Estou por toda parte
O caminho que eu desvio me desloca o lugar
Já não te amo mais
Céu, chuva, boteco e canção
O pulso aberto perde a conta do coração batendo
Vermelho, sinal de saúde
Quem sabe um dia passo a rimar com mais frequência
E menos medo
Mais mãos
Escreve o que eu te digo
Quem me dera ter aqui um ponto final, conciso e derradeiro
Acabou, respira fundo e bebe um gole de Sol
Queria cantar pra fora de alguém
Alegria é sede que dá e passa
38 anos, trate de se cuidar as cores
São todas as formas de medo
Queria cantar sobre a janela
Mão coçando é sinal de ditado
Estou no caminho que eu desvio o coração
Respira fundo e acende a noite
Quem sabe um jeito de te abraçar sem te ferir
Quem me dera um ponto final pra te esperar passar
O pulso aberto dá forma e sede
Antes tarde do que pressa
Canção do Mar ao Sol sobre a Cidade
Antes dentro do que nunca
Estou por todo rosto
Antes prosa do que fora
Já não me labirinto mais
Alegria por toda tarde
Que janela eu te fiz?
Cores por toda parte
Que chuva eu te fiz?
Respira um gole e apaga o fim
Que arte eu te fiz?
Vermelho e dor são duas formas de amor
Que sede eu te fiz?
Frequentemente beba o céu
Que labirinto eu te fiz?
Conta pra alguém
Chuva rima comigo
Estou pros 38 anos o que a pressa está para os botecos da cidade
Menos medo e mais fundo
A dor também abraça
O coração dá para janela
Estou por toda arte.
segunda-feira, 30 de junho de 2014
Objeto Indireto
Por que será que será
Pra quem veio do mar, nunca falta o cais
Pra quem for gaguejar basta só cantar
Pra quem quer só pra sempre cabe, qual, jamais
Quem afina o assovio, tal qual passarinho
Que transpirar café, melhor estar sozinho
Quem marca atraso, passos, ata os cadarços
Pra quem tem pressa, às vezes, calha o tropeço
Pra quem tem sede, às vezes, falta um pescoço
Quem chega as 8 em ponto já pra trabalhar
Que não entrega os pontos, não cede lugar
Que toda sexta é santa, vai se embriagar
Que o samba da menina não vai calejar
Que cai antes do corpo querer respirar
Que o Sol lá da Bahia só nasce no mar
Quem que demais conhece, cai num labirinto
Que quem de fora vem me sempre é bem vindo.
Pra quem veio do mar, nunca falta o cais
Pra quem for gaguejar basta só cantar
Pra quem quer só pra sempre cabe, qual, jamais
Quem afina o assovio, tal qual passarinho
Que transpirar café, melhor estar sozinho
Quem marca atraso, passos, ata os cadarços
Pra quem tem pressa, às vezes, calha o tropeço
Pra quem tem sede, às vezes, falta um pescoço
Quem chega as 8 em ponto já pra trabalhar
Que não entrega os pontos, não cede lugar
Que toda sexta é santa, vai se embriagar
Que o samba da menina não vai calejar
Que cai antes do corpo querer respirar
Que o Sol lá da Bahia só nasce no mar
Quem que demais conhece, cai num labirinto
Que quem de fora vem me sempre é bem vindo.
sexta-feira, 27 de junho de 2014
Monólogo em Areia e Dedo: Dezessete
Eu não consigo caber no meu corpo,
faço buquês de pólvora,
pleno incêndio na minha casa:
Expludo.
Eu não consigo caber neste corpo
Logo procuro outro
Eu não consigo caber no meu corpo
À falta de assunto, tragédia, desgosto
Eu não consigo caber
Mas é o corpo quem morre antes
Não consigo
Mas caibo e sobro no teu colo
Ainda bem,
Não, não caibo, não sobro
Não tem fita métrica que me prove o contrário
Barômetro que me desminta
A verdade ingrata
Consigo, num sono
Te confessar de aniversário tua beleza que encontrei
É sonho, acordo e esqueço
Eu não consigo conseguir caber
Faz quarenta minutos que o tempo parou
Arbitrariamente
Não consigo já não caber no teu corpo
Faço refrão de teus tédios, tragédias
Borro teus traços com saliva, choro e suor
Nunca me faltou água
Eu não consigo caber no meu corpo
A sobremesa vem sempre antes pra mim
Eu não consigo caber em tão pouco
Mas não acontece isso de não se caber
Então se cabe, inflama, entala, incha
Se avermelha, queima, gigante
Até se prender frágil num quarto
Só não se engolir a chave porque não cabe mais nada
Nem você
Consegue caber no meu corpo
Rimo quando quero, minto quando posso
Eu não consigo caber no teu tanto
Portanto, te odeio
Não caibo, não sobro
E a sobremesa vem sempre de novo pra mim
Não caibo, não cobro
Eu não te quero aqui
Não consigo já não caber no teu corpo
Faço refrão do tédio das cidades
Perdoa o manto negro estendido na noite
Eu não consigo caber e pronto,
Entupo as artérias de fogo, pólvora,
Sou Deus de sangue e pus:
Explodo.
faço buquês de pólvora,
pleno incêndio na minha casa:
Expludo.
