sábado, 11 de outubro de 2014

Somos Três

Me condeno num impulso estético ético de fugir com o copo de vidro do boteco. Condeno pois me pego num discurso sustentável que minha auto-consciência diz para não contribuir com o aumento de materiais descartáveis naquele estabelecimento. Me descubro na fila de um Hotel esperando bater as cinco da manhã pra negociar um desconto no aluguel do quarto. Dou o bom dia merecido às evangélicas constrangidas que que voltam pra casa terminada a sua vigília de dentro das igrejas pentecostais que ficam espalhadas pela Rua da Conceição. Achei na noite outra menina que era a tua cara, a meia altura, o meio riso, o meio ruivo, os meios cachos e devo ter quase trocado o nome da moça pelo seu quando sai e voltei com a cerveja e tive que pedir pra ela segurar o copo, que foi, no final das contas, roubado do bar. Em casa e só, finalmente só, te vejo acenando de dois anos atrás do outro lado do histórico. Embrigado anoto umas ideias embriagadas pra lembrar de usar no dia seguinte em qualquer galho. Durmo, acordo antes do esperado e começo de madrugada mesmo. A falta de objetivo faz amanhecer depressa. Afinal, arranho um poema que quando vou ver já virou prosa porque onde há ressaca não há métrica. Tenho manhãs de tenor, mas acordei barítono de tão rouco de cigarro, de beber gelado. Cabisbaixo, reclamo da sua ausência como pirralho mimado que chia pra mãe que esqueceu sua paçoca: 

"Maria, seu nome me soa feito o estrondo além das montanhas de prédios; como se a rosa fosse o Sol e enquanto flor firme por entre a mecha do cabelo irradiasse; seu sobrenome parece risada, ria! ria como se minha obsessão por astronomia fosse esguia eu te visse nas constelações que aprendi via enciclopédia, Maria; Maria, ateia, indecisa sobre a possibilidade da maternidade, Maria, seu nome é refrão dentro e fora de verso e canção; Maria, que sequer é Maria e tomo-lhe pela mão como um paliativo em imagem pra dissertar sobre nossa própria solidão; Maria, seu nome é título de monólogo que escrevi adolescente e esqueci de guardar, sua gravidade é minha gravidade que desaprendeu sua função e nos deixou, por dois minutos, suspensos no ar; sua alma que nem a minha: nenhum de nós dois se resguardou do sereno; Maria, seu coração vermelho se abre, a cor é uma mera perspectiva da refração da luz na nossa retina; Maria, seja lá o que te explode aí dentro faz bem explodir. E eu te espero na porta do banco com a chave do carro virada, com o motor aquecido, ligado, a porta destrancada; seja lá que explosão, está tudo bem que o que incendeia acontece porque faz parte de sua propriedade química de eclodir em chamas; Maria, eu sei um atalho mas detesto atalhos! só estou indo por aqui porque estamos em fuga. Maria, estamos em fuga mas pega sua analógica, faço nem ideia quando vai dar e se vai dar pra revelar, mas pega, fotografa aquela gaivota que assim que possível eu pego o caminho mais longo e vamos pela beira do prato onde a comida é mais fresca; quase encostar nossa nuca, casa lar do arrepio; assim que der vire à esquerda que nos chegará o litoral: pode parecer contramão, mas, mesmo se a viagem acabar em Inverno, pela frisa da janela prevalece o Verão."

Adormeci e acordei pela segunda vez, e, pouco depois do almoço, antes de mudar de assunto, continuei nesse menor parágrafo: "Maria, antes que eu pegue no sono e me distraia saiba que estamos juntos enquanto houver ossos nesse corpo e como arqueóloga você sabe melhor do que eu que isso é tempo o bastante. Seu nome é refrão, et cetera; sinto saudade de quando você acordava logo cedo porque o azul é mais azul antes das nove." 

