sábado, 16 de agosto de 2014

Monólogo em Areia e Dedo: Três

Senhores, senhores, por favor, senhores, vâmo sentar, assim, obrigado, boa noite. Gostaria de primeira, mentira, primeiramente gostaria de agradecer a todos, um beijo, um abraço, um fungo, um cafuné, obrigado, um cheiro vocês todos que chegaram aqui hoje, que atravessaram esse Sol de 40 e tantos graus que tá fazendo aí fora, pra estar, é, pra estar aqui, comigo, conosco, neste Largo, e para que façamos, pela quinta vez consecutiva, sim, o nosso Recital Circense da Pedra Funda. Sim, senhores, ninguém aqui é palhaço, e esse tal de malabares também é complicado demais, mas estamos há mais de um mês aqui, todas as quartas feiras, da meio dia e meia até as uma e pouca, recitando, aproveitando, embalando, o cotidiano de vocês, recitando poesia e vamos torcer para não chover, é, nas próximas semanas, pois ainda não tivemos investimento para comprar um toldo, menos ainda pra pagar alguém a montar o toldo, porque a gente aqui se enrola até pra ligar tomada, quanto mais uma coisa dessas magnitudes. É esse sorriso que eu queria arrancar de vocês. Mas a gente vai se virando, assim, de lado, que a gente vai se achando. Obrigado, obrigado, por favor, sei que, sei que parece estranho, mas gosto de ser bem fiel, e de expressar na minha prosódia, proso-"Popeye", o marinheiro, ficou de apelido meu porque já fui da marinha, mas fui dispensado logo cedo, quatro anos depois, bebia muito, sabe como é, e é, aqui eu tô passando pra vocês o meu caderninho de histórias e causos, como dizem lá pro norte, né? ah, e aviso, logo, como costumo dizer, ao escrever, encho das vírgula, entupo mesmo, que é pra ser mais fiel, dentro da cabecinha de vocês, mais fiel a forma com que eu falo assim, como aqui e agora, de voz alta. Não estranhe, não, meu senhor, não me ache com falta de instrução, não. Que minha mãe, professora, primária, me educou muito bem. Parece que tô confundindo vocês mais que esclarecendo, tem poeta que diz que coisa assim faz bem também. Boa tarde, por favor.

Tamos aqui morando por essas redondezas da Presidente Kennedy, por essas vielas, da Central Rodoviária, fazendo amizade com os camelôs, as donas de casa que vem aqui comprar fruta, legume, comprar pano, os donos de casa também, porque hoje em dia não tem mais essa coisa não, né? Tá todo mundo ajudando dentro de nosso lar, e isso é muito bonito de se ver. Menino, menina, lavando louça, varrendo quarto. Mas a gente fica pra bem de aqui, Centrão, sem incomodar ninguém, eu com os meus poemas, Gerivaldo cantando uns sambas antigos, de época de antes dele mesmo nascer, batudo no engradado vazio de cerveja que ele usa como banco, mas volta e meia a gente acaba apanhando ou só tomando esporro de alguns seguranças, que ficam aqui pra cuidar das lojas, quando de noite a gente assusta quem tá passando por aqui. Esse meu amigo mesmo aqui, o Jovão, esses dias, tava pedindo dinheiro, não pra comprar pedra, não, mas pra comprar água, e revender, que nesse calor, minha gente, água vai rápido, tanto movimento que tem aqui, passa alguém e compra, já ajuda Jovão a comprar uma casa, mas, estava aí, com o isopor, já tinha marcado de se arranjar com um gelo fiado, ali numa mercearia, dedicado a trabalhar, e, vejam, amigos, veio e tomou esporro do segurança, e teve que pedir dinheiro em outro lugar, e ficou mais de dia pra achar alguma coisa pra poder vender mais aqui e veja só quanto dinheiro ele deixou de ganhar, e quanta comida deixou de entrar pela boca desses filho que ele deve ter, que deve sim, eu nunca vi, embora não duvide, quem diz que tem, tem, então ele tem. Lembro que nem ontem, final do Estadualzão, jogo 1x0, ele e um outro amigo nosso, o Carniça, ganhou esse apelido depois, vieram correndo não sei de onde, a polícia veio atirando, e atirou, e eles caíram pra mó aqui no meio do chão, e a polícia, que na verdade a gente achou que era mas até hoje nem tem tanta certeza assim do que que foi que aconteceu, os caras nem fardados tavam, e os dois aqui sangrando, de tiro, e a galera gritando, gol, deu 2x0. Sorte que deu na barriga, ambulância chegou, deu dois mês, voltaram, contaram a história, parece que perderam uma aposta e não queriam pagar, sabe como é.

