que circunavega ao redor nosso
O peso marcado n'o tempo e à pele
Tal qual o chão pisado ou tuas pegadas!
Tal qual o continente, constante
Cuja marca permanece, tatuagem
Mesmo desbotada pelo atrito
Ou impermanente à paixão das eras

A Terra que nos alicerça os lados
Está ciente de tua tez e traços
E em sua firmeza te abarca e abraça
E em sua gigantez te ensina sobre
A gigantez que transborda um verso
Que transversa concretos! (pois quem queima, explode)
Luta! Pois é só quente que te protege o escudo!
Reluz! Tal qual a estrela que te afia a flecha!
Por mais que sejas a Leoa (e nem tanto o Sagitário).

Eis aqui a Dedicatória:
─ À minha irmã de fogo, por mais manhãs de aniversário.
Nestas palavras parece que nascemos meio século passado: 
Mais amor, mais sexo, mais sobremesa. Menos escritório.

domingo, 17 de agosto de 2014

Drops #1

─ Uma música do Aerosmith pra acompanhar a catástrofe colossal, o meteoro, causando uma a onda do mar de tantos metros que arranha-céu! (Tum dum tss...)
─ Tem gente que não se basta de ser um Titanic em nossas vidas mas que faz questão de trazer um Iceberg incluído como cortesia da casa!
─ Não acredito em reencarnação mas acredito que existe alguma coisa de fluxo na natureza e essência que faz a gente reencontrar em outras pessoas um pedaço que já foi a gente também um dia
─ Isso é bonito, posso aproveitar num texto?
─ Deve.

sábado, 16 de agosto de 2014

Monólogo em Areia e Dedo: Trinta e Três

O sangue absorto, o sangue seco, da ferida pisada, casca, em forma de marca de dente, de agulha, de útero de unha, de faca, de soco, de tapa, roxo, negro, fundo, maldita palavra, longe demais se retornada, perto demais pra desencravar, ferro marcado por si mesmo, pelo acaso, pelo acidente, pela mão proposital, pelo animal se defendendo, pelo animal escapando pro mato e se cortando no arame farpado, no arbusto, se perdendo no escuro, confundindo sereno com a tempestade, misturando o próprio ódio com o incêndio que acontece na floresta e no peito e os carvalhos irradiando em faíscas e poeira encardida ciscando as vistas, corre, o sangue rompe de novo a casca e sangra cado um pouco, corre, o barulho se esvanece, a respiração mais alta, corre, o próprio peito batendo tambor se faz ensurdecedor e que raio de ritmo é esse? e canta a disritmia hoje me auxilia a viver indiferente assim só que é mentira e corre de novo ofega menos para atrás da pedra úmida coberta de húmus que mancha a blusa branca e para, respira, o sangue escorre só que isso quase que nem faz barulho, o escândalo que sai é da garganta e a fere também, provavelmente está sangrando por dentro, do tanto que gritou rouco, drama, pega o resto de pólvora que ainda está no saco de papel do bolso, o resto da pólvora ainda armazenado do lado de dentro do chumbo da bala escondida no saco de papel amassado do lado de dentro do bolso de pano, pega, deixou o revólver cair mas a bala na mão agora ferve, e incêndio a dentro, arremessa, no mesmo gesto que usa pra afagar alguém, a bala, cujo rastro laranja traça uma reta no ar, fura o caos, seu caminho por dentro do fogo abre uma circunferência, que corta o silêncio, corta as árvores, segue reto e rápido, tão rápida e firme que ignora a gravidade e se mantém na trajetória, que em breve deixa de tangenciar o nosso próprio planeta e escapa a atmosfera e uma vez no vácuo, meus caros e caras, uma vez no vácuo nada há de fazê-la retornar, o corpo se rende à exaustão muscular, o sangue ainda escorre quieto, ajeita a mão no bolso de pano em busca do saco de papel e há a bula da munição que acabara de ser usada e lá diz sua composição que se descreve a seguir como: contém concentrados 4 quilos de urânio e 3,7 de plutônio; uso exclusivo das Forças Armadas, favor manusear com cuidado, e pensa porque raios estava carregando um objeto desses consigo cujo peso sequer sentira ali no bolso da blusa, do lado esquerdo do peito? mas uma vez lançada, como disse antes, já atingira o espaço e em breve um satélite russo, chinês ou estadunidense ou a própria Lua serão desintegrados e acabara de pensar este pensamento e antes de qualquer remorso chegar a brotar veio um estrondo distante vindo do alto aconteceu e começou finalmente um temporal, o incêndio se aliviou, a ferida, molhada, aliviou, e, quase caindo no sono forçado de quem passou as últimas décadas correndo ininterruptamente a esmo, pensou consigo mesmo: "eu deveria ter simplesmente mantido a minha língua amarrada! dizer-lhe nada!", e finalmente faleceu.

Uma família de formigas empurrou sua carcaça para baixo de uma árvore cuja copa abafava a boa parte da tempestade e cobriu seu corpo de terra, fundando ali, dentro de poucos dias, seu novo formigueiro. Reparou este fato devido às cócegas causadas pelos milhares de pequenos movimentos dos novos moradores com quem agora iria dividir o mesmo corpo, circunstancialmente, na verdade, o seu cadáver, e inclusive pensou em acordar para esclarecer sua discordância daquela empresa, decidida unilateralmente, sem consulta direta junto a quem seria o seu maior interessado. Mas, diante os fatos dados, concluiu que resignar-se e agradecer a sua própria sorte era a atitude mais digna a ser feita. No final das contas, morrera em uma região bastante utilizada para reuniões de família e piqueniques, e os deuses sabem que são raros aqueles que poderiam ter a chance de desfrutar do gosto de um brigadeiro após sua morte. 

Monólogo em Areia e Dedo: Onze

Não pára de falar não. Vai que a ligação cai. Vai que você esquece que que ia dizer. Vai que eu esqueço que que ia ouvir. Vai que o tempo passa e quando vamos ver não há mais telefonista, não há mais palavra, ninguém mais lembra como é que morre, vai que quando isso acontecer ninguém mais formula frases, receitas de bolo só se compartilhem por revistas e jornais, vai que a gente esquece como é que chove e passamos Verão inteiro com sede. Não pára que num piscar de olhos mudam as regras de acentuação, mudam-se as casas e os números, e quando vamos ver estamos em outro país, os gatos não ronronam mais, as moças voltam arrastadas pras suas casas sem seus diplomas. Quando voltarmos a ouvir a Voz do Brasil já estaremos casados, ou divorciados, ou até viúvos um do outro, presos pelos pés no trânsito, com um outro carro atravessado no nosso, porque daqui 17 anos, dizem pesquisas, o índice de acidentes vai ter aumentado 25 mil por cento! Estaremos ali, parados, provavelmente brevemente amputados, sangrando, olhando para nossos telefones portáteis, porque eles hão de haver, eu creio, esperando uma outra ligação, um recado qualquer bem breve bem curto como "passe no mercado antes de chegar em casa porque acabou a margarina", esperando ouvir uma frase qualquer muito menos grave do que a gravidade do que acontecia, ali, na hora. Podia ser também uma outra tragédia anunciada depois das oito, mas, caso fosse isso, uma ainda mais grave, para nos sentirmos melhor, até com sorte. E vamos ouvir todas essas histórias dos nossos rádio-relógios no pulso. Porque eles hão de haver, o que há mais de se inventar? 

