terça-feira, 28 de abril de 2015

Monólogo Entre Cinco Paredes: Dois (ou "Finado Papo")

Que doideira, a última coisa que lembro era atravessando a rua. Boa tarde pra você também. Desculpa, é que eu tô pensando alto, onde eu tô exatamente? "Onde" é meio relativo, é que você morreu, cara. Como assim? Morreu, a última coisa que você se lembra não era atravessando a rua? Era. Mais o quê você lembra? Lembro que... sei lá. Vai, se esforça, se tu lembra disso, tu lembra de mais coisas. Certo, eu lembro que eu esperava o sinal abrir, estava mandando mensagem pelo celular, daí eu vi de relance uma pessoa atravessar de volta e lembro de ter tido a sensação que o sinal estava aberto. Mas você nunca viu se o sinal tava aberto mesmo, certo? Sei lá, que diferença faz agora? Nenhuma. Pois é. Na verdade, mais ou menos. Por quê? Porque isso pode explicar algumas coisas sobre como você foi enterrado. Como assim? Já explico, senta. Certo... eu estava deitado numa cadeira? Então, você estava só com a sensação de estar deitado, assim como estar sentado também é só uma sensação agora, mas tenta não focar nisso. Certo, tem alguém ali? Ali onde? Ali atrás da porta. Tem. Quem é? Eu tô no céu? Bem... Puts, bem que eu devia não ter largado religião, caralho. Eu era espírita, né. Você é meu anjo da guarda? Não. Onde eu tô afinal? Cara, você tá dentro de você mesmo. Como assim? Você tá dentro de você mesmo, o "você" que você tá pensando agora é na verdade uma fração da sua consciência que está, neste exato momento que nos falamos, se desintegrando. Se eu tô dentro de mim mesmo, quem tá lá fora? É você também. Como assim? Ali é outra fração da sua consciência, com ele eu já conversei. Por sorte ele era um neurônio que estava mais ligado aos movimentos musculares, então fez menos perguntas, menos comentários... O que ele falou? Falou que a última coisa que lembra era que estava coçando seu nariz. Meu nariz? Você não sou eu também? Não. Preciso de um copo d'água. Olha, geralmente não temos essas regalias, mas por sorte choveu há poucas horas atrás e eu posso te conseguir uma molécula de água. Quê? Toma, bebe.

Tô confuso. Vai facilitar se de agora em diante diferenciarmos quem está falando por algum recurso. Apesar de não ser você eu estou dentro de você pra te auxiliar, e as coisas podem ficar meio emboladas. Emboladas como? Assim. Assim como? Assim, tá vendo? Tô vendo o quê? Sei lá. Quê? Batata. Porra, para, cara. Viu? Quem está falando agora? Não sei. Você já está com dificuldades pra saber quem sou eu e quem é você mas se outra parte da sua consciência entrar aqui as coisas vão piorar ainda mais. Tá, como faz? Você terá a letra E seguida de dois pontos no início de cada fala sua. E: Tá bom. E eu terei a letra D. E: Certo. D: Vamos dividir também em diálogos com espaços, pra facilitar a leitura. 

E: Leitura de quem? 
D: Evita perguntas metalinguísticas, cara. Temos relativamente pouco tempo.
E: Certo. Então, eu morri. Suponho que morri atropelado.
D: Isso. Tudo o que consegui até agora dos seus outros neurônios foi justamente isso. 
E: Bem, depois disso eu vi um borrão, acho. Um movimento rápido.
D: Sim, seguido de uma dor insuportável. Que durou pouco tempo, pelo menos
E: Por que eu morri logo em seguida? 
D: Sim.
E: Eu estou dentro do meu cérebro... certo. Se o cara que tá ali atrás da porta, que na verdade nem está fazendo mais barulho, é outra parte da minha consciência... Eu lembro das coisas que lembro por quê?
D: Porque você é um neurônio das células dos olhos, não sei se já falei. Seus neurônios tem uma certa ligação com o que era sua consciência no momento da morte, mas como, bem, a sua cabeça ficou meio despedaçada, vocês estão se comunicando dessa forma truncada. Eu tô aqui pra mediar essa comunicação. No momento eu quero saber apenas o que aconteceu com seu corpo.
E: Não sei, como poderia saber?
D: Você tava na visão, e pelo o que parece, você morreu de olho aberto, talvez tenha algo a mais para acrescentar ao que conseguimos achar até aqui.

