O ser humano respeita o próximo
como o motorista carioca respeita
a faixa de pedestres.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2015
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
Re(cipro)cidade
Um pote de tinta guache, um ponte de tinta para tecidos, que não deve ter substantivo próprio que resuma sua qualidade nesta língua. Pincel respectivo ainda manchado de azul, loção pós-barba, leite de alpiste que cura diabete, fio do fio dental perdido pendurado na bica, que tem um pingo pingando na pia, que por sua vez pinga pelo cano de baixo no chão; e o chão pingando água em outro lugar subterrâneo que agora está transbordando; o espelho refletindo duas discretas cáries não tratadas nos dentes de baixo. Este banheiro dava um poema concreto.
A pegada do surdo que por falta de assunto só marca a cabeça do primeiro compasso. O primeiro compasso, atrasado, vira síncope, a falta de coordenação parece improviso, o cigarro queimando no elo da beira do latão vazio de cerveja Schin (esse cigarro queima ignorado), a dúvida de que vórtice no espaço tempo trouxe este latão vazio de cerveja Schin; diabos, o nublado do céu pingando garoa, a garoa pingando na telha, tão discreta, tão silenciosa que sequer é acompanhamento rítmico do surdo que não a ouve; tão leve que parece que paira no ar para esbarrar na cara, mas tão sutil que não lava nada. Esta varanda dava um poema concreto.
A janela de madeira fechada porque quebrada, as pernilongas espécie culex despertando de seu sono debaixo dos móveis para se alimentar e pôr seus ovos, os pontos pretos na superfície da água parada esperando a garoa lá fora apertar até vazar do teto, os sufocar e nascer; o vizinho evocando o Trem das Onze, o samba, o piso de madeira vibrando ao som, engraçado como a madeira vibra, provavelmente como sua forma de árvore vibrava também; sendo erguidos do chão, os poemas xerocados do fanzine jamais lido tremendo silenciosos ao contato das mãos que os levantam, hoje sim, hoje sim, hoje não. Muito embora vagabundo, este quarto dava um poema concreto também. E, como podem ler, um daqueles de pouca generosidade.
(Creio eu: ao contrário desta cidade.)
(Creio eu: ao contrário desta cidade.)
terça-feira, 1 de setembro de 2015
Micropoesia para Dispositivos Móveis: Dezenove
Era da mesma altura que Chico Buarque. Alguma coisa nessa existência devia de me igualar ao homem, então que fosse a altura. Fui num show, cheguei cedo, me apertei na quinta fileira e fiquei mirando e calculando a altura dele com relação ao pedestal do microfone. Quando acabou dei meu jeito de subir e antes que os seguranças que não esperavam que alguém fosse demente de fazer aquilo se dessem conta que sim, alguém seria, subi. Subi e fiquei reto, coluna ereta e me aproximei do pedestal, que vi bem que ele mal tinha mexido durante a coisa toda. Batata, tava lá, mesma altura. Abri um sorriso e dei um salto pra pista porque um dos vigias já me vinha cheio de amor.
Era novo quando fiz a proeza, fiquei confortável com a sensação de igualdade por anos e anos. Eis que o acaso é uma coisa insuportável feita pra te deprimir e na noite de um belo dia Chico Buarque me aparece pra dar uma canja num sarau graúdo na Lapa. Amigos de amigos, aparição surpresa. Tava lá por acaso, mesmo. Fico lado a lado, sem palco, de frente. E o bicho é mais alto que eu. Achei que ia enfartar, fiquei vermelho, suponho. E dizem que quando a gente envelhece, a gente encolhe. Acabou a palha, ainda fui calcular e abater depois a diferença de altura pela grossura da sandália que ele tava calçando. Pois é, tava perto, anotei a marca. Vai que era dessas com calçamento.
sábado, 22 de agosto de 2015
Micropoesia para Dispositivos Móveis: Dezoito (ou "Breu azul")
A conta atrasada
Manhã atrasada
Eu vivo de sombra
Que me cortem a luz
Decoro os escombros
Com as mãos, breu azul
Perfumei de pólvora
Que sê contra a regra
Cansei de esperar
O mundo acabar
Acabou o fósforo
Acabou a paz
A bolha de pus
Dourada na testa
Cansado do ódio
E de reagir
Queria um poema
Escrevo um dilema
Eu quase não imploro
Eu quase não insisto
Vê aquele caderno
Com o Hino no verso?
Acabaram as folhas
Fogueira passada
Quero outra canção
Quero outra bandeira
Preciso demais
De mais desespero
Eu quase não insisto
Eu quase não imploro
Quase não repito
As mesmas palavras
Gravadas em verso
Te odeio, te amo
Me deixa rugir
Bem quieto em meu canto
Quem ia acordar
Se isso fosse um canto?
Manhã atrasada
Eu vivo de sombra
Que me cortem a luz
Decoro os escombros
Com as mãos, breu azul
Perfumei de pólvora
Que sê contra a regra
Cansei de esperar
O mundo acabar
Acabou o fósforo
Acabou a paz
A bolha de pus
Dourada na testa
Cansado do ódio
E de reagir
Queria um poema
Escrevo um dilema
Eu quase não imploro
Eu quase não insisto
Vê aquele caderno
Com o Hino no verso?
Acabaram as folhas
Fogueira passada
Quero outra canção
Quero outra bandeira
Preciso demais
De mais desespero
Eu quase não insisto
Eu quase não imploro
Quase não repito
As mesmas palavras
Gravadas em verso
Te odeio, te amo
Me deixa rugir
Bem quieto em meu canto
Quem ia acordar
Se isso fosse um canto?
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
Micropoesia para Dispositivos Móveis Dezesseis
Margareth vibrou e vibrou com a nova mensagem mas era publicidade ao invés de amor. Mirou entediada de banda a barba mal-feita duas fileiras à frente e à esquerda. Prendeu a atenção, pensou que era tesão. Mas tinha um sorriso esquisito quando virou de lado e o que cortou o barato. O sorriso esquisito era do Caio, que riu da animação em três dê na televisão, onde um boneco punha no outro uma boia pois com ela ambos evitariam se afogar e achou graça da desgraça simulada. Percebeu que um rapaz moreno com rabo de cavalo, ao contrário de Margô, que havia cortado curto na semana, havia gostado do riso e sorria de volta e pensou consigo mesmo minha nossa nunca tinha visto um marmanjo tão feio assim e que nem se aparasse a juba e tivesse uns 20 quilos a menos daria. Percebendo-se rejeitado, Hugo, que nunca entendeu direito porque gosta de olhar fixamente às vezes paro o rosto de rapazes aleatórios em coletivos públicos, virou a cabeça e começou a olhar pro nada.
O seu nada, porém, apontava para Cintia, que era de fato muito bonita e pensou que o cara esquisito de cara estranha estava sendo indiscreto em disfarçar sua atração, Então resolveu focar na baía que se mexia na janela ao lado e checar do que falavam no grupo virtual da família. O Rio de Janeiro se aproximando lembrou do horário de almoço e Cintia começou a pensar no que ia comer, tanto que acabou abrindo seu sorriso particular. Quem notou esse foi Taís, que voltava pra casa depois de uma aula cancelada mais cedo e de frustrada por ter gastado passagem, dinheiro e tempo, se sentiu um pouco redimida por ver alguém tão bela sorrindo por qualquer motivo fosse. Cintia olhou de volta e gostou de olhar pra Taís. Hugo havia mudado o ângulo do seu nada e não podia reparar. Caio só via a mesma linha do tempo no celular, repetida de horas mais cedo porque seu serviço três gê havia sido cortado por falta de crédito. O celular de Margareth descarregou e ela se flagrou prestando atenção ao redor. Tanto que esbarrou na sensação de que trocaria o namorado escritor pelo funcionário das barcas (seria um marinheiro?) que atracava agora a corda do laço gigante no pier da Praça XV. Sem a mesma sorte, pois seus aparelhos telefônicos ainda se encontravam repletos de bateria, Taís e Cintia nunca mais se viram novamente.
O seu nada, porém, apontava para Cintia, que era de fato muito bonita e pensou que o cara esquisito de cara estranha estava sendo indiscreto em disfarçar sua atração, Então resolveu focar na baía que se mexia na janela ao lado e checar do que falavam no grupo virtual da família. O Rio de Janeiro se aproximando lembrou do horário de almoço e Cintia começou a pensar no que ia comer, tanto que acabou abrindo seu sorriso particular. Quem notou esse foi Taís, que voltava pra casa depois de uma aula cancelada mais cedo e de frustrada por ter gastado passagem, dinheiro e tempo, se sentiu um pouco redimida por ver alguém tão bela sorrindo por qualquer motivo fosse. Cintia olhou de volta e gostou de olhar pra Taís. Hugo havia mudado o ângulo do seu nada e não podia reparar. Caio só via a mesma linha do tempo no celular, repetida de horas mais cedo porque seu serviço três gê havia sido cortado por falta de crédito. O celular de Margareth descarregou e ela se flagrou prestando atenção ao redor. Tanto que esbarrou na sensação de que trocaria o namorado escritor pelo funcionário das barcas (seria um marinheiro?) que atracava agora a corda do laço gigante no pier da Praça XV. Sem a mesma sorte, pois seus aparelhos telefônicos ainda se encontravam repletos de bateria, Taís e Cintia nunca mais se viram novamente.
Micropoesia para Dispositivos Móveis: Dezessete
A inspiração me acontece nas coisas mais inúteis. Na coceira repentina de um nariz agora, sinusite, nunca tive sinusite na vida e agora depois de velho. Aliás, espirrar já foi melhor. Mudava a circulação sanguínea da cabeça, quase que dava uma onda que ia durar meio segundo. Hoje espirro e vem agarrada uma tosse única, seca, parece um soco no tórax. Amava resfriar. Já amei também com mais técnica e método. Acho que toda criança é uma especialista em exercitar o verbo amar e posteriormente conforme a velhice a gente deve se esforçar para pelo menos não passar a linha do amadorismo e cair na mediocridade dessa arte. Eu mesmo me irritei por uma estupidez esses dias. O rapaz queria saber se o ônibus cujo ponto final é na Candelária passaria na Uruguaiana. Se estávamos ambos na Passarela 6 da Avenida Brasil sentido Centro a resposta era óbvia que sim, caralhos. Mas foi uma grosseria interna que calei e guardei pra ziguezaguear no estômago. Na boa maioria das vezes um ato de gentileza é a melhor saída. Vê como me inspiro no supérfluo? Quer coisa mais descartável que gastar tantos caracteres arquitetando um conselho?
segunda-feira, 27 de julho de 2015
Micropoesia para Dispositivos Móveis: Doze
Alimentava meus demônios com ração industrial. Carboidratos, cigarros, versos de canções com milhões de views no YouTube. Tanta composição química me morreria de cansaço no final da vida. Mas já alimentei meus demônios com minha carne humana. Suculenta, devoravam-na aos finais de semana. Enquanto explodiam edifícios gentrificados para gentrificá-los ainda mais. Pra não morrer de tédio antes do final da vida, até porque depois seria difícil, fui vender minha arte na selva, e admito ter encontrado razoável recepção dentre jaguatiricas e corretores imobiliários.
Hoje em dia alimento meus demônios com uma bomba nuclear. Que pulsa e explode dentro da gente, dentro do mar. Destruindo qualquer verdade aos rasgos com a mesma energia que uma criança dilacera uma embalagem de presente numa manhã de Natal. Aqui humildemente imploro qualquer pedaço de ti, pois necessito. Até ante-ontem eu morreria de amor no final da vida. E essa era a pior das hipóteses.
Hoje em dia alimento meus demônios com uma bomba nuclear. Que pulsa e explode dentro da gente, dentro do mar. Destruindo qualquer verdade aos rasgos com a mesma energia que uma criança dilacera uma embalagem de presente numa manhã de Natal. Aqui humildemente imploro qualquer pedaço de ti, pois necessito. Até ante-ontem eu morreria de amor no final da vida. E essa era a pior das hipóteses.
Micropoesia Para Dispositivos Móveis: Quinze
Ai, Iolanda. Que amor é esse que se embrutece assim? Saudade é essa folgada entre os dentes? Comecei a ensaiar um samba pra lhe fazer surpresa mas não levo de fábrica esse seu jeito sincopado. Encontrei barulho estranho vindo do seu quarto e comecei escrever (mas parei, que a luz dos olhos do novo smartphone me tirava também o sono). Continuei hoje cedo e a outra coisa a me deixar de pé era o seu respiro num compasso mudo, acariciando a almofada recém comprada que tenho certeza ter valor ou afeto algum pois ainda levava a etiqueta. Perguntei me batucando, agora escrevendo de dentro da minha cabeça, Que afeto é esse que lhe sangra à punhos? Toca seu rumo. Não que eu seja de sorrir tão facilmente ou tenha uma cura instantânea, dessas de se dissolver em água fervente, para o seu dilema. Desculpa inclusive se eu meto a colher nessa poluição e vai que nem era ruído o que eu ouvia mas uma canção? O outro verso se seguia assim. Que punho é esse que lhe sangra os sonhos/ Mas lhe recusa a estender a mão? Só queria dizer, Iolanda, amiga, que se precisar de um café ou um cafuné (que, além de serem as duas únicas coisas que sei fazer decente, foram as palavras que calhei rimar), estou ainda logo no quarto ao lado.
quarta-feira, 22 de julho de 2015
Urgência
Todo desespero emergencial de se viver a vida
Após uma experiência de quase morte:
Engasgo,
Logo existo.
Após uma experiência de quase morte:
Engasgo,
Logo existo.
quinta-feira, 16 de julho de 2015
Binbou Yusuri
Que hora tu acha que chega aqui no tiroteio?
Que horas teu receio bate ponto neste fim de mundo?
Quando tu acha que consegue derreter essa calota polar?
Que eu tô morrendo de câimbra
Juro
Dentro do meu lacrimejo cabe outro mar
Com o dente rangendo encaixa mais um samba
Nessa rua deserta cabe outro rio
Baita secura danada de beber uma nuvem escura
Eita! essa sede de tempestade
"Nesse desespero cabem dois", sorrio
"Fique à vontade."
Que horas teu receio bate ponto neste fim de mundo?
Quando tu acha que consegue derreter essa calota polar?
