terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Esta Cidade Não é Minha

Esta cidade não é minha nem sua
Eu, paulista e dente torto
Tu, nordestino irritante
E mesmo tu, carioca da gema
da Lapa arco íris, boteco e sangue bom
Esta cidade não nos pertence mais
Pode ter pertencido aos nossos ancestrais
De séculos atrás
Se você for descendente de indígenas
Esqueça os repentistas dominicais
Estes 40 graus de febre e garoa que vira enchente
Pertencem a quem pagar mais
Este novo condomínio de luxo
Com vista pra Praia, da Barra, Leblon
(Copacabana já passou -
na tarde irritante, com o cracudo insistente
pedindo esmola e pedra
pra se matar afogado na praia suja de saco plástico)
Vida que é vida não pertence a ninguém
Esta cidade não é mais minha nem sua
A maravilha que é breve no cartão postal
Pra quem paga a vida à crediário
Se mude
A seguir, quando ficar doente de sede, de raiva e de dengue
Abra a boca
Sacuda a poeira de óleo pendurada nas asas.

Por Vento e Lá Fora

Vivendo pela metade. Metade do corpo pra fora do carro. Hoje que é quarta veio a sexta que vem avisar que já chegou. A chuva chuviscando comunica que já secou. A terra molhada diz 'nem tanto'. O retrovisor retoca o Sol se pondo. Suas unhas feitas mais verdes que rosadas que riscam as costas. Quando o Gado que dorme na beira da estrada ri com o riso certo, salta o penhasco e alça voo. Metade da vida fica aqui dentro. A outra lá fora. Você nublada, puxa o freio. Branca como a noite de horário de verão. Meia vida aqui fora. Meia aí dentro. Derrete o amor tatuado de chuva na janela e vai embora. A tempestade que vem pedindo abrigo. Parece que foi ontem que era domingo passado. Da próxima vez evitamos desastre e levamos o lar na bagagem. Meu amor que adora números: engata a marcha que aqui é 100 por hora. No rádio toca uma música brega sobre espaçonaves. O carro bate-bate, mas quem se machuca é o vento. Os pés pra fora, todo resto aqui dentro.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

17

O caminhão que passou por aqui virou
E deixou garrafas de Coca-cola estouradas na pista
Mas com algumas fechadas
as pessoas paravaram os carros no meio da estrada
e corriam pra pegar a sua
O responsável pelo seguro foi contactado assim que possível
Ninguém morreu
(exceto o filho mais novo do motorista que não tinha pecúlio)
O reboque chegou pra tentar desvirar a carcaça de metal
levar embora, mas
- a polícia rodoviária tem seus próprios conchavos
Cheia de letras minúsculas levou tudo pr'um depósito
Fiscalizou, gerou notas, e foi uma burocracia para gerar o aviso de sinistro
A família, com o filho perdido, nada pode fazer
O pai quebrou a perna em três partes, ficou um mês parado
O filho, que estava a caminho de volta de outro Estado de carona com seu velho
morreu na véspera de seu aniversário de 18 anos
Parece que a empresa dona do caminhão terminou até lucrando
Com o valor pago pelo seguro
A polícia rodoviária sempre se contenta com ninharia e pouco importa
E na noite daquela sexta feira
17 casas tiveram Coca-cola na mesa de jantar.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Quase Tudo

O amor que não volta do recesso. A paixão aposentada por invalidez. A nossa guerra mais civil que mundial. Você, mais porto-alegrense que paulista, embora potiguar. Sua pele, mais amarela que caucasiana, por mais que negra. Os dias contados mais instantes que parados. A vida passada mais confusa e entediada. O tempo parado na esquina, contando as horas, pedindo isqueiro para estranhos. O mundo que deixou pra acabar em 2013. Essa chuva que não cai. A pia sempre entupida. O dinheiro da rescisão. A prova de Cálculo. As férias em Buenos Aires. O concurso público. O dia que caiu do céu um troço azul que foi parar na lixeira. O sorriso mais alheio do que próprio. A distância mais partida que agora. O amor em recesso, o seu cheiro impregnado nas paredes e a janela emperrada que não quer abrir logo hoje que tá fazendo Sol.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Comprar um segredo
Emprestar a sorte
Um sorriso à fiado
Hoje à tarde eu quis crescer avesso e morrer bem cedo
Só que o azul que é seu nasceu e pediu pra eu ficar pra janta e lavar louça
A paciência acabou
Só sobrou um Valete e a Dama
O café acabou
O cigarro acabou
A morte morrida ou matada acabou também
O gosto indiferente de vida preso no dente
Saiu num gagarejo, desceu pelo ralo
Tapou o Sol

"Releve toda essa solidão
Eu só tive um dia bem só."

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Logo Logo

A palavra é minha
doa a quem doer
a quem doar
a boca lacrada fechada é minha
a chave de casa perdida pra sempre
no vão da poltrona
d'Os Outros
mas de que vale todo concreto
ou o abstrato
o passado ensaiado
já vai cedo e de pijama
dormir no sofá
o vestido que era seu
se comportou e se esticou
uns lábios ou dois se cortaram
de dente, de farpa
da faca, essa cicatriz se apressou e fechou
a vida se bebeu com adoçante
se faleceu com diabetes
nosso tesão bem que tentou
mas saiu minúsculo.