Ainda me conta, o meu outro amigo aqui, Cadinho, conta e comenta que costumava levar paralelepípedo na cabeça, quando temia em dormir na Presidente Kennedy. Era quase a mesma turma estranha, armada, sem farda, vinha e jogava pedra enquanto dormia, pedaço de calçada, já perdeu a conta de quanto amigo já levou assim. Aproveitavam, os filho da puta, desculpa, minha gente, mas aproveitam dia de chuva, desculpa o palavrão, minha gente, senhores, senhoras, mas é revoltante, uma gente que fica embaixo dos prédio, pra descansar, proteger da chuva, muita família, criança pequena, tendo que ficar vigiando se não vem gente tacar pedra, tacar fogo, é coisa que revolta o coração da gente. Esse meu amigo já levou paralelepípedo, fez até questão de treinar a palavra pra falar e contar a história adiante, e só não morreu, minha gente, porque tava de bruço, debaixo da coberta, e pegou só um pedaço, que sangrou, mas que deu mais nada. Tadizinho de Cadinho, tá ali dormindo, mas desses susto, dessas porrada que a gente leva, muita gente não fica bem da cabeça não, ele nunca mais ficou do mesmo jeito, depois de tanto ano fugindo de levar pedrada na cabeça enquanto dorme, e sem ter dinheiro nem pra comprar um capacete. Mas a gente ajuda, demo comida, ele tá bem, tem dia que fica até batucando com Geri, ele leva um cado de jeito pro pandeiro, nem nunca fez aula, esse Cadinho é um Cadão! isso sim.

Estamos aí passando o chapéu, obrigado, senhora, obrigado. Esse dindim do chapéu, obrigado, você também, esse realce vai ajudar juntar umas água, umas bala, umas cerveja, mas não é pra beber não, como mesmo contei da história de Jovão, a gente deixa pra ajudar nossos irmão aí, o Tatu, menino que nem deve ter os seus 10 ano ainda, pegaram e roubaram a bola dele, esses dia. Menino talentoso, fecha o sinal, fica fazendo embaixada, consegue bastante grana, tamo aí tentando um contato de algum grande clube, pra mó dele fazer teste, ver se tem futuro mais fácil, se alguém tiver contato, pode deixar aí, dobrado no chapéu, que a gente pega, encaminha pra ajudar melhor esse moleque de ouro. Essa galera aqui, todo mundo se ajuda, daqui a pouco vem Geri, aí, dar uma batucada, fazer os senhores, senhoras, se remelexer um pouco, porque faz bem também, é horário de almoço, eu sei, mas temos mais algumas histórias pra contar, tenham só um pouco mais de paciência, só mais um pouquinho, e obrigado, meu senhor.

Eu falei para os senhores que ficamos aqui nos arredores da Central Rodoviária, tem as barca descendo aqui a rua do Imperador Pedro Terceiro, e é o máximo que a gente vai, essa linha reta, só, e as viela que passa por ela, mas evitamo se afastar muito de além disso, minha senhora. Nesses bairros ao redor, tamo evitando de chegar junto demais, tá perigoso até pra gente, tinham parado, mas voltaram a perturbar nós que ficamo na rua. Complicado, a gente só quer paz, e amor, tem gente que quer a cachaça, até aí, tudo bem, até eu bebo minha aqui e ali, ainda, embora tenha largado o vício de vez, graças a deus, sempre de igreja, sem doutor, só com minhas prosódia. Minha igreja que eu mesmo fundei, mas nem tô aqui pra falar de religião. Só dos meus moinhos, do meu trabalho. Mas tem outros soltos ai atrás de um pouco de cola, esses são os mais novinhos, daí inventa de roubar, e é triste, a gente faz o que pode, mas volta e meia passa alguém, passa desses segurança, dessas gente aí que a gente não sabe, não podemos generalizar também, né? Tem muito segurança que tem família, só quer trabalhar, cuidar, mas tem quem pegue e tenta dar cabo na gente, como se diz? Ah, a tal da maconha nunca foi minha onda, e ela tá cara, quem não tem nada, mal arranja o fubá, não vê cara de feijão faz mês, não sabe, ou sabe, sabe que não vale a pena juntar pra comprar, até porque essa coisa aí dá fome e comida tem pouco. Daí muita gente acaba que caí nesses crack, aí, mas é, é complicado. Volta e tanta vem alguém aí da prefeitura, depois que já deram sumiço em alguns, vem e leva uns nos carros. Volta e tanta vem uns carros estranhos, com capota atrás, diz também que é abrigo, mas tem quem nunca volte. Outros voltam mas a gente mal consegue conversar direito pra saber que que houve. Principalmente perto das boca onde entra mais dinheiro, que daí começa a virar os outro bairro, como já disse, não somos de ficar se mexendo muito, por aqui, bem, por aqui faz tempo que não pegam pra fazer nada com ninguém, então a gente, a gente não vai provocar, né? Vamo cuidar, aqui, é tudo nosso, como família mesmo, a gente cuida.