Que eu tô morrendo de câimbra
Juro
Dentro do meu lacrimejo cabe outro mar
Com o dente rangendo encaixa mais um samba
Nessa rua deserta cabe outro rio
Baita secura danada de beber uma nuvem escura
Eita! essa sede de tempestade
"Nesse desespero cabem dois", sorrio
"Fique à vontade."
segunda-feira, 13 de julho de 2015
Soslaios
Vejo sombras pela minha visão periférica com frequência. Às vezes é só uma mancha de gordura no óculos, poeira ou leite em pó, mas noutras eu tenho certeza que são uma espécie catiço. Elas se mexem, dançam, rebolam, acenam. Tudo bem que tem vez que eu viro bem rápido para pegá-las no flagra e dou de cara com o fio do fone de ouvido balançando da beira da mesa. Mas é impossível que seja sempre isso. Tem vez que era só uma barata se mexendo mesmo, ter o raio de um azulejo branco no quarto favorece essas coisas, qualquer bicho passando tu já acha que é um demonho rastejando pra puxar teu pé. Deve de ser mesmo. Só que juro que teve aquele dia que a sombra tava no canto, eu virava, não achava, continuava lendo sei lá o que tava lendo no dia, daí o escuro de novo acenava, como que pra me provocar, e eu virava, e bem rápido que teve uma hora que eu vi, e olhei bem nos olhos da entidade, sei lá como posso chamar aquilo, e aquilo me olhou de volta, e tava com a vista vermelha, e pediu um dinheiro pra comprar uma cachaça, até que um segurança veio e a puxou pelo braço e é verdade, eu tava naquela Biblioteca ali do lado da Central. Não tô de deboche não, sério, porque teve uma vez que a escuridão veio e se amarrou feito cachecol no meu pescoço, eu tava deitado, e tava gelado nesse dia, mas eu não sou de amarrar essas coisas em mim não porque tenho medo justamente de sufocar assim como sufoquei quando isso veio, se enrolou, e tava quente pra carai, e eu puxando, e o negócio era peludo e fazia um barulho estranho que parecia uma onomatopeia de terremoto e eu, já com dificuldade de respirar, comecei a espirrar, engasgar, e antes de gritar ou resolver me sossegar com minha morte percebi que era meu gato que devia ter entrado aqui no quarto quando a moça que trabalhava aqui em casa veio apagar a luz.
Confesso: Confessei
Guardo um segredo gritado
que confesso pros muros
em nosso idioma particular
"Sou uma mancha velha
Na sua roupa de dormir"
Nem tão específico assim
E sem seu endereço
Conto com a sorte
Espero você passar e ver
Espero a América Latina ir parar no Polo Norte
Espero dar as seis da tarde numa véspera de feriado
Espero o 438.
O que der pra acontecer primeiro.
que confesso pros muros
em nosso idioma particular
"Sou uma mancha velha
Na sua roupa de dormir"
Nem tão específico assim
E sem seu endereço
Conto com a sorte
Espero você passar e ver
Espero a América Latina ir parar no Polo Norte
Espero dar as seis da tarde numa véspera de feriado
Espero o 438.
O que der pra acontecer primeiro.
Quedas
Cai, a gravidade
Cai a pressão
Cai o Eixo
Cai a pele, com a idade
Cai a cotação
Cai o queixo.
sexta-feira, 5 de junho de 2015
Per Se
Sozinho ninguém aprende a abraçar
Ninguém aprende a aceitar
Que a beleza alheia
Não subtrai
A nossa.
Sozinho não se faz coro
Não se tem corpo
Não se faz parte
Não se tem parto.
Sozinho
Ninguém tem final de semana
E, sem latifúndio e pulso forte
Nem vitaminas de banana.
Ninguém aprende a aceitar
Que a beleza alheia
Não subtrai
A nossa.
Sozinho não se faz coro
Não se tem corpo
Não se faz parte
Não se tem parto.
Sozinho
Ninguém tem final de semana
E, sem latifúndio e pulso forte
Nem vitaminas de banana.
domingo, 24 de maio de 2015
Estalar
O grito ecoado era um só, que era pra pisar fundo até ouvir um estalo. E eu nunca conseguia, pisava o pé como se fosse um caco de vidro e eu estivesse descalço. Ou pisava como se acreditasse que o peso do corpo não ia inteiro se concentrar naquele ponto mas se espaçar, flutuar e, por algum motivo que a física ainda estava por explicar, poupar a vida do indivíduo esperneante. A casa onde morávamos era repleta de pestilências, uma contrapartida de morarmos no Centro da cidade. Era menos questão de higiene que de localização geográfica e arquitetura pois eram velhas as tubulações, o piso de madeira posto há décadas atrás, quando uma engenharia ultrapassada os projetou, criava diversos porões embaixo de nossa residência, fazendo morada de ratos e baratas. Sobretudo baratas. O medo delas acabei por perder muito cedo em consequência disso. Eram várias, e eu pouco espaço tinha para temer, afinal, era eu ou elas. E veio esta lição sobre morte quão cedo quanto possível: se for pra matar, se mate bem feito. Uma certa noite, voltando da escola, acesas as luzes do banheiro me deparei com não 1, ou 2, nem 5, mas 8 destas ditas-cujas. Provavelmente foi ali que perdi de vez a aflição. Matei as 5 primeiras e as outras 3 surgiram em seguida, secas por vingança.
Mas a lição do estalo veio anos antes. Meu padrasto sempre reclamava que eu não as matava mesmo, só quebrava o casco por cima. E, ainda vivas, elas se arrastavam para as frestas escuras onde as baratas se escondem e conseguiam dar luz aos ovos por nascer. E ele fazia questão de frisar que eram centenas. No caso aqui eu gritei porque a criatura havia desaparecido, ou ressuscitado, segundo eu. Aí veio a pergunta do estalo. Porque o estalo era o indício de que a caixa torácica da criatura havia quebrado e ela não poderia ir mais a lugar nenhum. E não, o meu pisão deve ter no máximo feito ela desconjuntar uma pata ou três ou ter lhe dado um mal jeito na coluna. E ninguém morre de torcicolo, acredito. Então cada vez que aparecia uma, ele fazia questão de me chamar para matá-la, como se eu fosse um gato em fase de aprendizado. Ele vinha e virava o bicho com um empurro de pé e dizia. "Pisa até o fundo". Meu chinelo, que já era uma borracha velha e molenga, me permitia controlar o peso da pegada e eu acabava nunca pisando até o fim. E ele repetia, gritando no meu ouvido, que queria ouvir estalar. E eu tentava pisar aos poucos, arrepiado de nojo ou pena, nunca entendi, aliás, até ouvir o primeiro "crack". Olhava para ele pra saber se era o bastante e ele gritava "mais fundo!", e eu tinha continuar o movimento para que o número de "cracks" fosse de se perder a conta e não estalasse mais nada.
Posteriormente a gentrificação da região nos obrigou a mudar de residência e nos afastamos da região Central. Por mais que a nova casa tivesse muito menos insetos e ratos, nunca superei a aflição de assimilar esse som com esta angustia. Mesmo agora pouco, quando abracei meu filho de 5 anos com força nos braços e estalei sua coluna de leve, um impulso cerebral horroroso, que durou nem um quarto de segundo trouxe, de volta a memória da sensação de estar matando novamente.
domingo, 17 de maio de 2015
"Uma gota de sangue no chão do banheiro..."
Uma gota de sangue apareceu no chão do banheiro este final de semana. Lógico que fiquei intrigado. Procurei algum bicho pela parede que, por uma mutação genética, tivesse sangue vermelho como aquele e que eu pudesse ter ferido e pisado enquanto me banhava. Sou de gestos expansivos e podia muito bem tê-lo feito. Encontrei apenas os costumeiros, aranhas-de-poeira, gongolos, moscas-dos-filtros, apenas artrópodes cujos fluidos, mesmo após teste prático, não resultavam nesta coloração. Nem mosquitos aquela tarde moravam em meu lavabo e portanto tive que eliminar a mais plausível possibilidade de ter assassinado um destes insetos logo após o seu almoço. Cogitei os demais moradores da casa. Só havia um, que não estava ali desde a sexta feira anterior e eu me encontrava em pleno domingo. Seu sangramento haveria de ter manchado o chão? Talvez, mas eu teria de ter aberto a porta do banheiro, retirado minhas roupas, cortado as unhas, usado o vaso sanitário, tomado banho, e ter repetido este ritual completo três vezes e só agora ter notado esta gota de sangue vermelho no azulejo bege. (A barba eu farei novamente apenas na próxima semana.) Pouco provável. Além, tanto eu quanto o morador ausente somos do sexo masculino, o que diminuiria as chances de um sangramento desta magnitude ter ocorrido casualmente sem causar alarde. Pouco antes de tossir novamente já havia usado minha própria toalha úmida para limpar a poça de sangue. A segunda feira estava perto e haviam problemas maiores com que me preocupar. Por último verifiquei, sem sucesso, o teto. Porque vai que o sangue havia brotado de lá? Desde que vi um imã descer em câmera lenta um tubo de cobre venho concluindo que a gravidade pode ser traiçoeira.
domingo, 10 de maio de 2015
(Mas O Gesto Não Cabe Aqui.)
Já me antevejo e te disparo meu amor:
mais que por tentar
(em vão)
seguir a contramão do tempo que segue sentido único
– se falarmos em termos da matéria –
porém a memória cumpre esta função metafísica
de apontar para dentro e pro passado.
Esta revivência me revisa tuas lições de carinho,
epistemológicas ou tácteis,
posturas, afagos,
que repito agora ainda com imperfeição.
(Embora calejado.)
Disparo pela saudade,
materna, por definição,
que aprendeu contigo a gritar só quando necessário seja
– isto é –
se desmedidamente resignada
se demasiadamente calada.
Já me antevejo, portanto, e grito:
(Mas o gesto não cabe aqui.)
sábado, 9 de maio de 2015
Monólogo entre Cinco Paredes: Quatro (Chefe and I)
Quase toda noite sonhava que era demitido. O pesadelo recorrente favorito! E não era apenas uma conversa específica rememorada, mas uma gama grande de situações que podiam resultar na demissão. Claro, certas cenas clássicas se reprisavam aqui e ali, como sair do elevador injuriando o patrão e ele estar na porta assim que abriu ou virar uma esquina do escritório prometendo vingança em voz alta e esbarrar com ele, com a frase "agora eu te peguei, filho da puta" esculpida na cara. Situações que quase foram realidade também apareciam, como o mero ato de enviar por engano uma foto sua nua para o grupo do trabalho de email ou Whatsapp. Mas frequentemente eram fatos complicados de se repetirem no mundo real e aí que tava a grande graça! Como da vez que, junto dos outros colegas de serviço, quase morriam para capturar e matar um elefante cuspidor de fogo e, bem na hora que iam fazer um baita churrasco com a carne, chegava o raio do chefe dizendo que o horário de almoço já tava acabado e os processos não iam ser protocolados sozinhos, não!
Sonhou também uma vez que ficava pra morrer no alto de um prédio na beira da Avenida Rio Branco, embora nunca tinha trabalhado lá, pendurado pelos dedos na barra de concreto de um prédio em construção, com o supervisor que tinha na época levantando dedo por dedo até o corpo cair: a ousadia aqui era que em plena queda, veja só, teve o instinto de erguer o dedo do meio e gritar um "vai tomar no cu!" sonoro que, bem instante antes de bater no chão da Carioca, conseguiu ouvir que foi respondido por um "então tá demitido, mermão, vaza daqui que ainda é justa causa!" Como essa frase enorme inteira conseguiu voar pros ouvidos de um cérebro espatifado no chão? Aí é coisa que só o mundo dentro daquele inconsciente explica.
Havia uma versão mais obscura e angustiante do sonho que ficava frente a frente com o patrão numa sala, sem testemunhas, tendo que implorar pra manter o emprego e jurar de pé junto mentiras deslavadas: não só não era flamenguista mas como odiava mulambos; não só odiava mas como tinha alergia à trilogia clássica de Star Wars; não só tinha alergia, mas detestava cevada, cerveja, qualquer tipo de cachaça, vinho, uva, vodka, birita, nem pintados de energético. Geralmente quando acontecia essa versão era melhor virar e pedir demissão no mundo real mesmo.
quinta-feira, 7 de maio de 2015
Monólogo Entre Cinco Paredes: 3; Furto Samba
Tinha acordado com 500 reais no bolso. Foi na Lapa mesmo, digo, nem sei se aquele pedaço do Centro é Lapa ainda ou Glória. Tava debaixo de um balanço, todo sujo de areia, fedendo a cerveja, mas não estava embrigado. Sério, cara, não tava. Acho que me doparam com alguma coisa. Minha carteira tinha sido roubada, o celular também, foi o primeiro instinto bater nos bolsos e ver se ainda estava tudo ali, e não. Bateu o desespero, demorei uns minutos até me dar ligar que a identidade dormiu no bolso esquerdo da camisa. Se foi eu ou o ladrão que colocou, não sei até hoje. Só me aliviei quando comecei a fazer uma geral do que havia perdido de fato, do que estava na carteira versus o que tinha ali na hora e percebi que nem tinha perdido tanta coisa. O cartão de crédito era só bloquear, mas era tão velho que com várias letras de códigos gastos era muito difícil alguém conseguir adivinhar os dados equivalentes dos números que faltavam. O celular era velho, velhíssimo, na verdade, apesar de ter sido desses moderninhos na época, com Android. etc, eu já tinha comprado ia fazer dois anos, três anos e qualquer dia ia despedaçar em pleno uso, além da tela de touch que parecia esquizofrênica tremendo e dando coordenadas só de eu olhar pra tela. Enfim. Já me levantava, tirava a jaqueta, que é o que fedia a cerveja, quando um arrepio me deu na espinha. Meu poema. Puta que pariu, meu poema. Eu tinha escrito naquela noite mesmo, no Bar da Cachaça, com dois amigos em volta. Na verdade nem era bem um poema, tinha mais a intenção de ser uma letra de samba, não que letras de samba não possam ter qualidade poética, é modo de dizer da forma. Escrevi pra música que um desses amigos havia me cantado naquela mesa mesmo. Só tinha a melodia, que ele murmurava enquanto ia arranhando o cavaco. E eu peguei e fui escrevendo conforme bebia, o bom do frio de julho é que a cerveja demora a esfriar, embora beber gelado no frio não seja indicado pra quem sofria de sinusite, que nem eu. Mas, caralho, meu poema! Que eu havia dobrado e guardado na carteira, junto da minha última nota, que era de dois reais, eu lembro que ia passar a limpo e terminar de lapidar um verso aqui e ali e passar depois pro meu amigo ver se dava pro gasto mesmo de se ser uma letra de samba, já que eu nunca tinha tentado escrever uma. Por tudo que há de mais sagrado nessa vida, meu poema, cadê meu poema!? E eu gritando, remexendo os bolsos pra ver se quem havia me atacado, atentado, sei lá qual era o nome que ia configurar aquela agressão na delegacia depois, pra ver e torcer se quem tinha tido a breve gentileza de colocar a identidade no meu bolso ia fazer a mesma gentileza com algo tão mais delicado quanto um poema. Porra nenhuma.