sábado, 4 de outubro de 2014

Ella

O shuffle estava muito cruel naquela noite. "'Nothing compares 2 U', sério"? O amigo chegou antes do terceiro refrão, atabalhoado, perguntou se tinha lembrado de levar o isqueiro. Tinha. E, sim, não esqueceu a seda, dobrada na meia, doidão. Perguntou que que era atabalhoado. Falou do bofe pra ela, da pós graduação. Fazia tempo que não sentavam a bunda numa praça pública, cidade violenta. Mas ali pareceu boa hora e lugar, meia dúzia de criança, cachorros, idosos, pipoqueiro, banca de jornal 24 horas, se secar o fogo ou arranjar um varejo. Dia seguinte. A menina com quem tinha marcado uma casual tinha saia curta demais para uma protestante, devia ser batista, concluiu. Ademais o fato de estar saindo com outra mulher. Na outra semana. Acordou. Seu único pertence além da roupa era o esparadrapo que fechava a ferida do soro. Quando levantou, finalmente, chovia e já era quase três da tarde. Como, obviamente, tinha ideia nenhuma de que horas eram, cumprimentou sorridentemente a enfermeira com um exclamativo "Bom dia!" (Como sempre fazia.) A funcionária do hospital cochicharia com sua colega de trabalho: "Menina, veja só. Nem parece que tentou se matar ontem". Imediatamente depois de sua alta voltou a fumar filtro vermelho. Dois anos depois. Demorou umas cinco semanas para sequer tocar a cama dela. Porque era dela, ela que pagou, dela, então. Dormia no sofá porque sim. Ainda sobre a cama, como disse, deixou por muito tempo as colchas e lençóis como ela havia esquecido de arrumar antes de sair. No primeiro dia foi por birra, porque não era sua criada, porra. Depois porque notou que a marca do lençol amassado ainda descrevia vagamente em suas linhas tronchas o seu corpo deitado antes. Parou de fumar, por conta própria, três dias depois que mudou de cidade. Cinco anos passados. "Engraçado como a gente se acostuma com o litoral." 

Situações inusitadas por se ter uma memória visual forte:

Lembrar, do nada, enquanto bebe um café e aperta um cigarro, do rosto de uma mulher aleatória. Simplesmente lembrá-lo fotograficamente, assim, deslocado de qualquer outra memória a respeito. Uma cara flutuante com requintes e detalhes, por exemplo, sobre a sobrancelha, tonalidade da pele, lábio e último corte de cabelo. Excesso de informação ilustrativa a respeito de uma pessoa que você não faz ideia de quem é, por onde ou por quem conheceu. Acontece também de se esbarrar, tão casualmente quanto, três dias depois, com a tal pessoa na fila do banheiro de um bar na São Salvador. "Verdade, era colega de sicrana." 

É interessante pensar que, apesar deste descolar memorial de imagens e fatos, a sensação da amplitude do tempo é constante. Como da vez que você entrou em um bistrô na Sete de Setembro para comer um croquete, caro, por sinal, e, enquanto conversava, sentou uma menina na mesa ao lado cuja face te transportou para pelo menos quinze ou vinte anos atrás. Ainda agora você não faz ideia de onde a conheceu, e, se fosse mais extrovertido e estivesse desacompanhado, teria puxado assunto para ver se reavivava a lembrança. O seu único palpite por enquanto é de que estudaram juntos na terceira série e que ela era proprietária de uma mochila rosa. 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Carioquice

Carioca se acha bicho safo. E em geral é mesmo, porque sempre tem resposta na ponta da língua pra tudo. Parece regra de seleção natural pra sobreviver nessa cidade. Tu tá comprando um amendoim esperando o sinal abrir, dá uma nota de dois, recebe um real de troco, já aparece alguém de trás do poste pra pedir o dinheiro, provavelmente em sociedade com o moço do amendoim. O reflexo cultural é dizer: "Pô, broder, é pra inteirar a passagem..."

Por isso dos moços da Unicef que ficam espalhados pelas ruas do Centro eu só corro: são cariocas profissionais. No dia que parar pra conversar na certa vai dar Serasa. Mas me amarro de ver quando essa cariocada esbarra com outra gente ainda mais trabalhada na  arte da carioquice. Chega o pedinte: "Me vê um trocado aí, colega." Resposta: "Só tenho cartão, cara." Tréplica: "Mas a gente agora tem a maquininha de cartão também. Débito ou crédito?"