sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

"The"

De samba, de feriado, de raiva, de pressa
De juntar e misturar, de se esquivar
De abraçar, de apertar, de sufocar
De desfazer, de se jogar da ponte
De se fazer de ponte, de se ligar
De ligar de madrugada, de perguntar como se está
De cair de parapente no meio da Avenida
De virar notícia de jornal, de cair o dente
De cair o queixo, de cair de parapente
No meio do colo dela
De juntar e misturar as mãos
E fazê-las de uma concha só
De tarde, que já está chegando a noite
De noite, que já está virando a tarde
E nada pelas manhãs, porque as manhãs são só minhas
Livros abertos, nada de livros abertos
Nada de livros fechados, nada de nadar
Só histórias pra contar, de rede pra balançar
De rede pra lembrar da Bahia
Livros abertos sim, e digo mais
Digo nada de pressa, de samba, de raiva
Digo, de samba sim, nada de chuva, nada de choro
Digo, de chuva sim, nada de choro, nada de tarde
Digo, de choro sim, porque é preciso chorar também:
A música, a mágoa
Nada de ir, nada de rir, de manhã, sim, digo
Tudo de ir, porque é preciso partir alguma hora
Mas faz de conto, faz de conta
Abre os olhos, fecha a boca
digo... você entendeu, não entendeu?
Não me sacrifica.



segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Dio

Deus não quer você sorrindo
Deus não quer você querendo
Deus não quer que você cresça
Deus não quer que você foda

Deus só quer saber de saia curta
Mas, tá nem ai pra salto alto
Deus odeia cabelo preso
Mas Deus também gosta de máquina zero

Deus não quer na frente dele:
Pastores, ovelhas, Iguanas e cabritos
Ele não quer ver nenhum livro aberto
À não ser que seja os Classificados

Deus tá com saudade
Deus mandou aquele abraço
Deus chegou mais tarde à noite passada
Deus esqueceu a comida no fogo
E acabou de entrar no Facebook
*Clique em curtir isso*
Deus não discute religião
Prefere nem ouvir falar no nome
Deus sabe de cor todas as falas, de todos os episódios, de Friends, de Six Feet Under e da Vila Sésamo
Deus adora Iron Maiden, Led Zeppelin, Black Sabbath e Judas Priest (ao contrário do que dizem as más línguas)
Deus odeia pescar (por isso ele ama pescadores)
Deus não admite
Deus deixa recado na secretária eletrônica
Deus assiste "O Fabuloso Destino de Amelie Poulain", "A Viagem de Chihiro" e "Toy Story 3", pelo menos, uma vez por ano
Deus não inventou o Natal, nem Jesus
Deus inventou as ligações DDD, DDI e à Cobrar
Deus não gosta de Igrejas
Deus não gosta de Cerveja, prefere Tequila

Eu estou falando por intermédio de Deus
Que me mandou dizer essa porra toda aqui
É que hoje ele acordou meio sarcástico
(Embora muita coisa dita tenha sido muito séria)
Pra fechar a transmissão, Deus mandou esse recado:
"Por favor, só não me pertubem às sextas-feiras
Que é quando eu tiro uma folga e vou beber na Lapa.
E no Carnaval, pelo amor de Dorival Caymmi, EU NÃO EXISTO
Fecho pra balanço e me perco em Salvador
Portanto, não aprontem (demais)
Que eu os abençoe, amém."

-

[Trilogia Divina 3 de 3]

domingo, 26 de dezembro de 2010

The Most Beautiful Thing Ever

No oitavo dia deus criou a distância
No nono dia deus criou o sistema de entrega à domicílio de pizza e fast-foods em geral
No décimo dia deus criou o sorvete de flocos e o biscoito da Vaquinha
sentou na beira de um rio qualquer e curtiu a brisa
No décimo-primeiro dia deus criou o silêncio, se calou também
e acendeu um baseado (claro, ele o já tinha inventado nos sete primeiros dias)
No décimo-segundo dia deus criou a massagem, ensinou como fazê-la e pediu para Adão aplicar-lhe a nova criação; e à Eva... a ela deus não teve coragem de pedir nada
No décimo-terceiro dia deus criou mais algumas frutas, verduras, legumes e grãos, incluindo a Soja, porque ele também curtia uma dieta Vegan
No décimo-quarto dia deus tirou outra folga
No décimo-quinto dia deus levantou cedo e decidiu criar a Ironia
E achou esta a sua mais bela criação até então*











*Obs: esta fora atualizada e aprimorada muitos anos depois, numa tarde de tédio, tanto em beleza como em magnitude. À esta nova versão da Ironia, deus atribuiu o nome de "Internet".

-

[Trilogia Divinia 2 de 3]

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Mais uma para Leminski

Deus está cansado
Deus está gripado
mas
Deus está conosco
até o pescoço
só que
da cabeça pra cima
é por nossa conta.