Mas tomara que daqui esse tempo o metrô consiga passar pela cidade toda ao invés de atravessar só meia meia dúzia de bairros do Centro e disso a gente nunca chegue a sofrer. E tomara que inventem um jeito de resgatar as pessoas rápido, instantaneamente, que os planos de saúde fiquem mais sofisticados, e que por mais que custem uma fortuna, ninguém mais morre de nada. Tem a tal da Internet chegando, dizem que de 10 a 15 anos todos os lares terão a sua. Vai que eu ato a conversar com alguém, sei lá, da Hungria, e conheço o amor da minha vida e finalmente sobrevivo você? Vou te ler uma carta que eu escrevi e desisti de enviar, está aqui comigo no bolso da calça, até quando vão existir os bolsos, deviam dar um jeito nisso, né? Que chata essa necessidade de carregar nosso mundo inteiro no corpo. Deixa. Começou a ventar. Abrir o papel aqui e o vento vai voar longe. Tomara que aconteça alguma coisa essa semana, estou entediado. Você não acredita no tamanho da mariposa que eu vi ontem, devia ser maior que morcego. Me interrompe, me corta, me toma a palavra, fica só quieto aí, me constrangendo, ora. Antes que eu não tenha mais assunto e comece falar de qualquer jeito. Sabe que eu não sei falar palavrão direito. Rimou. Acho que estou parando com esse passatempo de fazer poesia, salve o gerúndio! Ficou na minha gaveta do escritório alguma coisa, vou te enviar nesse Natal, se conseguir terminar. Já sei, vou te fazer um troço outro, enterrar naquele terreno baldio do lado de casa e só te mostrar quando a guerra acabar. Essa nossa guerra particular. Inclusive descobri um santo pra fazer promessa disso. Juçara falou para eu passar a dar aulas de datilografia nos finais de semana, inteirar as contas. Estou me sentindo naquela música do Chico Buarque, amanhã vai cair um toró, vou comer o cu de alguém, Maceió. Só usava essas referências quando ainda fazia questão de te impressionar. Ah, o Santiago aprendeu a andar. Suspeito que a sua primeira palavra vai ser Carlos ou Calopsita, pela tendência das vogais que ele tá repetindo. Sim. Vai? Mas já? Vai, tá, pode ir. Não pára que aí é cais. O alto mar fica mais pra frente. Ninguém escreveu isso não, tirei da cabeça agora mesmo.

Monólogo em Areia e Dedo: Três

Senhores, senhores, por favor, senhores, vâmo sentar, assim, obrigado, boa noite. Gostaria de primeira, mentira, primeiramente gostaria de agradecer a todos, um beijo, um abraço, um fungo, um cafuné, obrigado, um cheiro vocês todos que chegaram aqui hoje, que atravessaram esse Sol de 40 e tantos graus que tá fazendo aí fora, pra estar, é, pra estar aqui, comigo, conosco, neste Largo, e para que façamos, pela quinta vez consecutiva, sim, o nosso Recital Circense da Pedra Funda. Sim, senhores, ninguém aqui é palhaço, e esse tal de malabares também é complicado demais, mas estamos há mais de um mês aqui, todas as quartas feiras, da meio dia e meia até as uma e pouca, recitando, aproveitando, embalando, o cotidiano de vocês, recitando poesia e vamos torcer para não chover, é, nas próximas semanas, pois ainda não tivemos investimento para comprar um toldo, menos ainda pra pagar alguém a montar o toldo, porque a gente aqui se enrola até pra ligar tomada, quanto mais uma coisa dessas magnitudes. É esse sorriso que eu queria arrancar de vocês. Mas a gente vai se virando, assim, de lado, que a gente vai se achando. Obrigado, obrigado, por favor, sei que, sei que parece estranho, mas gosto de ser bem fiel, e de expressar na minha prosódia, proso-"Popeye", o marinheiro, ficou de apelido meu porque já fui da marinha, mas fui dispensado logo cedo, quatro anos depois, bebia muito, sabe como é, e é, aqui eu tô passando pra vocês o meu caderninho de histórias e causos, como dizem lá pro norte, né? ah, e aviso, logo, como costumo dizer, ao escrever, encho das vírgula, entupo mesmo, que é pra ser mais fiel, dentro da cabecinha de vocês, mais fiel a forma com que eu falo assim, como aqui e agora, de voz alta. Não estranhe, não, meu senhor, não me ache com falta de instrução, não. Que minha mãe, professora, primária, me educou muito bem. Parece que tô confundindo vocês mais que esclarecendo, tem poeta que diz que coisa assim faz bem também. Boa tarde, por favor.

Tamos aqui morando por essas redondezas da Presidente Kennedy, por essas vielas, da Central Rodoviária, fazendo amizade com os camelôs, as donas de casa que vem aqui comprar fruta, legume, comprar pano, os donos de casa também, porque hoje em dia não tem mais essa coisa não, né? Tá todo mundo ajudando dentro de nosso lar, e isso é muito bonito de se ver. Menino, menina, lavando louça, varrendo quarto. Mas a gente fica pra bem de aqui, Centrão, sem incomodar ninguém, eu com os meus poemas, Gerivaldo cantando uns sambas antigos, de época de antes dele mesmo nascer, batudo no engradado vazio de cerveja que ele usa como banco, mas volta e meia a gente acaba apanhando ou só tomando esporro de alguns seguranças, que ficam aqui pra cuidar das lojas, quando de noite a gente assusta quem tá passando por aqui. Esse meu amigo mesmo aqui, o Jovão, esses dias, tava pedindo dinheiro, não pra comprar pedra, não, mas pra comprar água, e revender, que nesse calor, minha gente, água vai rápido, tanto movimento que tem aqui, passa alguém e compra, já ajuda Jovão a comprar uma casa, mas, estava aí, com o isopor, já tinha marcado de se arranjar com um gelo fiado, ali numa mercearia, dedicado a trabalhar, e, vejam, amigos, veio e tomou esporro do segurança, e teve que pedir dinheiro em outro lugar, e ficou mais de dia pra achar alguma coisa pra poder vender mais aqui e veja só quanto dinheiro ele deixou de ganhar, e quanta comida deixou de entrar pela boca desses filho que ele deve ter, que deve sim, eu nunca vi, embora não duvide, quem diz que tem, tem, então ele tem. Lembro que nem ontem, final do Estadualzão, jogo 1x0, ele e um outro amigo nosso, o Carniça, ganhou esse apelido depois, vieram correndo não sei de onde, a polícia veio atirando, e atirou, e eles caíram pra mó aqui no meio do chão, e a polícia, que na verdade a gente achou que era mas até hoje nem tem tanta certeza assim do que que foi que aconteceu, os caras nem fardados tavam, e os dois aqui sangrando, de tiro, e a galera gritando, gol, deu 2x0. Sorte que deu na barriga, ambulância chegou, deu dois mês, voltaram, contaram a história, parece que perderam uma aposta e não queriam pagar, sabe como é.

Ainda me conta, o meu outro amigo aqui, Cadinho, conta e comenta que costumava levar paralelepípedo na cabeça, quando temia em dormir na Presidente Kennedy. Era quase a mesma turma estranha, armada, sem farda, vinha e jogava pedra enquanto dormia, pedaço de calçada, já perdeu a conta de quanto amigo já levou assim. Aproveitavam, os filho da puta, desculpa, minha gente, mas aproveitam dia de chuva, desculpa o palavrão, minha gente, senhores, senhoras, mas é revoltante, uma gente que fica embaixo dos prédio, pra descansar, proteger da chuva, muita família, criança pequena, tendo que ficar vigiando se não vem gente tacar pedra, tacar fogo, é coisa que revolta o coração da gente. Esse meu amigo já levou paralelepípedo, fez até questão de treinar a palavra pra falar e contar a história adiante, e só não morreu, minha gente, porque tava de bruço, debaixo da coberta, e pegou só um pedaço, que sangrou, mas que deu mais nada. Tadizinho de Cadinho, tá ali dormindo, mas desses susto, dessas porrada que a gente leva, muita gente não fica bem da cabeça não, ele nunca mais ficou do mesmo jeito, depois de tanto ano fugindo de levar pedrada na cabeça enquanto dorme, e sem ter dinheiro nem pra comprar um capacete. Mas a gente ajuda, demo comida, ele tá bem, tem dia que fica até batucando com Geri, ele leva um cado de jeito pro pandeiro, nem nunca fez aula, esse Cadinho é um Cadão! isso sim.

