Você me jura o contrário mas eu sonho colorido, a despeito dos mitos, do que o povo diz, contrariando as ciências, a neurologia, a psiquiatria. Eu sonho à cores, a cor do verde, rosa, 'marelo. Os dias bem que tentam o tom de cinza em baldes de tinta preta ou gasolina diluída n'água quando piso na poça e me molha o sapato mas eu ponho o riso como se põe o sol e, aliás, já te falei do sol? que quase crepúsculo pinta seu rosto em azul, então laranja, então púrpura, se é que isso é púrpura, então escuro, então noitinha, já te falei do céu? que já acordei num descampado há 200 km da cidade e pela primeira vez na vida vi uma estrela cadente (que na verdade são só cometas). Parecia uma cena de filme da Sessão da Tarde, fiz um pedido se que realizou pois, como disse, acordei num descampado, já te falei do sol? de quando quase Ícaro fiz asas de papelão recortadas com tesoura sem ponta, o tal do Ícaro que só conheço por uma canção de heavy metal, e que isso era uma metáfora simples de quando perdi o medo de avião? Você me diz que já se engasgou com nuvens e eu te acredito, embora você duvide quando eu juro que sonho em Technicolor, como uma película da década de 30, como aqueles primeiros longas da Walt Disney. Waltz. Duvida quando juro que quando o ônibus parou no sinal na Cinelândia entrou uma borboleta pela janela e me pousou na mochila porque nunca mais vimos borboletas no centro da cidade. Você diz que devia ser uma mariposa como se isso fosse milagre menor. Hoje eu penso bem e apesar das más línguas, apesar, apesar de dizerem que eu devia passar batom preto pra disfarçar as feridas nos lábios, fico quieto e me contento com o verde, pois cicatrizes e esperança me caem bem.
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
Um Dia Um
Inverno. Não, inverno não, nem sei o que é isso, salve uma semana ou duas no meio de julho. Verão. Café. Praia. Sol. Pele. Câncer, câncer de pele. Não, embora me pareça interessante tratar isso. Se um dia um escritor pudesse tratar esse tema. Ninguém fala disso, é estranho. Pessoas passam as 12 horas de um dia em horário de Verão na Praia e ninguém pega câncer? Sexo, trepação, vida vazia. Escritora alcoólatra. Não. Demodê. Charles Bukowski já deu, embora ainda exista. Mundo da moda, design. Preconceito, Estácio de Sá, a faculdade. Arquitetura versus Design. Um arquiteto se apaixona por uma estilista. Desenrolar um relacionamento disso. Não, chega de relacionamentos. Rasguei suas fotos: taquei pela privada os seus presentes (os que cabiam privada a fora, os que não cabiam eu) queimei suas calcinhas. Os livros que você me deu não, porque eles não têm culpa de nada. Suas calcinhas, sim. Você não está lendo isso. Terra molhada. Já falei demais de terra molhada. Adoro o barulho de água batendo na telha da lavanderia. Vejo raras telhas hoje em dia. Se um dia um eu construir uma casa, ela terá telhas. Não, isso não é prático, exige manutenção, gastar fortuna com pedreiro. Lage. Boa. Os amigos do mundo acadêmico acharão graça. Desconstrução simbólica na reforma de mobiliário urbano. Casa engajada. Chega. Pra comer, comecemos com coisas simples. Café. Sim, tem café. Ótimo. Não, amanhã preciso acordar cedo, amanhã preciso acordar muito cedo, abrir o jornal, na sessão de empregos, e caçar um novo. Dar uma passada e uma risada na sessão de garotas de programa. Sim. Frutas. Tem, banana, maçã, kiwi. Quiuí. Piuí. Fazia o trocadilho do nome da fruta pra onomatopeia do movimento do trem com 5 anos de idade. Pão. Acabou, mas tem biscoito de gergelim. A melhor parte de gostar de gergelim é que ninguém gosta e pede um pouco. Pronto. Agora, filme. Preguiça de encarar algum dos duzentos filmes do Woody Allen que me faltam. Talvez continue dando pinceladas na Nouvelle Vague. Desde quando me tornei tão culto? Sim, oitava série. A sensação de saber muito, hoje nada, sobre coisas que os colegas faziam ideia nenhuma à existência alguma. Não, mentira. Não sou culto. Gosto de Axé, de Funk Melody. Mé-lô-ri. Essa última