Parti para a delegacia mais próxima para fazer o B.O. E para explicar pro policial que o que me preocupava mesmo era o raio do poema? Roubaram um celular? Sim, mas era velho. Só tinha dois reais na carteira. "Meu senhor, você não entende, o que eu quero mesmo de volta é poema!" Como assim? Eu escrevi num guardanapo, dobrei, guardei na carteira, eu queria de volta! Não dava pra abrir inquérito por conta disso! Daí eu perguntei, mas e a propriedade intelectual? Não havia registrado nada, escrevi ontem, minha memória é uma merda, não ia lembrar de nada, ainda mais que já tava meio bêbado. Minto, que lembrava do primeiro verso: "Se cada vez que me negar alegria, eu vir te perdoar, Maria..." O moço que me olhava torto passou a dar umas gargalhadas e, quando parou que resolveu que ia quebrar meu galho e incluir o verso que eu disse no Boletim de Ocorrência. Eu omiti o fato que tinha 500 reais na carteira, porque daí que ele não ia me levar a sério mesmo. Chegando em casa, dormi, acordei, tomei banho, avisei meu amigo o ocorrido, não sei se nessa ordem, e ele veio e riu demais também, e falou pra deixar pra lá, que ele nem sabia se ia poder gravar aquele samba, e eu arrasado, guardei o B.O na gaveta e fui dormir. Mas eis que me passaram 5 meses, e é por isso que eu estou te contando essa ladainha toda, porque se eu tivesse lembrado, naquele dia, de mais de um verso do que aquele verso que eu falei ali há pouco, eu estava hoje milionário, camarada. Muito mais que os 500 reais de miséria que se indignaram a me pagar! Só que só com 12 palavras o B.O não ia me valer de nada. Por quê? Achei que você já tinha reconhecido a música! Escuta! Porque eu que fiquei de maluco nessa história! Me passaram 5 meses e não foi que eu me liguei o rádio e não ouvi o raio de um samba que começava justamente com a porra do meu verso, do meu poema?
terça-feira, 28 de abril de 2015
Monólogo Entre Cinco Paredes: Dois (ou "Finado Papo")
Que doideira, a última coisa que lembro era atravessando a rua. Boa tarde pra você também. Desculpa, é que eu tô pensando alto, onde eu tô exatamente? "Onde" é meio relativo, é que você morreu, cara. Como assim? Morreu, a última coisa que você se lembra não era atravessando a rua? Era. Mais o quê você lembra? Lembro que... sei lá. Vai, se esforça, se tu lembra disso, tu lembra de mais coisas. Certo, eu lembro que eu esperava o sinal abrir, estava mandando mensagem pelo celular, daí eu vi de relance uma pessoa atravessar de volta e lembro de ter tido a sensação que o sinal estava aberto. Mas você nunca viu se o sinal tava aberto mesmo, certo? Sei lá, que diferença faz agora? Nenhuma. Pois é. Na verdade, mais ou menos. Por quê? Porque isso pode explicar algumas coisas sobre como você foi enterrado. Como assim? Já explico, senta. Certo... eu estava deitado numa cadeira? Então, você estava só com a sensação de estar deitado, assim como estar sentado também é só uma sensação agora, mas tenta não focar nisso. Certo, tem alguém ali? Ali onde? Ali atrás da porta. Tem. Quem é? Eu tô no céu? Bem... Puts, bem que eu devia não ter largado religião, caralho. Eu era espírita, né. Você é meu anjo da guarda? Não. Onde eu tô afinal? Cara, você tá dentro de você mesmo. Como assim? Você tá dentro de você mesmo, o "você" que você tá pensando agora é na verdade uma fração da sua consciência que está, neste exato momento que nos falamos, se desintegrando. Se eu tô dentro de mim mesmo, quem tá lá fora? É você também. Como assim? Ali é outra fração da sua consciência, com ele eu já conversei. Por sorte ele era um neurônio que estava mais ligado aos movimentos musculares, então fez menos perguntas, menos comentários... O que ele falou? Falou que a última coisa que lembra era que estava coçando seu nariz. Meu nariz? Você não sou eu também? Não. Preciso de um copo d'água. Olha, geralmente não temos essas regalias, mas por sorte choveu há poucas horas atrás e eu posso te conseguir uma molécula de água. Quê? Toma, bebe.
Tô confuso. Vai facilitar se de agora em diante diferenciarmos quem está falando por algum recurso. Apesar de não ser você eu estou dentro de você pra te auxiliar, e as coisas podem ficar meio emboladas. Emboladas como? Assim. Assim como? Assim, tá vendo? Tô vendo o quê? Sei lá. Quê? Batata. Porra, para, cara. Viu? Quem está falando agora? Não sei. Você já está com dificuldades pra saber quem sou eu e quem é você mas se outra parte da sua consciência entrar aqui as coisas vão piorar ainda mais. Tá, como faz? Você terá a letra E seguida de dois pontos no início de cada fala sua. E: Tá bom. E eu terei a letra D. E: Certo. D: Vamos dividir também em diálogos com espaços, pra facilitar a leitura.
E: Leitura de quem?
D: Evita perguntas metalinguísticas, cara. Temos relativamente pouco tempo.
E: Certo. Então, eu morri. Suponho que morri atropelado.
D: Isso. Tudo o que consegui até agora dos seus outros neurônios foi justamente isso.
E: Bem, depois disso eu vi um borrão, acho. Um movimento rápido.
D: Sim, seguido de uma dor insuportável. Que durou pouco tempo, pelo menos
E: Por que eu morri logo em seguida?
D: Sim.
E: Eu estou dentro do meu cérebro... certo. Se o cara que tá ali atrás da porta, que na verdade nem está fazendo mais barulho, é outra parte da minha consciência... Eu lembro das coisas que lembro por quê?
D: Porque você é um neurônio das células dos olhos, não sei se já falei. Seus neurônios tem uma certa ligação com o que era sua consciência no momento da morte, mas como, bem, a sua cabeça ficou meio despedaçada, vocês estão se comunicando dessa forma truncada. Eu tô aqui pra mediar essa comunicação. No momento eu quero saber apenas o que aconteceu com seu corpo.
E: Não sei, como poderia saber?
D: Você tava na visão, e pelo o que parece, você morreu de olho aberto, talvez tenha algo a mais para acrescentar ao que conseguimos achar até aqui.
E: Um campo de futebol.
D: Quê?
E: Me veio essa imagem, um campo de futebol. Nunca vi na vida, eu tenho, ou tinha, memória fotográfica. Acho que ia saber. Um campo. A trave tá sem rede. A gente passa por dentro dela. Tem uma árvore. Aparece um buraco no pé da árvore. Acho que não lembro de mais coisa porque obviamente não consigo me mexer e mudar o ângulo de visão. Mas isso.
E: Me veio essa imagem, um campo de futebol. Nunca vi na vida, eu tenho, ou tinha, memória fotográfica. Acho que ia saber. Um campo. A trave tá sem rede. A gente passa por dentro dela. Tem uma árvore. Aparece um buraco no pé da árvore. Acho que não lembro de mais coisa porque obviamente não consigo me mexer e mudar o ângulo de visão. Mas isso.
D: Ah, menos mal então. Isso explica a disponibilidade de água.
E: Como assim?
D: Você foi enterrado num campo de futebol, ao leu. Deve ter chovido umas horas atrás e o que resta do seu corpo sugou um pouco de H2O. Bem, finalmente, fim de turno. Voltar pra casa. Seja lá quem atropelou você não queria que te encontrassem.
D: Você foi enterrado num campo de futebol, ao leu. Deve ter chovido umas horas atrás e o que resta do seu corpo sugou um pouco de H2O. Bem, finalmente, fim de turno. Voltar pra casa. Seja lá quem atropelou você não queria que te encontrassem.
E: Pera, como assim, e agora? Que que eu faço?
D: Você tem duas opções. Você pode voltar a deitar e dormir e assim sua consciência vai diluir de vez. A outra opção é nunca dormir e andar por aí, conversando com suas outras células, neurônios, partes. Ou pelo menos com quem ainda não resolveu dormir também.
E: Tem muita gente acordada?
D: Acho que tem uma galera fazendo carteado no final desse corredor. O pessoal com memória motora se juntou com outros da memória visual e estão jogando buraco. Escolha sugestiva.
D: Você tem duas opções. Você pode voltar a deitar e dormir e assim sua consciência vai diluir de vez. A outra opção é nunca dormir e andar por aí, conversando com suas outras células, neurônios, partes. Ou pelo menos com quem ainda não resolveu dormir também.
E: Tem muita gente acordada?
D: Acho que tem uma galera fazendo carteado no final desse corredor. O pessoal com memória motora se juntou com outros da memória visual e estão jogando buraco. Escolha sugestiva.
E: E se eu dormir?
D: Se você dormir você vai se dissipar e se decompor de vez, vai se misturar com a terra, com a chuva, com as larvas, com a árvore. Você até que se deu bem, no final das contas. Tem gente que é enterrada em concreto de calçada, é um tédio. Mas a sua consciência, a atual, vai... cara, como posso te dizer isso? Você agora já tá fragmentado. Depois de dormir, vai ficar mais ainda. Vai se misturar com a zorra toda, sabe? Mas relaxa que isso acontece com todos. E de qualquer forma, se resolver ficar mais um pouco, ó, o tempo não vai ser infinito, mas pode ser também razoavelmente longo. É mais uma questão de quem aguenta o tédio mesmo. Tem gente que é interessante, viu uma renca de coisa na vida, viajou, leu pra caramba, daí é como se tivesse um universo interior bacana, sabe? Então essa gente consegue se distrair por um bom tempo dentro de si, mas claro que isso não dá pra medir em dia, anos. Você, pelo o que deu pra ver das conversas que tive anteriormente, teve uma vida bacana. Morreu cedo, pois é, mas teve uma vida interessante. Faz o seguinte, dá uma volta por aí, vai trocando uma ideia, vai relembrar bastante coisa. Existe muita interação possível. Está rolando um samba jazz joia no primeiro andar! Você tinha uma boa memória auditiva, pra tua sorte.
D: Se você dormir você vai se dissipar e se decompor de vez, vai se misturar com a terra, com a chuva, com as larvas, com a árvore. Você até que se deu bem, no final das contas. Tem gente que é enterrada em concreto de calçada, é um tédio. Mas a sua consciência, a atual, vai... cara, como posso te dizer isso? Você agora já tá fragmentado. Depois de dormir, vai ficar mais ainda. Vai se misturar com a zorra toda, sabe? Mas relaxa que isso acontece com todos. E de qualquer forma, se resolver ficar mais um pouco, ó, o tempo não vai ser infinito, mas pode ser também razoavelmente longo. É mais uma questão de quem aguenta o tédio mesmo. Tem gente que é interessante, viu uma renca de coisa na vida, viajou, leu pra caramba, daí é como se tivesse um universo interior bacana, sabe? Então essa gente consegue se distrair por um bom tempo dentro de si, mas claro que isso não dá pra medir em dia, anos. Você, pelo o que deu pra ver das conversas que tive anteriormente, teve uma vida bacana. Morreu cedo, pois é, mas teve uma vida interessante. Faz o seguinte, dá uma volta por aí, vai trocando uma ideia, vai relembrar bastante coisa. Existe muita interação possível. Está rolando um samba jazz joia no primeiro andar! Você tinha uma boa memória auditiva, pra tua sorte.
E: Vou fazer isso. Bem, de qualquer forma, obrigado. Curiosidade, com quantas pessoas você falou hoje?
D: Com quantos outros você, né? Deixa eu ver aqui na listagem... você foi o "eu" número 20 bilhões quatrocentos e sete mil e novecentos.
D: Com quantos outros você, né? Deixa eu ver aqui na listagem... você foi o "eu" número 20 bilhões quatrocentos e sete mil e novecentos.
E: Eita, que trabalho!
D: Que nada, o corpo humano tem mais de trilhões, cara. Apesar de que uma parte sua ficou lá no asfalto mesmo. Na real eu tô saindo antes do expediente hoje. Minha esposa vai até estranhar. Vou levar um vinhozinho pra tudo ficar suave.
D: Que nada, o corpo humano tem mais de trilhões, cara. Apesar de que uma parte sua ficou lá no asfalto mesmo. Na real eu tô saindo antes do expediente hoje. Minha esposa vai até estranhar. Vou levar um vinhozinho pra tudo ficar suave.
E: Pode crer. Bem, obrigado de qualquer jeito. Você me lembra alguém. Não pelo rosto, mas o jeito...
D: Lembra nada, você era só o olho esquerdo e você nunca me viu. Bem, até mais.
E: Vamos nos ver de novo?
D: Não.
D: Não.
E: Ah, tudo bem então. Espera, se você não sou eu, quem é você?
D: É uma explicação longa, você vai realmente desperdiçar seu tempo com isso? Eu quero aproveitar o restante do dia pra pagar umas contas. E, pra ser sincero, cara, você não está integrado com sua memória auditiva, cognitiva... eu vou começar a explicar e você vai começar a se perder pelo caminho. Deixa isso quieto.
D: É uma explicação longa, você vai realmente desperdiçar seu tempo com isso? Eu quero aproveitar o restante do dia pra pagar umas contas. E, pra ser sincero, cara, você não está integrado com sua memória auditiva, cognitiva... eu vou começar a explicar e você vai começar a se perder pelo caminho. Deixa isso quieto.
E: Certo. Bem, mas valeu aí. Abraço.
D: De nada, abração.
E: Beleza.
D: Que Oxalá te abençoe, aliás.
E: Beleza.
D: Que Oxalá te abençoe, aliás.
E: Eita, não é que a galera do Candomblé que tava com a verdade?
D: Se eles são donos da verdade ou não, eu não sei, cara. Mas que eu sou filha de Iemanjá da cabeça aos pés, eu sou.
D: Se eles são donos da verdade ou não, eu não sei, cara. Mas que eu sou filha de Iemanjá da cabeça aos pés, eu sou.
sexta-feira, 24 de abril de 2015
Malaxofobia
Ele me amava quando chovia
Água caía, a sede vinha
Nosso amor era em porão
Ratos se amando sob o chão
Sabia de cor cada pedaço meu
Se rasgado ou inteiro, se seu,
Se já registrado por terceiros:
Sabia de cor o meu passado
Um diabo cansado de outro diabo
Mastigava entediado
O prato repetido
Se via de lado uma assimetria
Repetia olhando uma fotografia.