Estamos aí passando o chapéu, obrigado, senhora, obrigado. Esse dindim do chapéu, obrigado, você também, esse realce vai ajudar juntar umas água, umas bala, umas cerveja, mas não é pra beber não, como mesmo contei da história de Jovão, a gente deixa pra ajudar nossos irmão aí, o Tatu, menino que nem deve ter os seus 10 ano ainda, pegaram e roubaram a bola dele, esses dia. Menino talentoso, fecha o sinal, fica fazendo embaixada, consegue bastante grana, tamo aí tentando um contato de algum grande clube, pra mó dele fazer teste, ver se tem futuro mais fácil, se alguém tiver contato, pode deixar aí, dobrado no chapéu, que a gente pega, encaminha pra ajudar melhor esse moleque de ouro. Essa galera aqui, todo mundo se ajuda, daqui a pouco vem Geri, aí, dar uma batucada, fazer os senhores, senhoras, se remelexer um pouco, porque faz bem também, é horário de almoço, eu sei, mas temos mais algumas histórias pra contar, tenham só um pouco mais de paciência, só mais um pouquinho, e obrigado, meu senhor.

Eu falei para os senhores que ficamos aqui nos arredores da Central Rodoviária, tem as barca descendo aqui a rua do Imperador Pedro Terceiro, e é o máximo que a gente vai, essa linha reta, só, e as viela que passa por ela, mas evitamo se afastar muito de além disso, minha senhora. Nesses bairros ao redor, tamo evitando de chegar junto demais, tá perigoso até pra gente, tinham parado, mas voltaram a perturbar nós que ficamo na rua. Complicado, a gente só quer paz, e amor, tem gente que quer a cachaça, até aí, tudo bem, até eu bebo minha aqui e ali, ainda, embora tenha largado o vício de vez, graças a deus, sempre de igreja, sem doutor, só com minhas prosódia. Minha igreja que eu mesmo fundei, mas nem tô aqui pra falar de religião. Só dos meus moinhos, do meu trabalho. Mas tem outros soltos ai atrás de um pouco de cola, esses são os mais novinhos, daí inventa de roubar, e é triste, a gente faz o que pode, mas volta e meia passa alguém, passa desses segurança, dessas gente aí que a gente não sabe, não podemos generalizar também, né? Tem muito segurança que tem família, só quer trabalhar, cuidar, mas tem quem pegue e tenta dar cabo na gente, como se diz? Ah, a tal da maconha nunca foi minha onda, e ela tá cara, quem não tem nada, mal arranja o fubá, não vê cara de feijão faz mês, não sabe, ou sabe, sabe que não vale a pena juntar pra comprar, até porque essa coisa aí dá fome e comida tem pouco. Daí muita gente acaba que caí nesses crack, aí, mas é, é complicado. Volta e tanta vem alguém aí da prefeitura, depois que já deram sumiço em alguns, vem e leva uns nos carros. Volta e tanta vem uns carros estranhos, com capota atrás, diz também que é abrigo, mas tem quem nunca volte. Outros voltam mas a gente mal consegue conversar direito pra saber que que houve. Principalmente perto das boca onde entra mais dinheiro, que daí começa a virar os outro bairro, como já disse, não somos de ficar se mexendo muito, por aqui, bem, por aqui faz tempo que não pegam pra fazer nada com ninguém, então a gente, a gente não vai provocar, né? Vamo cuidar, aqui, é tudo nosso, como família mesmo, a gente cuida.

Casquinha, o famoso Casquinha é um, nunca que descobri o nome sério dele, vivia por aí, 'cês devem imaginar porque esse era o apelido, a Casquinha era da ferida que nunca que cicatrizava na barriga dele. Vivia por aí, era doidinho, dó, inventava de usar cola, e tal, pelas ruas, arranjou confusão com alguém que até hoje quem sabe que foi? Ninguém! Mas foi nessa de aposta também, e foi um desses que a gente sempre via aqui trabalhando, do nosso lado mais próximo mesmo, Casquinha tava jogando esses jogo de azar, porque ninguém fica rico jogando aquilo, só o dono do jogo, e daí saiu correndo e quando a gente ia atrás ele ofi que sumiu, do nada. Mas vamo falar de coisa boa, que daqui a pouco a gente começa a espantar o público, olha o Sol, vai que vai que meio que até nublou agora, e os senhores, senhoras, vão ficar mais dois minutinho com a gente, não vão? Alguém tem um pouco d'água? Senhores? Alguém? Mas é pra mais de beber, mesmo, você, moça bonita, nariz bonito, até as orelha bonita, ah, muito obrigado, além de bonita, muito educada, obrigado, ah, o Verão, minha gente? Você gosta de Verão? Lembra o Carnaval, que já tá pra chegar, esse ano caí em Março. É estranho quando o Carnaval caí em Março, né? Faz tempo que não vejo TV, quando dou pra ver, é na beira dos boteco, quando tem jogo, e põe a TV mais alta. Aí, eu não bebo mais, digo, aceitei a proso-Popeya minha como meu único vício insuperável, acho que não comentei aqui, né? De todo jeito, uns amigo nosso vão naquela igreja ali pela Grécia Antiga, que nome de bairro mais estranho, que lá distribuem vinho toda quinta, de graça, pros moradores de rua que nem a gente. Ah, e peixe. Isso tudo porque Jesus dizia que comia isso. Nessa hora até os ateu vira crente, bonito.

Um argentino que ficava lá por esses bairros... levando seu violão velho, seus bolero, e tal, e coisa. Um dia tomou sei lá o que e ficou brincando de joão e maria, desceu ali a Marechal Florisvaldo, era véspera de desfile, ali na Apoteose, tava cheio de carro alegórico, aquela filona enorme que fica das escolas e os carros chegando, né, e ele começou a correr, dentre os carros, fez estrago não, só corria e gritava, "uhhhh, uhhhhh", que nem tal uma sirene, uma coisa assim, mó solzão, sei lá que cachaça foi aquela, se é que foi esse o químico, tinha um bloco no fundo, uma batida, e ele rebolando, desengonçado, porque lá nas argentina nem deve ter esse batuque nem de cá. Só comento disso porque no Carnaval aqui as coisas são assim, esse aparece gente doida de toda parte pra dançar, correr, beber, nesse Largo aqui, esse Largo não tinha nada, mas, ó, tá bombando, bando de gente nova chegando, gringo ou vizinho da gente mesmo, tá bonito de se ver, tocam samba, toca marchinha, um bando de marchinha que eu não ouvia há uns 20, 25 anos... E vou ver, é uma galera nova, exaltando essas músicas bonitas, é uma boa forma de encerrar a vida, digo, não que eu ache que eu vou morrer logo, mas sei que nem sou nenhum mocinho, que tô bem mais de perto do fim que pro do início. Ah, mas galera vem e toca de tudo, claro! Rola até uns roque, roque em rôu, com as levada mais pesada, e acontece música pra mais que da parte toda.