-

[Trilogia Divina 1 de 3]

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Literal

Mãos cheias de pedras
Sapatos também
Cabeça cheia de dúvidas
Sono
Boca cheia de silêncio
Nos olhos só suor
Suor e medo
Medo de chegar tarde, de perder a hora
De encontrar seus pais na porta esperando
Com cara de bravos
De encontrar algum casal gay se beijando
Na porta de casa
De um deles ser seu filho
De ter deixado comida no fogo
De ter esquecido a chave do lado de fora
Suor de trabalhar até tarde no escritório
Pressa de chegar cedo
Pra sair cedo
Vontade de ficar no bar
Até amanhecer
'Cê nunca mais vai pro bar
Vontade de nunca amanhecer
Querer matar o seu vizinho
Sem dor, mas matar
Pode ser durante o sono
Querermatarnão: querer matar mais ninguém
Querer morrer na próxima segunda
Deixar as crianças na escola
E morrer, mas morrer só um pouco
Volta logo
Rir de desgraças no jornal das sete
Jogar bola e dormir no colo
Chupar dedo (até deixar os dentes tortos)
Aprender e esquecer como se anda de bicicleta
Aprender de novo
Pagar as contas
Só as atrasadas
Ser literal, o tempo todo
Chegar atrasado, de novo
Beijar na boca
A mesma boca cheia de silêncio
As mesmas mãos cheias de pedras
E os sapatos também.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

2013

A última cena está cortada
As pernas da moça estão cruzadas
Mais uma guerra vai começar
E eu não acho o controle remoto
Pra abaixar o volume
O dia vai acabar em terremoto
E só vejo o aviso de "Não Fume"
Ela me sorri descompassada
Tudo o que eu quero é um compasso
Devo ter jogado bola de papel na cruz
Acho que sou Jesus

Me pedem dinheiro de novo
No meio da rua, o bolso furado
Abro os classificados, do Povo
Do Extra, vejo uma notícia besta
Desempregado de novo e, olha
Olha que é fim de ano
Só devo arranjar algo ali
No Norte Shopping
Quem sabe um Telemarketing
Vamos ver se alguma coisa
Ano que vem muda
Acho que eu sonhei com Buda

Peço um trocado pro meu Pai
Vou atrasar com a faculdade
A Marcela me jogou um sorriso
Eu bem que tentei sorrir de volta
Hoje fez 46 nessa cidade
Como uma frente fria faz falta
O mundo vai acabar em 2012?
Tem gente esperando que sim
Ela abre os dentes e faz pose
E me pede pra tirar uma foto
Na Praia de Copacabana
O Rei emenda outro medley
Achei que era o Elvis Presley

Já é véspera de ano novo
Ontem entregaram um Nobel
Desses da Paz, mas, Pierre
Acho mesmo que tudo é guerra
Sonhei com um samba de Noel
Que, além de vivo, reclamava em canção:
"Mas me cai o fim do mundo logo no Verão?"
Passou o dia 21, mas só confio
De estar a salvo em Janeiro
Corta um pouco a costeleta
Paulo Coelho com outro romance
E eu, aqui, em noveleta
É, é aquele mesmo lance. E não ri, não!
Ela acha que eu sou um John Lennon...

Cabelo curto, velho e bom All-star
E roupa usada, mas nem parece
Quero menos conta pra pagar
Tá abafado, mas disse a previsão
Que vai chover no Reveillon
Juro que a humanidade
Desse ano não passa, mas, quem jura, mente
E eu já passei da idade de fazer essas coisas
Agora já é dia primeiro
Ela me abraça e beija
Afinal, o mundo não acabou
"-Tá inteiro?"
"-Pega a cerveja, ninguém morreu!", soltei, num riso
Eu tava achando que eu era eu
E achei muita graça nisso.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Meia Saudade

Não olha assim
não faz comigo
o que você quer que eu faça com você
e não franze essa testa
presta atenção

O tempo passou
e o que ficou
no meu beiço caído, aqui
é uma saudade, meio ensaiada
de alguém que pode estar me ouvindo agora
cantar.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

No Porão

Gotas de sangue caindo do teto
Mas este sangue não é meu
Embora o teto seja

Gostas de sangue caindo pelo teto
Ainda falta muito pra acabar?
Embora o espelho embace...

Gotas de sangue caindo do teto
Mas este não é outro conto gótico
Ou poema da segunda geração

Gotas de sangue caindo do teto
E em breve o teto cai também
Com sangue, com chão
Com céu, com casa e porão, tudo junto

Gostas de sangue caindo pelo teto
Eu também
Gotas de sangue caindo do teu feto
Meu também
Telhas de chuva caindo pelo teto
Mas não sou eu que moro aqui
Ainda bem.

domingo, 24 de outubro de 2010

Judiaria

Como judiaria eu de ti
Ali deitada ao meu colo
Que dúvida eu poderia ter
De serem meus os cabelos teus
Emaranhados à palma da mão
Que já fora minha

Como judiaria eu de ti
Lá deitada ao meu colo
Que dúvida eu poderia ter
Dos sonhos teus de serem meus
Amanhecida, chamando de mãe
Quem já fora filha

Como judiaria eu de ti
Aqui ausente do colo
Que duvida, como podia ser
Dos sonhos meus serem os teus?
Mas anoitecia, e eu queria demais
Ter de volta o dia
Do riso de quem ria e ria:
O sol que mal se punha, nascia.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Boa noite