sílaba com som de "ri" em padaria. Quase. Algo mais simples, vamos. Vai chover amanhã? Terra molhada, já falei de chuva, certo. Você. Qual foi a última vez que me ligou? Ainda fuma como antes? Eu tentei parar há duas semanas, e estava indo bem. Exceto que para escrever esse trecho tive que acender um cigarro e daí deu nisso. Estou fumando agora enquanto escrevo essa frase. Desculpe, sei que você odeia cigarros, mesmo fumando também. Você não está lendo isso. E nenhum cigarro está aceso. Agora está. Um último, juro. Juro pra mim mesmo, digo. Boemia. Qualquer coisa de Nouvelle Vague me dá vontade de fumar. Imbecilidade. Aqui me tens de regresso. O que agora? Apago o cigarro, o resto da cerveja pela privada, outra faculdade trancada. Esses dias comecei a escrever um soneto, mas não consegui terminar. Porque eu sou assim. Tinha um verso que era mais ou menos... como? Cadê? Anotei num pedaço de papel higiênico. Difícil escrever em papel higiênico de banheiro público no bar embriagado. Bukowski de novo? Não, esse eu tentei escrever no engarrafamento mesmo. Deve estar no bolso da calça, pera. Achei: "P'ra mim, basta um dia ou noite/ Uma bala assim, perdida entre os dentes/ Ou achada com a pólvora e o ventre." Parei meio aqui porque só conseguia pensar em "açoite" pra rimar com "noite". Veio o verso "que se cala, que se banha n'orgia", mas não combina, perdi o fluxo. Isso nem é dodecassílabo, é? Nunca mais terminei um soneto. Onde eu parei? Sim, romance. Arquiteto, não. Romance no ambiente de trabalho. Podia me inspirar na minha colega que estava noiva aos 19 anos e mantinha um romance por fora com outro colega nosso, alcoólatra e viciado. Não. Amor. Uma palavra, 6 bilhões de significados. Ou 7? Um pra cada humano. Tire da conta recém nascidos, certo, considere de 2 anos de idade pra cima. Não, considere os que tiverem 50 anos em diante. Com que idade se aprende a fumar? Parei aqui. Jurei que não ia escrever palavrões dessa vez. Estou conseguindo. Aula de linguística. Peguei o dicionário, ainda nisso, e lá aponta que amor é uma "emoção, forte afeição e ligação pessoal para com outra pessoa ou coisa". Em alemão é Liebe, a palavra em polaco é Miłośc, em japonês é uma sílaba só: "Ai", representada num ideograma que é mais ou menos assim 愛. Já que eu não consigo mudar de assunto, vamos falar de amor, vamos falar amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. Amor. 26 vezes? 27. Com esse trecho inútil meu texto ficou 156 carácteres mais longo. Me disseram uma vez que amor só presta pra isso. Pra preencher lacunas da vida. E deixar um espaço enorme vazio desértico quando se for ou acabar, espaço que sempre parece maior do que o que você tinha antes:
. Vê as bolas de feno? Nossa, chega. Desde quando comecei a me relacionar com pessoas tão melodramáticas? Ah, sim, primeira série. "Fulano te ama". "Ah, fulano, mas eu não te amo, então você não pode me amar, tá bom? Não quero te machucar". E eu só queria um beijo. Já passei por coisas piores. Aprender saudade de verdade. Chega de trauma. Coisas felizes, vamos. Almôndegas. Sílabas engraçadas, significado bom. Hemorroidas. Que palavra feia. Tão feia quanto o significado dela. Rim. Pra quem aprende português, lembra "sim", que dá uma sensação positiva. Em inglês é kidney, que até eu aprender o que era me parecia mais um nome de gente. Mas é rim, é um órgão que dá pedras e dor. Isso me lembra que eu estava lendo Poema Sujo, do Gullar. Ver inspiração. Trenzinho caipira, uns papos bons e metafísicos sobre corpo que, sim, sem meu corpo não existe o Vicente, não existiria a Clarice. Percebi que não, não dá pra fazer poesia da poesia dos outros. Dá pra fazer canção. Como fizeram. O contrário, não. Que "não"? Deve ser o centésimo "não" que escrevo hoje. Estou negativo. Não. Digo, sim. Sim. Me sinto otimista. Sinto-me, certo, sinto-me otimista. Sinto-me leve. Lembro da encarnação que nasci pardal, e voava pela vizinhança veloz porque meus ossos eram ocos e porque meu corpo era aerodinâmico. Tornava-me leve no ar. Quão leve quanto possível. Uma pena não ter mais asas desse jeito assim. Ó, isso dá um verso. Um dia um gato veio e me almoçou. Outro verso. Podia ter emendado um bom poema nessas imagens. Já gastei a ideia aqui. Poxa. Preciso aprender a usar vírgulas.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