Nossa colega a gente chamava de Canteia, tudo bem que é nome de sambista homem, mas caía bem nela, e a gente chamava, e ela atendia. Vivia cantando coisa samba antigo da Unidos da Pedra Funda, aquelas que Clarinha, Diodete gravaram... Vive triste, Canteia, só ri quando tá batucando, rindo, cantando, fora isso vive triste. Me pergunto se fizeram muita maldade com a Nega, nessa vida, bonita, que era, na rua, maldade. Se fizeram maldade demais com ela minha vontade era de matar, desculpe, amigos, amigas, senhoras, senhores, mas é de matar mesmo essa gente má. Só que ninguém sabe de nada, ela só vive aí, rindo enquanto pode rir pra gente, e a gente erspeita o espaço dela. Sentada ali no início da rua do Samba Canção, parece que escolhe de proposito, essa nega linda. Sentada ali batia palma pra tudo. Batia palma pra chuva, pras criança passando correndo, pra executivo indo pro trabalho que dava um troco, pros que não davam um troco também. Depois ficava séria, mas em dia de Sol ela bem mais que sorria que ficava séria, triste. Criatura bonita, ela. Mas, gente, que faz tempo que não ouço falar dela, pra ser sincero, tô aproveitando aqui pra desabafar com vocês. Vai fazer mais de mês, e fico preocupado, que ela me some de novo. É, às vezes ela some mesmo, acontece, mas cada vez que ela some eu fico mais que preocupado, meio que durmo até mal, sabe, senhora, senhor? Mas é que vamo torcer pra ela voltar logo e voltar e trazer com ela ainda mais aplauso que antes. É bom lembrar que ela era, é, boazinha mas num era, é, idiota não, que se passava carro tentando mirar a cara dela pra molhar, desses dia de chuva, eu sei que sei muito bem que ela anotava a placa num trocinho de papel com lápis que carregava e, aqui pelas bandas, é cheio de estacionamento, né? Que ela tinha esse caderninho e toda vez que reencontrava um desses carro fazia muita questão de arranhar a lataria toda. Até que escrevi um dos meus causos contando dela, me pergunto se alguém, um dia, tomare, cisme com minha cara e de de publicar meus causo, e se vai sair em livro, e se vai ficar todo país inteiro sabendo, sabendo que Canteia batia palma tão bonito pra tudo, que vivia disso de sorrir, que não abaixava a cabeça e que mesmo com tanto tudo motivo pra se ficar emburrado nessa vida, que mesmo com tanta tristeza que ela deve ter passado, ela era e é mais bonita que tudo isso de ruim e tratava de desemburrar a gente.

No mais, é isso, que já deu a hora, e vocês tem que voltar pros seus serviços, agradeço bem, sorrio gostoso, vou até abrir a janela agora lá em casa e aproveitar que esse templo nublado passou, obrigado pela contribuição em dinheiro, mas quem não pode dar dinheiro mas que pra só de fez questão de ficar aqui até o fim, muito obrigado também, queria dar um abraço e um cheiro em todos vocês, mas sei que vocês vão se constranger, mas é isso, minha prosódia fica por aqui, e meu amor vai pra mais de além. Agradeço novamente a paciência, o amor, os ouvido, que vocês dão, hoje e constante, mesmo com tanta gente por aí virando as costas, vocês, aqui, nos olhando na cara, e rindo, se emocionando com a gente. Nem tem contribuição que pague mais que isso mas como sorriso não enche barriga, se puder deixar a contribuição, e não trabalho com hipocrisia, não! É pra comer mesmo, obrigado, obrigado de novo, moça linda, moço lindo. Deixo um sorriso por fim pra vocês, nem tão bonito quanto de Canteia, mas o bastante pra colorir seus restinhos de tarde. Venham para os próximos Recitais Circenses da Pedra Funda, tem toda terceira quinta feira do mês, desejo, a todos, um ótimo espetáculo amanhã e um brilhante futuro hoje, mais brilhante ainda que essa estrela aí queimando por cima de nossas cabeça. Obrigado.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Desaparece em Agosto (também identificável como "Monólogo em Areia e Dedo: Trinta")

Vide o título, em agosto desaparecem os oceanos dos mapas, as aftas da boca, os vermes das frutas, os corpos dos vultos, a chuva deitada, o traço das sobrancelhas, os filmes analógicos das retinas, as nuvens de Sol, noites de gaguejo, o pé dos cacos, as remelas carameladas das pálpebras permanecem, mas desaparecem os estetoscópios dos pescoços, a seca do corpo, as cáries do peito, as unhas das costas, o tendão do calcanhar, o passo do descompasso, o amarelo do riso, o verde da estrada, a lição da esgrima, o ponto da vírgula, os rascunhos dos entulhos, o maremoto, o ranço do peito, o ouro da pele, a saudade da cama, o encontro do acaso, o teto da casa, o firmamento do teto, as aeronaves da estante, o susto do novo, a fuga do nojo, o leão do quarto, a memória do abraço, a anemia falciforme permanece no sangue, mas desaparecem o azul marinho da noite, o azul turquesa do dia, a tinta das palavras, as cicatrizes das paredes, desaparece a poesia da casca, a casca das feridas, as feridas dos bares, os bares da cidade, a cidade dos homens, os homens do manicômio, os manicômios de qualquer parte. Desaparece o que há de cheio nos copos, o que há de vazio em mim. Desaparece até sua vontade de dormir, engasgar, soluçar, enfartar, e minha obrigação de fugir, tropeçar, fingir, confessar, mentir, apagar, escrever e transar. Desaparece a verdade. E também o bom senso, inclusive, porque esse ano já tentaram cancelar agosto pra ver se a Primavera chegava mais cedo e não desaparecia dos dentes. 

Círculo Perfeito (ou "Monólogo em Areia e Dedo: Trinta e Um")

Um corpo girava em torno de outro corpo em trajetória que descrevia uma elipse. Este segundo corpo girava em torno de um terceiro, maior, que girava, também, em torno de si mesmo. Giravam os três em torno de uma estrela que irradiava luz para todos os lados possíveis. Haviam outros corpos distantes irradiando luz da mesma forma; estes que eram avistáveis e reconhecíveis da superfície destes primeiros, mas que, talvez, devido a sua distância, cuja grandeza era difícil precisar, pelo conforto cotidiano ou simplesmente falta de curiosidade: falavam trivialmente ou se calavam a respeito. Estes outros mantinham em suas órbitas também seus próprios corpos opacos. É preciso salientar aqui que, naturalmente, cada qual tinha um calendário diferenciado e suas próprias formas de cultura local de medir os seus dias, meses e anos, ou seja, sua forma de contar o tempo. Dito isto, esclareço que dependendo do ângulo que miravam o infinito, somando-se as diferentes variações da conjuntura estelar que havia disponível para observação, conforme seus ciclos de translação aconteciam, um e outro, dos mais atentos, estavam razoavelmente cientes da existência e da profundidade da imensidão que se estendia, brilhante, para além do que jamais poderiam tanger ali. Os demais se mantinham preocupados e ocupados com a natureza de seus círculos gravitacionais. Estes, pela preguiça ou simplesmente pelo o cansaço oriundo do consumo que tais e outras tarefas cotidianas lhe custavam os pensamentos, jamais procuravam travar contato mais profundo entre si ou mesmo desenvolver e sofisticar sua linguagem rumo para os outros pontos do universo que despontava abaixo, aos lados e acima de suas cabeças. Por mais que houvesse, sim, possibilidade material para esta empreitada. Contudo, é preciso esclarecermos aqui um fato idiossincraticamente curioso, que aqueles poucos observadores sempre tratavam de alarmar os demais a respeito. De eras em eras acontecia de desaparecer uma das luzes, esvanecida aos poucos ou repentinamente apagada, um ponto a menos no grande mar de incontáveis pontos luminosos. Um leão de fogo azul consumido por si só. (Ou quem sabe, deveras, devorado por um buraco negro?) Seja o que fosse, desdobrava-se a seguinte raridade: Era quando os astros se chocavam com a brevidade da vida.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Toranja

Não entro nesse mérito
de como se deve amar direito:
Vou e amo à minha esquerda.

Monólogo em Areia e Dedo: Vinte e Nove

Ninguém nasce fazendo canção
Primeiro se aprende a andar
Ninguém nasce escrevendo sonetos
Primeiro se arrota, engasga, então se aprende a cantar, se as cordas vocais permitirem, independente de afinação
Ninguém nasce sambando
Primeiro se nasce, se fica de pé, primeiro boceja, depois o bom dia
Ninguém nasce sabendo nascer
Da barriga da mãe, primeiro, se aprende a nadar
Ninguém sabe que noite que vai acontecer
Primeiro vem o dia, esteja-se acordado ou dormindo, primeiramente bom dia
Pensando bem, segundamente, diria
Porque provavelmente a noite veio primeiro, digo, um dia havia, primeiro, o silêncio
O silêncio era escuro, depois veio a claridade, daquela explosão estelar
O silêncio então ficou esclarecido, e numa bela tarde arrotou, engasgou, aprendeu a falar, digo, claro, primeiro consigo, depois com os outros, assim que o vácuo lhe deu as circunstâncias apropriadas para o efetivo exercício do som
Daí ele foi e falou e escreveu a prosa
Primeiro veio a prosa, com certeza
Tanto que nem sabiam que era prosa, mas era, sempre além da mania de autoridade do homem e suas redes normativas, métricas; a prosa era porque é, é a necessidade de guardar o preparo e receita de um peixe cozido, de se elogiar os quadris da moça ou os ombros do moço, de partilhar o fruto proibido
Daí vieram os hieróglifos, depois os datilógrafos, até surgir a era digital com seus corretores automáticos
Um pouco antes disso veio o Drummond, Torquato, Clarice, Lygia, Wally Salomão e Arnaldo Antunes, depois disso veio você e mais essa multidão aí que nasceu depois de 1989
Só que antes dessa gente toda vieram as canções, inclusive antes de toda gente que já existiu, até porque quando as pessoas ainda aprendiam a andar de duas patas já tinha muito passarinho, dinossauro! outros bichos solfejando por aí
Daí um pouco depois veio o fogo
Quando já se davam as mãos para atravessar as ruas batidas de terra
Quando se cantava e dançava samba nas primeiras aldeias do mundo
Quando da barriga da mãe, já nascidos e nadados, éramos todos um oceano só num continente primeiro cujo primeiro nome ninguém lembra mais...
Um continente que, da forma que era, não existe faz tanto tempo... e ainda assim nasceu tanto depois do silêncio.

(Para ler mais silenciosamente, em quase cochicho:

Antes dessa hora tinha a hora passada
Daqui uma hora faltará apenas outra hora para nós irmos embora
Antes do curativo vem o machucado
Antes do café veio o leite
Antes da garganta coçar a garganta gritou
E antes de gritar muita coisa a gente fez:
Batuque e sapateado na parede do lado de dentro do ventre
Bebemos caldo quente do cordão umbilical
Sentimos, nalguns casos, sem querer, uma década e meia antes do devido, o gosto do cigarro, do etanol
Mas entre o maior dos baratos, depois de um tempo com cor nenhuma, foi descobrir a primeira cor, que é:
Laranja! Porque é a cor da pele quando bate o Sol!)

Monólogo em Areia e Dedo: Vinte e Oito (ou "Aviculário")

Aqueles dia passarinho engasgou atravessou a rua puta porra passarinho mas se tu voa porque raio tu vai ficar de asfalto eu gritei mas o passarinho surdo piava desafinado era uma vez solfejo era uma vez passarinho o sinal fechado fui correr pegar o passarinho a pé fez sinal pro ônibus que parou passarinho piou perguntou uma coisa o motorista de banda fez cara de dúvida eu peguei o passarinho no colo respondi senhor por favor sabe se passa na praça Vã Nhagem? ele foi respondeu que não que era pra pegar no mesmo ponto o 433 e a gente parou esperou perguntei passarinho porque tu não vai voando é aqui perto porra dá teu jeito passarinho voa nessa porra e ele piando desengonçado entendeu eu acho a minha pergunta porque sempre foi bom de leitura labial e eu que não sou bom de leitura bical aviária o passarinho ria ria me pedia um gole de cachaça do meu cantil e eu sabia que pedia porque ele estendia a asa quebrada apontando e com ela virava o copo que carregava pra cima e pra baixo pequenino que nem ele bicava a cachaça a dose do gengibre e virava duma vez e rápido eita passarinho safado e soluçava umas três ou quatro vezes depois do gole só que depois ficava mais calmo na moral e pedia mais e virava outro gole e eu dizia porra passarinho assim tu vai ficar bêbado e como é tu chega lá sozinho e ele ria ria passou mais três ou quatro ônibus ele estendeu a asa quebrada pra cada um dos três ou quatro e nenhum era o que ia levar ele na porra da praça e eu perguntando que que ele ia fazer em Vila Isabel e ele rindo passou o tal do 438 e ele já tava bebo demais e eu fiz sinal e o busu parou e eu confirmei com o piloto que se ia chegar lá onde ele precisava e chegava e paguei a passagem subi pela frente girei a roleta entrei o passarinho pela porta de trás que o bicho tava sem força pra tudo e o passarinho me olhou soluçando de novo arrotando cachaça me olhou bem no olho esquerdo que é o único que eu enxergo e piou e eu disse antes daquilo lá partir eu disse eita que eu quero ser aviculário quando crescer e o passarinho rindo rindo estendeu a asa quebrada pra apertar minha mão e eu apertei de volta a asa quebrada com cuidado e tal que o ônibus começou fazer que ia partir e eu gritei pro cobrador que ele ia descer na tal da praça Van Halen e o cobrador falou que ia ajudar que gostava muito dessas ave também e jurou que num ia fazer churrasco do bicho pra vender no centro primeiro porque não tinha tempo e também porque já tava almoçado e de qualquer jeito o bicho tão bebum assim ia até atrapalhar o jejum dele de mais de mês de alcoólatras anônimos da igreja sem beber graças a deus desde que entrou naquela preja nem uma gota de álcool no sangue e o ônibus já tava andando e corri atrás e falei pro passarinho me ligar quando chegasse em casa e ele rindo rindo disse em alto bom tom ou fui eu que passei a entender a piadeira do nada: "Heureux l'oiseau qui vole sans ailes! Pour plus de verres de vin à l'avenir, mon frère!" Parei de correr e cochichei comigo mesmo: mas que passarinho safado! que ele sabe que eu não sei francês!

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Haikai Concretíssimo

Da mais alta poesia, caí de lado



















_________________________


e do chão passei,
contrariando o ditado.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Poesia de Escritório Um




Poema hiper-concreto em:
─ Post it
─ Caneta
─ Carimbo
─ Instagram
─ Excesso de café no sangue (750 ml)
─ Falta de censo do ridículo.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Monólogo em Areia e Dedo: Vinte e Sete

Arco-íris leva hífen e fim
Te gosto nua
If you know what I mean

Que rosto te cai melhor
O meu 
ou o dela?