Cala a boca, porra, que eu quero dormir.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Não Necessariamente

Como o silêncio das crianças magrinhas morrendo de fome
Como o grito do macaco morrendo atropelado
no Jardim Botânico
Como uma passeata pelos direitos humanos
Como um voto nulo em dia de eleição
Eu sempre voto no 69
Eu sempre saio de casa sexta pra voltar segunda de manhã
Como um aspirador de pó
If you know what I mean
Como o pecado muito grave
Mas mais parecido com o monte de prece que se faz pelo perdão
Como um broche do Greenpeace pendurado na mochila daquela menina
Como um cara que te dá um panfleto no meio da rua no Centro do Rio, tanto o "Empréstimo Já" como a Propaganda Política do PMDB

Como uma daquelas placas penduradas em gentes na Uruguaiana e eu digo e afirmo que eu "Vendo Ouro"
Como também um Baile Funk que rola lá às sextas
Como um botão do controle remoto que se aperta fazendo o canal mudar quando anunciam uma tragédia
E também como um botão que aumenta o volume quando a anunciam
Como a vontade de mijar que dá no meio do engarrafamento
Eu sempre quero ir embora mais cedo - mas nem sempre quero que dê logo a hora
Como a fobia de alguém lembrar de que é meu aniversário e cantarem parabéns
E como aquela vontade de me ligarem hoje, afinal já faz vinte e três...
Como aqueles que dizem ser tudo quando na verdade não são nem vinte por cento
Eu sempre finjo que filosofo
Eu finjo mesmo

Como o desejo de comer pizza em dia de sábado
Como o barulho das crianças vendendo bala e chiclete à um real
Como o silêncio de quem as compra e de quem não
Como uma ansiedade repentina pela morte
Em uma mistura de curiosidade e terror
E me dando vontade de pegar o telefone quando chegar em casa pra...
Como a minha vontade de chorar quando escuto um verso específico daquela música que me lembra uma outra coisa que eu não vou dizer

Como a sede de beber água quando só tem refrigerante e cerveja à venda
Eu queria conhecer o nordeste inteiro
Eu queria beber menos café
Eu queria saber de cor o aniversário dos meus amigos

Como a voz que improvisa e canta funks obscenos quando não tem ninguém por perto
Eu sou como a tempestade que chega na cor dos teus olhos castanhos
Aliás, eu também sou como a boca que queria beijar você toda
Só que eu também sou como o cérebro que pondera
Dai já viu

Como um pino de boliche com o qual um menino faz malabares em um sinal da Barata Ribeiro
Às vezes eu fecho a janela
Às vezes eu abro
Mas na maior partes das vezes eu sou a janela em si e deixo que me abram e me fechem a esmo

Às vezes tem tanta coisa fechada que eu abro as mãos
Não pra dar esmolas, mas pra escrever, tocar, cantar uma canção
Como se a palavra impressa, cantada ou à mão, pudesse ser amplificada ao mundo como gritos desesperados de "socorro, comentem e sigam o meu blog, o meu vlog, o meu Twitter que eu preciso existir" (aliás o link do meu facebook está logo ali).
Eu sou cada palavra que eu escrevi até agora
Mas não necessariamente eu sei do que eu estou falando aqui.

domingo, 17 de outubro de 2010

1º de Janeiro

Tínhamos o silêncio para nos proteger, nos vigiar e punir. Tínhamos o silêncio das noites em claro. O silêncio dos ventiladores ligados mesmo em dias frios. O silêncio dos talhares batendo nas beiras dos pratos, até a comida acabar. Contudo, era nas vésperas de Natal que este silêncio todo realmente doía, e apontava no peito uma vontade esquisita de dizer alguma coisa. Mas o Papai Noel nunca desceu pela lareira, até porque nem tínhamos uma. Ele também nunca usou nenhum pó mágico para entrar pela fechadura. Quer dizer, se alguma vez ele fez isso, conseguiu ser ainda mais silencioso do que aquela casa inteira, passando sorrateiramente por nós, enchendo nossas meias e pés de árvores de poeira, porque só isso que ele jamais poderia nos dar, e indo embora rápida e silenciosamente.

Quando o Natal passava, o silêncio passava a incomodar menos, mesmo no ano novo, que era só aquela coisa de fogos, contagem regressiva na TV Globo, abraços vagos, e desejos distantes de felicidade distante vindo de parentes distantes. Contudo, após os Reveillons, eu sentia o resto do mundo numa proximidade estranhamente familiar. Isso acontecia a cada primeiro de janeiro, e exclusivamente nesse dia (aliás, acho que sinto mais ou menos isso até hoje). Ao abrir a janela de manhã, caminhar até a padaria, pedir minha dúzia de pão ou o pó de café que acabou, eu sinto que o resto do mundo todo também está em silêncio. E que de alguma forma, ao menos nesse sentido, nós compactuamos e compartilhamos do mesmo sentimento. Do sentimento que deveríamos estar dizendo alguma coisa, embora não consigamos. Quem sabe até o ano acabar, se deus quiser, nós consigamos dizê-la.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Pra Quê?