Água caía, a sede vinha
Nosso amor era em porão
Ratos se amando sob o chão
Sabia de cor cada pedaço meu
Se rasgado ou inteiro, se seu,
Se já registrado por terceiros:
Sabia de cor o meu passado
Um diabo cansado de outro diabo
Mastigava entediado
O prato repetido
Se via de lado uma assimetria
Repetia olhando uma fotografia.
Monólogos entre Cinco Paredes: Um (Afiada)
Acordei de susto com uma arma enfiada na minha boca. Que calibre era? Sei lá que calibre, manjo disso não. Mesmo se manjasse, a arma tava apontada pra dentro da minha goela. Um maluco encapuzado me falando pra ficar quieta, quietinha, que se fosse boazinha ele não explodia minha cabeça. Que se eu ficasse saidinha a parede ia ficar toda suja de cérebro, meu cérebro. Como assim se eu conhecia o marmanjo? Tava de capuz! Não, a voz não era familiar não. Falou pra ficar quieta que eles iam passar uma geral na casa e já me liberavam. E eu contando até vinte e sete pra não gritar, sei lá porque vinte e sete, inventei na hora esse número. Não sei quantos eram, o cara que tava com a arma na minha boca mandou eu fechar os olhos porque senão ele enfiava um travesseiro na minha cara e ia ser muito pior, porque ele teria que sentar em cima e ele era pesado. Mas tavam fazendo um barulho do caralho. Sei lá de onde eram, o sotaque parecia ser do Rio mesmo. Não, meu senhor, não pareciam ser "favelados" não. Tem bebedouro aqui? Alguém me arruma um copo d'água, por favor.
Levaram a porra toda, eram dois carros, levaram a TV digital, que ainda tava pagando, o computador de mesa, ainda deixaram uns cabos pra trás, idiotas, o roteador... tá anotando? As duas câmeras fotográficas, o contrabaixo, que nem era meu, estava servindo de garagem pruma amiga. Aí foi o primeiro o carro, eu ouvi lá do portão, iam empacotar o segundo. O cara que tava com a arma na boca falou pro outro que ainda tava lá que queria dar umazinha comigo, pra ele ajudar a me segurar. Que merda isso, comecei a gritar, ele enfiou a arma mais pra dentro da garganta pra eu calar. Eu quase vomitei essa hora. O outro disse que só ia ajudar se me comesse também. Nessa hora eu vi que só tinham os dois porque o resto da casa ficou muito quieto. Iam terminar comigo e depois levar o ar condicionado. Como eles iam tirar, roubar e vender um troço velho daquele não faço ideia, imagina o trabalho. O outro veio me segurar os braços e eu percebi que era mais esperta que eles porque eu resolvi ficar quieta e esse outro achou que eu tava calma e só apoiou os meus ombros. Daí eu vi que dava pra fazer alguma coisa. O cara da arma colocou o trabuco na beira da cama e foi arrancando minha calcinha e eu resisti só um pouco pra não deixar na cara o que eu tava pensando em fazer. Como assim qual o meu CEP? Tu tá prestando atenção? Tá de brincadeira que não é sua jurisdição? Na boa, apaga tudo. Esquece.
Menina, delegacia é foda, ninguém quer te ajudar, cada um te empurra prum lado, é uma bosta. Pela diferença de uma quadra me jogaram pra uma DP que fica 3 quilômetros daqui, acredita? Não vou voltar, não vou abrir inquérito nenhum, não. Sei lá o que vou fazer com os corpos! Sexta-feira vou dar minha festa de despedida daqui e vou ter que tirar esses merdas do freezer. Posso deixar o carro deles no seu prédio mais uns dias? Quero aproveitar pra levar, vender, sei lá. Como tá aquele terrenozinho que fica atrás aí do campo, tá bem baldio ainda? Já falei que não vou me livrar dessa peixeira, foi herança da minha madrinha! Foda-se que é evidência.
Levaram a porra toda, eram dois carros, levaram a TV digital, que ainda tava pagando, o computador de mesa, ainda deixaram uns cabos pra trás, idiotas, o roteador... tá anotando? As duas câmeras fotográficas, o contrabaixo, que nem era meu, estava servindo de garagem pruma amiga. Aí foi o primeiro o carro, eu ouvi lá do portão, iam empacotar o segundo. O cara que tava com a arma na boca falou pro outro que ainda tava lá que queria dar umazinha comigo, pra ele ajudar a me segurar. Que merda isso, comecei a gritar, ele enfiou a arma mais pra dentro da garganta pra eu calar. Eu quase vomitei essa hora. O outro disse que só ia ajudar se me comesse também. Nessa hora eu vi que só tinham os dois porque o resto da casa ficou muito quieto. Iam terminar comigo e depois levar o ar condicionado. Como eles iam tirar, roubar e vender um troço velho daquele não faço ideia, imagina o trabalho. O outro veio me segurar os braços e eu percebi que era mais esperta que eles porque eu resolvi ficar quieta e esse outro achou que eu tava calma e só apoiou os meus ombros. Daí eu vi que dava pra fazer alguma coisa. O cara da arma colocou o trabuco na beira da cama e foi arrancando minha calcinha e eu resisti só um pouco pra não deixar na cara o que eu tava pensando em fazer. Como assim qual o meu CEP? Tu tá prestando atenção? Tá de brincadeira que não é sua jurisdição? Na boa, apaga tudo. Esquece.
Menina, delegacia é foda, ninguém quer te ajudar, cada um te empurra prum lado, é uma bosta. Pela diferença de uma quadra me jogaram pra uma DP que fica 3 quilômetros daqui, acredita? Não vou voltar, não vou abrir inquérito nenhum, não. Sei lá o que vou fazer com os corpos! Sexta-feira vou dar minha festa de despedida daqui e vou ter que tirar esses merdas do freezer. Posso deixar o carro deles no seu prédio mais uns dias? Quero aproveitar pra levar, vender, sei lá. Como tá aquele terrenozinho que fica atrás aí do campo, tá bem baldio ainda? Já falei que não vou me livrar dessa peixeira, foi herança da minha madrinha! Foda-se que é evidência.
Lições de Esgrima: Capítulo II
No instante seguinte estava no balanço, quase paralelo ao solo, o movimento do pêndulo no auge. O corpo retornava de costas e a sensação de bater a nuca em alguma coisa embora coisa nenhuma houvesse pra bater se repetia a cada ciclo. A volta, de frente, era onde a adrenalina pitava alto, a barriga borbulhava leve o leite de cedo, e o franja da testa bagunçava conforme o vento batia para atingir um novo auge, maior que o anterior. A hora de saltar nunca era exatamente óbvia, um misto de intuição e disposição. Quando as correntes que seguravam o assento balançavam, dificultando que o balanço se mantivesse reto, geralmente indicava que passara do ponto. Deviam estar completamente alinhadas as correntes, a coluna, para que o movimento fosse potencialmente valorizado. Isto era física vetorial feita por um menino de 9 anos de idade. Às vezes tinha que saltar porque a mãe gritava o almoço, daí era parar na marra, fincando os pés na areia ou saltar. Dependia do humor. Por ser um dos garotos gordos da turma, talvez por isso, conseguia saltar mais longe que os demais que tentavam. Exceto o Tiago, mas o Tiago era muito novo e menor, magro e leve, ele podia voar para fora do parque se tivesse coragem. Talvez fosse mesmo uma questão de coragem, mais que de análise vetorial, de ter disposição ou de faltar o senso do perigo mesmo.
Quando o momento ideal chegava, o balanço estava alinhado, as pernas sincronizadas, pois o movimento era delas e da coluna, esticando para frente, encolhendo para trás, intercaladas contrariamente. No ponto perfeito, quando ele apitasse de dentro da cabeça, era soltar as mãos, encolher rapidamente os braços para não roçar nas correntes, embora sempre ralasse nelas um pouco, e manter aproximadamente a mesma posição que o corpo fazia, de pernas encolhidas, como se sentado, como se sentado no ar por uns instantes, para cair na areia. As pernas, se na posição correta, amorteceriam o impacto, o traseiro e os braços aparariam o restante e então medíamos quem havia ido mais longe. Se em uma tarde fresca, sem pressa, o apogeu do salto era adiado para aproveitarmos a liberdade do pêndulo. Na história das histórias, a única sensação de liberdade que um par de correntes já ajudou a causar. Nessas horas, se sozinho ou sozinha no parque, a prática havia mas era tímida, sem grandes ousadias. Não costumávamos nos atrever a saltar com afinco demais por medo de quebrarmos o nosso próprio recorde e não ter ninguém para testemunhar. O que acontecia às vezes, vinha alguém dizendo que quebraram a marca do condomínio, mas ao vivo nunca cumpriam à altura do prometido. Interessante o sucesso associado ao aplauso ter se tornar condição desde cedo.
E, ciências e filosofias a parte, aquela tarde eu fui tão distante que atingi o muro da frente, que delimitava o parquinho do estacionamento. Tão longe que meus dedos dos pés ralaram e abriram com a pancada, no cimento chapiscado daquela parede com grades. Havia atingido o limite físico possível do salto. Lembro que, se não foi a primeira, foi uma das primeiras vezes que me machuquei com severidade sem derramar uma lágrima. Atingira o auge da minha carreira de saltador de balanços. Posteriormente descobri que o Tiago conseguira quebrar meu recorde pois mudaram o brinquedo de lugar no parque afim de evitar novo ou pior acidente do tipo. Mas me aposentei no auge e não devia nada a ninguém. Essa história e essa certeza ainda me pintam um sorriso estranho na boca.
Lições de Esgrima: Capítulo I
Um gosto de poeira na boca, como se eu tivesse lambido o chão que há debaixo da cama e engolido inteiro, sem um gole d'água ajudar a ingestão. O primeiro pé naquele vagão de metrô foi esse. O segundo pé veio com um cheiro de cup-noodles, aquele macarrão supersaturado, industrializado, condensado, sei lá e a combinação desses elementos era inusitada demais praquela hora da tarde ou pra qualquer outra. Uma menina sentada no chão jantava ou almoçava o copo, nunca dá pra saber se é um ou outro quando você se alimenta desse tipo de comida às quatro e meia, pós meio dia. Provavelmente encarava uma transição entre trabalho e faculdade, supus. A estação de Botafogo não chegava nunca, menos pela minha pressa, mais pelos exatos 10 minutos que permanecemos parados entre o Largo do Machado e o Flamengo. Bastou ter pressa, dizia o ditado. Nem sei se isso é ditado mesmo.
(Mas bastou ter pressa pra você se foder e atrasar dobrado, ao cubo, já dizia Murphy. Vim em um filme faz pouco tempo que o teórico é muito mal interpretado, na verdade. Sua teoria apenas diz que o que tiver que acontecer, acontecerá. Parece que é algo como: Se eu me pegar despedaçando biscoitos em cima do notebook, por mais que tenha cuidado e o faça com frequência, um farelo escapará em algum momento, o que fará, no longo prazo, do computador um nova colônia de formigas. Isso sim devia ser um ditado. Talvez seja.)
Assim que voltou a caminhar sob o trilho de metal quente o veículo estacionou, finalmente, na estação do Flamengo, devíamos estar há menos de 10 metros de lá. Dois acentos se fizeram livres. Estava de pé desde o início, vale dizer. Sentei, a menina do chão levantou e sentou também. O copo com macarrão processado ainda estava pela metade, e devia estar frio, mas ela não parecia com pressa, comia devagar, embora a cara fosse de fome, mas quem era eu pra julgar? Liguei a câmera do celular e usei como espelho e vi que a minha fuça estava muito pior e nem fome eu tinha. Meu papel de parede era uma referência um desenho animado já extinto, a menina apontou e comentou que adorava, que foi assim que começou a gostar de gatos. Concordei e inventei na hora que provavelmente por isso também me afeiçoei a felinos. Não sei se posso citar marcas registradas por aqui mas ambos falávamos do Gato Felix, aliás.
Entre o Flamengo e Botafogo demoramos mais do que o costume devido a outra lentidão do trem. Minha estação já era a próxima e pensei em pedir o contato da garota, mas o assunto havia sido curto demais para que esta intervenção não soasse intrusiva. Ela, na verdade, não parava de falar, e dentre seus comentários, se eu estivesse prestando atenção o bastante, teria notado que disse que ela e sua esposa tem um casal de gatos chamados Yin e Yang, pelos motivos óbvios que levariam alguém nomear um casal de gatos assim. Distraído levantei pra sair e me despedi e ela veio atrás também. Um moço tocava um sax na saída do metrô, tanto eu e ela paramos pois conhecíamos o figura de vista, de noites pela Lapa. Ultimamente, quando percebem que o seu público é basicamente feito de jovens cariocas que de turistas, esses artistas tem vindo para Laranjeiras e Botafogo, pois os altos preços do antigo bairro boêmio não têm estado convidativos para universitários e afins.
Mesmo atrasado parei para observar que o rapaz cujo nome nunca soube e suas melodias populares intercaladas de escalas quase aleatórias. A menina dizia que começou aprender a tocar flauta transversa mas preferia mesmo cordas. Era uma boa hora para pegar seu contato e, se eu tivesse prestado atenção, como disse, ao que ela dizia no metrô, não teria me assustado quando outra garota a abraçou ela pelas costas, aparentemente amarrando um encontro marcado. O dia estava meio nublado e o aniversário para o qual eu me dirigia já havia começado há mais de uma hora, mas pensei, que seja! quem marca uma comemoração em dia útil pra começar às 3 da tarde? Acontece que a aniversariante era a garota com quem eu estava saindo. Já conformado caminhava para o boteco marcado e a menina do cup-noodle veio depois na minha direção e me passou o Facebook da banda dela, uma outra informação que provavelmente ela me disse no metrô mas que me passou despercebida. Agradeci e foi assim que conheci a Larissa, nome artístico Lara Lahm. Agora veja que bizarro, quantas histórias vocês conhecem de pessoas que se conheceram enquanto andavam de transporte público e mantiveram o contato por anos? Pois é, nem eu. Só conheço essa mesmo que inventei agora.