E: Um campo de futebol.
D: Quê?
E: Me veio essa imagem, um campo de futebol. Nunca vi na vida, eu tenho, ou tinha, memória fotográfica. Acho que ia saber. Um campo. A trave tá sem rede. A gente passa por dentro dela. Tem uma árvore. Aparece um buraco no pé da árvore. Acho que não lembro de mais coisa porque obviamente não consigo me mexer e mudar o ângulo de visão. Mas isso.
D: Ah, menos mal então. Isso explica a disponibilidade de água.
E: Como assim?
D: Você foi enterrado num campo de futebol, ao leu. Deve ter chovido umas horas atrás e o que resta do seu corpo sugou um pouco de H2O. Bem, finalmente, fim de turno. Voltar pra casa. Seja lá quem atropelou você não queria que te encontrassem. 
E: Pera, como assim, e agora? Que que eu faço?
D: Você tem duas opções. Você pode voltar a deitar e dormir e assim sua consciência vai diluir de vez. A outra opção é nunca dormir e andar por aí, conversando com suas outras células, neurônios, partes. Ou pelo menos com quem ainda não resolveu dormir também.
E: Tem muita gente acordada?
D: Acho que tem uma galera fazendo carteado no final desse corredor. O pessoal com memória motora se juntou com outros da memória visual e estão jogando buraco. Escolha sugestiva.
E: E se eu dormir?
D: Se você dormir você vai se dissipar e se decompor de vez, vai se misturar com a terra, com a chuva, com as larvas, com a árvore. Você até que se deu bem, no final das contas. Tem gente que é enterrada em concreto de calçada, é um tédio. Mas a sua consciência, a atual, vai... cara, como posso te dizer isso? Você agora já tá fragmentado. Depois de dormir, vai ficar mais ainda. Vai se misturar com a zorra toda, sabe? Mas relaxa que isso acontece com todos. E de qualquer forma, se resolver ficar mais um pouco, ó, o tempo não vai ser infinito, mas pode ser também razoavelmente longo. É mais uma questão de quem aguenta o tédio mesmo. Tem gente que é interessante, viu uma renca de coisa na vida, viajou, leu pra caramba, daí é como se tivesse um universo interior bacana, sabe? Então essa gente consegue se distrair por um bom tempo dentro de si, mas claro que isso não dá pra medir em dia, anos. Você, pelo o que deu pra ver das conversas que tive anteriormente, teve uma vida bacana. Morreu cedo, pois é, mas teve uma vida interessante. Faz o seguinte, dá uma volta por aí, vai trocando uma ideia, vai relembrar bastante coisa. Existe muita interação possível. Está rolando um samba jazz joia no primeiro andar! Você tinha uma boa memória auditiva, pra tua sorte.

E: Vou fazer isso. Bem, de qualquer forma, obrigado. Curiosidade, com quantas pessoas você falou hoje?
D: Com quantos outros você, né? Deixa eu ver aqui na listagem... você foi o "eu" número 20 bilhões quatrocentos e sete mil e novecentos. 
E: Eita, que trabalho!
D: Que nada, o corpo humano tem mais de trilhões, cara. Apesar de que uma parte sua ficou lá no asfalto mesmo. Na real eu tô saindo antes do expediente hoje. Minha esposa vai até estranhar. Vou levar um vinhozinho pra tudo ficar suave.
E: Pode crer. Bem, obrigado de qualquer jeito. Você me lembra alguém. Não pelo rosto, mas o jeito...
D: Lembra nada, você era só o olho esquerdo e você nunca me viu. Bem, até mais.
E: Vamos nos ver de novo?
D: Não.
E: Ah, tudo bem então. Espera, se você não sou eu, quem é você?
D: É uma explicação longa, você vai realmente desperdiçar seu tempo com isso? Eu quero aproveitar o restante do dia pra pagar umas contas. E, pra ser sincero, cara, você não está integrado com sua memória auditiva, cognitiva... eu vou começar a explicar e você vai começar a se perder pelo caminho. Deixa isso quieto. 
E: Certo. Bem, mas valeu aí. Abraço.
D: De nada, abração.
E: Beleza.
D: Que Oxalá te abençoe, aliás.
E: Eita, não é que a galera do Candomblé que tava com a verdade?
D: Se eles são donos da verdade ou não, eu não sei, cara. Mas que eu sou filha de Iemanjá da cabeça aos pés, eu sou. 

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