minha boca cortada me faz mal
minha boca na sua mão e basta um pouco de sangue
pro gosto do beijo não sair mais o mesmo

minha nuca cortada e acho que tem
sangue nas minhas costas
e acho que falam pelas minhas costas
mas eu não consigo ouvir nada

então, pra que fingir que sim
e fazer de conta a piada
me diz, pra que dizer que sim
pra quê

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

De Que Boca Beberá

De que boca beberá
Quando a minha tiver secado
De tanto se privar?
Que abraço irá manter
Quando meus braços amputados
Não estiverem com você?
Que sal lhe dará sede
Se meu suor não escorrer mais
Pra sua fome entreter?
Que dia lhe dirá bom
E dirá que horas são
Que deus lhe pagará
O favor da sua benção?
Mesmo o sol virando cinzas
Haverá tua luz, sozinha?
De que boca respirará
Se não mais pela minha?
Como?
Diga logo, minha filha.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Porque Eu Devia Parar

Agasalho (Single Edit)

Por que eu devia parar ?
Por que eu devia seguir?
Por quê? se o final de um copo
está no final do próximo
o final de uma boca
está no final da próxima.
se meu corpo que cai
senão sou eu, se é meu corpo apenas
se é frio que eu sinto
e frio passa, é só ficar de pé
e evitar cair de novo
é só ficar de pé
e fingir que sempre se esteve assim.

Por que que sempre é cedo
Tenho mesmo que me agasalhar?
Por que eu devia parar de cair, é só um chão
é só um chão, e depois dele tem outro chão
E todos eles são somente chãos.
Por que eu devia rir de você
Se eu acho muito mais graça em mim?
Essas ruas pedem esmola
essas casas pegam fogo
mas, por que eu devia me mudar daqui?
Por que eu devia ouvir o que eu te digo?

Vamos dar as mãos e cantar
antes que escureça de novo:
Menina que ri e dança
Menino que chora e joga bola
De que lado fica o ombro amigo?
Pra que lado fica o ombro amante?


(Versão original)

Por que eu devia parar ?
Por que eu devia seguir?
Por quê? se o final de um copo
está no final do próximo copo
o final de uma boca
está no final da próxima.
se meu corpo que cai
senão sou eu, se é meu corpo apenas
se é frio que eu sinto
e frio passa, é só ficar de pé
e evitar cair de novo
é só ficar de pé
e fingir que sempre se esteve assim.

Por que eu devia parar de acreditar que sempre é cedo
Por que eu devia andar agasalhado?
Por que eu preciso de óculos escuros?
E de óculos de grau?
Por que eu devia parar de cair, é só um chão
é só um chão, depois dele vem outro
E depois é só mais um outro chão.
Por que eu devia rir de você
Se eu acho muito mais graça em mim.
Essas ruas fedem a mijo e merda
essas casas pegam fogo
mas, por que eu devia me mudar daqui?
Por que eu devia ouvir o que eu te digo?

Vamos dar as mãos e cantar
antes que eu escureça de novo:
"a noite que cai cai cai
é a noite que vai vai vai
por entre as mãos, ãos, ãos
de quem tenta agarrá-la, lá, lá
...tamtamtam, tá, tá
a noite que fi-ca, cá
é a noite que fe-cha, chá
o dia ao teu lado, dô."
Menina que ri
Menino que chora
Por que eu devia cantar essa canção?
De que lado fica o ombro amigo?
De que lado fica o ombro amante?


domingo, 5 de setembro de 2010

Você Acha Que Esfriou?

Ontem à noite descobri um email seu
Fui vestir uma camisa
Peguei um pouco de café
E comecei a ler:
Era como um desses recados
Que chegam atrasados
Nos filmes, quando as pessoas pedem desculpas
Mas ninguém ouve
Mas já é tarde demais
E bem, acho que não fez tanta diferença pra mim
Ainda que assim eu pude te entender um pouco mais
Retirei o email da caixa de spam
(que é onde ele estava antes)
e mandei pra lixeira
afinal, já é um novo dia
agora eu moro em São Paulo
E você não me ligou ou mandou notícias no meu aniversário
embora eu tenha te mandado um SMS quando você fez 21...
Bem, só passei pra te dizer isso
Que acho que te desculpo
Se você passar por aqui
Da próxima vez que tiver um show
do Radiohead ou do Coldplay
Podemos beber um café ali na Augusta
E falar da vida
Aliás, eu ainda tenho aquela caneca que você me deu
Pra que eu não bebesse mais da sua, todo dia de manhã
Enfim... por hora é só isso
Se cuida.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

\o

Toda vez que eu vejo esses dois caractéres juntos, imagino um homem careca com o braço esquerdo amputado.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Ménage à Trois

Passe me a pá, por favor, meu amor
Hoje à noite a gente janta no quintal
A vingança nunca é plena: envenena
Que música vai tocar no nosso funeral?

E agora, que tal um par de algemas?
Ele sempre adorou esse travesseiro
Não deve ter mais ninguém em casa
Então hoje que você voltava cedo?