Eu não consigo caber neste corpo
Logo procuro outro
Eu não consigo caber no meu corpo
À falta de assunto, tragédia, desgosto
Eu não consigo caber
Mas é o corpo quem morre antes
Não consigo
Mas caibo e sobro no teu colo
Ainda bem,
Não, não caibo, não sobro
Não tem fita métrica que me prove o contrário
Barômetro que me desminta
A verdade ingrata
Consigo, num sono
Te confessar de aniversário tua beleza que encontrei
É sonho, acordo e esqueço
Eu não consigo conseguir caber
Faz quarenta minutos que o tempo parou
Arbitrariamente
Não consigo já não caber no teu corpo
Faço refrão de teus tédios, tragédias
Borro teus traços com saliva, choro e suor
Nunca me faltou água
Eu não consigo caber no meu corpo
A sobremesa vem sempre antes pra mim
Eu não consigo caber em tão pouco
Mas não acontece isso de não se caber
Então se cabe, inflama, entala, incha
Se avermelha, queima, gigante
Até se prender frágil num quarto
Só não se engolir a chave porque não cabe mais nada
Nem você
Consegue caber no meu corpo
Rimo quando quero, minto quando posso
Eu não consigo caber no teu tanto
Portanto, te odeio
Não caibo, não sobro
E a sobremesa vem sempre de novo pra mim
Não caibo, não cobro
Eu não te quero aqui
Não consigo já não caber no teu corpo
Faço refrão do tédio das cidades
Por nossa idade nestes edifícios em branco
Perdão à mudez das estrelas anônimasPerdoa o manto negro estendido na noite
Eu não consigo caber e pronto,
Entupo as artérias de fogo, pólvora,
Sou Deus de sangue e pus:
Explodo.
quinta-feira, 26 de junho de 2014
Monólogo em Areia e Dedo: Dezesseis
Doutor, doutor, seja bem vindo doutor. Quer um casaco, quer um abraço, quer um sorriso. Mas o doutor sabe bem, o doutor é procurador federal, doutor, senhor. Quer um intervalo, quer uma janela pra abrir, quer uma estrela de abajur, doutor? Quantos graus, senhor, o doutor quer que faça hoje no Rio de Janeiro? É verdade, dia nublado não dá pra ser. E na pelada, doutor, a bola também é sua? Até hoje? Quer sentar na janela, da primeira classe, pro primeiro céu, no primeiro vôo, doutor. Desculpa, doutor, não se bota mais circunflexo na palavra "voo". Longe de mim desrespeitar. Mas aceita um chá, massagem, um copo d'água, aceita um soco na cara? Doutor tá com pressa. Seguro o elevador pra ti, escolhe, qual andar, trigésimo quinto, é claro. Verdade, o doutor devia trabalhar no terraço. O pedestal aqui de ninguém é tão alto. Mas seus olhos são lindos, doutor, de que cor que é? Azul ardósia, que beleza, mas o doutor é lindo demais, é descendente de que, inglês? Italiano, óbvio, sim, olha esse nariz, adulto, os seus avós, vieram pra cá na Segunda Guerra, doutor já até arranjou dupla cidadania, Roma, Veneza, um dia larga essa bosta de país, e deixa a gente aqui sozinho boiando na merda, verdade, doutor, que Deus lhe abençoe. Doutor, o senhor tem muito pouco tempo, oferta, demanda, para de se perder seu tempo comigo, Doutor! Agradecido, brigado, obrigado pela atenção. Doutor nunca dobra a esquerda, senhor. E se tiver, por obrigação, caminho pro supermercado, que inverta a mão, combinado. Seu Doutor, vossa excelência já tem filhos? Dois, aposto que são a coisa mais linda que já pisou na Terra. Ah, que futuro brilhante, espera! Doutor, que quando fico assim tão perto não sei se tenho vontade de te beijar ou te quebrar as costelas. Seu sangue é azul mas toma Prozac, Tryptanol, Amytril, por que, Doutor? Mas não é tudo perfeito? É o Brasil que te deprime? Quer um saco sem fundo pra encher, quer uma língua maior pra enrolar no pescoço ou engasgar. Quer uma janela pra se jogar, doutor? Duvido que a gravidade vá te contrariar.
quarta-feira, 25 de junho de 2014
(Eu, todos os dias)
Uma piada interna: tão interna que riu mas manteve só consigo mesmo
E acabou esquecendo.
(E como rir mais ainda: tentar se imaginar explicando porque riu sozinho pra outra pessoa.)
E acabou esquecendo.
(E como rir mais ainda: tentar se imaginar explicando porque riu sozinho pra outra pessoa.)
domingo, 22 de junho de 2014
Monólogo em Areia e Dedo: Dez
Ninguém morreu por causa disso, ninguém mentiu. Ninguém te falou a verdade explicitamente, certo, mas também ninguém atravessou a rua, vendados os olhos e aos pulos, pra não chegar de pé do outro lado. Só você pediu as contas, você deu a cara a tapa. Ninguém prometeu reverter a gravidade, customizar o azul do céu. Ninguém te mandou manter o perfume nos cantos do corpo, ou cheiro dos outros, das outras. Nem sei quem foi que te ensinou a respeitar a liberdade alheia. Ninguém mandou esquecer o rosto de seus inimigos, ou suas vozes quando lhe concediam ameaças. Talvez eu esteja falando dos vizinhos de baixo, as pessoas da praça, que julgam, apontam, falam até sangrar a gengiva. Talvez até daquela sua amiga, descubra. Que bem te trouxe sambar, vadiar, voltar tão tarde pra casa, vestir as roupas que lhe bem entendiam. Votar, cantar, fazer poesia e sair pra rua com a cara manchada daquelas cores. Tudo estava em ordem neste mundo. Quem via imperfeições se omitia, calada, e a roda funcionava e se mantinha, isto muito antes de você chegar aqui. Podíamos falar em casa própria, pensar nas crianças, conhecer a Europa daqui há dois ou três anos...