Tradição no liquidificador da modernidade:
1- Querer adquirir um carrinho de feiras após se ver com 10 quilos de compras nos braços;
2- Pesquisar preços no Google e esperar encontrar versões do artefato popular com gadgets e wi-fi embutidos, cuja função é informar os melhores preços dos sacolões da região;
3- Encontrar no Mercado Livre um treco moderno desses e, ao ver as fotos ampliadas, não levar fé que uma palhaçada dessas aguentará as 20 unidades de melão que você provavelmente um dia vai comprar porque sim;
4- Suar litros na rua e finalmente entender porque sua mãe sempre levava uma pequena toalha nos ombros toda vez que ia ao sacolão;
5- Montar uma playlist no smartphone para próxima vez que for à feira (5.2! evitar a famigerada canção d'O Rappa);
6- Adquirir uma toalha para pôr nos ombros (reciclá-la de uma toalha de banho inutilizada se for necessário);
7- Reencontrar como herança nos fundos da casa o antigo carrinho de compras da família. Analógico mesmo.
sexta-feira, 17 de abril de 2015
Ode Valente Para Duas ou Mais Vozes
Respeito as distâncias
Como quem se benze ao sinal
De cemitérios
De Igreja
Não peço benção
Não sou a única voz do coral
Nem pretendo ser só um
Nem pretendo ser a sua
Veja
Calo-me às vezes
Menos porque tenho nada a dizer
Mais porque aprendi escutar
Quem devo escutar
E ouço.
Também me calo se quem fala é o mar
Devido a eloquência:
Aprendi
Que tanto o grito
Quanto o sussurro
Causam rouquidão
Que seja o primeiro
Paciência
"Saiba quem é nosso inimigo
Por vocação -
Ganhe tua vida
Abrindo janelas"
Caibo
Se não coubesse coragem
Que seria feito devera?
Quantos receios? Quantos aparos?
Eu caibo em mim
Que o resto se ajeite pro lado
Sorrio
Conforme o voo te avisto
Acenando verdade
Entre as nuvens no espaço
Adquirir um vício
Que nos liberta
Convém
Concluí
Que a gravidade
É só a Terra
Nos chamando pro abraço
Amém.
Como quem se benze ao sinal
De cemitérios
De Igreja
Não peço benção
Não sou a única voz do coral
Nem pretendo ser só um
Nem pretendo ser a sua
Veja
Calo-me às vezes
Menos porque tenho nada a dizer
Mais porque aprendi escutar
Quem devo escutar
E ouço.
Também me calo se quem fala é o mar
Devido a eloquência:
Aprendi
Que tanto o grito
Quanto o sussurro
Causam rouquidão
Que seja o primeiro
Paciência
"Saiba quem é nosso inimigo
Por vocação -
Ganhe tua vida
Abrindo janelas"
Caibo
Se não coubesse coragem
Que seria feito devera?
Quantos receios? Quantos aparos?
Eu caibo em mim
Que o resto se ajeite pro lado
Sorrio
Conforme o voo te avisto
Acenando verdade
Entre as nuvens no espaço
Adquirir um vício
Que nos liberta
Convém
Concluí
Que a gravidade
É só a Terra
Nos chamando pro abraço
Amém.
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Micropoesia para Dispositivos Móveis: Catorze (ou "Amor em Público")
Um vulto!
Um beijo passou correndo no fundo
Escondido até dois segundos atrás
Lá vem mais, que susto!
Foi outro, olha isso... Outro!
Agora se deixou demorar, exibido
Em purpurina de ouro
Aproveitando o ensejo
Como se estivesse pedindo!
Pedindo o quê?
Pedindo outro beijo
O que mais devia ser?
Um beijo passou correndo no fundo
Escondido até dois segundos atrás
Lá vem mais, que susto!
Foi outro, olha isso... Outro!
Agora se deixou demorar, exibido
Em purpurina de ouro
Aproveitando o ensejo
Como se estivesse pedindo!
Pedindo o quê?
Pedindo outro beijo
O que mais devia ser?
quarta-feira, 15 de abril de 2015
Está Pensando em Adquirir um Novo Imóvel? Mars Is The New Earth!
Em Marte não há mosquitos ou baratas
Nem passeatas, nem afetos modernos
Ou avenidas engarrafadas
Em Marte não há impostos nem governo
Alergia a ativistas?
Lá não há políticos ou advogados esquerdistas
Nem poetas vendendo em papel reciclado poesias
Eu sei, não é tentadora a profecia
Se Marte praticamente não tem oxigênio no ar
A verdade é dura
Não há cerveja, nem praia, nem mar
Seu ponto turístico para visitas
São vulcões de quilômetros de altura
Mas em Marte não há eu nem minhas companhias:
Feministas, maconheiros, cubanos, "ditaduras"
Não há sequer o seu vizinho, seus funcionários
Quem se mudar pra lá primeiro será, (alegria!)
Um privilegiado latifundiário
Lá tem terremotos, meteoros, fissuras?
Sim!
Mas por favor, tenha espírito empreendedor
Pelo bem da humanidade ou de sua conta no exterior
Faça suas malas, criatura
E se mude para Marte
Empacote o Merthiolate
Se passar pelos polos, leve um agasalho
Não esqueça o dicionário.
Nem passeatas, nem afetos modernos
Ou avenidas engarrafadas
Em Marte não há impostos nem governo
Alergia a ativistas?
Lá não há políticos ou advogados esquerdistas
Nem poetas vendendo em papel reciclado poesias
Eu sei, não é tentadora a profecia
Se Marte praticamente não tem oxigênio no ar
A verdade é dura
Não há cerveja, nem praia, nem mar
Seu ponto turístico para visitas
São vulcões de quilômetros de altura
Mas em Marte não há eu nem minhas companhias:
Feministas, maconheiros, cubanos, "ditaduras"
Não há sequer o seu vizinho, seus funcionários
Quem se mudar pra lá primeiro será, (alegria!)
Um privilegiado latifundiário
Lá tem terremotos, meteoros, fissuras?
Sim!
Mas por favor, tenha espírito empreendedor
Pelo bem da humanidade ou de sua conta no exterior
Faça suas malas, criatura
E se mude para Marte
Empacote o Merthiolate
Se passar pelos polos, leve um agasalho
Não esqueça o dicionário.
Micropoesia Para Dispositivos Móveis: Treze (ou "Cinco Cidadãos")
Um pensamento magro
Uma confissão pequena
Que caiba em bolso, em frasco
Ou atrás da orelha esquerda
Saindo do armário em um sorriso
O ódio irracional entre os dentes
Só um preconceito discreto
Pra levar no peito, casualmente
Uma alegria:
A vontade tacanha de matar agonia, a fome, o chefe
O rosto virado num blefe
Soco na parede que queria ser beijo
A pequena cicatriz que memoriza o pescoço
Do dia que o medo perdeu pro desejo
Numa esquina empoeirada, um pó de riso
Terra a vista ou parcelada
Inconfundivelmente brasileiro
O bar que aceita vale-refeição
Pede a saideira, abraça a sexta-feira
Cumprimenta o garçom
Espirro a qualquer hora, alergia
A modesta vontade de rebeldia
Domesticada no contracheque de mesma magnitude
Mas no meio do vão dos dedos das mãos, quem diria?
Uns grãos de pólvora encontram uma faísca
E tomam uma atitude.
Uma confissão pequena
Que caiba em bolso, em frasco
Ou atrás da orelha esquerda
Saindo do armário em um sorriso
O ódio irracional entre os dentes
Só um preconceito discreto
Pra levar no peito, casualmente
Uma alegria:
A vontade tacanha de matar agonia, a fome, o chefe
O rosto virado num blefe
Soco na parede que queria ser beijo
A pequena cicatriz que memoriza o pescoço
Do dia que o medo perdeu pro desejo
Numa esquina empoeirada, um pó de riso
Terra a vista ou parcelada
Inconfundivelmente brasileiro
O bar que aceita vale-refeição
Pede a saideira, abraça a sexta-feira
Cumprimenta o garçom
Espirro a qualquer hora, alergia
A modesta vontade de rebeldia
Domesticada no contracheque de mesma magnitude
Mas no meio do vão dos dedos das mãos, quem diria?
Uns grãos de pólvora encontram uma faísca
E tomam uma atitude.
terça-feira, 14 de abril de 2015
Canto para Duas Cidades
uma ponte amanheceu nessa voz rouca
caiu me concreto nos ombros
terremotos no estômago
e açúcares pela minha nuca
acordei com um edifício nas costas
com uma marreta nos cotovelos
com uma rodovia nos calcanhares
com seus cabelos no pescoço
a tempestade decretou feriado
minhas vias públicas interditadas
o legítimo protesto por sua distância me saiu no grito
e amanheceu sorriso feito a alvorada
caiu me concreto nos ombros
terremotos no estômago
e açúcares pela minha nuca
acordei com um edifício nas costas
com uma marreta nos cotovelos
com uma rodovia nos calcanhares
com seus cabelos no pescoço
minhas vias públicas interditadas
o legítimo protesto por sua distância me saiu no grito
e amanheceu sorriso feito a alvorada
sexta-feira, 27 de março de 2015
Carta aberta sobre porque o meu amor devia perder o medo de cães e gatos
Primeiramente, cães e gatos não te odeiam a priori porque você coça o nariz de forma inusitada ou porque parece se distrair por qualquer coisa ou porque você come carne ou porque tem uma certa simpatia pela República de Cuba. Nenhum dos dois vai te chamar de feminazi.
Cães e gatos não te colocam propositalmente no SERASA, exceto quando acidentalmente urinam no seu notebook ou dilaceram sua melhor roupa de trabalho. Cães e gatos não te demitem caso você peça aumento (de carinho) ou caso você se atrase a voltar pra casa, nem fazem ameaças a não ser que você esteja pulando o muro deles de madrugada.
Pelo faro, os cães sabem exatamente tudo o que você bebeu, comeu, sabem até que você engordou, que você tem uma pedra no rim, que você fumou, que você tem uma mancha de cimento fresco na barra de trás do seu vestido, mas vão comentar sempre só o mais relevante de tudo: que amam você. Não dá pra saber exatamente o que os gatos sabem porque eles são meio na deles, o que também tem suas vantagens.
Cães não irão passar por você na rua sem te cumprimentar caso te conheçam. Gatos poderão até não te dar bom dia caso estejam sem fome mas tenha certeza que não é por birra pessoal mas porque o banho de saliva está ininterrompível de bom. Ambos não farão fofocas a seu respeito e acho que isso por si só já vale a tentativa.
Gatos te fazem companhia no banheiro dando apoio moral e torcida enquanto você faz sei lá o que você estiver fazendo. Cães são bons de papo. O ronrono de um bichano ao pé do ouvido é mais quente que muito abraço. Um cão pode te compreender melhor do que eu ou outros humanos jamais compreenderiam.
quarta-feira, 25 de março de 2015
Fogo, Repouso, Fogo
O leão cavalgado se assenta na sala de estar e fica. Repousa com o peito em cima das duas suas patas grossas. Exausto de granir, ronrona, o que, pela proporção de seu sistema respiratório, ecoa alto em bom som como se seu intento fosse amplificado e o ambiente fica repleto de tal granido. O leão cavalgado observa o corpo estendido adormecido na cama no quarto ao lado que tem a porta escancarada enquanto ele, maior tanto pela sua física quanto por sua nobreza, descansa no chão acarpetado. Conclui que o corpo estirado na colcha deve respirar porém discretamente já que não está a preencher o ambiente com ruído algum, pequeno que é. Seu ronrono inexistente é substituído por um ronco, cujo problema respiratório no septo nasal é a causa. Também há a saliva a umedecer algodão do travesseiro, detalhe irrelevante para o leão. O felino de fato observa este corpo mais com pudor que com a malícia da fome a presa, embora complacente, menos acusativo. O som das futuras presas fora de casa, incluídos animais vizinhos a ladrar, cortam o silêncio ocasionalmente.
O travesseiro em questão é na verdade a vestimenta dobrada e usada na madrugada finda há pouco. Trata-se de sua blusa xadrez batizada de diversos variantes de substâncias, da cevada ao mel, do batom ensalivado a cinza do cigarro. Embora não fume, o leão cavalgado compreende em seu faro cada dessas nuances e boceja, enquanto retoma a avaliar suas preocupações de fato:
O travesseiro em questão é na verdade a vestimenta dobrada e usada na madrugada finda há pouco. Trata-se de sua blusa xadrez batizada de diversos variantes de substâncias, da cevada ao mel, do batom ensalivado a cinza do cigarro. Embora não fume, o leão cavalgado compreende em seu faro cada dessas nuances e boceja, enquanto retoma a avaliar suas preocupações de fato:
O primeiro pensamento que surge em sua mente é que a caça futura instante agora repousa mais e melhor do que ele pode, ao se distrair com tais insignificâncias. Balança e força tantas vezes incomodou seu espírito, cogitar a possibilidade de, no dia, ao dia, que, demais cavalgado, ficaria por sem se alimentar, e a presa, solta e selvagem, alimentada do pasto fresco que não cessa em nascer, revitalizada, sem ter quem lhe cavalgue, escape valente cada vez mais e cada vez mais faminto e fraco, chegue o dia que jamais se alimentará de novo. São noites como estas, com o peso alheio e indiferente à desnatureza que é e há em cavalgar um leão que se desanima. Apesar de colosso em sua proporção, esta que séculos e gerações se fortaleceu para labuta da caça e não para que transportasse nas costas qualquer outro mamífero sedentário, em noites assim cogita e reflete acerca da possibilidade de sua derrota definitiva que um dia o conjunto dos fatos ainda há de lhe submeter. "Não hoje, nem amanhã ou depois", se tranquiliza em seguida, ao se sentir firme no peito seu próprio coração de quase dois quilos pulsar no pulso de sua pata esquerda. Lambe seu restante com sua língua grossa e áspera que num mero gesto rotineiro e desmedido de carinho poderia dilacerar a carne humana do cavaleiro que lhe cavalga antes como a seda lida o atrito à espada.
Adormece, finalmente, pois relembra da mesma forma que a selva adiante é longa e o Sol, apesar de seu irmão de fogo, arde igualmente contra e a favor todos. Presa ou grama, ele não pretenderá se apiedar de seus descuides ou falta de gana. Portanto, atento, antes do meio dia a carne de outra zebra ou búfalo descuidado lhe preencherão o apetite e vazio gástrico. O cavaleiro frágil, cuja ressaca física e moral lhe prendera em um quarto cuja porta estava escancarada, ainda se encontrava descordado. Ganhara o dia de folga.
domingo, 22 de março de 2015
Micropoesia para Dispositivos Móveis: Doze
Quanto tempo falta
Quanto tempo faz
Pr'eu contemplar teus pensamentos nus
E teu nome beliscar de dentro da minha cabeça?
Quando o tempo mata
Quanto tempo mais
Pr'eu dividir este meu corpo contigo
E a dor aliviar ao te ouvir cheirar minha nuca?
Quantas estações nos distanciaremos?
Quantos presságios terei que desmentir?
Por que tu não cabes na minha cidade?
Quando o tempo arde
Quanto tempo faz
Enterneço e te espero tal qual ou mais selvagem
Rumores que tu és filha
da mãe
de toda tempestade.
Quanto tempo faz
Pr'eu contemplar teus pensamentos nus
E teu nome beliscar de dentro da minha cabeça?