Esta é a minha amiga da academia
Vai, vai, fica por baixo, meu tesão
Ju, vai, uma massagem, eu tô tensa
Tenho uma surpresa: escolhe a mão

Bem como já dizia Seu Madruga
Eu preciso te dizer uma coisa
Uma hora ele diz que me quer morta
Outra que me ama: preciso de ajuda

Pois é, agora morreu de vez, esse puto
Não grite, por favor, já tá quase no final
Júlia, me passa de uma vez essa pá
Que música 'cê quer ouvir no teu funeral?

domingo, 22 de agosto de 2010

Umbigo

Não seja doce
Seja adoçante
Doçura engorda
E mata

Não seja marido
Seja o amante
Casar enforca
E mata

Não seja Cachaça
Seja espumante
Ser chique arrasa
E mata

Não seja o cupido
Só a flecha adiante
Machucar conforta
E mata

Não seja a saudade
Mas seja a balada
Pernoitar transforma
E mata

Não seja tempestade
Mas casa arrancada
Destruir-se vigora
E mata

Mande e desmande
Sua comandante
Pois ter poder sufoca
E mata
E eu quero te ver morta.

Quanto Falta?

A poça de sangue escuro no canto da boca
o beijo apressado que beija um pouco assim
automático, como quem liga a tv de manhã

a minha senhora, o telefone que novamente toca
o recado decorado pra sempre na secretária
eletrônica, e a vontade de fumar já foi tão louc...

a saudade que bem agora você tem até demais
a mão que ainda segura a mão que já se foi
o medo de escuro que você jurava que jamais

as ambulâncias, o cheiro de fumaça, o gato
entrando em casa, a namorada, a menina, o oi
que você ouve cair no seu colo lá do teto
como uma barata

a poça de sangue escuro de férias no olhar
dela, a vontade de jogar Super Nintendo
pra finalmente chegarmos no lugar
a fobia de perguntar de novo quanto falta
o telefonema que se engana, a blusa, o remendo
tudo isso faz me falta quando eu me envelheço
e tanto faz, agora, o que realmente me salta
aos olhos, se o passado relembra me o endereço.

-

Bonus: Single Edit (rsrs)

A poça de sangue escuro no canto da boca
o beijo apressado que beija um pouco assim
como quem liga a tv de manhã

a minha senhora, o telefone que novamente toca
o recado decorado pra sempre na secretária
e a vontade de fumar já foi tão louc...

a saudade que bem agora você tem até demais
a mão que ainda segura a mão que já se foi
o medo de escuro que você jurava que jamais

as ambulâncias, o cheiro de fumaça, o gato
entrando em casa, a namorada, a menina, o oi
que você ouve cair no seu colo lá do teto
como uma barata

a poça de sangue escuro de férias no olhar
dela, a vontade de jogar Super Nintendo
...pra finalmente chegarmos no lugar
a fobia de perguntar de novo quanto falta
tudo isso me faz falta.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Cantiga da Nina

"You will sing a pretty song to me, darling
a nice pretty song
I'll take back all of your tips, and I'll lay down in the bottom of your lips
And rest under your boobs... I mean your sheets, Oh...
Won't you sing a pretty song for me, darling?
Sing it for me and I'll know how
you used to be
in my dreams
The day after tomorrow
I'll know how
you used to be
for me."

Ei, você
me diz que são
belos os dias de janeiro
e férias, e belos os dias
que debaixo da cama a sua vida espreita
e belos os dias que debaixo da cama
seus demônios espreitam
...e belos os dias
sua cafonice espreita
e a bola que caía na casa do vizinho
e, em mi bemol, você
nem queria ser jogador de futebol

Ei, você
me diz que horas são
o final do dia é o corpo cansado
é hora de dormir
ou assistir um filme no Corujão
de estética retrô e você vê
meu corpo cair no chão
em preto branco na TV
e meu corpo cai no seu colo
e quer dormir
meu corpo cai no seu colo
e quer dormir
meu corpo cai no seu colo
e quer dormir
"...you used to be
in my dreams
that's how you used to be."

Trate de descansar
e de não cansar de viver não
porque a vida cansa por si só
em cada pedaço de bolo caído no chão
cada caracol esmagado na palma da mão
em cada vez que você se diz não
em cada livro de auto-ajuda
que acho em liquidação
minhas paredes decoram esta canção
pro céu, os meus amores
talvez talvez talvez vão.

Single Edit (Rsrsrsrsr):

Ei, você
me diz que são
belos os dias em janeiro
de férias, e belos os dias
que debaixo da cama a sua vida espreita
e belos os dias que debaixo da cama
seus demônios espreitavam
bem quando
ser cafona era legal
e a bola que caíndo na casa do vizinho
e, em mi bemol, você
nem queria tanto ser jogador de futebol



Ei, você
me diz que horas são
é final de dia é o corpo cansado
é hora de dormir
ou assistir um filme no Corujão
de estética retrô e você vê
meu corpo cair no chão
em preto branco na TV
e meu corpo cai no seu colo
e quer dormir
meu corpo cai no seu colo
e quer dormir
meu corpo cai...
e quer dormir
"...you used to be
in my dreams
that's how you used to be."

Trate de descansar
e de não cansar de viver não
porque a vida cansa por si só
em cada pedaço de bolo caído no chão
cada caracol esmagado na palma da mão
em cada vez que você se diz não
em cada livro de auto-ajuda
que acho em liquidação
minhas paredes decoram esta canção
pro céu, os meus amores
talvez talvez talvez vão.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Natalie, Hello

"Eu preciso de um nome"
Natalie disse pra si
A bateria do Ipod acabou
A próxima estação do metrô é a nossa
"Consolação"
É a nossa, vamos levantar

Na próxima sexta eu juro que fico em casa

A próxima tarde o encontro marcado
O nome escolhido, a porta entreaberta
A vida empurra o ventre e o elevador
A bolsa estourou

Natalie voltou ante-ontem do hospital
A tarde já esteve mais quente
O trânsito já teve mais carros
Na última sexta nós duas ficamos em casa.

domingo, 1 de agosto de 2010

Sem Peso

Sem barco pra afundar
Sem mão pra desatar
Sem beijo pra enxugar
Sem sonho pra comprar
Sem juventude pra gastar
Sem sinal pra furar
Sem fome pra saciar
Sem pedestre pra atropelar
Sem candidato pra votar
Sem falta pra cobrar
Sem coração pra remendar
Sem mocidade pra dar
Por falta

Clichê
Sem estresse
Uma balada dessas
De MPB
Que você ouve no Rádio
No meio da madruga
Voltando pra casa

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Desolada Balada do Ano Velho

A chuva que cai, a moeda que cai
O corpo que cai, a bolsa que cai
O tempo que cai e hoje cedo eu disse sim
Tenha um bom dia, te ligo mais tarde
Tá bom, ok, tá, tá, tchau.

Me diz quanto falta pras uma
Valeu, agora me diz onde vamos almoçar hoje
Tá chovendo, e eu nem trouxe agasalho
Mas que merda, não devia acreditar
Nessa previsão do tempo
E o dia que podia ser tão bom...

Não vejo a hora de chegar as seis
Quarta feira é vespera de feriadão
Não vejo a hora, por mais que nem deva sair
Nem deva viajar
Devo ficar em casa lendo alguma coisa
Sábado tem festa da Aninha, mas parece que esse ano
Ela quer só cortar um bolinho mesmo
E esse ano eu faço 26...

Entre Eu, Você e Este Outro (Corpo)

Que corpo vai ficar sem sono no verão
que corpo vai ficar entre a brecha
que sobra entre eu você?

Que silêncio vai ficar desperto e não
minha boca, que pouco descreve
está boquiaberta diante de você...

Quando ambos os corpos adormecem
que corpo fica acima do céu?
Quando todos os corpos adormecem
sob a terra, que corpo fica
entre eu e você?
Que corpo fica
entre eu e este outro?

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Uma Canção Pra...

Pra quando você abrir a porta
Sua visita entrar e dizer tchau
O seu cachorro entrar e dizer te amo
E seus filhos, saindo, dizendo "pai, adeus"

Pra quando você abrir a porta de casa
O céu que te quer tão bem dizer "oi"
E seu quintal, que te quer também, "um beijo"
E a porta da garagem te dizer "bom dia, se cuida"

Pra quando você abrir a porta do carro
O cheiro guardado exclamar "ó não!"
A estrada e o cansaço te perguntarem "again?"
E os pedestres dizendo o silêncio

Pra quando você abrir a porta e a boca
O cheiro de casa te dizer "já foi"
A esposa calada te perguntar do pão
Seus filhos deixarem recados na secretária
Pois é véspera, é Natal
E vai que o ano novo não chega
E vai que o ano novo não chega...
E vai que o ano novo já passou?

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Foz

Porque a paz há de chegar e selar o sétimo selo
O mar do vermelho repousará no azul
E brilhará no mesmo céu onde brilha Zumbi
Cada silhueta agora desfocada sob o sol preto

No mar de alfalto vermelho e açoite
Que à luz do dia destruiu
E a voz da história construiu
Cada silhueta apagada há se de tornar estrela
De riscar de luz nossa face à noite
Mas até lá...

Porque o Rio há de ser uma cidade pra frente
Tropas pacificadoras hão de trazer mais
Saúde e paz, menos necrotério - aqui jaz
A cidade de quem queria viver
Dando seu lugar
A uma cidade pra quem quer ver
Porque São Paulo e qualquer outra capital, periferia
Não há de ser diferente à luz do dia
Se cada pedaço de país e do mundo é um pedaço
Do mesmo sim, do mesmo não, do mesmo fundo
De oceano que tem quem ache que não navega
Mas navega sim, e navegar é preciso
Por mais que indeciso seja o pulso do povo
E o peito de quem queria querer lutar e não luta
Até eu.
Até eu e
Até lá...