Casquinha, o famoso Casquinha é um, nunca que descobri o nome sério dele, vivia por aí, 'cês devem imaginar porque esse era o apelido, a Casquinha era da ferida que nunca que cicatrizava na barriga dele. Vivia por aí, era doidinho, dó, inventava de usar cola, e tal, pelas ruas, arranjou confusão com alguém que até hoje quem sabe que foi? Ninguém! Mas foi nessa de aposta também, e foi um desses que a gente sempre via aqui trabalhando, do nosso lado mais próximo mesmo, Casquinha tava jogando esses jogo de azar, porque ninguém fica rico jogando aquilo, só o dono do jogo, e daí saiu correndo e quando a gente ia atrás ele ofi que sumiu, do nada. Mas vamo falar de coisa boa, que daqui a pouco a gente começa a espantar o público, olha o Sol, vai que vai que meio que até nublou agora, e os senhores, senhoras, vão ficar mais dois minutinho com a gente, não vão? Alguém tem um pouco d'água? Senhores? Alguém? Mas é pra mais de beber, mesmo, você, moça bonita, nariz bonito, até as orelha bonita, ah, muito obrigado, além de bonita, muito educada, obrigado, ah, o Verão, minha gente? Você gosta de Verão? Lembra o Carnaval, que já tá pra chegar, esse ano caí em Março. É estranho quando o Carnaval caí em Março, né? Faz tempo que não vejo TV, quando dou pra ver, é na beira dos boteco, quando tem jogo, e põe a TV mais alta. Aí, eu não bebo mais, digo, aceitei a proso-Popeya minha como meu único vício insuperável, acho que não comentei aqui, né? De todo jeito, uns amigo nosso vão naquela igreja ali pela Grécia Antiga, que nome de bairro mais estranho, que lá distribuem vinho toda quinta, de graça, pros moradores de rua que nem a gente. Ah, e peixe. Isso tudo porque Jesus dizia que comia isso. Nessa hora até os ateu vira crente, bonito.

Um argentino que ficava lá por esses bairros... levando seu violão velho, seus bolero, e tal, e coisa. Um dia tomou sei lá o que e ficou brincando de joão e maria, desceu ali a Marechal Florisvaldo, era véspera de desfile, ali na Apoteose, tava cheio de carro alegórico, aquela filona enorme que fica das escolas e os carros chegando, né, e ele começou a correr, dentre os carros, fez estrago não, só corria e gritava, "uhhhh, uhhhhh", que nem tal uma sirene, uma coisa assim, mó solzão, sei lá que cachaça foi aquela, se é que foi esse o químico, tinha um bloco no fundo, uma batida, e ele rebolando, desengonçado, porque lá nas argentina nem deve ter esse batuque nem de cá. Só comento disso porque no Carnaval aqui as coisas são assim, esse aparece gente doida de toda parte pra dançar, correr, beber, nesse Largo aqui, esse Largo não tinha nada, mas, ó, tá bombando, bando de gente nova chegando, gringo ou vizinho da gente mesmo, tá bonito de se ver, tocam samba, toca marchinha, um bando de marchinha que eu não ouvia há uns 20, 25 anos... E vou ver, é uma galera nova, exaltando essas músicas bonitas, é uma boa forma de encerrar a vida, digo, não que eu ache que eu vou morrer logo, mas sei que nem sou nenhum mocinho, que tô bem mais de perto do fim que pro do início. Ah, mas galera vem e toca de tudo, claro! Rola até uns roque, roque em rôu, com as levada mais pesada, e acontece música pra mais que da parte toda.