Quando o tempo mata
Quanto tempo mais
Pr'eu dividir este meu corpo contigo
E a dor aliviar ao te ouvir cheirar minha nuca?
Quantas estações nos distanciaremos?
Quantos presságios terei que desmentir?
Por que tu não cabes na minha cidade?
Quando o tempo arde
Quanto tempo faz
Enterneço e te espero tal qual ou mais selvagem
Rumores que tu és filha
da mãe
de toda tempestade.
Pontaria
Sei o que faço menos que a besta que morre intoxicada por máquinas alheias para me alimentar. Sei pouco e me sobra fome pois continuo a me empanturrar, cheio de dúvidas, das gorduras de ódio servidas em porções generosas, viciantes, todos os dias. Palavras pesadas me pesam o estômago e intensificam minha gastrite, congestionam minhas veias, me restringem o ar. A sintaxe do corpo está ciente de minha doença. Sei o que faço menos do que o inseto que escapa e consegue sobrevida quando eu erro-lhe o golpe que quisera eu ser fatal. Abraçaria estranhos na rua se ainda tivesse braços pra dar; estou mais para esta sombra embaçada expressada entre o asfalto e eu; o Sol é preciso e me é fiel nesta retratação; ao contrário de meu escuro perfil, queria estar presente completo na parte que me toca agora; mas estou desfocado! me falta algo antes, me sobra algo depois. Sei o que faço menos do que o deserto súbito bestializado pela sede. Porém sei mais do que aquele que tem absoluta certeza que na sabedoria ocidental reside esta cura.
terça-feira, 10 de março de 2015
Crônicas de Bolso em Bytes: Desmistificar
Nos dois primeiros anos, só repetiu o caminho de casa pro trabalho, faculdade. Mesmas ruas, seguia reto da Presidente vargas, virava depois de certa altura duas vezes pra esquerda. Terceiro ano, uma enchente alastra a cidade. Se obriga a subir por duas ruas acima porque seu caminho de sempre se tornou uma reprise da Lagoa azul. No ano seguinte, primeiro assalto na passagem de conforto, nada era tão seguro assim. Começou a mudar um pouco a rota. A rua Uruguaiana desse lado de cá não era tão obscura assim, tinha até policiamento de vez quando. Não que a polícia fosse garantia de nada, já sabia. Começou a ver com certo conforto e graça a presença dos fieis evangélicos que saiam das igrejas e suas vigílias enquanto voltava no meio da madrugada de uma noitada ou boteco. Visitou, meses depois, pela primeira vez, uma roda de samba há duas quadras de casa, na Pedra do Sal.
Quando completava cinco anos de moradia, embriagado, pegou pela primeira vez um ônibus errado. Desceu atrás da Central, subiu a Senador Pompeu a pé pela primeira vez na vida, antes só de táxi. Descobriu alguns comércios abertos, gente na porta do lar aliviando o calor, outros chegaram a lhe pedir um cigarro, mas findo o maço, além de ser três da manhã, negou e seguiu. Subiu o Morro da Conceição verdadeiramente pela primeira vez. Descobriu uma Santa Teresa encolhida, mais humilde e gostou. Tantos motoristas já se negaram deixá-lo na porta por conta destes detalhes de geografia apenas ensinados na escola da vida. Subiu a escadaria e conheceu a Casa Amarela do Morro da Providência. Brincou com as crianças, foi apresentado pessoalmente à marca da SMH da prefeitura do Rio nos lares dos moradores planejadamente a serem removidos um dia em detrimento de um empreendimento turístico. Resistiam. No ano seguinte conheceu o bloco de Carnaval local, Prata Preta, que guiou a ele e outros foliões por vielas, que exceto por seus moradores e micro-comerciantes locais, raramente eram desbravadas na Zona Portuária. Se perdeu atrás da cidade do samba, tirou foto com integrantes da bateria da Portela que aproveitavam a energia do bloco para comemorar o seu quinto lugar no Grupo Especial. Aos gritos de "É campeã".
Fez amizades com uns colombianos e peruanos que moravam em um dos antigos cortiços localizados por sua área. Tocaram uma viola, trocaram uns acordes, negou educadamente o trago de maconha. Agora já era quase íntimo do moço que vende cachorro quente na esquina de sua residência para os mesmos fieis que vinham da baixada ou zona norte especificamente para aquela congregação. Descobriu que ele, na verdade, reside no Engenho Novo. Admira a disposição de ambos. Ainda não sabe como lidar com moradores de rua, embora fique mais com angústia por eles do que deles. Como da vez que um, já senhor de idade, trilhava seu rumo pela Sacadura Cabral com pedaços de espuma de um travesseiro que, supôs, não ia precisar mais. Um João e Maria sem Maria se trilhando pelas vias da Gamboa. Certamente nunca esqueceu o caminho de volta. Desde a primeira semana que se mudou, pelo menos 2 vezes por semana, cruza também por uma senhora que lhe aplaude quando passa, quase na esquina da Marechal Floriano, ao lado da quadra do colégio Pedro II. Posteriormente descobriu que aplaudia todos com fins de chamar atenção e pedir trocados. Nunca lhe guardou rancor por isso e ainda aceita, humildemente, os aplausos que nunca mereceu.
Sete anos de capital carioca e tem se acostumado a subir agora pela viela paralela à sua habitual, a dos Andradas, lado oposto ao Largo de São Francisco. Ali tem dois bares que varam a madrugada com movimento, alguns camelôs, cachorros, gatos, e crianças brincando. Descobriu até uma roda de choro em um dos bares, na esquina da Conceição, que acontece de vez em quando. Sete anos depois. Quem sabe tenham que passar só mais meia dúzia para perder o medo de vez do bairro onde reside. O medo da cidade deverá durar mais uns séculos. Ou, quem sabe, acabará na análise.
Sete anos de capital carioca e tem se acostumado a subir agora pela viela paralela à sua habitual, a dos Andradas, lado oposto ao Largo de São Francisco. Ali tem dois bares que varam a madrugada com movimento, alguns camelôs, cachorros, gatos, e crianças brincando. Descobriu até uma roda de choro em um dos bares, na esquina da Conceição, que acontece de vez em quando. Sete anos depois. Quem sabe tenham que passar só mais meia dúzia para perder o medo de vez do bairro onde reside. O medo da cidade deverá durar mais uns séculos. Ou, quem sabe, acabará na análise.
segunda-feira, 9 de março de 2015
Crônicas de Bolso em Bytes: 30 Minutos
Eu nem tinha gastado guardanapo. Nem papel higiênico no banheiro, nem uma gota d'água porque não lavei a mão quando mijei. 61 reais e 60 centavos de conta. Repassei, recontei, procurei, que que tinha custado tanto assim. A Antártica, normal, nem era Original, tava 11 reais. Mas disso eu sabia, por isso pedi só uma, que bebi devagar, aos poucos, uns goles tão microscópicos que parecia chá de erva cidreira com arroto quando a garrafa acabou. Cereja do bolo? O carro chefe da Ambev ainda me veio meio quente. Mais justo e honesto me enfiarem uma faca na barriga pra me roubarem meu relógio Cássio (ano de fabricação: 1996) do que cobrarem sá porra de preço e não servirem a mais glacial cerveja do Rio de Janeiro.
Permaneci no estabelecimento quase exatos 30 minutos. O bar estava lotadíssimo. Nesse tempo, cerca de 57 vezes passou um garçom na mesa perguntando se eu queria mais alguma coisa. Isso dá em média quase duas vezes por minuto com alguém repetindo essa quizila. Não, não quero mais nada. Não, não quero mais nada. Não, não quero, caralho, que que eu posso pedir sem ter que penhorar meus rins? (Fígado e pulmão já não prestam pra muita coisa.) Tinha aberto o cardápio, minha amiga que me acompanhava logou-se no Foursquare para fins de investigação. O aplicativo é dessas modernidades móveis que avaliam estabelecimentos ao seu redor via GPS. Falavam muito mal do pastel dali. Literalmente pagamos pra ver. O tamanho? Olhem a palma das suas mãos. Imaginem, agora, a palma da mão de uma pessoa com um metro e quarenta. Abstraíram? Dividam, então, esse tamanho por dois. Isso aí que vocês tão vendo é menor do que o pastel que chegou. Custaram 12 reais (6, cada).
Tinha uma bossa nova sem vergonha arranhando de fundo, nem João Gilberto era. Emendaram num samba que nem era João Nogueira (ou o genérico do filho), mas um batuque mequetrefe que aposto meu par de orelhas que nunca tocou em laje nenhuma. A trilha devia repetir toda santa noite, notei funcionário embromando a música com a boca. Playback? Sem couvert artístico.
Me peguei lambendo o farelo do prato do pastel pra distrair. A louça tava quase mais saborosa. A conta ainda não batia. Tínhamos avaliado o gurjão de frango mas desistimos diante dos 49 reais pela porção (que era tão generosa quanto o Tio Patinhas pelo o que espionamos da mesa ao lado). Achado, estavam cobrando os dez por cento. Sempre os dez por cento. Isso porque ficamos sentados 15 minutos tentando chamar o garçom, apenas um notou, anotou e nunca que trouxe o que pedimos. Desistimos e pegamos direto do balcão. Daí que começaram a pipocar aos milhares querendo engordar nossa conta. Minha amiga só bebeu uma água. 200 ml, 5 reais. Descubro a pólvora. Um sinal de "x2", leia-se, vezes dois, em todos os pedidos, com uma fonte menor. Os pastéis se multiplicavam por quatro. O garçom que nunca trouxe o pedido esqueceu de atender mas lembrou de incluir o valor na conta. Já mencionei que o bar estava lotado? Sexta feira na Lapa é assim mesmo. Rimos muito. Saímos sem pagar.
Me peguei lambendo o farelo do prato do pastel pra distrair. A louça tava quase mais saborosa. A conta ainda não batia. Tínhamos avaliado o gurjão de frango mas desistimos diante dos 49 reais pela porção (que era tão generosa quanto o Tio Patinhas pelo o que espionamos da mesa ao lado). Achado, estavam cobrando os dez por cento. Sempre os dez por cento. Isso porque ficamos sentados 15 minutos tentando chamar o garçom, apenas um notou, anotou e nunca que trouxe o que pedimos. Desistimos e pegamos direto do balcão. Daí que começaram a pipocar aos milhares querendo engordar nossa conta. Minha amiga só bebeu uma água. 200 ml, 5 reais. Descubro a pólvora. Um sinal de "x2", leia-se, vezes dois, em todos os pedidos, com uma fonte menor. Os pastéis se multiplicavam por quatro. O garçom que nunca trouxe o pedido esqueceu de atender mas lembrou de incluir o valor na conta. Já mencionei que o bar estava lotado? Sexta feira na Lapa é assim mesmo. Rimos muito. Saímos sem pagar.
domingo, 8 de março de 2015
Quatro Sonhos
Comia rapidamente o sanduíche na pausa de 15 minutos pra poder ter um tempo de puxar um cigarro lá fora, na calçada, na frente do restaurante. Essa rua de Laranjeiras é pouco movimentada naquela hora do dia. Com o bom vento que batia a sensação do tabaco subia a cabeça e baixava a pressão sanguínea, me ajudando a relaxar um pedaço dos 6 minutos de intervalo que sobravam. Jogava a bituca apagada devidamente na lixeira pra não levar esporro do patrão e entrava com 1 minuto e meio de sobra para dar tempo de lavar, enxaguar as mãos e bocejar que fosse uma água com sabão pra tirar o gosto da boca. Pontual eu fui, higiênico o bastante? Não. O primeiro comentário que ouvi, assim que encostei na beira do bar, pra reencontrar meu bloco de anotar pedidos, foi: "Tava fumando de novo, né?" Dizia a porra do meu chefe num tom de voz rápido e crescente, daqueles que só usa quem sabe que vai pregar um susto; "Já falei pra tu parar. Só não te ponho na rua porque tu vai e mete uma porra dum processo trabalhista, pena que isso ainda não é justa causa, mas ainda vai ser, se Deus quiser. Antigamente podia fumar em qualquer lugar, era uma puta duma bagunça. Aqui mesmo, vivia fedendo de tudo, de cigarro barato, cachimbo. Mas já avisei, melhor parar. Fumei durante 20 anos nessa vida", e eu sentia que ia repetir como sempre repetia uma familiar ladainha do cacete, "estraguei meu corpo, pulmão fodido, inflamado, tive que fazer hemodiálise, até, mas sobrevivi, tô aqui, contando história. Agora vê se escova direito essa boca, chupa uma Valda, qualquer porra, que tem cliente na mesa 13 esperando pra fazer pedido."
Esquina da Ladeira onde moro com Senador Pompeu, apertava o passo, um carro freia que quase estaciona em cima dos meus pés. Negra, usava um turbante com saia lindos, pronta para qualquer festa na Lapa. O que não me impedira de soltar e gritar "Aqui é preferencial, cara, tu tá maluco?"; Que respondia: "Tu tá no meio da rua, piranha!", que eu retrucava: "Tu sequer ligou a seta, imbecil, se tu tivesse ligado eu saberia que iria tentar subir minha rua, mas você não ligou, então eu suponho que tu ia virar no edifício garagem. E mesmo que você tivesse ligado, isso aqui é região residencial, tu não tem que ficar andando a 60 quilômetros por hora, e porra da preferencial sempre é do pedestre em vias não sinalizadas por semáforos. Eu que não dirijo sei dessa porra, tu comprou a merda da tua carteira ou fingiu que esqueceu as regras de trânsito porque é um puta dum babaca mesmo?" O motorista, desgostoso, já fazia a ré e subia do meu lado enquanto eu estava na metade do discurso anterior. Acelerando e, dessa vez, roçando o carro na bolsa que carregava, ele gritava, "vai prestar concurso pro Detran, então, vadia preta mal comida", subindo o restante da ladeira a bem mais do que o limite estabelecido por lei.
