Às vezes tenho que olhar o seu rosto pra lembrar da noite. Cerveja não cumpre mais essa função. De vez em quando seus olhos me lembram alguma estrela, mas só às vezes. E sei lá que estrela, astrologia aqui é contigo. Também me dá uma vontade de olhar fixamente o seu riso e nem precisa ser o seu, pode ser o de sua irmã, do acessorista do elevador, da telefonista, da nova estagiária, pode ser também o que só eu enxergo nas nuances de uma tomada na parede. Estou mais injusto do que bala perdida em comunidade carente. Sim, eu sou babaca. Você não me prometeu nada. Preciso contar de novo os passos com os paralelepípedos da rua que leva pra sua casa e você sabe como é aquela ladeira. Preciso pensar em você, em parar de fumar, no prazo que acaba em três dias e eu sequer comecei. Preciso atrapalhar o caminho dos carros, mesmo que moremos no Rio de Janeiro e que qualquer dia desses eu possa ser atropelado. Faz bem também me irritar por qualquer coisa embora eu raramente faça isso (ainda que você discorde). Faz bem queimar minha língua com o cigarro mas nem tanto com o que eu digo. Não sirvo pra poeta. Acontece de se beber água de chuva e engasgar, se molhar no chão como se fosse mar, de se mudar pra Madagascar, mas isso não é poesia, eu já disse. E só se começa a pensar depois do primeiro litro de café. Eu sei do feriado e que isso não são horas pra se estar de pé. Quando cavouco essas fotos me dá um aperto no tórax mas não é ataque cardíaco. Sempre me perco no caminho entre a cozinha e o quarto. Vem um cheiro de queimado, mas não é suicídio. É o vizinho fazendo almoço. O apartamento está espaçado, você ficou com meu cachorro. Porque você comprou. Mas era presente. Deixa. No guardanapo há alguns rabiscos. É só um endereço com CEP. Uma camisinha no chão do banheiro. Não foi usada, caiu da minha carteira. Você provavelmente nunca mais vai precisar de uma, acredito. Um dia ainda boto fogo nessa casa. E eu sou Flamengo. Você adorava minhas piadas. Maldita ideia de revelar esses filmes. Astronomia, certo. Às vezes tenho que olhar o seu rosto pra lembrar do medo da morte. Envelhecer não surte mais o mesmo efeito.
segunda-feira, 24 de março de 2014
quinta-feira, 20 de março de 2014
Odoyá
O mar
O lindo mar
(Fossem os gramáticos machistas
Feministas
Feministas
Ou devotos de Iemanjá
Se travestia substantivo feminino:)
A mar linda
A mar
Curta metragem
Eu gosto de ficar na minha zona de conforto
Só que a minha zona de conforto
É o mundo todo
(Mentira.)
Só que a minha zona de conforto
É o mundo todo
(Mentira.)
quarta-feira, 19 de março de 2014
"Que nem só pelas frestas dos dentes respira a boca."
A despeito da minha pressa, tempo
A despeito do meu peito batendo em contratempo
A despeito da minha calma, falta
A despeito do que cabe, engasga
A despeito da tal cama, chão
A despeito do silêncio, guerra
A despeito do seu cheiro, rua
A despeito do incêndio, relva
A despeito do meu choro, lava
A despeito do sufoco, alguém
A despeito do enquanto agora
A despeito de que sobra, pouco
A despeito da saudade, soco
A despeito do retrato, filme
A despeito da reta, curvas
A despeito do sujeito simples, compostos
Da primeira pessoa
A segunda do plural
Presente do indicativo, pretéritos imperfeitos
O verbo intransitivo
A despeito de moderno, analógico
Da prosa, dodecassílabo
Já desfeita a distância, anos luz
Outrora teto, casa, Motel
Dos olhos castanhos, tempestade
Restaurado o infinito, muros
Apesar do Rio, Vermelho
A despeito do que é só ou do que me acompanha
A despeito do seu corpo, fim.