A Física
Na velocidade newtoniana da mecânica clássica o ar que você expira me entra pulmão a fora. Na velocidade da luz apago a luz e quem é você pra reclamar do escuro. Na velocidade do som o som do sim que digo soa largo que você escuta e faz depois um eco engraçado pela vizinhança. Na velocidade angular média eu pego o seu "não" e construo uma torre. Na velocidade do tempo eu sigo o relógio mas ele insiste em se atrasar quando tenho pressa e em se apressar quando eu quero é calma. Na velocidade do tempo eu lhe peço tempo quando precisamos mesmo é de silêncio. Porque no silêncio absoluto nada está correndo. Exceto em níveis subatômicos. O tempo não é o mesmo aqui pra gente no quarto na beira da sua cama ou no centro de um buraco negro ou pro mosquito fazendo o banquete suas costas. Se nos movêssemos à velocidade da luz o tempo também não seria o mesmo que é agora pra gente e mesmo o agora duraria muito menos; a verdade é que todos nós respiramos devagar demais. Às vezes acho que estamos definitivamente mais perto um do outro do que antes estávamos. Mas quando penso que a nossa distância é equivalente a do Rio de Janeiro à Tóquio se compararmos com a distância da Terra à Estrela HE 1523-0901 (que além de ficar à 7500 anos luz, daqui a pouco nem Estrela é mais), desanimo de pensar nisso. Parece que tudo é relativo nessa vida. Exceto o som d'eu gritando a palavra "CLARICE" pela janela, em caixa alta, acordando os cachorros. Esse vai chegar até seus ouvidos à cerca de 350 metros por segundo. Assim como o dia vai bater em seu rosto à 8 minutos e 20 segundos depois de ter saído do Sol. Supondo que você estará fora de casa de manhã cedo. E, claro, isso dentro das expectativas apontadas pela Física Moderna.
domingo, 13 de janeiro de 2013
Alegria
As noites são frias. Mentira, as noites são quentes, são quentes pra dedéu. Ninguém mais fala "dedéu", agora todo aumentativo é "caralho", "pra caralho". Como eu dizia, as noites são frias, mas são quentes. Eu queria que as noites fossem frias. Falo diretamente do Verão da cidade do Rio de Janeiro, no meio de um janeiro qualquer da década de 10, século XXI. Queria que fosse frio, pois acredito que o frio combinaria mais comigo. Com esse Câncer que não passa. E com meu sorriso sem graça. Mentira, eu queria que estivesse frio porque tenho mais roupa de inverno e odeio camisa regata. Estou até feliz, na verdade. Feliz porque descobri hoje cedo que Papai Noel realmente existe, apesar de não subir nem descer morro pra dar presentes. Mentira. Estou feliz porque descobri que nasci com asas, motoras e acopláveis às costas, e que meu pai escondia-as de mim no quarto atrás da casa. Mentira, claro. Estou feliz porque minha gata amarela resolveu novamente dar as caras, após semanas desaparecida. Queria comida. Ingrata, nem agradece os cartazes que pensei em fazer e espalhar pelo bairro à sua procura, cartazes que nunca fiz ou espalhei. Estou feliz na verdade porque arranjei uma perfeita desculpa para próxima vez que me perguntarem porque meus gatos não têm nome próprio. Digo, eles têm, quando os ganho ou encontro, os batizo, com nomes cacofônicos e que são atribuíveis tanto pra macho, quanto pra fêmea. Mas nunca os chamo pelo nome, e volta e meia acabo esquecendo do que os batizei. Bem, da próxima vez que o tópico surgir, direi que eles não têm isso porque o conceito de "nome" é uma categorização e recurso social humanos e os gatos e animais em geral se identificam entre si de outras formas, como por exemplo, pelo cheiro. Logo, pouca diferença faz para eles mesmos se foram batizados ou se alguém se lembra de seus aniversários. Preciso voltar a ler Jacques Derrida.