E essa bochecha cheia
Pra que tanto xis?
E essa meia-lua inteira?
Tá cheia do quê?
E essa montanha passageira
Quem fui que te quis?
O grafite lá no muro de seu quarto
Quem eu que fez?
Essa cicatriz em forma de dentes no meu braço
Quem é você?

Que noite te cai melhor
Esta
Ou o café da manhã?

E seu paletó manchado de chuva, já secou?
E minha barca de batom no branco do seu olho esquerdo
Por que lavou? 
Evite isso de se trocar as lâmpadas depois que elas queimam porque dormir no escuro é que te cai bem. Tira esse Sol da boca. Tira esse lençol da boca. Faz o que você quiser.

Te gosto pura justamente porque eu não acredito nisso de pureza, nisso que os outros tem de achar para onde seu corpo tem que estar. Quero ele aqui. Só não acho nada, se escaldar ou se arrefecer de vez, quem tem que achar e se dependurar é você. Aqui está uma constelação. Use-a sóbria e sabiamente, sobretudo neste Hemisfério Sul, agora em chamas. Tantas palavras orbitando o meu varal. Nenhuma delas pra você. Mas d'outra vez que se perder: me encontra. Estarei às margens puras do Rio Tietê. Pouco é o bastante mas muito é muito mais perto. Te quero mais certo do que as raízes dessa árvore furarão o concreto. Quantas vezes já te disse que eu não digo essas coisas? 

Poesia de Escritório Dois

preencher em duas vias
autenticar em duas vias
imprimir em duas vias
tatuar em duas vias
amar em duas vias
guarda o pescoço pra alimentar os morcegos
(este poema está uma merda
como aquele seu emprego.)

Poesia de Escritório Três

Fulano da repartição tirava férias terça pra voltar numa quinta feira. Quando perguntávamos por que raios não aproveitava o final de semana, ele respondia: 
"Espaguete com cimento."

Conforme Somos

Aponta pro bar, percevejo, e volta
Aponta pro mar, caranguejo, e nada

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Senhora,

Senhora,
desculpe de te chamar de Senhora, Senhora,
desculpe te chamar de novo, mas, por favor:
me informa as horas?
Senhora, digo
Senhor.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

A Metafísica do Meteoro (ou Monólogo em Areia e Dedo: Vinte e Quatro)

Não é porque algo é infinito que vai abarcar toda a realidade. Por exemplo, posso dar infinitos exemplos do porque e o quanto quero que você durma na minha cama hoje, e nem por isso precisarei discutir todo o processo de reprodução de anfíbios, ou começar a recitar cada um dos 718 Pokémons que existem. É, sim, esse é o número. E sim, eu sei, isso nunca vai funcionar. A saudade tem muitas faces. Uma delas é a sua, por aquele cara. A outra era que "Condin" fazia, quando a gente chegava da rua, "Condin", meu cachorro vira-lata falecido. As coisas que eu escolho te omitir te dizem tanto sobre mim, as coisas que eu escondo, de você, pena que não vou dizer. Mas isso aqui não é metalinguística, é metafísica. A metafísica do beijo, por favor, larga esse celular. Por favor, fecha esse livro, que você nem abriu ainda, que tá aí, dentro da bolsa. Larga e me responde: que há de mais certo além do pôr-do-Sol? Por favor, fecha essa janela, me cobre com esse cobertor. Que há de mais certo que a noite chegar e nos ocupar metade do dia? Não é que eu não possa estar errado, mas há pouca ou nula possibilidade de você estar certa.

Às vezes me vem umas coisas na cabeça e eu começo a recitar assim mesmo, falar desse jeito. Poesia pra mim é todo dia, toda hora. Já era pra você ter se acostumado, não? Ó, os dias passam como vagalume, meu corpo cai de febre e você me diz que não sabe o nome de nenhuma estrela? Como assim não sabe o nome de nenhuma estrela? Antares! Como assim, o que é Antares? Ó, outra: Alpha Centauri, terceira mais brilhante à noite, à olho nu. Até o olho tá nu e a gente aqui. Brincadeira, não vai embora, não.

Não é que eu te queira bem, eu te quero mal. Te quero morta. Calma, digo, calma. Sim, falei em morte porque tava pensando... Se eu quero que você morra, eu quero, agora, o que há de acontecer fatalmente algum dia. Por isso, tô dizendo, querer a morte de alguém é querer essa pessoa não viva. Por mais que pareça óbvio meu pensamento, isso que eu tô dizendo, é menos do que parece, muito embora eu assuma uma certa ingenuidade e superficialidade no que digo, humildemente assumo, logicamente, medindo nossos níveis etílicos. Mas é isso, é se querer que a pessoa não viva, principalmente se você for ateu e não acreditar, piamente, que aquela criatura vai pro paraíso orar pra Deus ter piedade da alma do assassino ou do presidente em quem ela votou. E mesmo que você seja ateu, descobrir que esse tipo de coisa acontece deve ser das coisas mais irritantes que podem acontecer contigo, cara. Se liga nisso aqui.

Escrevi isso enquanto ando, e é literalmente, abri um bloco de notas, entrei num bar e fingi que tava vendo o mostruário, deviam achar que era fiscal de qualquer coisa, escrevi a ideia que me veio, que é exatamente esta, de dizer que eu estou escrevendo andando, embora isso seja metalinguístico, e eu prometi, na hora que a gente sentou aqui, de falar de metafísica. Prossegui a viagem. Escrevi andando também que lembrei de sua família em São Paulo, que vota mal mesmo sem água. Mas vamos evitar falar de política, vamos falar de você. Melhor ainda, vamos falar de mim, o meu dia foi maravilhoso, ó só. Melhor ainda, vamos falar nada:

Um minuto de silêncio, durante, usei esse tempo para lembrar daquela vez, a gente no ponto, você tava pensando, sei lá, naquela lasanha morgada que você tinha guardado do dia anterior, que você ia chegar então em casa e esquentar e ter uma janta diferente. É, e enquanto você estava distraída, não sei se te disse isso, mas tinham dois ou três marmanjos espiando seu decote, que, se me permite dizer, estava muito bonito aquele dia, e eles se aproveitando do acento elevado do ônibus, sabe? Deve ser difícil ser mulher. Nunca te perguntei, você é gaúcha de Pelotas? Abre seu olho que tem gente que vai se aproveitar desses papos feministas pra te levar pra cama, eim? Tem cigarro aí? Não fuma? É, eu sei, esqueci.

"Conheci uma pessoa ausente de qualquer predicativo positivo." "Você, meu amor, é tão status quo; sabia que o purê acabou?" Esses dois escrevi hoje cedo. Às vezes faço esses haikais. Mais: "Ainda teve a cara de pau. Não, não seja tão radical. Não acredito nessa de se não te quis de primeira, não te quero nunca mais. Ainda mais eu. Sou uma pessoa de mudar de ideia." É, não estou nos meus dias mais criativos, juro que sou mais interessante que isso. Vim trabalhando também num roteiro, vou passar pros meus amigos de cinema, vai quê? Ele se passa na rua Uruguaiana, é uma pessoa andando, daí ela repara tudo, tem tudo, o cara que distribui bolha de sabão gratuita na esquina com a Sete de Setembro, o palhaço, mímico, seguindo pessoas e pegando dinheiro da carteira, constrangendo, o cara que vende um pedaço de plástico, que é tipo uma corneta, que faz barulho agudo alto pra caralho, e dá pra falar e a voz sai como de bebê. Nunca acredito que alguém compra aquilo. O cara tocando guitarra, aliás ele toca bem, esse já é na Carioca. O cheiro de camarão, que é um dos piores cheiros que eu já senti na vida, e isso precisa ser ratificado aqui. Ah, e os hippies e as miçangas, ridículos. Isso daria um bom título: "Hippies e Miçangas". Que papel é esse ai? É seu? Posso ler?