Nossa colega a gente chamava de Canteia, tudo bem que é nome de sambista homem, mas caía bem nela, e a gente chamava, e ela atendia. Vivia cantando coisa samba antigo da Unidos da Pedra Funda, aquelas que Clarinha, Diodete gravaram... Vive triste, Canteia, só ri quando tá batucando, rindo, cantando, fora isso vive triste. Me pergunto se fizeram muita maldade com a Nega, nessa vida, bonita, que era, na rua, maldade. Se fizeram maldade demais com ela minha vontade era de matar, desculpe, amigos, amigas, senhoras, senhores, mas é de matar mesmo essa gente má. Só que ninguém sabe de nada, ela só vive aí, rindo enquanto pode rir pra gente, e a gente erspeita o espaço dela. Sentada ali no início da rua do Samba Canção, parece que escolhe de proposito, essa nega linda. Sentada ali batia palma pra tudo. Batia palma pra chuva, pras criança passando correndo, pra executivo indo pro trabalho que dava um troco, pros que não davam um troco também. Depois ficava séria, mas em dia de Sol ela bem mais que sorria que ficava séria, triste. Criatura bonita, ela. Mas, gente, que faz tempo que não ouço falar dela, pra ser sincero, tô aproveitando aqui pra desabafar com vocês. Vai fazer mais de mês, e fico preocupado, que ela me some de novo. É, às vezes ela some mesmo, acontece, mas cada vez que ela some eu fico mais que preocupado, meio que durmo até mal, sabe, senhora, senhor? Mas é que vamo torcer pra ela voltar logo e voltar e trazer com ela ainda mais aplauso que antes. É bom lembrar que ela era, é, boazinha mas num era, é, idiota não, que se passava carro tentando mirar a cara dela pra molhar, desses dia de chuva, eu sei que sei muito bem que ela anotava a placa num trocinho de papel com lápis que carregava e, aqui pelas bandas, é cheio de estacionamento, né? Que ela tinha esse caderninho e toda vez que reencontrava um desses carro fazia muita questão de arranhar a lataria toda. Até que escrevi um dos meus causos contando dela, me pergunto se alguém, um dia, tomare, cisme com minha cara e de de publicar meus causo, e se vai sair em livro, e se vai ficar todo país inteiro sabendo, sabendo que Canteia batia palma tão bonito pra tudo, que vivia disso de sorrir, que não abaixava a cabeça e que mesmo com tanto tudo motivo pra se ficar emburrado nessa vida, que mesmo com tanta tristeza que ela deve ter passado, ela era e é mais bonita que tudo isso de ruim e tratava de desemburrar a gente.

No mais, é isso, que já deu a hora, e vocês tem que voltar pros seus serviços, agradeço bem, sorrio gostoso, vou até abrir a janela agora lá em casa e aproveitar que esse templo nublado passou, obrigado pela contribuição em dinheiro, mas quem não pode dar dinheiro mas que pra só de fez questão de ficar aqui até o fim, muito obrigado também, queria dar um abraço e um cheiro em todos vocês, mas sei que vocês vão se constranger, mas é isso, minha prosódia fica por aqui, e meu amor vai pra mais de além. Agradeço novamente a paciência, o amor, os ouvido, que vocês dão, hoje e constante, mesmo com tanta gente por aí virando as costas, vocês, aqui, nos olhando na cara, e rindo, se emocionando com a gente. Nem tem contribuição que pague mais que isso mas como sorriso não enche barriga, se puder deixar a contribuição, e não trabalho com hipocrisia, não! É pra comer mesmo, obrigado, obrigado de novo, moça linda, moço lindo. Deixo um sorriso por fim pra vocês, nem tão bonito quanto de Canteia, mas o bastante pra colorir seus restinhos de tarde. Venham para os próximos Recitais Circenses da Pedra Funda, tem toda terceira quinta feira do mês, desejo, a todos, um ótimo espetáculo amanhã e um brilhante futuro hoje, mais brilhante ainda que essa estrela aí queimando por cima de nossas cabeça. Obrigado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário