quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Monólogo em Areia e Dedo: Vinte e Nove

Ninguém nasce fazendo canção
Primeiro se aprende a andar
Ninguém nasce escrevendo sonetos
Primeiro se arrota, engasga, então se aprende a cantar, se as cordas vocais permitirem, independente de afinação
Ninguém nasce sambando
Primeiro se nasce, se fica de pé, primeiro boceja, depois o bom dia
Ninguém nasce sabendo nascer
Da barriga da mãe, primeiro, se aprende a nadar
Ninguém sabe que noite que vai acontecer
Primeiro vem o dia, esteja-se acordado ou dormindo, primeiramente bom dia
Pensando bem, segundamente, diria
Porque provavelmente a noite veio primeiro, digo, um dia havia, primeiro, o silêncio
O silêncio era escuro, depois veio a claridade, daquela explosão estelar
O silêncio então ficou esclarecido, e numa bela tarde arrotou, engasgou, aprendeu a falar, digo, claro, primeiro consigo, depois com os outros, assim que o vácuo lhe deu as circunstâncias apropriadas para o efetivo exercício do som
Daí ele foi e falou e escreveu a prosa
Primeiro veio a prosa, com certeza
Tanto que nem sabiam que era prosa, mas era, sempre além da mania de autoridade do homem e suas redes normativas, métricas; a prosa era porque é, é a necessidade de guardar o preparo e receita de um peixe cozido, de se elogiar os quadris da moça ou os ombros do moço, de partilhar o fruto proibido
Daí vieram os hieróglifos, depois os datilógrafos, até surgir a era digital com seus corretores automáticos
Um pouco antes disso veio o Drummond, Torquato, Clarice, Lygia, Wally Salomão e Arnaldo Antunes, depois disso veio você e mais essa multidão aí que nasceu depois de 1989
Só que antes dessa gente toda vieram as canções, inclusive antes de toda gente que já existiu, até porque quando as pessoas ainda aprendiam a andar de duas patas já tinha muito passarinho, dinossauro! outros bichos solfejando por aí
Daí um pouco depois veio o fogo
Quando já se davam as mãos para atravessar as ruas batidas de terra
Quando se cantava e dançava samba nas primeiras aldeias do mundo
Quando da barriga da mãe, já nascidos e nadados, éramos todos um oceano só num continente primeiro cujo primeiro nome ninguém lembra mais...
Um continente que, da forma que era, não existe faz tanto tempo... e ainda assim nasceu tanto depois do silêncio.

(Para ler mais silenciosamente, em quase cochicho:

Antes dessa hora tinha a hora passada
Daqui uma hora faltará apenas outra hora para nós irmos embora
Antes do curativo vem o machucado
Antes do café veio o leite
Antes da garganta coçar a garganta gritou
E antes de gritar muita coisa a gente fez:
Batuque e sapateado na parede do lado de dentro do ventre
Bebemos caldo quente do cordão umbilical
Sentimos, nalguns casos, sem querer, uma década e meia antes do devido, o gosto do cigarro, do etanol
Mas entre o maior dos baratos, depois de um tempo com cor nenhuma, foi descobrir a primeira cor, que é:
Laranja! Porque é a cor da pele quando bate o Sol!)

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