Me condeno num impulso estético ético de fugir com o copo de vidro do boteco. Condeno pois me pego num discurso sustentável que minha auto-consciência diz para não contribuir com o aumento de materiais descartáveis naquele estabelecimento. Me descubro na fila de um Hotel esperando bater as cinco da manhã pra negociar um desconto no aluguel do quarto. Dou o bom dia merecido às evangélicas constrangidas que que voltam pra casa terminada a sua vigília de dentro das igrejas pentecostais que ficam espalhadas pela Rua da Conceição. Achei na noite outra menina que era a tua cara, a meia altura, o meio riso, o meio ruivo, os meios cachos e devo ter quase trocado o nome da moça pelo seu quando sai e voltei com a cerveja e tive que pedir pra ela segurar o copo, que foi, no final das contas, roubado do bar. Em casa e só, finalmente só, te vejo acenando de dois anos atrás do outro lado do histórico. Embrigado anoto umas ideias embriagadas pra lembrar de usar no dia seguinte em qualquer galho. Durmo, acordo antes do esperado e começo de madrugada mesmo. A falta de objetivo faz amanhecer depressa. Afinal, arranho um poema que quando vou ver já virou prosa porque onde há ressaca não há métrica. Tenho manhãs de tenor, mas acordei barítono de tão rouco de cigarro, de beber gelado. Cabisbaixo, reclamo da sua ausência como pirralho mimado que chia pra mãe que esqueceu sua paçoca:
"Maria, seu nome me soa feito o estrondo além das montanhas de prédios; como se a rosa fosse o Sol e enquanto flor firme por entre a mecha do cabelo irradiasse; seu sobrenome parece risada, ria! ria como se minha obsessão por astronomia fosse esguia eu te visse nas constelações que aprendi via enciclopédia, Maria; Maria, ateia, indecisa sobre a possibilidade da maternidade, Maria, seu nome é refrão dentro e fora de verso e canção; Maria, que sequer é Maria e tomo-lhe pela mão como um paliativo em imagem pra dissertar sobre nossa própria solidão; Maria, seu nome é título de monólogo que escrevi adolescente e esqueci de guardar, sua gravidade é minha gravidade que desaprendeu sua função e nos deixou, por dois minutos, suspensos no ar; sua alma que nem a minha: nenhum de nós dois se resguardou do sereno; Maria, seu coração vermelho se abre, a cor é uma mera perspectiva da refração da luz na nossa retina; Maria, seja lá o que te explode aí dentro faz bem explodir. E eu te espero na porta do banco com a chave do carro virada, com o motor aquecido, ligado, a porta destrancada; seja lá que explosão, está tudo bem que o que incendeia acontece porque faz parte de sua propriedade química de eclodir em chamas; Maria, eu sei um atalho mas detesto atalhos! só estou indo por aqui porque estamos em fuga. Maria, estamos em fuga mas pega sua analógica, faço nem ideia quando vai dar e se vai dar pra revelar, mas pega, fotografa aquela gaivota que assim que possível eu pego o caminho mais longo e vamos pela beira do prato onde a comida é mais fresca; quase encostar nossa nuca, casa lar do arrepio; assim que der vire à esquerda que nos chegará o litoral: pode parecer contramão, mas, mesmo se a viagem acabar em Inverno, pela frisa da janela prevalece o Verão."
Adormeci e acordei pela segunda vez, e, pouco depois do almoço, antes de mudar de assunto, continuei nesse menor parágrafo: "Maria, antes que eu pegue no sono e me distraia saiba que estamos juntos enquanto houver ossos nesse corpo e como arqueóloga você sabe melhor do que eu que isso é tempo o bastante. Seu nome é refrão, et cetera; sinto saudade de quando você acordava logo cedo porque o azul é mais azul antes das nove."
