Quer entender qual é minha onda? Estou sempre atrasado, sempre velho demais para caber os espaços, sempre curto demais pra me trocar o teto, sempre pavão, prolixo e mal termino esta frase você vai ficar bocejando. Está sempre me faltando um dente de ciso pra nascer. Ando com a consciência tão pesada que preciso me equilibrar pra gravidade não me arremessar no chão. Fico me comparando, fico me perdendo e tudo é pouco demais. Vai fazer três décadas e continuo com frio nas pernas. Burocrático, sigo protocolos, cumpro prazos. É agora que você percebe que não estou falando de mim. Tanta modernidade. Sinto que estamos perdendo tempo e esse fim de mundo que não chega, as distâncias deviam se acabar logo, numa bola de fogo, sabe? Acordar no Pelô, Salvador, almoçar em Tiradentes, Minas Gerais, final de tarde em um caiaque no Rio Amazonas. E é óbvio que estou falando de nós. Me livrar desse desespero até me alivia um pouco, embora me caísse bem. As filas de cinema, os bares mais caros, os corpos estendidos nos "varals", varais, faço metáforas de vez em quando também. Estou meio rouco, isso foi o cigarro de ontem, mais de meio maço. Amasso que é bom? Nada. Me cai um raio bem no meio do quintal, e adivinha só? Eu não estou em casa. Feriado, viagem para Região dos Lagos. Só chego e vejo uma mancha de queimadura enorme no meio da grama. Esta é minha ventura. Vulturino: latim, vulturinus. Adjetivo. Definição: pertencente ou relativo ao abutre. Dicionário agora, por essa você não esperava. Juro que vou parar de perder seu tempo com essa bobagem, mas veja bem: é o meu jeito de te manter aqui. Te irritando. Falando qualquer coisa. Fazendo piada com sua barriga, sua sobrancelha esquerda. Veja bem, eu quero sua companhia, só não posso ficar pedindo atenção a torto e a direito. Minha mãe adorava essa expressão. Também herdei dela essa mania de me justificar. E esse amor por semântica.
Quero sua companhia mas não vou insistir. Não porque não gostaria de fazê-lo, aliás, adoro uma boa colocação pronominal também! Não porque não gostaria de fazê-lo mas porque tenho mais o que fazer. Veja bem, tá ficando frio, inventamos de marcar em um bar na beira da praia, vai estar ventando, vamos mudar de planos? Por que você não vem aqui pra casa? Não vamos fazer nada demais nem menos. Tenho até um gato, o nome dele é Arroz, sim, porque ele é branco. Ia chamá-lo "Cebola" mas não gosto de cebola. Se ele arranha? Ele é um doce ronronante. Ao contrário de mim. Se chover podemos esticar a rede na varanda e finalmente descobrir de onde vem os caramujos. Estou esperando você. Traz goiabada? Eu ia pedir pra trazer pipoca, mas quis te surpreender de novo. Sim, eu tenho queijo. Adoro encontrar pessoas que não tem medo de engordar comigo. Vamos colocar que estamos em um relacionamento sério para chamar atenção nas redes sociais? Brincadeira, óbvio. Devíamos nos casar direto. Veja que boa sorte a sua seria: detesto viver de passado. Mas me fale mais sobre você. Como eu dizia, eu estou sempre atrasado, sempre velho demais para caber nos abraços, e tenho sérias dificuldades de escolher uma coisa só pra falar sobre. Você sabe que eu estou falando de ninguém. Desconheço a gravidade, dos fatos, da Terra. O corpo que vai cair na minha cama hoje a noite não é o mesmo que levantou mais cedo. É engraçado concluir. Eu gosto mesmo é de achar um outro jeito de dizer as mesmas coisas. E de outras coisas pra dizer que são as mesmas. Estes dias sonhei com dois versinhos, anotei em algum lugar aqui pra te mostrar. Achei, abre aspas. "Ninguém no mundo tem a sorte de me amar quanto eu te amo. Ninguém no mundo tem o azar de te amar como eu me amo." Mas me conte agora sobre seu dia.
Quero sua companhia mas não vou insistir. Não porque não gostaria de fazê-lo, aliás, adoro uma boa colocação pronominal também! Não porque não gostaria de fazê-lo mas porque tenho mais o que fazer. Veja bem, tá ficando frio, inventamos de marcar em um bar na beira da praia, vai estar ventando, vamos mudar de planos? Por que você não vem aqui pra casa? Não vamos fazer nada demais nem menos. Tenho até um gato, o nome dele é Arroz, sim, porque ele é branco. Ia chamá-lo "Cebola" mas não gosto de cebola. Se ele arranha? Ele é um doce ronronante. Ao contrário de mim. Se chover podemos esticar a rede na varanda e finalmente descobrir de onde vem os caramujos. Estou esperando você. Traz goiabada? Eu ia pedir pra trazer pipoca, mas quis te surpreender de novo. Sim, eu tenho queijo. Adoro encontrar pessoas que não tem medo de engordar comigo. Vamos colocar que estamos em um relacionamento sério para chamar atenção nas redes sociais? Brincadeira, óbvio. Devíamos nos casar direto. Veja que boa sorte a sua seria: detesto viver de passado. Mas me fale mais sobre você. Como eu dizia, eu estou sempre atrasado, sempre velho demais para caber nos abraços, e tenho sérias dificuldades de escolher uma coisa só pra falar sobre. Você sabe que eu estou falando de ninguém. Desconheço a gravidade, dos fatos, da Terra. O corpo que vai cair na minha cama hoje a noite não é o mesmo que levantou mais cedo. É engraçado concluir. Eu gosto mesmo é de achar um outro jeito de dizer as mesmas coisas. E de outras coisas pra dizer que são as mesmas. Estes dias sonhei com dois versinhos, anotei em algum lugar aqui pra te mostrar. Achei, abre aspas. "Ninguém no mundo tem a sorte de me amar quanto eu te amo. Ninguém no mundo tem o azar de te amar como eu me amo." Mas me conte agora sobre seu dia.

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