Com quem você aprendeu a ter tanto amor próprio? Comigo que não foi. Auto estima não entra pela porta dessa casa. Nem a minha, veja bem, nem eu, nunca fiz questão. Deixei nas casas dos meus pais, embaixo da cama de algum antigo quarto que também me foi tirado, há muito tempo atrás. Sempre aprendi a olhar pra baixo quando devia, a levantar a mão pra quem eu devia levantar, é preciso respeitar a ordem das coisas, e este é um fato que você jamais conseguiu entender. Eu só queria o seu bem, queria o seu futuro, te ver crescer, florescer, quem sabe até um dia te ver trabalhar, repartição ou costura, quando nossos filhos crescidos. De qualquer jeito eu sempre seria muito mais e melhor que você. Quem provém o provimento sou eu, eu. Veja nossos filhos, veja que tipo de exemplo você está passando. Eles vão crescer sabendo que a mãe é isso, este aquilo de vulgar que aparece em telenovelas. Nos pequenos pensamentos deles ou você se redime ou não há último capítulo. A vida imita a arte, não tem quem diz?
Você e seu vício em tanta coisa inútil já deve saber, vou me livrar das mobílias. Sobre a cama de casal já não via mais motivo pra dormir naquela. Quanto mais que me calejava as costas, quanto mais sozinho. Estou para me mudar para um lugar menor. Precisamos definir o destino da casa, se vender, se morar, queimar, alugar. As crianças não poderão explorar a avó, sua mãe, pra sempre. É um desperdício, arremessar pela janela a vizinhança, os momentos, a paisagem, os finais de semana no parque, mas sei que não há de haver acordo. Há 20 anos não escrevia uma carta. Também nunca passei por debaixo de uma porta uma que fosse, como faço agora. Sei que você não me deve mais satisfação, que você não me perguntou nada. Mas eu precisava dizer que ninguém morreu, que eu estou aqui, respirando, embora haja tosses. Acho que conheci outra pessoa. Ela não me empolga, nem eu a empolgo, mas o importante é que me parece ter a cabeça no lugar, ao contrário de você. Isso pra mim já é motivo para apaixonar. Mas que te importa? Você que fez questão de ser tão livre, você que fez questão de ser feliz...
Com quem você aprendeu a ter tanto amor próprio? Comigo que não foi. Auto estima não entra pela porta dessa casa. Nem a minha, veja bem, nem eu, nunca fiz questão. Deixei nas casas dos meus pais, embaixo da cama de algum antigo quarto que também me foi tirado, há muito tempo atrás. Sempre aprendi a olhar pra baixo quando devia, a levantar a mão pra quem eu devia levantar, é preciso respeitar a ordem das coisas, e este é um fato que você jamais conseguiu entender. Eu só queria o seu bem, queria o seu futuro, te ver crescer, florescer, quem sabe até um dia te ver trabalhar, repartição ou costura, quando nossos filhos crescidos. De qualquer jeito eu sempre seria muito mais e melhor que você. Quem provém o provimento sou eu, eu. Veja nossos filhos, veja que tipo de exemplo você está passando. Eles vão crescer sabendo que a mãe é isso, este aquilo de vulgar que aparece em telenovelas. Nos pequenos pensamentos deles ou você se redime ou não há último capítulo. A vida imita a arte, não tem quem diz?
Você e seu vício em tanta coisa inútil já deve saber, vou me livrar das mobílias. Sobre a cama de casal já não via mais motivo pra dormir naquela. Quanto mais que me calejava as costas, quanto mais sozinho. Estou para me mudar para um lugar menor. Precisamos definir o destino da casa, se vender, se morar, queimar, alugar. As crianças não poderão explorar a avó, sua mãe, pra sempre. É um desperdício, arremessar pela janela a vizinhança, os momentos, a paisagem, os finais de semana no parque, mas sei que não há de haver acordo. Há 20 anos não escrevia uma carta. Também nunca passei por debaixo de uma porta uma que fosse, como faço agora. Sei que você não me deve mais satisfação, que você não me perguntou nada. Mas eu precisava dizer que ninguém morreu, que eu estou aqui, respirando, embora haja tosses. Acho que conheci outra pessoa. Ela não me empolga, nem eu a empolgo, mas o importante é que me parece ter a cabeça no lugar, ao contrário de você. Isso pra mim já é motivo para apaixonar. Mas que te importa? Você que fez questão de ser tão livre, você que fez questão de ser feliz...
Monológo em Areia e Dedo: Quinze
Quer entender qual é minha onda? Estou sempre atrasado, sempre velho demais para caber os espaços, sempre curto demais pra me trocar o teto, sempre pavão, prolixo e mal termino esta frase você vai ficar bocejando. Está sempre me faltando um dente de ciso pra nascer. Ando com a consciência tão pesada que preciso me equilibrar pra gravidade não me arremessar no chão. Fico me comparando, fico me perdendo e tudo é pouco demais. Vai fazer três décadas e continuo com frio nas pernas. Burocrático, sigo protocolos, cumpro prazos. É agora que você percebe que não estou falando de mim. Tanta modernidade. Sinto que estamos perdendo tempo e esse fim de mundo que não chega, as distâncias deviam se acabar logo, numa bola de fogo, sabe? Acordar no Pelô, Salvador, almoçar em Tiradentes, Minas Gerais, final de tarde em um caiaque no Rio Amazonas. E é óbvio que estou falando de nós. Me livrar desse desespero até me alivia um pouco, embora me caísse bem. As filas de cinema, os bares mais caros, os corpos estendidos nos "varals", varais, faço metáforas de vez em quando também. Estou meio rouco, isso foi o cigarro de ontem, mais de meio maço. Amasso que é bom? Nada. Me cai um raio bem no meio do quintal, e adivinha só? Eu não estou em casa. Feriado, viagem para Região dos Lagos. Só chego e vejo uma mancha de queimadura enorme no meio da grama. Esta é minha ventura. Vulturino: latim, vulturinus. Adjetivo. Definição: pertencente ou relativo ao abutre. Dicionário agora, por essa você não esperava. Juro que vou parar de perder seu tempo com essa bobagem, mas veja bem: é o meu jeito de te manter aqui. Te irritando. Falando qualquer coisa. Fazendo piada com sua barriga, sua sobrancelha esquerda. Veja bem, eu quero sua companhia, só não posso ficar pedindo atenção a torto e a direito. Minha mãe adorava essa expressão. Também herdei dela essa mania de me justificar. E esse amor por semântica.
Quero sua companhia mas não vou insistir. Não porque não gostaria de fazê-lo, aliás, adoro uma boa colocação pronominal também! Não porque não gostaria de fazê-lo mas porque tenho mais o que fazer. Veja bem, tá ficando frio, inventamos de marcar em um bar na beira da praia, vai estar ventando, vamos mudar de planos? Por que você não vem aqui pra casa? Não vamos fazer nada demais nem menos. Tenho até um gato, o nome dele é Arroz, sim, porque ele é branco. Ia chamá-lo "Cebola" mas não gosto de cebola. Se ele arranha? Ele é um doce ronronante. Ao contrário de mim. Se chover podemos esticar a rede na varanda e finalmente descobrir de onde vem os caramujos. Estou esperando você. Traz goiabada? Eu ia pedir pra trazer pipoca, mas quis te surpreender de novo. Sim, eu tenho queijo. Adoro encontrar pessoas que não tem medo de engordar comigo. Vamos colocar que estamos em um relacionamento sério para chamar atenção nas redes sociais? Brincadeira, óbvio. Devíamos nos casar direto. Veja que boa sorte a sua seria: detesto viver de passado. Mas me fale mais sobre você. Como eu dizia, eu estou sempre atrasado, sempre velho demais para caber nos abraços, e tenho sérias dificuldades de escolher uma coisa só pra falar sobre. Você sabe que eu estou falando de ninguém. Desconheço a gravidade, dos fatos, da Terra. O corpo que vai cair na minha cama hoje a noite não é o mesmo que levantou mais cedo. É engraçado concluir. Eu gosto mesmo é de achar um outro jeito de dizer as mesmas coisas. E de outras coisas pra dizer que são as mesmas. Estes dias sonhei com dois versinhos, anotei em algum lugar aqui pra te mostrar. Achei, abre aspas. "Ninguém no mundo tem a sorte de me amar quanto eu te amo. Ninguém no mundo tem o azar de te amar como eu me amo." Mas me conte agora sobre seu dia.
Quero sua companhia mas não vou insistir. Não porque não gostaria de fazê-lo, aliás, adoro uma boa colocação pronominal também! Não porque não gostaria de fazê-lo mas porque tenho mais o que fazer. Veja bem, tá ficando frio, inventamos de marcar em um bar na beira da praia, vai estar ventando, vamos mudar de planos? Por que você não vem aqui pra casa? Não vamos fazer nada demais nem menos. Tenho até um gato, o nome dele é Arroz, sim, porque ele é branco. Ia chamá-lo "Cebola" mas não gosto de cebola. Se ele arranha? Ele é um doce ronronante. Ao contrário de mim. Se chover podemos esticar a rede na varanda e finalmente descobrir de onde vem os caramujos. Estou esperando você. Traz goiabada? Eu ia pedir pra trazer pipoca, mas quis te surpreender de novo. Sim, eu tenho queijo. Adoro encontrar pessoas que não tem medo de engordar comigo. Vamos colocar que estamos em um relacionamento sério para chamar atenção nas redes sociais? Brincadeira, óbvio. Devíamos nos casar direto. Veja que boa sorte a sua seria: detesto viver de passado. Mas me fale mais sobre você. Como eu dizia, eu estou sempre atrasado, sempre velho demais para caber nos abraços, e tenho sérias dificuldades de escolher uma coisa só pra falar sobre. Você sabe que eu estou falando de ninguém. Desconheço a gravidade, dos fatos, da Terra. O corpo que vai cair na minha cama hoje a noite não é o mesmo que levantou mais cedo. É engraçado concluir. Eu gosto mesmo é de achar um outro jeito de dizer as mesmas coisas. E de outras coisas pra dizer que são as mesmas. Estes dias sonhei com dois versinhos, anotei em algum lugar aqui pra te mostrar. Achei, abre aspas. "Ninguém no mundo tem a sorte de me amar quanto eu te amo. Ninguém no mundo tem o azar de te amar como eu me amo." Mas me conte agora sobre seu dia.
quarta-feira, 18 de junho de 2014
(Duas Diferentes) Veredas
O coração descolorido era meu
A estrela desbotada era sua, mas
(De se salvarem um no outro
E aos dois de ambos.)