Este Rio que lava minha pele
A marca com suas águas vermelhas
E porque iria eu pensar que só este Rio deságua aqui
Se todos os Rios deste país desaguam em mim
Desaguam em ti
Se todos os Rios deste país se mancham do mesmo sangue
Se todos os Rios do mundo se mancham do mesmo sangue
Se todos os Rios cuja água eu bebo levam, consigo, embora
Um pouco do meu próprio sangue.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Girar Pra Quê

Uma manhã não é completa sem um copo de café
Uma manhã não é A manhã sem um bom cado de fé
Uma manhã não amanhece
Sem um pouco de vontade de ficar na cama

Uma manhã não é manhã sem um pouco de sede
Sem uma boa boca alheia para se matar a sede de "bom dia"
Que a noite só faz apetecer
Uma manhã só amanhece se estiver nua
Com uma vontade de ficar na sua
Uma vontade de ficar na sua manhã
E só hoje entardecer mais tarde... Mais tarde...
Só depois da Terra lembrar de girar de novo com a Lua
Só depois do sino da Igreja tocar Maria
Só depois que a moça abrir a janela pro povo da rua,
que amanhece a cidade, tão cedo, ao seu passo,
dizendo bom dia.

domingo, 4 de julho de 2010

What Is Isso

Um copo de Coca pra você se afogar
Um par de sopapos pra você se sangrar
Um amor pra você se suar

Um pouco de coca pra você não cheirar
Um par de sapatos pra você ir comprar
Um amor pra você alugar

Um jogo da Copa pra brasileiro ralhar
Um par de apitos pra vizinho acordar
Um amor pra você odiar

Um pouco de perdão pra você desprezar
Um par de abraços pra você desatar
Um amor pra você duvidar

Uma cana com limão pra você respirar
Um par de amigos, vocês a destilar
Um amor só pra lhe vigiar

Um resto de verão pra você desaguar
Um par de estrelas pra você se guiar
Um amor pra você se afogar.

sábado, 3 de julho de 2010

Outras Manhãs

Marina contava estórias de pé de árvores
Sozinha, pois varavam à noite inteira
Se a linha do horizonte pudesse tecer
Um colo de seda p'ra aquecê-la
O horizonte sentava aos seus pés também
E nunca que amanhecia
E nunca que raiava o sol
E outras estrelas que se achegavam
Mais perto de Marina
Quando se chegasse a hora
Sua voz faria outros dias raiarem
Nessa terra a fora.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Palavra Solta

Palavra solta
Não presa entre os dentes
Palavra corta
Não bate palma nas costas
Do corpo vermelho
De sangue não
De raiva...!
Pra ser sincero é só febre

Palavra cinza, afinal
Quem vai ser presidente?
A Nação que se quebre
Corpo cinza
Preso entre o teto de casa
E a Av. Paulista
Corpo volta
Da mesma pista
P'ra mesma cama
Na mesma hora
Nem toda noite
Tem estrela cadente

Palavra volta
Em duplas
De 3 em 3
Sozinha, embora
Às vezes em braile
Palavra nua
Corpo nu, antes
Que este se cale
Depois
Durante a balada
Palavra e corpo escorrendo
P'ra tudo que é canto
Haja terra p'ra tanto
P'ra tanta gente cantando
Tanta gente calada.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Jaz

A única e última
Vez
Estar
De pé diante da porta errada
De pé diante dos pés errados
De pé sob o par de pés errados

A última vez
Que um braço se extende
Para fazer sinal
Pr'ela parar
Que um braço se extende
Sem abraços

A única vez
A única tarde que se passa
Com os pés enterrados ao mar
Os pés que vão e ficam
O que vai é o que fica

E as mãos se emaranhando com o vento
Ah, se o vento ficasse
Se o vento ficasse um pouco mais
Se o silêncio que se faz
Se fizesse um pouco mais
Se Janeiro me aqui jaz
Se jamais um pouco mais

Mais um pouco
Amanhã
Lá, menor que eu
A última e a única vez
Que eu tento mais um pouco.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Soneto dos Trens (ou "Virgínia")

Nenhuma memória vêm a cabeça
Mais nenhuma brand new idéia, idem
Ou itálica citação de alguém
Foucalt e Bordieu sós no pé da mesa

Que dia da semana ou puberdade
Traz me aqui doce alguma liberdade?
E quantos mais trilhos fora dos trens,
Terremotos ou silêncios convém?

Ela é quem me sobrava e sem porquês
Cada vez que a chuva bebia e vinha
Ouvia me a vida e me o resto história:

C'est fini, blemblém, nenhum, dois ou três
Pois quão tarde atrasa o sino, Virgínia
É a distância entre aqui e a memória.

sábado, 26 de junho de 2010

Haver

Há de se retornar ao lar
Até que sua sacada
Torne-se familiar

Há de se beijar os rostos
Até que seus gostos
Assimilem-se ao paladar

Há de se confundir as gentes
Suas cores, seus nomes
Suas respirações repentes

Há de se sorrir às vezes
Quando se afagar, amparar distâncias
Entre minutos e meses

Há de se cheirar perfume outrora
Reatar os cachos d'Isadora
Laçá-los às suas infâncias

Há de a ti entrever no oceano dela
Dilúvio que anseia o teu abismo
P'ra espelhar horizontes

Há de se querer ofuscar a treva
Nela, de sua solidão, o eufemismo
Seu colo, Elixir e fonte

Há de se talhar mentiras
De forjá-las com maestria
De fitar a face à metade

Há, do ar que se respira
Querê-lo além da necessidade
Esta arcaica fome doentia

Há de se morrer por cada palavra
Que se captura da noite que cai
E se aprisiona a pão e água