A despeito do meu peito batendo em contratempo
A despeito da minha calma, falta
A despeito do que cabe, engasga
A despeito da tal cama, chão
A despeito do silêncio, guerra
A despeito do seu cheiro, rua
A despeito do incêndio, relva
A despeito do meu choro, lava
A despeito do sufoco, alguém
A despeito do enquanto agora
A despeito de que sobra, pouco
A despeito da saudade, soco
A despeito do retrato, filme
A despeito da reta, curvas
A despeito do sujeito simples, compostos
Da primeira pessoa
A segunda do plural
Presente do indicativo, pretéritos imperfeitos
O verbo intransitivo
A despeito de moderno, analógico
Da prosa, dodecassílabo
Já desfeita a distância, anos luz
Outrora teto, casa, Motel
Dos olhos castanhos, tempestade
Restaurado o infinito, muros
Apesar do Rio, Vermelho
A despeito do que é só ou do que me acompanha
A despeito do seu corpo, fim.
quinta-feira, 13 de março de 2014
Calçadas
Dois colegas estão indo por uma calçada de Botafogo, repleta de bares e botecos, a caminho de uma festa qualquer. Um deles avista sua ex-namorada conversando em uma mesa, rodeada de cervejas e por outros três homens. Mesmo com sangue e raiva lhe subindo a cabeça, o figura em questão sinaliza para os dois pararem e cumprimenta a moça:
─ Oi! Juçara! Oi..
─ Opa! Fala, aí, cara!
─ ...tudo bem aí?
─ Tudo ótimo, e você? Como vai sua irmã?
─ Tá ótima, passou no vestibular agora..
─ Nossa, o tempo passa! Da última vez que a gente se falou ela tava no primeiro ano... E você, terminou?
─ Sim, faço prova da OAB mês que vem
─ Que foda, cara! Boa sorte! Ah, aceita uma cerveja? Senta aí com a gente!
─ Pois é, não, não precisa. A gente tá meio atrasado pra outra coisa..
─ Nada, beleza. Depois vamos marcar um bar todo mundo junto. Saudade do pessoal. Boa prova!
─ Valeu, valeu..
Trinta e um passos adiante, o ex-namorado da moça que conversava em uma mesa rodeada de cerveja e homens continua a conversa com o outro:
─ Cara, essa aí era minha ex.. Tu viu que absurdo isso? Ridículo! Não se dá o respeito! E na minha frente! E ela sabe que eu sempre passo por aqui! Não pensou nem um minuto em mim, tinha que ficar por esses botecos fazendo isso! E ainda vem com aquela cara toda feliz, sonsa, tentando ser boa praça...
─ Pois é, cara. Ridículo, chega a ser ofensivo. Como é que hoje em dia alguém ainda bebe SKOL?
(A propósito, os dois não passaram de "colegas" e não voltaram a sair novamente.)
─ Oi! Juçara! Oi..
─ Opa! Fala, aí, cara!
─ ...tudo bem aí?
─ Tudo ótimo, e você? Como vai sua irmã?
─ Tá ótima, passou no vestibular agora..
─ Nossa, o tempo passa! Da última vez que a gente se falou ela tava no primeiro ano... E você, terminou?
─ Sim, faço prova da OAB mês que vem
─ Que foda, cara! Boa sorte! Ah, aceita uma cerveja? Senta aí com a gente!
─ Pois é, não, não precisa. A gente tá meio atrasado pra outra coisa..
─ Nada, beleza. Depois vamos marcar um bar todo mundo junto. Saudade do pessoal. Boa prova!
─ Valeu, valeu..
Trinta e um passos adiante, o ex-namorado da moça que conversava em uma mesa rodeada de cerveja e homens continua a conversa com o outro:
─ Cara, essa aí era minha ex.. Tu viu que absurdo isso? Ridículo! Não se dá o respeito! E na minha frente! E ela sabe que eu sempre passo por aqui! Não pensou nem um minuto em mim, tinha que ficar por esses botecos fazendo isso! E ainda vem com aquela cara toda feliz, sonsa, tentando ser boa praça...
─ Pois é, cara. Ridículo, chega a ser ofensivo. Como é que hoje em dia alguém ainda bebe SKOL?