A estrela desbotada era sua, mas
Cada corda vocal que enrouqueceu
Cada gota que gritou de escorrer das paredes
Cada porção de unha, carne no carpete
Cada furo seu cicatrizou nas minhas peles
Caladas: cada canto, bolor, atraso
Meus, nos seus colos fez calor, atalho
Em cada canto (y ahora yo me refiero a cantar)
Verso não se difere, se mestiça ao refrão
Cada nuvem derradeira se perde no mar
Cada faísca passageira é farol, longuidão
Cada cor é cor primeira na aquarela completa
Cada manhã que chega: chega, dá um nó e aperta
Cada filha e filho nossos nascem antes do Sol
E o Sol nasceu antes de mim e de você, ateus
O Sol nasceu antes de Deus
Cada janela que abre em plena madrugada
É minha e é sua
Cada gota que gritou de escorrer das paredes
Cada porção de unha, carne no carpete
Cada furo seu cicatrizou nas minhas peles
Caladas: cada canto, bolor, atraso
Meus, nos seus colos fez calor, atalho
Em cada canto (y ahora yo me refiero a cantar)
Verso não se difere, se mestiça ao refrão
Cada nuvem derradeira se perde no mar
Cada faísca passageira é farol, longuidão
Cada cor é cor primeira na aquarela completa
Cada manhã que chega: chega, dá um nó e aperta
Cada filha e filho nossos nascem antes do Sol
E o Sol nasceu antes de mim e de você, ateus
O Sol nasceu antes de Deus
Cada janela que abre em plena madrugada
É minha e é sua
Acordamos
Neste ou deste desejo agoniante que espuma e pulsa?(De se salvarem um no outro
E aos dois de ambos.)
sábado, 14 de junho de 2014
Monólogo em Areia e Dedo: Catorze
O acolchoado de trás ainda tá manchado de sangue de ontem, cuidado, senhora, senta mais pra esquerda. Boa noite. Tá indo pra onde? Passar na Saens Peña, depois rua Uruguai, certo. Precisa ficar assustada não, o sangue foi de dois jovens desses aí, não sei se era viado, sei lá o que era, mas tavam saindo de uma briga da balada. Ah, não liga pro meu linguajar, não, eu falo palavrão pra cacete mesmo. Mas o menino ficou bom, deixei ele ali na Cruz Vermelha, na Lapa, parece que não era grave, mas já tinha sangrado bem. Espero que tenha sido atendido, porra, essa saúde, esses dias nem com plano tu pode confiar, é foda. É fogo.
Falei "viado", sim, mas é jeito de falar. Sim, preciso pegar mais leve. Eu sei. Meu filho é gay, sabia? Saiu do armário, como dizem, faz dois anos. No início foi um cu, né? Aceitar. Filho meu, agarrado com outro homem, ficava bolado só de imaginar. Mas nunca quis meter a mão na cara do garoto não, até por respeito de ter tido coragem de me falar. Sabe, ganhou ainda mais moral comigo, afinal, garoto bom, estuda bem. Ainda que, sei lá, fosse decepção ainda. Queria netos, sabe? Daí ele falou que pode adotar, que pensa em adotar, um dia. No mais, menos mal, uns mês depois peguei melhor a ideia, a mãe dele, nem mora mais comigo, separamos, levou a coisa até pior do que eu, o menino pediu ajuda, por isso que me falou, no final das contas. Brigou com ela e veio pra cá, pra minha casa, ela descobriu e expulsou ele, porra. Fiquei puto também com isso, por isso não tinha como bater no garoto. O moleque já vai passar um puta perrengue na vida inteira toda e a gente vai virar as costas? Mas claro, isso eu só consegui processar depois, na hora mesmo fiquei puto, mandei ele ir pro quarto, ficar lá que depois a gente conversava. Não conversamos porra nenhuma, claro, né? Nunca fomos de conversar tanto. Pior que ele gosta de bola, gosta de futebol, também torce pro Vascão, tanto que só disso que a gente conversava mesmo. Isso além de jogar papo fora, cê tá vendo, eu gosto de falar. Ficou lá, duas semanas quieto no quarto, mas eu não ouvia ele chorar não, eim? E olha que ele também tinha brigado com o namorado, descobri depois. Ainda bem que tava de férias na faculdade, ia atrapalhar rendimento, baixar as notas. O garoto segurou a barra bem. Mesmo gay meu filho é homem pra caralho. Sim, aqui é a Praça da Bandeira. Quer que eu vá pela São Francisco Xavier? Vai pegar alguém? Tá.
