Ninguém morreu por causa disso, ninguém mentiu. Ninguém te falou a verdade explicitamente, certo, mas também ninguém atravessou a rua, vendados os olhos e aos pulos, pra não chegar de pé do outro lado. Só você pediu as contas, você deu a cara a tapa. Ninguém prometeu reverter a gravidade, customizar o azul do céu. Ninguém te mandou manter o perfume nos cantos do corpo, ou cheiro dos outros, das outras. Nem sei quem foi que te ensinou a respeitar a liberdade alheia. Ninguém mandou esquecer o rosto de seus inimigos, ou suas vozes quando lhe concediam ameaças. Talvez eu esteja falando dos vizinhos de baixo, as pessoas da praça, que julgam, apontam, falam até sangrar a gengiva. Talvez até daquela sua amiga, descubra. Que bem te trouxe sambar, vadiar, voltar tão tarde pra casa, vestir as roupas que lhe bem entendiam. Votar, cantar, fazer poesia e sair pra rua com a cara manchada daquelas cores. Tudo estava em ordem neste mundo. Quem via imperfeições se omitia, calada, e a roda funcionava e se mantinha, isto muito antes de você chegar aqui. Podíamos falar em casa própria, pensar nas crianças, conhecer a Europa daqui há dois ou três anos...
Com quem você aprendeu a ter tanto amor próprio? Comigo que não foi. Auto estima não entra pela porta dessa casa. Nem a minha, veja bem, nem eu, nunca fiz questão. Deixei nas casas dos meus pais, embaixo da cama de algum antigo quarto que também me foi tirado, há muito tempo atrás. Sempre aprendi a olhar pra baixo quando devia, a levantar a mão pra quem eu devia levantar, é preciso respeitar a ordem das coisas, e este é um fato que você jamais conseguiu entender. Eu só queria o seu bem, queria o seu futuro, te ver crescer, florescer, quem sabe até um dia te ver trabalhar, repartição ou costura, quando nossos filhos crescidos. De qualquer jeito eu sempre seria muito mais e melhor que você. Quem provém o provimento sou eu, eu. Veja nossos filhos, veja que tipo de exemplo você está passando. Eles vão crescer sabendo que a mãe é isso, este aquilo de vulgar que aparece em telenovelas. Nos pequenos pensamentos deles ou você se redime ou não há último capítulo. A vida imita a arte, não tem quem diz?
Você e seu vício em tanta coisa inútil já deve saber, vou me livrar das mobílias. Sobre a cama de casal já não via mais motivo pra dormir naquela. Quanto mais que me calejava as costas, quanto mais sozinho. Estou para me mudar para um lugar menor. Precisamos definir o destino da casa, se vender, se morar, queimar, alugar. As crianças não poderão explorar a avó, sua mãe, pra sempre. É um desperdício, arremessar pela janela a vizinhança, os momentos, a paisagem, os finais de semana no parque, mas sei que não há de haver acordo. Há 20 anos não escrevia uma carta. Também nunca passei por debaixo de uma porta uma que fosse, como faço agora. Sei que você não me deve mais satisfação, que você não me perguntou nada. Mas eu precisava dizer que ninguém morreu, que eu estou aqui, respirando, embora haja tosses. Acho que conheci outra pessoa. Ela não me empolga, nem eu a empolgo, mas o importante é que me parece ter a cabeça no lugar, ao contrário de você. Isso pra mim já é motivo para apaixonar. Mas que te importa? Você que fez questão de ser tão livre, você que fez questão de ser feliz...
Com quem você aprendeu a ter tanto amor próprio? Comigo que não foi. Auto estima não entra pela porta dessa casa. Nem a minha, veja bem, nem eu, nunca fiz questão. Deixei nas casas dos meus pais, embaixo da cama de algum antigo quarto que também me foi tirado, há muito tempo atrás. Sempre aprendi a olhar pra baixo quando devia, a levantar a mão pra quem eu devia levantar, é preciso respeitar a ordem das coisas, e este é um fato que você jamais conseguiu entender. Eu só queria o seu bem, queria o seu futuro, te ver crescer, florescer, quem sabe até um dia te ver trabalhar, repartição ou costura, quando nossos filhos crescidos. De qualquer jeito eu sempre seria muito mais e melhor que você. Quem provém o provimento sou eu, eu. Veja nossos filhos, veja que tipo de exemplo você está passando. Eles vão crescer sabendo que a mãe é isso, este aquilo de vulgar que aparece em telenovelas. Nos pequenos pensamentos deles ou você se redime ou não há último capítulo. A vida imita a arte, não tem quem diz?
Você e seu vício em tanta coisa inútil já deve saber, vou me livrar das mobílias. Sobre a cama de casal já não via mais motivo pra dormir naquela. Quanto mais que me calejava as costas, quanto mais sozinho. Estou para me mudar para um lugar menor. Precisamos definir o destino da casa, se vender, se morar, queimar, alugar. As crianças não poderão explorar a avó, sua mãe, pra sempre. É um desperdício, arremessar pela janela a vizinhança, os momentos, a paisagem, os finais de semana no parque, mas sei que não há de haver acordo. Há 20 anos não escrevia uma carta. Também nunca passei por debaixo de uma porta uma que fosse, como faço agora. Sei que você não me deve mais satisfação, que você não me perguntou nada. Mas eu precisava dizer que ninguém morreu, que eu estou aqui, respirando, embora haja tosses. Acho que conheci outra pessoa. Ela não me empolga, nem eu a empolgo, mas o importante é que me parece ter a cabeça no lugar, ao contrário de você. Isso pra mim já é motivo para apaixonar. Mas que te importa? Você que fez questão de ser tão livre, você que fez questão de ser feliz...

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