sábado, 14 de junho de 2014

Monólogo em Areia e Dedo: Catorze

O acolchoado de trás ainda tá manchado de sangue de ontem, cuidado, senhora, senta mais pra esquerda. Boa noite. Tá indo pra onde? Passar na Saens Peña, depois rua Uruguai, certo. Precisa ficar assustada não, o sangue foi de dois jovens desses aí, não sei se era viado, sei lá o que era, mas tavam saindo de uma briga da balada. Ah, não liga pro meu linguajar, não, eu falo palavrão pra cacete mesmo. Mas o menino ficou bom, deixei ele ali na Cruz Vermelha, na Lapa, parece que não era grave, mas já tinha sangrado bem. Espero que tenha sido atendido, porra, essa saúde, esses dias nem com plano tu pode confiar, é foda. É fogo.

Falei "viado", sim, mas é jeito de falar. Sim, preciso pegar mais leve. Eu sei. Meu filho é gay, sabia? Saiu do armário, como dizem, faz dois anos. No início foi um cu, né? Aceitar. Filho meu, agarrado com outro homem, ficava bolado só de imaginar. Mas nunca quis meter a mão na cara do garoto não, até por respeito de ter tido coragem de me falar. Sabe, ganhou ainda mais moral comigo, afinal, garoto bom, estuda bem. Ainda que, sei lá, fosse decepção ainda. Queria netos, sabe? Daí ele falou que pode adotar, que pensa em adotar, um dia. No mais, menos mal, uns mês depois peguei melhor a ideia, a mãe dele, nem mora mais comigo, separamos, levou a coisa até pior do que eu, o menino pediu ajuda, por isso que me falou, no final das contas. Brigou com ela e veio pra cá, pra minha casa, ela descobriu e expulsou ele, porra. Fiquei puto também com isso, por isso não tinha como bater no garoto. O moleque já vai passar um puta perrengue na vida inteira toda e a gente vai virar as costas? Mas claro, isso eu só consegui processar depois, na hora mesmo fiquei puto, mandei ele ir pro quarto, ficar lá que depois a gente conversava. Não conversamos porra nenhuma, claro, né? Nunca fomos de conversar tanto. Pior que ele gosta de bola, gosta de futebol, também torce pro Vascão, tanto que só disso que a gente conversava mesmo. Isso além de jogar papo fora, cê tá vendo, eu gosto de falar. Ficou lá, duas semanas quieto no quarto, mas eu não ouvia ele chorar não, eim? E olha que ele também tinha brigado com o namorado, descobri depois. Ainda bem que tava de férias na faculdade, ia atrapalhar rendimento, baixar as notas. O garoto segurou a barra bem. Mesmo gay meu filho é homem pra caralho. Sim, aqui é a Praça da Bandeira. Quer que eu vá pela São Francisco Xavier? Vai pegar alguém? Tá. 

Mas então. Queria bater na cara do menino mas não tinha como, claro. Eu também nunca levantei a mão pra ele, pra ser sincero, no máximo 1 ou 2 vezes quando era moleque, quando ele fazia merda braba, sei lá, uma vez tacou fogo na televisão porque esqueceu uma vela acesa em cima dela, porque tinha faltado luz, enfim. Mas, depois de grande, nunca dei sova, nem surra, nem nada. Como ia bater agora? Também, o garoto tem quase o meu tamanho, não tinha como fazer nada, em caso se eu quisesse, mas não queria. Não dormi direito, tipo, por umas três, quatro semanas. Ficava matutando. Só um segundinho, que aqui é um parceiro meu: fala, Sovaco! Partiu Itália e Inglaterra amanhã? às 19h, né? Tua casa mesmo? Cirilo vai? Por que não, porra? Sério? Que merda. Enfim, tá precisando da grana, deixa ele fazer plantão. Mas fechou então. Tu vai mesmo, né? Porra. Fura não, viado. Porra, eu sei que a casa é tua, mas te conheço, vai ficar lá trancado no quarto com a patroa... Mas valeu. Abração. Então, desculpa, eu tenho esse amigo, ia ligar pra ele pra confirmar, mas o corno nunca atende a porra do telefone, enfim, então, onde eu tava? Ah, sim, nunca levantei a mão, duas, três semanas depois, as férias do meu menino acaba, ele volta pra faculdade, a cabeça dele, sabe, dá uma desanuviada, né assim que dizem? Eu fico quietão, na minha, e, porra, a senhora só me conhece, o quê?, há 5 minutos e já confirmou que eu realmente gosto de falar, bastante. Não liga não, eu chamo todo mundo de senhora, senhor, independente da idade. Então, claramente eu tava bolado, né? No mais, o tempo passou, no Natal o clima já tava melhor, consegui abraçar o Julinho de novo, é, se chama, mesmo nome que eu. Então, vamos dar uma parada aqui que sua amiga já vindo? Tá. Desculpa qualquer coisa, se quiser que eu pare de falar, eu paro, só tô continuando porque a senhora me deu trela. Tá bom, no Natal. As coisas ficaram boas. Finalmente tivemos a tal conversa. Foi curta, e foi bom demorar. Falei que não entendia direito dessas modernidade aí, mas que ele não tava roubando, não tava matando, então tava bom pra mim. Um dia ele levou o namorado lá pra casa, eu que pedi, foi aí que descobri que também tavam brigados no meio do ano, é. O rapaz é gente fina, tão junto até hoje. Me deu até presente conjunto com o Julinho no meu aniversário, mês passado. 

Pronto, de nada, senhora, boa noite. Rua Uruguai mesmo? Beleza. Então, é isso. Ah, eu tava contando aqui pra sua amiga como descobri que meu filho é "homo". É, gay. É, hoje a gente tá bem. Me deram um perfume bom, os dois juntos, ele e o namorado. Não ligo tanto pra essas coisas de perfumar, mas um casamento, qualquer coisa aí mais chique, vai ser bom usar. Encontrar uma mulher nem tão cedo, tô trabalhando demais, cheio de turista na cidade. O quê? Se eu já beijei outro cueca? Não, não, minha senhora, tô aprendendo a respeitar meu filho mas eu sou muito macho, sabe? Olha, nem vou falar mais nada, que não dei essas confiança.

Tá, sei lá. Bem, olha, pelo menos eu não fiquei tão bravo quanto eu podia ficar. Sei lá, no final das contas não é ofensa de verdade, é? E as senhoras, já ficaram com outras mulheres? Ah, vocês SÃO namoradas? Olha só. É sério mesmo? Não tão querendo tirar uma com minha cara? Tá, calma, não, não tô pedindo pra vocês se beijar não. Tá, eu sei que vocês não iam, mas eu acredito, não tem porque mentir, né? Tô aqui respeitando vocês. Então. É, não sei, tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo nesse mundo, eu tô levando com calma tanta novidade. Eita, já tamo chegando, aqui. Obrigado, moças, senhoras, é, eu chamo assim todo mundo mesmo, qualquer idade, de senhora, não leva a mal, já até expliquei antes pra sua senhora. Tem nota menor não? Ah, obrigado. De nada, eu que agradeço a atenção, tô falando muito hoje. Tô carente, o garoto tá viajando, a gente passou a conversar muito mais e melhor depois de tudo. Pois. É. Olha, sobre aquilo, vou admitir que isso me deixa, como se diz...? intrigado... Quem sabe um dia eu não beijo um homem pra ver como é que é? 

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