Falei "viado", sim, mas é jeito de falar. Sim, preciso pegar mais leve. Eu sei. Meu filho é gay, sabia? Saiu do armário, como dizem, faz dois anos. No início foi um cu, né? Aceitar. Filho meu, agarrado com outro homem, ficava bolado só de imaginar. Mas nunca quis meter a mão na cara do garoto não, até por respeito de ter tido coragem de me falar. Sabe, ganhou ainda mais moral comigo, afinal, garoto bom, estuda bem. Ainda que, sei lá, fosse decepção ainda. Queria netos, sabe? Daí ele falou que pode adotar, que pensa em adotar, um dia. No mais, menos mal, uns mês depois peguei melhor a ideia, a mãe dele, nem mora mais comigo, separamos, levou a coisa até pior do que eu, o menino pediu ajuda, por isso que me falou, no final das contas. Brigou com ela e veio pra cá, pra minha casa, ela descobriu e expulsou ele, porra. Fiquei puto também com isso, por isso não tinha como bater no garoto. O moleque já vai passar um puta perrengue na vida inteira toda e a gente vai virar as costas? Mas claro, isso eu só consegui processar depois, na hora mesmo fiquei puto, mandei ele ir pro quarto, ficar lá que depois a gente conversava. Não conversamos porra nenhuma, claro, né? Nunca fomos de conversar tanto. Pior que ele gosta de bola, gosta de futebol, também torce pro Vascão, tanto que só disso que a gente conversava mesmo. Isso além de jogar papo fora, cê tá vendo, eu gosto de falar. Ficou lá, duas semanas quieto no quarto, mas eu não ouvia ele chorar não, eim? E olha que ele também tinha brigado com o namorado, descobri depois. Ainda bem que tava de férias na faculdade, ia atrapalhar rendimento, baixar as notas. O garoto segurou a barra bem. Mesmo gay meu filho é homem pra caralho. Sim, aqui é a Praça da Bandeira. Quer que eu vá pela São Francisco Xavier? Vai pegar alguém? Tá.
Mas então. Queria bater na cara do menino mas não tinha como, claro. Eu também nunca levantei a mão pra ele, pra ser sincero, no máximo 1 ou 2 vezes quando era moleque, quando ele fazia merda braba, sei lá, uma vez tacou fogo na televisão porque esqueceu uma vela acesa em cima dela, porque tinha faltado luz, enfim. Mas, depois de grande, nunca dei sova, nem surra, nem nada. Como ia bater agora? Também, o garoto tem quase o meu tamanho, não tinha como fazer nada, em caso se eu quisesse, mas não queria. Não dormi direito, tipo, por umas três, quatro semanas. Ficava matutando. Só um segundinho, que aqui é um parceiro meu: fala, Sovaco! Partiu Itália e Inglaterra amanhã? às 19h, né? Tua casa mesmo? Cirilo vai? Por que não, porra? Sério? Que merda. Enfim, tá precisando da grana, deixa ele fazer plantão. Mas fechou então. Tu vai mesmo, né? Porra. Fura não, viado. Porra, eu sei que a casa é tua, mas te conheço, vai ficar lá trancado no quarto com a patroa... Mas valeu. Abração. Então, desculpa, eu tenho esse amigo, ia ligar pra ele pra confirmar, mas o corno nunca atende a porra do telefone, enfim, então, onde eu tava? Ah, sim, nunca levantei a mão, duas, três semanas depois, as férias do meu menino acaba, ele volta pra faculdade, a cabeça dele, sabe, dá uma desanuviada, né assim que dizem? Eu fico quietão, na minha, e, porra, a senhora só me conhece, o quê?, há 5 minutos e já confirmou que eu realmente gosto de falar, bastante. Não liga não, eu chamo todo mundo de senhora, senhor, independente da idade. Então, claramente eu tava bolado, né? No mais, o tempo passou, no Natal o clima já tava melhor, consegui abraçar o Julinho de novo, é, se chama, mesmo nome que eu. Então, vamos dar uma parada aqui que sua amiga já vindo? Tá. Desculpa qualquer coisa, se quiser que eu pare de falar, eu paro, só tô continuando porque a senhora me deu trela. Tá bom, no Natal. As coisas ficaram boas. Finalmente tivemos a tal conversa. Foi curta, e foi bom demorar. Falei que não entendia direito dessas modernidade aí, mas que ele não tava roubando, não tava matando, então tava bom pra mim. Um dia ele levou o namorado lá pra casa, eu que pedi, foi aí que descobri que também tavam brigados no meio do ano, é. O rapaz é gente fina, tão junto até hoje. Me deu até presente conjunto com o Julinho no meu aniversário, mês passado.
Pronto, de nada, senhora, boa noite. Rua Uruguai mesmo? Beleza. Então, é isso. Ah, eu tava contando aqui pra sua amiga como descobri que meu filho é "homo". É, gay. É, hoje a gente tá bem. Me deram um perfume bom, os dois juntos, ele e o namorado. Não ligo tanto pra essas coisas de perfumar, mas um casamento, qualquer coisa aí mais chique, vai ser bom usar. Encontrar uma mulher nem tão cedo, tô trabalhando demais, cheio de turista na cidade. O quê? Se eu já beijei outro cueca? Não, não, minha senhora, tô aprendendo a respeitar meu filho mas eu sou muito macho, sabe? Olha, nem vou falar mais nada, que não dei essas confiança.
