quarta-feira, 29 de maio de 2013

Valsa Canção Entre Pai e Filho

E são tantas canções pr'essas bandas da vida
Que eu me perco e atrapalho pro que te cantar
E na rádio não tem ninguém falando a língua
Que sua avó e a TV me ensinaram a falar
Nesse mesmo idioma que eu te disse eu te amo
Te escrevo uma Valsa, bem brega, falando:

Do seu novo medo de aprender a voar
De cair, se ralar, encravar suas unhas
Dessa vontade besta de fazer sentido
Sasafa, tapampãm de ser compreendido
E esse medo tão besta de se apaixonar
Mesmo meio sem braço, sem perna, sem baço
N'Avenida Brasil, num acidente de trânsito
E perder, logo agora, o seu celular
E perder, logo o nome, e o telefone
De toda galera e sua nova paquera:

E esquecer de repente de como é a cara dela
E pensar que você que quebrou o seu carro
Quando resolveu, Deus, não ligar a seta
E perceber, de repente, que lhe falta um dente
Mas tudinho dá certo pros recém casados
Embora vocês nem se tenham beijado
E pensar que já que não se lembra do rosto
Bem que ela podia se parecer bem
Com aquela atriz, da Nouvelle Vague
Que 'cê queria comer, se engasgar e morrer:

E esse medo, já besta, well, não se equivale
Que o seu medo mais besta de comida à kilo
Essa história já deu, não faz nenhum sentido
Sua vontade louca de ter outro corpo
Já passa, sossega, toma um banho frio
Vai, come um sorvete e tira um cochilo.

domingo, 26 de maio de 2013

Cicatriz

Se eu não posso falar sobre você agora
Então quando?
Se não faz bem te desejar mal assim
Então como?
Se não te como, não te durmo, não te ponho na cama
Não te cubro, não te sou travesseiro
Se não te sei mais o nome

Foi quando você se tornou meu vício
Não é amor, repito, é vício
Que se assusta se astronomia
Que me prega astrologia
Que me promete antropofagia
Que eu reconheço de banda, mais ou menos
Que eu lembro assim pelo cheiro
Que entra na sala e pergunta que música é essa
Que me deixou de lembrança uns pelos,
E a pressa.

(Febre que é febre se toma quente
Medo que é medo dá de repente
E por que não posso te tirar a pele agora
Se te é conveniente.)

terça-feira, 21 de maio de 2013

Duas Luas

O meu amor tem uma cor que é só sua
Que é cor nenhuma
O meu amor sofre de hipoglecemia
E ainda bebe café sem açúcar
Ainda acredita na Lua
E nas Marés
O meu amor mistura catuaba com vodka
E não tem calos nos pés
A voz do meu amor me corta
Como a tesoura sem ponta a cartolina
Dorme bem tarde e ronca
Baba aqui como se eu fosse sua fronha
O meu amor tem crenças tão estranhas
Que até o Deus que deu seu papel título
Duvida ser verdade
O meu amor acredita em eternidade
E me promete que nosso amor irá durar
Um pouco antes o fim da Sessão da Tarde
O meu amor não sabe voar
Mas se compõe de nuvens
Evita a luz como o arco íris evitaria
Se já não tivesse estado o prisma
O meu amor detesta poesia
Mas se apaixona e cisma
Evita intimidades com Internet ou celular
Pediu pra eu baixar outro dia
Um jeito outro de abraçar
Puxei a tomada e achei debaixo da cama
Um beijo ou dois pedindo banho
Sabão passado, torneira aberta
O universo e o seu tamanho
Rachamos os beijos como dava
E levamos o resto pra viagem
Enquanto descobríamos o caminho
Deciframos física quântica
Dos infernos que passamos
Evitamos fazer contas
O meu amor não me jura fidelidade
E nem eu garanto muito mais
Que um copo d'água
Saudade
Chimarrão, de vez em quando
Duas luas de Netuno
Prometo rimas, quando der
Conforme a idade
E o que mais couber na pochete
O meu amor tem me feito dor e é só meu
Dela é o tanto de saliva que eu deixo
Nos panos dos vestidos que eu vejo
Nos cantos e pescoços que eu cheiro
Enquanto ela toma banho com os seus sais
Consigo e ponto e isso.
Comigo é um sorriso
O cheiro do perfume, que a estranha ao lado veste, que faço de conta o seu
Enquanto o outro lado da rua ali
Não vira o lado da rua em mim.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Erratas

Tiago porque fumava
Sofia porque preferia escrever seu nome com PH
Rodrigo por ser militante do PSol
Rebeca por não gostar de sexo oral
Bárbara pela chapinha mal feita
Diana, sua voz irritante
Eduardo por não ter saído do armário
Hannah fazia escândalo quando ria
Renata tinha nome e sobrenome comuns
Dinho por me desejar bom dia
Zelda porque não tinha desgosto nenhum

Leonarda por se mudar pra São Paulo pra fazer doutorado
Fernanda, por ter emagrecido e passado a me ignorar
Fred, roncar alto e babar
Juliana por pintar o cabelo de vermelho
Izandro por pintá-lo de azul
Marcelo não penteava o cabelo no espelho
Fernanda não fazia a barba
Luiz tinha cara de criança
Virgínia por ser reacionária
Clarisse andava armada
A outra Bárbara por achar que cachaça é água
Roberto por me recusar um cigarro ontem
Rita nunca tinha ouvido falar em Chico Buarque
Ariadne porque era homem