Nome: nome é coisa que dá e passa. Fome, fome é coisa que se dá e mata, quando possível. Saudade, a cara da saudade é a cara que eu tô fazendo agora mas você não pode enxergar porque é cego. Mentira. Fome, coisa que eu te dei e te engasgou. Nome, coisa que eu esqueço ou troco. Fome, coisa que se chama em voz alta pela janela. Nome, aquilo que fica enroscado no dente, juntando cáries. Saudade, em muitos outros idiomas se escreve saudade. Em polonês, em alemão. Verdade, só dois. Desculpas, em todos os idiomas se escreve desculpas. Foda-se. Fome, que irrita, que soa como ofensa, que quase nunca usa cedilha. Nome, que embrulha o estômago, que aumenta o colesterol do sangue. Nome, de novo, porque tem gente que nunca sentiu. Fome... qual é o seu mesmo? Saudade, a fome, desculpa, o nome. Que é isso tudo diante daquela estrela explodindo agora? É, você não sabe e nem vê, mas não posso deixar de dizer, meu amigo. Diariamente uma coisa nova vai acontecer. Ou aos finais de semana? Quem sabe a periodicidade? 'Má vez por mês, ao menos, eu sei, em algum lugar da cidade.

Me lembrou alguma coisa que li outro dia. Mas gostei, e não é que deu fome mesmo? Vamos pedir uma batata? 

domingo, 3 de agosto de 2014

Monólogo em Areia e Dedo: Vinte e Cinco

Vou considerar que você concorda:
Primeiro cigarro
Uma semana sem fumar
Um aniversário
Duas semanas sem fumar
Outro aniversário, maldito seja junho
2 dias sem fumar
Desempregado, sem dinheiro
2 meses sem fumar
Brochou, como a advertência do Ministério da Saúde atrás do maço tinha avisado que ele ia
5 meses sem fumar
Engravidado, teve filho, 1 ano e meio sem fumar, pra dar exemplo pra esposa, também fumante
Demitido, seguro desemprego, patroa segurando as contas
2 maços por dia
Reempregado, passou concurso, primeiras dores no peito, só na cerveja de sexta e sábado
5 dias sem fumar, toda semana
Só fuma quando vai na reunião do condomínio
1 mês sem fumar, todo mês
Só fuma quando vai pescar
Fuma cinco vezes por ano
Morreu de vez
Nunca mais fumou.

O filho, 15 anos sem fumar
Dois cigarros por dia, nos recreios da escola
Por quase todo ensino médio
A mãe pegou na mochila as bitucas que guardou, escondeu, esqueceu de descartar
4 meses sem fumar
Entrou pra academia (falo desses universitários, e esse aqui é de humanas, ainda)
1 maço e três quartos de litro de café por dia por 12 anos
Primeiro enfarto
Sobreviveu
Nunca mais fumou
Só maconha, claro
(Que é de família).

Monólogo em Areia e Dedo: Vinte e Seis (ou "Costa a Costa")

De costa a costa eu sinto sua falta. Eu que não sou de mar, nem ribeira, que evito as poças d'água. Te espero no ponto final de ônibus achando que isso é o porto que não é. Jogo oferendas pra Iemanjá no chafariz daquela praça embora eu seja ateu. De costa a costa estava esse resmungo se condensando no ar, até ser arrastado por uma frente fria. Te encontro breve em Itapuã, nas ondas de Piratininga que me deram mal jeito na coluna, que me enterraram tanta areia no ouvido, mas não o bastante porque ainda ouço aqueles aplausos cafonas no Arpoador. Eu que não sou de praia e já citei todas os mares que já vi, de costa a costa, me encontro afogado na sua saliva (que já secou). Na sua linguagem que me falta no chuveiro de manhã. 

A Metalinguística do Silêncio (ou "Monólogo em Areia e Dedo: Vinte e Cinco")

Comece o dia leve, quão leve quanto acreditamos serem leves os pombos. Para fins de coerência mantenha no sangue a adrenalina do primeiro beijo pelo resto dos seus dias. Suíngue bom pra suingar logo cedo esse aí o seu. Rime tatuagem com malandragem, teto e eternidade com (papo) reto e com quantos dentes se faz uma cidade. Samba com bamba, repente com (desejo) latente, bluegrass ou jazz com maionese mineira, "maionézz...". Evite a nostalgia ou economize apenas para casos extremos. E lembre-se: tristeza não rima com cerveja. Mas se for rimar, faça com moderação. Tente fazer a mesma coisa que fazemos todas as noites: conquistar outra constelação. Cola seu rosto juntinho do meu e entorta minha cara pra próxima foto, pro próximo trago. Não deve haver violência maior que a eternidade. Faça um filho meu em mim, só cuidado com meu umbigo. Tente falar "com o umbigo" em voz alta e rapidamente sete vezes seguidas e me ligue cantando se conseguir.

Precisava dizer seu nome, mas eu não vou, e não vou porque não posso, não vou porque isso de ir quando se já 'tá voltando e de se fazer as duas coisas ao mesmo tempo, se você repara bem, é simplesmente não sair do lugar. Não sair do lugar, repito, e respeito quem prefere, mas é preciso esclarecer, e de roupa suja eu já tô lavado, tanto já tô lavado quanto elas já estão no varal e quase secas. A palavra "recreio" desperta diferentes sensações nas pessoas. Pronto, usei essa frase, ganhei a aposta, me deve dois gengibres e um meio maço. Hoje acordei meio retrô, visitei uma amiga, levei uma fita K7 recheada de músicas que eu tive que ouvir até o fim para gravar. Me empurra no balanço, vai. Esquece, eu ainda sei me empurrar sozinho. Você inclina a coluna, assim, espera que eu vou lembrar, isso: você dobra a perna pra trás e inclina a coluna pra frente, e depois inverte: quando for pra trás, as costas, as pernas vão também pra frente. Repita o procedimento até atingir a altura desejada. Da última vez eu tive que parar porque umas nuvens me embaçaram os óculos.

Ainda tô com o gosto da areia na boca. Ainda tô com gosto de noite na boca. Ainda tô com o gosto do teu pescoço na boca. A metáfora e a mercantilização do amor na catraca dos ônibus: Quer troco pra quanto? Tem menor não? Quem é que morre só pra avisar que tava morrendo? Os sistemas de hoje em dia te avisam para tomar cuidado porque você está se agravando enquanto te agravam cada vez mais para te alertar que você não pode se agravar. Isso pouco importa. Só não vá morrer numa noticia de jornal. Nem o contrário. Como é que se vende metalinguística? Me ofereceram ontem na Lapa, mas a gente só ia saber se desse a grana, o pagamento era adiantado. Tem sujeito que banca mas não nasceu pra ser hippie, um ideal tão caricato que já virou, o que se pode dizer, de o palhaço da modernidade nos grandes centros urbanos. Existem tantas pessoas que gostam de mim que eu só posso estar errado ao meu respeito.