Tá, sei lá. Bem, olha, pelo menos eu não fiquei tão bravo quanto eu podia ficar. Sei lá, no final das contas não é ofensa de verdade, é? E as senhoras, já ficaram com outras mulheres? Ah, vocês SÃO namoradas? Olha só. É sério mesmo? Não tão querendo tirar uma com minha cara? Tá, calma, não, não tô pedindo pra vocês se beijar não. Tá, eu sei que vocês não iam, mas eu acredito, não tem porque mentir, né? Tô aqui respeitando vocês. Então. É, não sei, tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo nesse mundo, eu tô levando com calma tanta novidade. Eita, já tamo chegando, aqui. Obrigado, moças, senhoras, é, eu chamo assim todo mundo mesmo, qualquer idade, de senhora, não leva a mal, já até expliquei antes pra sua senhora. Tem nota menor não? Ah, obrigado. De nada, eu que agradeço a atenção, tô falando muito hoje. Tô carente, o garoto tá viajando, a gente passou a conversar muito mais e melhor depois de tudo. Pois. É. Olha, sobre aquilo, vou admitir que isso me deixa, como se diz...? intrigado... Quem sabe um dia eu não beijo um homem pra ver como é que é?
Tá, sei lá. Bem, olha, pelo menos eu não fiquei tão bravo quanto eu podia ficar. Sei lá, no final das contas não é ofensa de verdade, é? E as senhoras, já ficaram com outras mulheres? Ah, vocês SÃO namoradas? Olha só. É sério mesmo? Não tão querendo tirar uma com minha cara? Tá, calma, não, não tô pedindo pra vocês se beijar não. Tá, eu sei que vocês não iam, mas eu acredito, não tem porque mentir, né? Tô aqui respeitando vocês. Então. É, não sei, tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo nesse mundo, eu tô levando com calma tanta novidade. Eita, já tamo chegando, aqui. Obrigado, moças, senhoras, é, eu chamo assim todo mundo mesmo, qualquer idade, de senhora, não leva a mal, já até expliquei antes pra sua senhora. Tem nota menor não? Ah, obrigado. De nada, eu que agradeço a atenção, tô falando muito hoje. Tô carente, o garoto tá viajando, a gente passou a conversar muito mais e melhor depois de tudo. Pois. É. Olha, sobre aquilo, vou admitir que isso me deixa, como se diz...? intrigado... Quem sabe um dia eu não beijo um homem pra ver como é que é?
terça-feira, 10 de junho de 2014
Grafite nº04
tenho um tesão irracional em librianas. eu sou de áries. mas alguma coisa tem em libra, né possível. nada. tem sim, ascendente? aquário. falei! mas não é libra. é de ar também. não interessa. mas e a lua? peixes. mercúrio? sei lá, mas libra não é. nem o marte lembra? marte é em leão! sabia. sabia nada. aposto que seu vênus é em touro, teimosa assim. pode ser. quer apostar? não. isso tá parecendo um diálogo do porta dos fundos. tá nada.
domingo, 8 de junho de 2014
Monólogo em Areia e Dedo: Treze
Clarice terminou comigo na semana que iríamos fazer dois anos de namoro. Ricardo me pediu as contas na véspera dos dias dos namorados, devia estar endividado. Tiago terminou por causa do meu hálito, suponho, depois de uma semana. Foi a semana que só almoçava no Subway e pedia salada completa. Iago terminou porque eu trocava o nome dele por esse aí. Ou era o contrário? Sei lá. Durou 1 mês. A primeira Fernanda acabou porque era de áries, onde já se viu, misturar touro com áries? Deliberar se café ou chá preto era um debate assemblear. Sofia eu que pedi em namoro porque sempre quis namorar uma garota com esse nome. Durou pouco. Terminou comigo porque conheceu uma Iara, por quem ela nunca parava de cantar, Iaralá, Iarali. Maria pouco foi adiante. Era só sexo. Comunicou que ia se mudar pra um intercâmbio em uma cidade do interior da França segundos depois de um orgasmo nosso. Podia ter acabado mais com minha saúde. Orestes também era só carne com carne, apesar de vegetariano. Tanto que o pivô da separação foi uma pizza calabresa pedida por engano.
Tenho pequenas coisas impulsivas que nem todo mundo percebe. Como comer uma caixa de paçoca durante uma festa junina. Ou faltar o trabalho para assistir um filme no cinema, ou para simplesmente me dar com os gatos espalhados por Laranjeiras. Já me peguei indo pra Niterói e voltando no final de semana só pra andar naquela barca velha, sentar ali na proa, né?, e ver o Rio de Janeiro chegando e indo embora. Se tivesse talento ficava como os poetas vendendo poesia em seus livros auto-publicados artesanais, espalhados, comendo e se reproduzindo como pombos pelas ruas do Centro. Já conclui um sem número de vezes: essa rotina ainda me mata. Se eu nunca terminei nada nessa vida? O ensino médio! Teve uma prova de vestibular também, digo acho que chutei metade. Conta? Deu pra passar. Serviço Social na Unirio. Aos onze anos de idade terminei, com certeza, de ler O Pequeno Príncipe.