Estou feliz e à seguir enumero uma lista de boas razões para estar. As roupas no varal secaram, durante a tarde se fez umas 2 ou 3 horas de Sol, no provável horário de almoço das nuvens que nublavam o quintal. Até o colchão eu tirei pra tomar um ar. Mentira, o colchão ficou aqui dentro, com cheiro de suor, mas podia ter acontecido assim. Bom motivo para rir é o meu novo dicionário de língua portuguesa Aurélio, coisa que eu não comprava desde a quinta série (hoje Sexto Ano). Vem até com ilustrações, agora. Também me alegro porque passei da página 50 de Grande Sertões Veredas, e acredito que dessa vez termino de vez por fim de ler. Outro motivo é que lembrei de comprar mais papel higiênico antes que acabasse. Ou que achei meu exemplar perdido de "Amor de Perdição" na faxina que fiz mais cedo (que estava enfiado debaixo da pia da cozinha e só os deuses sabem como ele foi parar lá). Ou que finalmente posso deixar as janelas abertas e ignorar os mosquitos graças a um inseticida que me recomendaram. Ou porque esses remédios, cetoprofeno, cetopralá, cetoseilá têm conseguido dopar as dores da minha perna. Ou que o teto daqui de casa resolveu parar de cair. Ou que os vizinhos pararam de ouvir pagode alto até tarde. Ou porque estamos em horário de Verão e o Sol dura no céu até quase a madrugada. Ou porque eu tenho visto muitos vestidos vestindo garotas pelas ruas. Ou porque estou começando a sentir cheiro de terra molhada. Ou porque dei risada e cheguei a mudar de calçada quando me apareceu uma flor no caminho. Essas futilidades que listei me parecem bons motivos para estar feliz. Mentira.
Estou feliz e à seguir enumero uma lista de boas razões para estar. As roupas no varal secaram, durante a tarde se fez umas 2 ou 3 horas de Sol, no provável horário de almoço das nuvens que nublavam o quintal. Até o colchão eu tirei pra tomar um ar. Mentira, o colchão ficou aqui dentro, com cheiro de suor, mas podia ter acontecido assim. Bom motivo para rir é o meu novo dicionário de língua portuguesa Aurélio, coisa que eu não comprava desde a quinta série (hoje Sexto Ano). Vem até com ilustrações, agora. Também me alegro porque passei da página 50 de Grande Sertões Veredas, e acredito que dessa vez termino de vez por fim de ler. Outro motivo é que lembrei de comprar mais papel higiênico antes que acabasse. Ou que achei meu exemplar perdido de "Amor de Perdição" na faxina que fiz mais cedo (que estava enfiado debaixo da pia da cozinha e só os deuses sabem como ele foi parar lá). Ou que finalmente posso deixar as janelas abertas e ignorar os mosquitos graças a um inseticida que me recomendaram. Ou porque esses remédios, cetoprofeno, cetopralá, cetoseilá têm conseguido dopar as dores da minha perna. Ou que o teto daqui de casa resolveu parar de cair. Ou que os vizinhos pararam de ouvir pagode alto até tarde. Ou porque estamos em horário de Verão e o Sol dura no céu até quase a madrugada. Ou porque eu tenho visto muitos vestidos vestindo garotas pelas ruas. Ou porque estou começando a sentir cheiro de terra molhada. Ou porque dei risada e cheguei a mudar de calçada quando me apareceu uma flor no caminho. Essas futilidades que listei me parecem bons motivos para estar feliz. Mentira.
sábado, 5 de janeiro de 2013
Canção Paroxítona
Ela disse: "Domingo depende do Sábado; se se vai dormir, se é que se vai dormir; a hora que se levanta, se se levanta diabo; se é que se levanta Sábado. Depende também naturalmente da Sexta, da Feira, do moço, e da moça, do Leite, do quanto do leite sobrou, se é que sobrou. Depende. Se se é outro e se faz do mesmo. Ou se é um ato outro de uma coisa que não se faz ideia. Se se leva acento em "ideia". Se se justifica um abraço com um tiro. Se se quebra o seu dente com pedra ou com garfo; se está sujo seu dente. Se você acredita em duendes, depende; se se fica de quatro no meio do mato, se sobra comida no prato. Contente?"
Aí eu disse: "Depende, depende também quanto tanto você vai ficar aí parada; relativamente estátua, visto que o tempo e a terra se deslocam; e, tecnicamente, mesmo aqui, varanda, com a barriga pra diagonal, estamos a esmo espaço fora indo pro brejo sideral; se é que ainda existam brejos; depende também a Segunda, a Feira, se se cantar na rua ou xingar o vizinho; se é que ainda existam vizinhos; depende isso tudo da Lua, daquela canção, do quanto de Vinho sobrou, se é que ainda temos. Depende isso do seu beijo, depende, digo; em mim, a mim, pra mim, pra eu beijar, entende? Se é que ainda existam beijos; presente."
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