Sicrano me chamou pra tocar pandeiro em uma faixa do disco novo dele. nos conhecíamos de vista, de algumas dessas noites no Baixo Gávea, não era de suas faixas mais criativas, mas topava a empreitada pelas redes que sempre se estabelecem dessas empreitadas musicais. Chegando no estúdio, havia um contrato pronto, que eu nem sabia que existia, que cedia todos os meus direitos para os produtores e artistas do álbum, deixando claro em cada vírgula de cada cláusula que uma vez que eu assinasse aquilo eu não poderia jamais, nunca, never, jamé, como recorrer e ganhar qualquer lucro daquela sessão. Assino de todo jeito, embora incomodado com tamanha burocracia e mesquinharia de uma galera que sempre teve dinheiro para caralho, e eu, fodido, trabalhando de telemarketing para complementar renda, sujeito àquilo. Assino, toco, a versão final da canção ficou ainda mais genérica e derivativa do que a demo que me foi passada era. Boa o bastante, porém, para render alguns views pela Internet, alguns compartilhares. Calculei, inclusive. quanto ganhariam por um vínculo adsense com o Google. e deve ter rendido, pelos 45 mil views, uns 27 reais para o artista. Dividindo com produtor e co-compositor, dava para cada um pagar uma garrafa de cerveja. Das mais baratas, porque beber na Zona Sul, já viu. Lembro antes de acordar que lia uma atualização de status do artista em questão dizendo que considerava a importância do seu trabalho essencial para fortalecer a cena atual carioca. Uma plateia virtual concordava aplaudindo entusiasmadamente.
Acordava, levantava, mijava, deitava e voltava a dormir em seguida, me ajeitava de barriga pra cima no chão da calçada coberto de pedras portuguesas. Durmo mais algumas horas e semi acordo, mantendo a vista entrecerrada. No meu pé da cama agora se prostrava um casal observando e cochichando a respeito de algo que olhavam. Sentia o cheiro real de vômito que sei lá se era meu, Meu local de repouso era a mureta da Urca e era possível ouvir o som baixo da maré quase sem ondas desse pedaço da Baía de Guanabara. O casal insistia nos comentários e travava o seguinte diálogo: "Olha, que bonitinho, está dormindo? Acho que está morto. Mas será? Acho que sim, presta atenção na barriga. Se não mexe a barriga, não respira. Acho que se mexeu. Acho que não. E essa pele, tava com sarna, tadinho? Está com sarna, porque acho que tá vivo. Como será que aguentam, largados assim? Vivem de sobra, a Urca deve ter lixo de primeira qualidade. Com certeza, devem até comer melhor do que o povo lá de casa. Pois é. Pode crer, tá vivo sim, acho que vi a barriga se mexendo agora. Foi, vai brincar com aquela latinha? Cuidado pra não cair na água, ratinho."
Micropoesia para Dispositivos Móveis: Nove
Quem quiser falar de cor
Sou eu
Quem vier suar de amor
Dos meus
Aquietar do peito o Lobo
Convém
Estender na cama o sono
Com alguém
Vem beber da boca a água
Fui eu
Pintei céu lá da sacada
É teu
Tem chuva dentro de casa
Mais quem?
Dói aqui mas arde e passa
Meu bem
Grita garganta e cala nada
Também
Tu és meu cais em mar de fogo
Quem? Eu.
Instante atrás partimos. Porto,
Adeus
Depois daqui só o horizonte
Além.
Sou eu
Quem vier suar de amor
Dos meus
Aquietar do peito o Lobo
Convém
Estender na cama o sono
Com alguém
Vem beber da boca a água
Fui eu
Pintei céu lá da sacada
É teu
Tem chuva dentro de casa
Mais quem?
Dói aqui mas arde e passa
Meu bem
Grita garganta e cala nada
Também
Tu és meu cais em mar de fogo
Quem? Eu.
Instante atrás partimos. Porto,
Adeus
Depois daqui só o horizonte
Além.
Micropoesia para Dispositivos Móveis: Onze (ou "Amor Afora")
O ônibus não passa, atraso, atraso. Eu perco o rumo, saio da calçada e caminho pela faixa preferencial, atropelado e multado, respectivamente. Caem os dados, os lados que separam meus órgãos do mar aberto, me misturo nessa coisa só, imunda e gostosa que é o restante do mundo. Meses depois me fazes na tua gestação. Saio do parto, renasço, cresço, disparo, mal tenho tempo de agradecer teu orgasmo. Solto outra vez me vejo selvagem. Perco os dados e aposto no carteado minha próxima sorte, logo eu, que, desde reencarnado, sempre fui digital. Perco de novo, provavelmente roubado, com certeza idiota, abro o rumo que espero desbotar minha escuridão, minha noite. Arisco, mal te atropelo, saio cortado e remendado, respectivamente. A pressa inimiga me pega na contramão, erro repetido. Erro menos, contudo. Mutilado e multado, sim, porém me despeço, te deixo um beijo nas mãos, te declaro a devoção que te devia antes ter admitido. Doutra vez, no entanto, esperamos no ponto, nos passam os ônibus, são dois diferentes, certa hora vão cruzar avenidas opostas, o próximo só daqui uma hora, o meu já ensaia passar por fora, faço sinal, fazes sinal, o semáforo vermelho interrompe ambos, lado a lado, o que me causa uma taquicardia seguida de epifania. Rio, encontro o prumo, caem os lados, paredes de desespero que me separavam do universo completo e constantemente em expansão. Subo no veículo errado, que é o correto, que é o teu, te reencontro, me apresento, te acompanho, te peço desculpas, te abraço, te agradeço, obrigado.
sábado, 7 de março de 2015
Micropoesia para Dispositivos Móveis: Dez (ou "Cagaço")
Saindo do Metrô, último trem, pré madrugada, entre a estação e a casa, acende um cigarro minuto depois e guarda o isqueiro. Solfeja mentalmente uma canção que aprendera na manhã anterior. Duas quadras faltando, passo apertado, o trecho é curto mas deserto, aparece-lhe um sujeito vindo da rua perpendicular à caminhada que o assusta e pergunta:
– Amigo, me vê o isqueiro?
– Tenho não
– Qualquer coisa pra acender
(O tabaco havia queimado menos da metade.)
– Tenho não, mas toma aí
– Valeu, segundinho
(Tentou acender o dele com a ponta da chama ainda acesa do outro.)
– Pode ficar, tô atrasado
– Não, pô, aqui, já foi, tá quase
– Não, não precisa, fica
– Cara, tô com maço inteiro aqui, não precisa...
Mal ouviu direito a frase explicativa e saiu correndo pela rua, sem virar para trás, só parando no seu portão. Ofegante, semi enfartado, aliás, pois mora no cume de uma ladeira. Esqueceu totalmente a canção recém aprendida.
Duas quadras atrás o indivíduo surpresa dá um trago no meio cigarro que filou de graça mas já o apaga e emenda no seu próprio, de filtro leve. "Por isso sempre evitei esse Marlboro Vermelho", pensa. "Quem fuma essa porra fica uma pilha de nóia só." Enquanto ele se direciona para o ponto de ônibus lhe vem a seguinte imagem, em palavras e entre aspas: "Mas, naquela noite, como numa tocha, o fogo fora passado adiante. E é isso o que importa." Sorri e toma nota no seu aparelho celular do que lhe pode ser um verso.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
Micropoesia para Dispositivos Móveis: Oito
Pé fora de casa, marolinha de maconha. Ninguém por perto exceto um indivíduo quase no final na escadaria que dá pra Rua Jogo da Bola. Próxima esquina, pombo partido em dois partiu sem funeral. Na quadra seguinte, cerca de 20 fiéis de fé católica entrando com padre, crucifixo de 2 metros e meio de altura e muita fé em um boteco da zona portuária. Sei que este é repleto de escudos do Botafogo, pôsters de mulheres nuas e alvos de dardos. Mais tarde eu sei que rola uma roda de samba e choro ali que me é recomendadíssima, fica na esquina da Rua Júlio Lopes de Almeida com a Conceição.
O atraso me obriga a pegar o primeiro ônibus que aparece e, sem dinheiro trocado, desencadeio em debate com a simpática trocadora, que me pergunta: "Tem quarenta centavos?" Digo, "Não", continua, "Espere por gentileza então, pois tenho moeda nenhuma, menino." Tudo bem. Após cerca de 7 pessoas passarem pela roleta, apesar de humanas, proponho o seguinte cálculo matemático para ela: "Oi! Então, tenho uma proposta pra você. Como você tá sem troco de moeda já duas pessoas passaram pela roleta te pagando 3,50, certo? Dessas duas pessoas você já tem 20 centavos a mais de caixa que você não precisa me pagar em moeda porque é lucro, se você considerar essa diferença ao meu favor. Para não esperarmos mais duas pessoas pagando os 3,50 que completaria os 40 centavos que eu não precisaria te pagar, eu completo, agora, com essa moeda de 25 centavos, além dos 20 reais de antes. De troco você me dá 17. Você ainda fica com 5 centavos de lucro no caixa, entendeu?" Ela, "Pera aí menino que o ônibus tá balançando muito e já você me explica com calma essa sua matemática doida aí."
O dono do bar dessintoniza o canal de áudio da TV a cabo tocando sambas para passar a novela das 9. Acabou o Carnaval mesmo. Minha amiga me conta seu final de semana movimentado quando aconteceu uma festa que tinha seu próprio tequileiro-anão vestido de Chaves que, inclusive, a paquerou descaradamente. Reclamo da desumanização de anões na sociedade e isso desencadeia um debate. Concluímos que não julgamos o moço por abraçar sua opressão como profissão de vida. Aliás, o figura está melhor de vida que a gente: faz pontas de ator em um programa na televisão.
Rumo ao lar, sóbrio, brilho horizontal laranja acima descendo a avenida é sinônimo do meu ônibus chegando. Mesma trocadora. Tem quarenta centavos pra inteirar o troco? Agora tinha. Agradecemos os dois por não ter que calcular coisa nenhuma. Penso se fui machista ao abordá-la com papo matemático, lembro que sou de humanas mesmo. Avalio que se fui eu fui nem tanto pois, no fundo, queria mesmo passar um tempo da viagem conversando com a moça, cujo bom humor pra quem trabalha até uma da madrugada era, definitivamente, admirável. Mal tenho tempo de me admitir seu fã pois meu ponto chega. Nunca entendi essa válvula que o piloto vira, sai ar e abre a porta de trás do coletivo. Deve ser um sistema de pressão. Uma noite repleta de conclusões. Boteco perto de casa, promoção de dois Camels por 10 reais. "Quando saía pela Souza Cruz vendia mais", diz, entendido, o dono do bar que se embala em um forró contemporâneo desconhecido. O samba choro come solto bem na outra esquina, Baden Powell e meu xará Vinícius dando saravá aos Orixás. Salve! Durmo cedo, trabalho de campo amanhã. A espessura da camada de luz amarelada ao redor da Lua indica que amanhã fará um calor do cacete.
O dono do bar dessintoniza o canal de áudio da TV a cabo tocando sambas para passar a novela das 9. Acabou o Carnaval mesmo. Minha amiga me conta seu final de semana movimentado quando aconteceu uma festa que tinha seu próprio tequileiro-anão vestido de Chaves que, inclusive, a paquerou descaradamente. Reclamo da desumanização de anões na sociedade e isso desencadeia um debate. Concluímos que não julgamos o moço por abraçar sua opressão como profissão de vida. Aliás, o figura está melhor de vida que a gente: faz pontas de ator em um programa na televisão.
Rumo ao lar, sóbrio, brilho horizontal laranja acima descendo a avenida é sinônimo do meu ônibus chegando. Mesma trocadora. Tem quarenta centavos pra inteirar o troco? Agora tinha. Agradecemos os dois por não ter que calcular coisa nenhuma. Penso se fui machista ao abordá-la com papo matemático, lembro que sou de humanas mesmo. Avalio que se fui eu fui nem tanto pois, no fundo, queria mesmo passar um tempo da viagem conversando com a moça, cujo bom humor pra quem trabalha até uma da madrugada era, definitivamente, admirável. Mal tenho tempo de me admitir seu fã pois meu ponto chega. Nunca entendi essa válvula que o piloto vira, sai ar e abre a porta de trás do coletivo. Deve ser um sistema de pressão. Uma noite repleta de conclusões. Boteco perto de casa, promoção de dois Camels por 10 reais. "Quando saía pela Souza Cruz vendia mais", diz, entendido, o dono do bar que se embala em um forró contemporâneo desconhecido. O samba choro come solto bem na outra esquina, Baden Powell e meu xará Vinícius dando saravá aos Orixás. Salve! Durmo cedo, trabalho de campo amanhã. A espessura da camada de luz amarelada ao redor da Lua indica que amanhã fará um calor do cacete.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
Micropoesia para Dispositivos Móveis: Sete
Acordei gritando, tive um pesadelo. Sonhei com um outdoor gigantesco do Iphone número 11 estendido na medianeira de um edifício na entrada da Primeiro de Março. Pesadelo pois ao invés de me perguntar quantos aparelhos eram necessários para pagar uma publicidade daquelas, a indagação era: "Será que penduraram em troca de um aparelho pro dono do prédio?"
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
Micropoesia para Dispositivos Móveis: Seis
Um, o vácuo este entre tua nuca e a narina minha,
entre nossos ombros, nossos dois pulsos,
entre o teu quadril e a palma do meu dedão;
Que se eu devesse reduziria esta distância
Pois mais veloz e com tempo para reduzir o que separa estes dois lados
Em referência aqui;
Não devo;
Lá, pois é tua a régua métrica que redefiniu o espaço entre nós
quando te fez aguda a necessidade de estendê-lo:
e respeito teu arbítrio;
Que triste e podre este afeto meu seria se eu, autoritário,
quisesse transpor o que é e apenas pode ser teu. Plena de si te admiro e quero;
Vigio em mim qualquer salto, do que comprometido acima, eu vier a dar.
Mas: Quão livre sou se sou ainda mera sombra do que me é verdade.
entre nossos ombros, nossos dois pulsos,
entre o teu quadril e a palma do meu dedão;
Que se eu devesse reduziria esta distância
Pois mais veloz e com tempo para reduzir o que separa estes dois lados
Em referência aqui;
Não devo;
Lá, pois é tua a régua métrica que redefiniu o espaço entre nós
quando te fez aguda a necessidade de estendê-lo:
e respeito teu arbítrio;
Que triste e podre este afeto meu seria se eu, autoritário,
quisesse transpor o que é e apenas pode ser teu. Plena de si te admiro e quero;
Vigio em mim qualquer salto, do que comprometido acima, eu vier a dar.
Mas: Quão livre sou se sou ainda mera sombra do que me é verdade.
domingo, 22 de fevereiro de 2015
Fotofobia
Pleno em casa, saguão, sala, quarto
Acendo as luzes
Insetos desta vez?
Não
Dispo a roupa, cama, câimbra, lato
Brisa leve janela a dentro, sereno afora
Casa, entro pela janela, teto
Acendo as luzes
Sem aplausos, meu quarto
Insetos?
Tampouco, aguardo
Azulejo, confete, purpurina, rouco, sono
Quarto, no escuro
Ruídos, pouca curiosidade
Saio pela sala sua
Coragem, vagalume, parapeito
Reencontro as roupas, porão, portão, rua
Centelha madrugada afora, pôr-do-Sol adentro
Casa, poeira, ressaca, cubro
Esqueço as chaves, abro
Luzes
Um vulto desce do teto e fica preso no óculos; Inseto?