Voltando: teve também a segunda Fernanda, aliás, que saiu da minha casa correndo quando viu o estado do meu quarto. Mesmo explicando que sou contra o uso de trabalho doméstico. Iolanda e Conrado também se findaram porque misturava com alguns dos nomes que comentei antes. Que culpa tem eu se a maioria dos nomes desse nosso idioma rimam? Ah, esqueci do Grégor! Esse caso foi diferente dos outros. A família tinha histórico de doença cardíaca, e foi isso que os legistas apressados do SAMU e da funerária registraram. Mas com ele acabou porque matei envenenado mesmo. Ninguém mandou ser viciado em lasanha, machista de merda.
quinta-feira, 5 de junho de 2014
Translate Yourself
Um pedaço de mim
Exagera e plagia
Outro lado se esconde
Outro se joga na orgia
Um pedaço é uma prece
É bondade, é louvor
Já o outro vê graça em desgraça e na dor
Um pedaço se engasga
Arrota e boceja
Ainda esse lado, respira cerveja
Um pedaço faz rimas
Que enterra ao quintal
O outro as estende e estica no varal
Um pedaço evita
Sol e câncer de pele
O outro, quente, eu orbito
A minha própria estrela
Um pedaço se encolhe
De frio no inverno
Enquanto este é o inferno:
O que deseja vê-la
Traduzir uma arte
Em outra sorte
Que é no tendão do pulso um corte
Será tarde?
Exagera e plagia
Outro lado se esconde
Outro se joga na orgia
Um pedaço é uma prece
É bondade, é louvor
Já o outro vê graça em desgraça e na dor
Um pedaço se engasga
Arrota e boceja
Ainda esse lado, respira cerveja
Um pedaço faz rimas
Que enterra ao quintal
O outro as estende e estica no varal
Um pedaço evita
Sol e câncer de pele
O outro, quente, eu orbito
A minha própria estrela
Um pedaço se encolhe
De frio no inverno
Enquanto este é o inferno:
O que deseja vê-la
Traduzir uma arte
Em outra sorte
Que é no tendão do pulso um corte
Será tarde?
Pomar/Samba
Engulo com olhos e ouvidos mais do que me cabe o próprio estômago
Me invento sobrenomes, endereços e cores
Porque me descoloro, não me chamo, não moro
Sangro melhor de madrugada
Cobro da noite a vaidade que me falta
Que me falta a Primavera, fresca e nua
Me falta um tal pomar pra de quem roubar a fruta.
Mas eu também dancei ciranda
E errei, descompassado como um retrato em dez por quatro
Cai e dormi no azulejo frio do seu quarto
E resfriei
E sinusite
E me engasguei com qualquer coisa
Se eu engolisse o mundo inteiro não engasgava assim
Mas olha o olho grande: eu quis você.
Mas eu também sei a saudade
Sá nostalgia inútil, torta
E porca
De tanto aquele tempo que podíamos dividir: o mesmo laço
Mas eu também tenho saudade
Quando não me permito caber, meu bem,
Em outro abraço.
_______________________________________________
E um belo dia, saindo de casa com a noite enrolada embaixo do braço
Abriu as seguintes aspas:
"Rimo quando quero, enlouqueço quando tenho juízo
Pisou errado
Correu de banda
Jogou um fado
E ainda repitiu mais sete vezes em ritmo de samba:
(Batucando)
'Pequei tudo
Pequei pouco
Pecava mais não ia pro inferno assim
Pequei como
Pequei quando
Pecava onde te via todo dia aqui.'"
Me invento sobrenomes, endereços e cores
Porque me descoloro, não me chamo, não moro
Sangro melhor de madrugada
Cobro da noite a vaidade que me falta
Que me falta a Primavera, fresca e nua
Me falta um tal pomar pra de quem roubar a fruta.
Mas eu também dancei ciranda
E errei, descompassado como um retrato em dez por quatro
Cai e dormi no azulejo frio do seu quarto
E resfriei
E sinusite
E me engasguei com qualquer coisa
Se eu engolisse o mundo inteiro não engasgava assim
Mas olha o olho grande: eu quis você.
Mas eu também sei a saudade
Sá nostalgia inútil, torta
E porca
De tanto aquele tempo que podíamos dividir: o mesmo laço
Mas eu também tenho saudade
Quando não me permito caber, meu bem,
Em outro abraço.
_______________________________________________
E um belo dia, saindo de casa com a noite enrolada embaixo do braço
Abriu as seguintes aspas:
"Rimo quando quero, enlouqueço quando tenho juízo
Pisou errado
Correu de banda
Jogou um fado
E ainda repitiu mais sete vezes em ritmo de samba:
(Batucando)
'Pequei tudo
Pequei pouco
Pecava mais não ia pro inferno assim
Pequei como
Pequei quando
Pecava onde te via todo dia aqui.'"
domingo, 1 de junho de 2014
Confessionário
Quando você passa pela porta do meu quarto
Despercebida
Quando a chuva bate e molha fria no seu beiço incompleto,
Vida
Eu me cicatrizo
Minto
Acho que é Domingo
Minto
Acho que você passa pela porta do meu quarto mais rápida e dolorida do que bala perdida
Minto
Acho que eu te amo
Minto
Quando eu digo que te amo eu só digo porque eu preciso te fazer sentir, meu bem, compreendida
Minto
Quando eu acho que eu passo despercebido pela porta do seu umbigo é porque vou me condenar pouco abaixo da sua virilha
Cortado às postas
E cicatrizado
Confessionário
Confessionário
Minto
Todo o propósito
Lobo ajoelhado
Digo
Quando eu canso eu passo o seu cupido eu jogo a rocha seta pro alto que me machuca o próprio rosto e tudo o que eu queria era outro rosto na curva das nuvens pra me fazer de louco
Que mais?
Acho que eu passo por bandido pela porta da sua janela quando eu jogo um grão de areia e entro me perco escondido com a palma da mão n'o coração batendo aplauso dentro de algum lugar do seu corpo
Minto
Em algum lugar do meu corpo
Minto
Verdade.
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