(A propósito, os dois não passaram de "colegas" e não voltaram a sair novamente.)
domingo, 9 de março de 2014
Monólogo em Areia e Dedo: Sete
Sinto sua falta
Como se me desaparecessem as pernas
em plena São Silvestre
Sinto sua falta
Como faltam ciclovias
e bicicletas em nossas capitais
Sinto sua falta
Como a quem falta atendimento
na UTI do hospital público
Como falta a glicose em quem tem
hipoglicemia
Como quem só mata aula
reprova por falta
Como quem salta a janela
sem paraquedas
Como quando falta tempero
na comida
Como quem não quer só comida
também quer saúde, diversão, e sorte
Como geladeira vazia
Durante a larica
Como uma gafieira fechada
Silencia a madrugada
Como se um trecho do seu corpo
Tivesse me passado na visão periférica
Como um fantasma
Como um susto quando
Não passa o soluço
Como faz falta a trema
em equidade
Como quem odeia política institucional
não quer reforma, quer revolução
Como a quem falta sexo
O nexo
Como a quem falta verbo
sobram adjetivos
Como se me faltassem os corpos celestes
A gravidade
Como se me faltasse o silêncio
e eu fosse
Só multidão
Tu me faltas e eu te amo como quem ama a guerra
Como quem anda com granadas
escondidas na carteira de identidade
Como um mendigo, embriagado
com a boca da garrafa de cachaça
cicatrizada no buço
Como viciados em cocaína
amam cocaína
Como quem tem a alma acariciada
por um xamã indígena
Eu caminho mas me furo as solas, as nucas
Me falta a corda bamba, a queda
Como me faltaria o cavaco
se eu soubesse tocá-lo
Como beijar a própria colcha
Como abraço sem braço
Como uma nuvem de chuva
no meio do Pacífico sem banhar ninguém
Como atentado terrorista em uma das 67 luas de Júpiter
Como quem comemora o aniversario de morte
do inventor dos controles remotos
Como uma ilha esquecida por sua antiga Colônia
declarando independência
Como quem ainda colecionará selos daqui 100 anos
Como uma telefonista
se a distância já morreu.
Sinto sua falta como se me faltasse
o café com cigarro pela manhã
Embora eu não fume
Como se eu quisesse dizer mais um verso a respeito disso
e me faltasse espaço
embora não haja
embora até queira.
Como se me desaparecessem as pernas
em plena São Silvestre
Sinto sua falta
Como faltam ciclovias
e bicicletas em nossas capitais
Sinto sua falta
Como a quem falta atendimento
na UTI do hospital público
Como falta a glicose em quem tem
hipoglicemia
Como quem só mata aula
reprova por falta
Como quem salta a janela
sem paraquedas
Como quando falta tempero
na comida
Como quem não quer só comida
também quer saúde, diversão, e sorte
Como geladeira vazia
Durante a larica
Como uma gafieira fechada
Silencia a madrugada
Como se um trecho do seu corpo
Tivesse me passado na visão periférica
Como um fantasma
Como um susto quando
Não passa o soluço
Como faz falta a trema
em equidade
Como quem odeia política institucional
não quer reforma, quer revolução
Como a quem falta sexo
O nexo
Como a quem falta verbo
sobram adjetivos
Como se me faltassem os corpos celestes
A gravidade
Como se me faltasse o silêncio
e eu fosse
Só multidão
Tu me faltas e eu te amo como quem ama a guerra
Como quem anda com granadas
escondidas na carteira de identidade
Como um mendigo, embriagado
com a boca da garrafa de cachaça
cicatrizada no buço
Como viciados em cocaína
amam cocaína
Como quem tem a alma acariciada
por um xamã indígena
Eu caminho mas me furo as solas, as nucas
Me falta a corda bamba, a queda
Como me faltaria o cavaco
se eu soubesse tocá-lo
Como beijar a própria colcha
Como abraço sem braço
Como uma nuvem de chuva
no meio do Pacífico sem banhar ninguém
Como atentado terrorista em uma das 67 luas de Júpiter
Como quem comemora o aniversario de morte
do inventor dos controles remotos
Como uma ilha esquecida por sua antiga Colônia
declarando independência
Como quem ainda colecionará selos daqui 100 anos
Como uma telefonista
se a distância já morreu.
Sinto sua falta como se me faltasse
o café com cigarro pela manhã
Embora eu não fume
Como se eu quisesse dizer mais um verso a respeito disso
e me faltasse espaço
embora não haja
embora até queira.
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