O meu amor tem um jeito agridoce que é só seu. Que me batata frita. Me salga a saliva, que me adocica, doce de leite na minha virilha. O meu amor não cabe numa penteadeira, nem numa geladeira, nem lhe atrás da orelha. De todo meu tesão serei atento. Os pareceristas estão chegando. Beba Jeropiga. Ouça Marcus Tardelli. Cultura não é só o que você acha que é bom. Mas não sou eu quem disse isso. Nunca procure os cadáveres dos bichos de luz, pois não encontrará. Desafio alguém aqui achar cada um desses 50 minúsculos corpos inanimados espalhados pelos cômodos. Se conforme com o que acaba. Se confirme com o que nasce. E vice e versa. Poderia viver só com a boca cheia de você. Poderia estar respirando, matando aula, fazendo baldeação pra Rio das Ostras pra economizar quinze reais no feriadão, esfaqueando caixas de Lego pra pegar umas peças, arremessando pacotes de chocolates roubados das Loja Americanas do trigésimo quarto andar de um prédio na Rio Branco. Mas contrario. Ponho um silêncio ali que não é de ninguém, como desses arco íris que nascem de dia nublado.

Hoje morreu mais um dia. Na volta do bar, na beira da avenida. Um cigarro gentil concedido pra travesti que pediu. A cachaça que bateu só agora. A friagem que só se sente em casa. O samba que só sai do corpo se nunca ele entrou. Nasceu outra vez aquela afta. Só hoje já morreu três dias. Como despedir essa cidade? Até onde aprendi: o céu vai bem além do teto. Também. Respire depois de beijar. Insulto não é argumento. Goze antes de dormir. Lugar de felicidade é no boteco ao lado. A metafísica do meteoro, a metalinguagem do silêncio. Já disse. Paixão gratuita de vez em quando faz bem. Se eu te aperto num troço, te esvazio o copo, te puxo o cobertor. Te deixo nostálgica, questiono tua lógica, faz parte do que eu sou. Acendo o escuro, confesso, te espero do avesso destilando cada minha cor. Calculo o cateto, hipotenusa. Soneto, dodecassílabo, já passou.  Plagio o Cazuza, mordo a métrica e a nuca, te mastigo como um alfajor. Te faço uma filha, menstruo um útero, uma ilha, descubro toda sua dor. Neste rap concreto, sobre o terror desconexo, debaixo de seu rosto ator. A noite cai e levanta, minha fome é sua janta, me devore em todo seu calor.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Monólogo em Areia e Dedo: Vinte e Dois (Epílogo)

Bom dia pra você cujo café da manhã foi pizza requentada do dia anterior e teve que, realmente, ajeitar a sua bainha da calça com grampeador! Boa tarde pra você que quando hoje mais cedo andava na calçada teve um marmanjo apressado que te passou esbarrando e você fez questão de apressar o passo atrás dele e esbarrar de volta! Boa noite pra você que sabe que hoje é sexta, dia de boteco e início de mês e que não aceita nenhum outro meio de transporte pra voltar pra casa que não seja o teletransporte. 

Monólogo em Areia e Dedo: Vinte Um (ou "Percevejos")

Eu e meu calor do corpo e o tato,
Cujo gênero correlato pouco importa,
Se o verde, que quase toda erva de seus genes comporta,
Se o azul, como mancha na pele onde estava o soco, como a tinta na mão
(Evitamos nós três de citar o nome dos Céus em vão)
Se alguém de nós ainda acreditasse em cadernos,
De cada um de nossos confeitos mais modernos
Tempos outros, tantas cinzas queimaríamos, se menos fobia e mais filia
Como as fileiras que juraria purgatório, volver, palavras tivesse o dia,
Tempo de dizer, como a trema vingativa, extraditada do português
Ou fonema do francês cuja receita ninguém lhe corrigisse
"Ou os cigarros, exilados políticos de nossos banheiros públicos", disse
Ao se levantar ao toalete, abrir duas janelas, e se jogar de uma delas
Daqui a pouco, fellas, vocês hão de entender do que se trata
As palavras assim pela manhã, às 11 da madrugada
Engasgam os dedos dos pés, com os quais escrevo, de câimbra e ressaca
Aliás ainda as meias eu calço, é julho, inverno, cachecol, lençol, lã e chá
Dura pouco, estamos aos trópicos, a latitude, ausente piedade solar

Penso em fazer um café, relevanto, dou um pulo na cozinha e caio
Costas no chão, noto a fumaça no teto, vestígio de incêndio ou ensaio
A prateleira me lembra a esperança de um dia perder o trauma de vinagre
A cidade não cala nem consente, só nos falta acontecer um milagre
Esta imagem me vem pois avisto, de sua janela, o relógio, a Central
O bule ferve a tempo antes de me perder em outro espaço amostral
Voltando do térreo, com feridas mas em sobrevida
Amarrotada, amarrotado, como a página na qual garrancho, me disse, cheirando mais
("Uma paz das mais brancas ou a mais branca paz, aqui jaz")
Lendo em voz alta, de um papel inédito, em tonalidade comedida
Conforme sua alta concedida, a respectiva benção do analista
A introspectiva pronúncia hierografada que um médico lhe deu
No qual cá cremos como quem já creu em deuses, do Olimpo ou do Jazz
A porta batendo antes pelo vento
Depois por um intento de outro viés
Com aquela cara de choro, aquela cara de chuva pra mim
Grita perguntando se resta oxigênio naquela casa, respondo que sim
Continuamos, sem Gin:
(Recita-me, de pé, já na sala
Como se flutuasse em sua asa:)

"Quem entra e mata, mata além da paisagem
(Se há, esta é minha mensagem)
Captura além a fotografia do momento exato e do momento inútil
E mais,
Mata mais ardido que seu lamento, percevejo, pisado pela sorte fútil
Cuja morte lhe resta um, apenas um cheiro
Aquele, que nem o todo Rio de Janeiro desconversa..."
Sento-me na beira da cama, onde há outra travessa
Onde lhe pergunto gritando o livro favorito, cujos preços em negrito
Sento na cama e a percebo menos vazia do que estava há seis minutos
E me pergunto o intuito de lhe chamar cá pelo nome, Maria ou Mário
E me dou conta que sequer sei quando faz aniversário
E a poesia do momento é menos o Arpoador, o mar, do qual afastamos às milhas
(Seja lá quanto valem as milhas! Menos de avião do que da terra sou homem)
E mais este edema pulmonar do qual sarei, mas mal curei as mãos do vício
Do qual tabaco, cujo lugar, trago sem tragar a nicotina das suas cortinas, precipício.

Falta-nos o abraço num compasso e os calos de dançar valsa
Falta-nos a providência apocalíptica para nos amarrar a alma
Há certas tardes, entre julho e agosto, que nem um batuque de samba salva
Lembro que quem entra mata por fazê-lo, concordo: extingue de seu o corpo o fevereiro
Quem muda de assunto antes foge pra não morrer certeiro (Ou foge quem morreu primeiro?)
O triste fim de quem procura mel em seu vespeiro
De quem tanto bem rima quanto ama mal
Que confunde noite com alvorada, e esta com intifada
Que chama reticência de ponto final

Retornado, ou retornada, do toalete, ela e ele, me perguntam onde estamos, e inclino noutro papel, doutro panfleto, meu avesso:
Arranharia-lhe o seguinte adereço:
"Mostra-me o que há de concreto
O obscuro eu omito, quieto
Quanto mais que o vulcão
Da sua pele em combustão
Permaneça submerso
N'O abismo em anexo."

Desisto e rasgo, antes, pelo ralo, expondo-lhe, ao invés e à mão, pois, sob o travesseiro
Os seguintes versos que viria encontrar duas madrugadas depois, que aqui reproduzo por inteiro:
"Apego, doença que dá e laça
Que dói e traça
Se decomponha comigo
Se a uva passa
Confio
A chuva fica
Sejamos um sulco só
Na árvore da vida
Pelo silêncio e pelo Sol,
Na poeira da terra, esculpida."