Verônica era bonita demais
A segunda Verônica também era bonita demais
Enquanto Rodolfo torcia pelo Corinthians
E o Maurício pela Nossa Senhora da Paz
Damião achava que Paris era capital de Londres
Miguel tossia como se estivesse morrendo
Gustavo por ter me achado na Internet
Alan era muito exigente
Beatriz porque não se depilava
Mustafá não era árabe e cria na ONU
Já a Jenifer estudava letras e não tinha futuro
Ana frequentava a Igreja Universal do Reino de Deus
Cláudio porque não era eu

Ruan, um marxista
Pedro Vítor, um governista
Fernanda Karoline tinha nome no Serasa
Tamires, porque de vez em quando rimava
Sócrates por ter sabotado, na Feira de Ciências, o nosso trabalho
Cláudia, por ser imersiva e por seu vício em gelatina
Bernardo gostava de ver televisão aos domingos
Marcela tinha voz agradável e era viciada em nicotina
Alexandra era perfeita: eis o problema
A vigésima Fernanda me fazia programa
Nestor tinha caspa e ia ficar careca
Davi nunca usava desodorante
Álvaro vivia com pressa
Nelson era adepto de Nietzche praticante
Carolina por dizer cedo demais que me amava
Cecília, por recitar poemas
Alice, por odiar paraquedas
Julieta por se lembrar da Cremogema.

E Clarice, com c, que eu ainda nem conheci
Eu amo e odeio por estar sempre aqui.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Quase 30 Anos

"Eu tenho quase 30 anos, pois é. Tem gente que com essa idade já aprendeu a escrever o próprio nome. Eu não passei da letra N. Estão por aí fazendo filmes, abraçando árvores, militando contra a violação dos direitos humanos. Eu muito mal uso aparelhos telefônicos da década de 90, por acidente taquei fogo nas hortelãs do meu quintal, não fiz nada quando a Light cortou a luz de casa, mesmo com as contas pagas. Tem quem esteja escrevendo livros, defendendo teses de mestrado, viajando pro exterior para visitar civilizações extintas, compondo sinfonias. E eu aqui ainda comendo meleca e enrolando para escovar os dentes. Eu tenho quase 30 anos e tudo o que fiz foi aprender a fumar cigarro. E espremer espinhas, que minha pele oleosa ainda cultiva. O meu café é intragável, o meu arroz parboilizado; conheço um cara que já tá na França pra fazer petit gâteau e escargot. Tive que recorrer ao dicionário para escrever 4 das palavras da frase anterior. Já tenho 26 e ainda não me livrei da caspa e do chulé. Mas aprendi a cortar as unhas do pé. Até rimou, podia fazer um poema daqui, se eu. Já vi militantes políticos entrando em conflito direto com a polícia, gente sendo presa. Gente militando contra o sionismo, que sabiam direito o que é sionismo. Nessa idade. Nessa idade a única especialidade que eu domino é a preguiça. E jogos de baralho, sueca, pôquer Texas Hold 'em, canastra. Ainda não aprendi a gostar de fígado. Nunca troquei chuveiro. E ainda não usei aparelho, apesar dos dentes tortos. Existe alguém de 30 usando aparelho? Provavelmente minha hora de dormir já passou. Eu aprendi a ser ateu, mais pra ser do contra que por coerência. Se morasse na Holanda, onde 44% da população é ateia, provavelmente militaria o Umbandismo. Até contemplo a ideia de se ter filhos. Embora nunca achei ninguém pra me ajudar a criar. Tem colegas do tempo de escola que já começaram famílias. Quem sabe eu adoto. Mas quem deixaria um analfabeto adotar alguém? Um dia eu passo a letra J e aprendo a escrever seu nome, que começa com o L. E o meu, que começa com V. Daí deixam eu adotar, nem que seja um gato. Você percebeu que eu tenho uma noção vaga da ordem do alfabeto. Um dia aprendo a escrever a palavra amor. Me falaram que só tinha quatro letras. Eu só sei a letra A, estou há um quarto do caminho. Quatro letras. Existem palavras menores que a palavra amor?" 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

O Medo Costurado

O medo costurado; remendo menos, mais machucado.

O medo eu tenho sim mas o que que sou pra repetir o acerto.

Que pra tanto temer a pressa, o trabalho, a obrigação, o prazer, a goteira, o inseto mesmo após de morto.

Que é você para me ler-repreender a próclise, a dúvida, a métrica, a vírgula, a ética, o êxito.

Que medo faz pra escrever quem não larga o dicionário; que curva a curva faz e evita o óbvio; medo do completo, do concreto, do pronome pessoal do caso reto; do repente de não se ter assunto; de cavar o quintal e achar defunto; do Sol explodir antes do prazo.

Medo do ponto parágrafo.

Seu medo aqui na boca ainda me fazendo cicatriz.
Quem sangra quem primeiro? era o meu medo quem não fiz.


01:28

Que amar amei, disso pouca dúvida
Questiono todo o desespero aqui necessário
Se podia ser abismo, cavado estava o chão
Se podia ser montanha, apontada e riste ao céu.