Corro pra me refugiar debaixo do móvel
A multidão de tardígrados,
Minúsculos artrópodes presentes no suor dos nossos colchões,
Me aplaude entusiasmadamente.
Lar, o quarto, o seu
Você abre a porta, entro, curva
Luzes? Sim, a sua
Insetos? Eu
Corro pra me refugiar na timidez da Lua Nova
Pendurada estava no móbile sobre sua cama, Só
O pé descalço pela manhã amanhece com câimbra? Sim
Mas sob seu lençol.
Acendo as luzes
Insetos desta vez?
Não
Dispo a roupa, cama, câimbra, lato
Brisa leve janela a dentro, sereno afora
Casa, entro pela janela, teto
Acendo as luzes
Sem aplausos, meu quarto
Insetos?
Tampouco, aguardo
Azulejo, confete, purpurina, rouco, sono
Quarto, no escuro
Ruídos, pouca curiosidade
Saio pela sala sua
Coragem, vagalume, parapeito
Reencontro as roupas, porão, portão, rua
Centelha madrugada afora, pôr-do-Sol adentro
Casa, poeira, ressaca, cubro
Esqueço as chaves, abro
Luzes
Um vulto desce do teto e fica preso no óculos; Inseto?
Corro pra me refugiar debaixo do móvel
A multidão de tardígrados,
Minúsculos artrópodes presentes no suor dos nossos colchões,
Me aplaude entusiasmadamente.
Lar, o quarto, o seu
Você abre a porta, entro, curva
Luzes? Sim, a sua
Insetos? Eu
Corro pra me refugiar na timidez da Lua Nova
Pendurada estava no móbile sobre sua cama, Só
O pé descalço pela manhã amanhece com câimbra? Sim
Mas sob seu lençol.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
Adrenalina
Uma rampa, subida, descida, dando entrada para um hotel qualquer quase na esquina da Avenida Rio Branco. A pressa, a minha. Indo pela esquerda o caminho é reto e exige menos esforço. Pela rampa, na primeira etapa diagonal e avante, haverá mais esforço, o que haverá de retardar o movimento. Atravessaria o plano horizontal com a mesma velocidade que seguiria a distância equivalente no chão, no nível do mar. Contudo, na rampa diagonal abaixo, assumiria uma velocidade que, talvez, compensasse o esforço e o retardamento que tomei segundos antes durante minha ascensão. Qual dos dois caminhos é mais veloz? Acredito que tudo depende do quanto de atrito eu posso e preciso tomar ao escalar e descer as duas breves rampas. Caso escorregadias, provavelmente apenas me atrasaria de meu destino. Se irregulares, com pedras, tropeços, tais imprevistos igualariam este mesmo resultado. Caso fosse esta uma rampa maior que do que é realmente é, e eu subisse, digamos, 2 ou 3 metros acima, o esforço da subida me sugaria mais energia do que o necessário para empreitada de traçar esta distância. Sem contar que a igualmente longa rampa abaixo, para compensar o tempo desperdiçado pelo caminho reto ter sido evitado, me exigiria uma espalhafatosa corrida que assustaria os demais transeuntes, além do risco óbvio de, também, por este caminho, cair, me ferir, ser socorrido e chegar tarde no escritório, sendo ridicularizado pela história de fato caso houvesse a necessidade extrema de contá-la, perdendo o dia de trabalho, o que em si não é tragédia alguma, ou, na pior dos casos, não me ferindo o bastante para aplicar um atestado médico e ter que trabalhar com os ombros e joelhos ralados o restante do dia (não há enfermaria na firma onde labuto).
A rampa é curta, a diferença da velocidade e do tempo economizado entre os dois caminhos deve ser mínima. Há certos riscos na vida que são ridículos e que devem e geralmente são tomados apenas por aqueles com pretensões, conscientes ou não, dos suicidas, como atravessar com um par de patins e dispensando passarelas qualquer altura sem engarrafamentos da Avenida Brasil. Já outros, naturalmente, apresentam riscos médios ou baixos. Neste dois segundos que tive para pensar este parágrafo e meio faltou me tempo de concluir quais das duas hipóteses de caminho me apresentava maior nível de periculosidade. A eminência da decisão me força a tomar uma decisão instintiva e contrariar meus cuidados racionais ao trato e dia a dia. Tomo a decisão mais impulsiva a qual posso ter lembrança: atravesso correndo ambas as rampas e, na descida, aproveitando o impulso, emendo num salto. Por sorte o sinal da avenida estava aberto e eu pude seguir adiante e evitar saber a reação dos que testemunharam minha façanha.
terça-feira, 10 de fevereiro de 2015
Micro-poesia para Dispositivos Móveis: Cinco (ou "Rap Esfarelado")
Amor agudo, destroçado de entulhos? Entendo bem; de perna remendada em parafuso, de junta rangendo de esquecer de dar um passo! ou garganta enferrujada porque tem tempo que há passado e um canto não passa mais por suas paredes. De pressa entendemos bem, compreende?; barriga estufada de lixo; pânico; ossos pesados do cadáver de pé, preso no trânsito; um beijo acidental na saída do metrô apertado, uma saudade consensual do analista passado. A embocadura correta pra dar prazer ao sax e ao sexo. De afogamento entendo bem, o desvio de septo; o pulmão afogado no próprio suor que veio da testa de fora e escorreu pra dentro. Nestas frases que não dizemos todo dia, penso. A bala de mentos mentolada, momentos por três e quarenta, o corretivo, o escarro bem dado e pisado no chão do coletivo, a oportunidade perdida ou jamais dada no lamento de alguém pedindo grana e aceitando o cartão como forma de pagamento.
Oportunidades distantes como o terremoto que esperamos acontecer o ano inteiro: alastrar pro fundo do Oceano Atlântico esse estado do Rio de Janeiro. O Cristo Redentor e o Corcovado, novos turismos no arquipélago recém fundado. Entendo bem este teu queixo caído, cara. Catástrofes são a especialidade da casa.
Oportunidades distantes como o terremoto que esperamos acontecer o ano inteiro: alastrar pro fundo do Oceano Atlântico esse estado do Rio de Janeiro. O Cristo Redentor e o Corcovado, novos turismos no arquipélago recém fundado. Entendo bem este teu queixo caído, cara. Catástrofes são a especialidade da casa.
Micro-poesia para Dispositivos Móveis: Quatro (ou "Aquarela de Vinte Poucos Anos")
Azul da cor da pele sua. Lilás da cor da pele minha. O arco-íris pleno renascerá após a tempestade. Coloriremos a multidão inesperada mas compreensivamente pálida, branca e branda. O negro e rubro surgirão e chegarão pra nos compor a paleta.
Terremotos de nossa autoria tremularão as casas e edifícios e terrenos fechados pela especulação imobiliária. Permanecerá pálida, pois tumultuada, essa gente pois a sisudez da multidão se tornara um protocolo. Longa chuva há de vir. Desbotaremos como há de desbotar toda luz cuja dor é exposta à radioatividade, à gravidade dos astros, pois ao sal, ao léu.
Apesar da alternância de tons, nossa pele seguirá desafinando a hegemoneidade autoritária de quem se satisfaz com uma cor só. A rosa do dia de nossa autoria estampando o outro fundo do peito que, enfim afiado, desafiará o mormaço cansado. Cairá o verde nos braços que lhe farão levantar. Incêndio adentro o vermelho há de explodir como toda estrela que se preze.
Terremotos de nossa autoria tremularão as casas e edifícios e terrenos fechados pela especulação imobiliária. Permanecerá pálida, pois tumultuada, essa gente pois a sisudez da multidão se tornara um protocolo. Longa chuva há de vir. Desbotaremos como há de desbotar toda luz cuja dor é exposta à radioatividade, à gravidade dos astros, pois ao sal, ao léu.
Apesar da alternância de tons, nossa pele seguirá desafinando a hegemoneidade autoritária de quem se satisfaz com uma cor só. A rosa do dia de nossa autoria estampando o outro fundo do peito que, enfim afiado, desafiará o mormaço cansado. Cairá o verde nos braços que lhe farão levantar. Incêndio adentro o vermelho há de explodir como toda estrela que se preze.
Mania
Por que que tá grosso aqui?
Aqui onde?
Aqui na sua mão
Ah, é um calo
Calo de quê?
É de tocar contrabaixo, apoio o pulso aqui
Mentira
É sim
Porra nenhuma
Tá, é um calo de nervoso
Nervoso?
Toda vez que fico ansioso eu mordo esse pedaço da palma da mão
Como assim?
Assim, ó:
Que estranho
Daí eu faço isso com alguma frequência. Daí o calo
Você é estranho
E o ladinho desse seu dedão aqui?
Que que tem?
A pele tá na carne viva
Sim, eu fico arrancando e comendo
Isso não te faz estranha também?
Isso me faz faminta.
Aqui onde?
Aqui na sua mão
Ah, é um calo
Calo de quê?
É de tocar contrabaixo, apoio o pulso aqui
Mentira
É sim
Porra nenhuma
Tá, é um calo de nervoso
Nervoso?
Toda vez que fico ansioso eu mordo esse pedaço da palma da mão
Como assim?
Assim, ó:
Que estranho
Daí eu faço isso com alguma frequência. Daí o calo
Você é estranho
E o ladinho desse seu dedão aqui?
Que que tem?
A pele tá na carne viva
Sim, eu fico arrancando e comendo
Isso não te faz estranha também?
Isso me faz faminta.
Micro-poesia para Dispositivos Móveis: Três
Avisto os olhos de ti, monstro! Cuja desnatureza me banalizam. Esse cheiro encardido de cada palavra tua cujo idioma não compartilho e a maldição que me conjuras, ameaças que me grafitas na poeira do chão do quarto. O ruído insistente debaixo da cama, o vão povoado da soleira da porta, o estalo da parede ou vindo teu terror pela janela aberta. O veneno que bebes te faz encoraja e alucina: Concluo que devo silenciá-lo com as próprias mãos e pés. A madeira ressoa o meu golpe em falso espantando seus aliados mais covardes pois ocultos! mas a ti mantenho à vista. Arrasto os móveis, sacudo as roupas caídas durante batalhas anteriores, suavemente aguardo tua guarda baixar. Rompo, por fim, a inocência do sapato novo pois pelo reflexo que me toma é esta a arma que miro e cuja sorte acerto, a seis metros de mim, a ti, monstro, planando no ar, enquanto preparavas teu modesto ataque ou, quando tão desesperado quanto eu, apenas cumpria uma má ideia isenta de sentido. Deixo seu cadáver, afinal, estendido e à mostra a noite inteira, no mesmo lugar de teu fim, para que a consequência de tua ousadia sirva de exemplo a teus iguais.
Levanto pela madrugada para satisfazer meus assuntos líquidos pessoais e quão surpreso encontro duas de tuas próprias crias te prestando luto e te devorando a carne.
Micro-poesia para Dispositivos Móveis: Dois (ou "Alforria")
A liberdade de dormir fora de casa.
A liberdade de voltar pra casa.
A liberdade de se abrigar na estrada
Ou de beber o sereno entre quatro paredes.
A liberdade de seu próprio quarto.
A liberdade de se chover no telhado.
Há liberdade da porta pra dentro
Exceto nas salas de estar.
A liberdade de reformar seus muros.
A liberdade de demolir um edifício.
A liberdade de se correr por descampados:
Só ou com o Deus de sua preferência ao lado.
A liberdade de se querer um abraço.
A liberdade para recusar certos braços.
A preferência por um par de asas.
A alforria deste abraço em si.
A liberdade de voltar pra casa.
A liberdade de se abrigar na estrada
Ou de beber o sereno entre quatro paredes.
A liberdade de seu próprio quarto.
A liberdade de se chover no telhado.
Há liberdade da porta pra dentro
Exceto nas salas de estar.
A liberdade de reformar seus muros.
A liberdade de demolir um edifício.
A liberdade de se correr por descampados:
Só ou com o Deus de sua preferência ao lado.
A liberdade de se querer um abraço.
A liberdade para recusar certos braços.
A preferência por um par de asas.
A alforria deste abraço em si.
Micro-poesia para Dispositivos Móveis: Um (ou "Polegar Esquerdo")
De pé aqui no lotação. Com uma mão só e são mas sem tempo disponível pra pensar direito ou errado. Com um dedo só eu digo o que sair. Mais precisamente com o dedão, o polegar esquerdo: nem tão otimista assim; mas riste. Mesmo este ponto e vírgula agora me foi trabalhoso! Mas ele teima e vai presente e, veja só, apesar das circunstâncias, abuso dos apostos. Passei pra dizer, contudo, passei pra lhe dizer que o tempo passou e quanto mais ele passa menos tempo disponível nessa ampulheta de areia que é o interior dos nossos calçados: tanto pela morte que se aproxima pelo envelhecimento óbvio de quem fuma meio maço por dia quanto pelo espaço diário apertado deste eixo unidirecional que nos é concedido pra se viver propriamente o verbo viver. Tenho sua carta quase pronta e envelopada, falta o selo, falta uma agência dos Correios convenientemente no meu caminho. Essa semana estarei no Centro, daí quem sabe talvez. Será minha primeira carta, a trate com carinho! Respeite minha lamentável caligrafia pois raramente a uso. Pode me enviar por email as perguntas sobre o que quererá dizer esta letra ou aquela dentre uma palavra e a outra. Mas até seu endereço estará escrito à mão, eu juro. Resistirei a tentação de imprimir uma etiqueta no escritório. Falo-lhe de amor, comida, afazeres domésticos, doenças reais e fictícias que adquiri no final do ano passado. Confesso que sinto falta de meu nariz no seu pescoço. Escreverei-lhe um poema como este, quem sabe exatamente este, se eu tiver paciência barra tempo de torná-lo manuscrito também. Depois da idade me atingiu esta doença chamada prolixia Deu pra escrever a isto tudo por conta das obras no entorno da antiga Perimetral. Desço no próximo ponto, continuo depois mais este adorável desabafo sem testemunhas, intransitivo; ou dedicado, carente e ansioso, objeto direto. Pensando bem, preciso passar no hortifrúti (o corretor acaba de me sugerir esta inesperada grafia à palavra). Melhor ficar por aqui.
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
Travessia Em Si
Sou todo um caos em mim uma bagunça, um nó. Hei de ser sempre ser. O que fazer quando o redemoinho nunca parar de girar e você ter de atravessar, e ir e voltar, de lá pra cá? Resposta: Seguir conjurando tábuas em pontes flutuantes no ar.
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