Não pára de falar não. Vai que a
ligação cai. Vai que você esquece que que ia dizer. Vai que eu esqueço que que ia ouvir. Vai que o tempo passa e quando vamos ver não há mais
telefonista, não há mais palavra, ninguém mais lembra como é que morre,
vai que quando isso acontecer ninguém mais formula frases, receitas de
bolo só se compartilhem por revistas e jornais, vai que a gente esquece
como é que chove e passamos Verão inteiro com sede. Não pára que num
piscar de olhos mudam as regras de acentuação, mudam-se as casas e os
números, e quando vamos ver estamos em outro país, os gatos não ronronam
mais, as moças voltam arrastadas pras suas casas sem seus diplomas.
Quando voltarmos a ouvir a Voz do Brasil já estaremos casados, ou
divorciados, ou até viúvos um do outro, presos pelos pés no trânsito,
com um outro carro atravessado no nosso, porque daqui 17 anos, dizem
pesquisas, o índice de acidentes vai ter aumentado 25 mil por cento!
Estaremos ali, parados, provavelmente brevemente amputados, sangrando,
olhando para nossos telefones portáteis, porque eles hão de haver, eu
creio, esperando uma outra ligação, um recado qualquer bem breve bem curto como "passe no mercado antes de chegar em casa porque acabou a margarina", esperando ouvir uma frase qualquer muito menos grave do que a gravidade do que acontecia, ali, na hora. Podia ser também uma outra tragédia anunciada depois das oito, mas, caso fosse isso, uma ainda mais grave, para nos sentirmos melhor, até com sorte. E vamos ouvir todas essas histórias dos nossos
rádio-relógios no pulso. Porque eles hão de haver, o que há mais de se
inventar?
Mas tomara que daqui esse tempo o metrô consiga passar pela cidade toda ao invés de atravessar só meia meia dúzia de bairros do Centro e disso a gente nunca chegue a sofrer. E tomara que inventem um jeito de resgatar as pessoas rápido, instantaneamente, que os planos de saúde fiquem mais sofisticados, e que por mais que custem uma fortuna, ninguém mais morre de nada. Tem a tal da Internet chegando, dizem que de 10 a 15 anos todos os lares terão a sua. Vai que eu ato a conversar com alguém, sei lá, da Hungria, e conheço o amor da minha vida e finalmente sobrevivo você? Vou te ler uma carta que eu escrevi e desisti de enviar, está aqui comigo no bolso da calça, até quando vão existir os bolsos, deviam dar um jeito nisso, né? Que chata essa necessidade de carregar nosso mundo inteiro no corpo. Deixa. Começou a ventar. Abrir o papel aqui e o vento vai voar longe. Tomara que aconteça alguma coisa essa semana, estou entediado. Você não acredita no tamanho da mariposa que eu vi ontem, devia ser maior que morcego. Me interrompe, me corta, me toma a palavra, fica só quieto aí, me constrangendo, ora. Antes que eu não tenha mais assunto e comece falar de qualquer jeito. Sabe que eu não sei falar palavrão direito. Rimou. Acho que estou parando com esse passatempo de fazer poesia, salve o gerúndio! Ficou na minha gaveta do escritório alguma coisa, vou te enviar nesse Natal, se conseguir terminar. Já sei, vou te fazer um troço outro, enterrar naquele terreno baldio do lado de casa e só te mostrar quando a guerra acabar. Essa nossa guerra particular. Inclusive descobri um santo pra fazer promessa disso. Juçara falou para eu passar a dar aulas de datilografia nos finais de semana, inteirar as contas. Estou me sentindo naquela música do Chico Buarque, amanhã vai cair um toró, vou comer o cu de alguém, Maceió. Só usava essas referências quando ainda fazia questão de te impressionar. Ah, o Santiago aprendeu a andar. Suspeito que a sua primeira palavra vai ser Carlos ou Calopsita, pela tendência das vogais que ele tá repetindo. Sim. Vai? Mas já? Vai, tá, pode ir. Não pára que aí é cais. O alto mar fica mais pra frente. Ninguém escreveu isso não, tirei da cabeça agora mesmo.
Mas tomara que daqui esse tempo o metrô consiga passar pela cidade toda ao invés de atravessar só meia meia dúzia de bairros do Centro e disso a gente nunca chegue a sofrer. E tomara que inventem um jeito de resgatar as pessoas rápido, instantaneamente, que os planos de saúde fiquem mais sofisticados, e que por mais que custem uma fortuna, ninguém mais morre de nada. Tem a tal da Internet chegando, dizem que de 10 a 15 anos todos os lares terão a sua. Vai que eu ato a conversar com alguém, sei lá, da Hungria, e conheço o amor da minha vida e finalmente sobrevivo você? Vou te ler uma carta que eu escrevi e desisti de enviar, está aqui comigo no bolso da calça, até quando vão existir os bolsos, deviam dar um jeito nisso, né? Que chata essa necessidade de carregar nosso mundo inteiro no corpo. Deixa. Começou a ventar. Abrir o papel aqui e o vento vai voar longe. Tomara que aconteça alguma coisa essa semana, estou entediado. Você não acredita no tamanho da mariposa que eu vi ontem, devia ser maior que morcego. Me interrompe, me corta, me toma a palavra, fica só quieto aí, me constrangendo, ora. Antes que eu não tenha mais assunto e comece falar de qualquer jeito. Sabe que eu não sei falar palavrão direito. Rimou. Acho que estou parando com esse passatempo de fazer poesia, salve o gerúndio! Ficou na minha gaveta do escritório alguma coisa, vou te enviar nesse Natal, se conseguir terminar. Já sei, vou te fazer um troço outro, enterrar naquele terreno baldio do lado de casa e só te mostrar quando a guerra acabar. Essa nossa guerra particular. Inclusive descobri um santo pra fazer promessa disso. Juçara falou para eu passar a dar aulas de datilografia nos finais de semana, inteirar as contas. Estou me sentindo naquela música do Chico Buarque, amanhã vai cair um toró, vou comer o cu de alguém, Maceió. Só usava essas referências quando ainda fazia questão de te impressionar. Ah, o Santiago aprendeu a andar. Suspeito que a sua primeira palavra vai ser Carlos ou Calopsita, pela tendência das vogais que ele tá repetindo. Sim. Vai? Mas já? Vai, tá, pode ir. Não pára que aí é cais. O alto mar fica mais pra frente. Ninguém escreveu isso não, tirei da cabeça agora mesmo.

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