Há de alguém que se desbrava
Que se devora o desespero, apenas
Sob a Terra respirar a trégua

Há de se aportar sem cais
Quem navegar por quem se amava
For, a si, já, o que se faz

Há, do despedaço destes nomes
Em memórias, lados, medos tais
O esquecer-te e o ser-te, tu que somes
Névoa à fora aos braços de Hades... ademais:
O viver do antes constante
O tremer da carne amante
O chover do céu adiante
O haver saber, saber infante
O reter embora instante
O viver depois durante
Agora.

domingo, 6 de junho de 2010

A Pressa

Corro quando dá meia noite
Corro quando bate o desespero
Quando bate a vontade de morder
Corro quando correm atrás de mim
Corro quando a pressa me persegue
Corro que eu quero tempo
Corro atrás do tempo
Só que o tempo corre veloz também
Corro porque sofro porque morro quando escorre alguém
Por debaixo da porta
Corro de pega-pega, de medo, de conhecidos que desconheço e de tédio
Corro porque os outros correm
Corro porque estava parado
Na ponta da língua morre a palavra: esta prestes à dizê-la
E com ela morre, inteira, a sede que eu ia matar
Morro de raiva quando isso acontece
Jorro rios cada santa vez que você seca
Porra, me diz, p'ra que tanta pressa
Corro só p'ra que finalmente anoiteça
Corro só, porque solidão acontece

sábado, 5 de junho de 2010

Quando

O quê?
O que você quer?
P'ra onde você vai?
Que roupa é essa?
Com quem você vai?
Isso são horas?
Me diz o seu nome
O que você quer, afinal?

Me passa o talher
Se é p'ra ferir
Eu firo
Me diz até quando
Até quando?

Com quem você quer falar?

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Tarot

A última mentira que escorreu de você foi mesmo a última lágrima que escorreu de você foi também
A última promessa que você fez
Ainda no final deste último mês

Quanto tempo te sobrou
Quantas cartas de Tarot
São o bastante pra adivinhar
Onde aquele vaso há de cair
Na dúvida, eu chuto
Cairá um vaso em cada lugar
Que você passar

A última vez que você fez isso era a última vez que você o faria
A última vez há de sempre ser a próxima vez.

domingo, 30 de maio de 2010

Pequena e Antiga Fábula do Esquecimento

"Tenho muitas coisas p'ra esquecer
Entre elas você"
Bartender, 15 reais: quantas doses
De Vodka me arranjam um câncer?

sábado, 29 de maio de 2010

Tapeçaria ("3. Fig. A relva e as flores que cobrem um terreno.")

Respiro pela tua boca
Te visto logo cedo
Porque tô com frio
E já é dezembro
Inspiro a tua nuca d'uma vez
Cada vez, porque preciso
Compenso teu cacheado
Com cada pecado que eu penso, sem metáfora:
1 - Morrer pela tua boca
2 - Me afogar no teu colo
3 - Me banhar na tua barriga
4 - Me almoçar os teus piolhos
5 - Me sobremesa no sobre a cama (tapeçaria)
[Do pouco que resta deste último açoite]
O teu resto estendido me suplicando bom dia
O meu resto já oco sucumbindo à tua noite

ª6ª

A manhã, antes que ela acabe
Afague
À tarde, antes que o sol apague
Aguarde
A noite, além do teto, do céu, alarde
Atenção:
Agora o resto desta cidade quer viver
Ainda que n'um drama
Aos remendos da porcelana
A vida: este último dia de semana.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Limão

Nem tenho medo do mundo
O mundo que me teme
O mundo que me tem
O mundo me teme porque ele é eu:
Sou eu o mundo, eu, na beira do horizonte, dobrando o firmamento, azul e lindo sou eu ali de braços cruzados n'encruzilhada pendendo na cruz a ponta da culpa caindo e quebrando feito gelo lá no fundo do copo da caipirinha. Com e sem sotaque gringo.

Mais 51, meu sinhô.
Mais um limão, por favor.
Vá um brinde à tanta sorte
E hipocrisia, meu penhor
De liberdade
Conquistado a traço forte.

domingo, 16 de maio de 2010

O Que Há De Tão Errado

Em querer voar
Em querer forjar as asas p'ra fazê-lo
Em inclusive cortar a cartolina e o durex para colá-las às costas
E brincar de anjo ou Ícaro na beira dos adros
Em querer arar os céus e tão logo
Rir na cara de Horóscopos e Astros
P'ra então querer cair
Querer então cair no seu colo

Em querer desfazer que já está beiço
(Ok, cagadas que meu eu lírico fez)
Em querer disfarçar que te desconheço
Em querer desquerer que já quis
Em querer me irritar com as próprias metáforas
Em querer refazer o caminho da ida
Em querer mandar pro inferno o pós-moderno
Em querer me meter em sua vida
Em querer passar um dia inteiro só falando a verdade
Em querer apertar campainhas e sair correndo
Aos 23 anos de idade

Em querer aprender a tocar violoncelo
Em querer parar de comer carne e beber leite
(Talvez beber chás de cogumelo)
E parar de usar roupas de couro
Em querer viajar p'ros Emirados Árabes
Em querer aprender javanês
Em querer tatuar um vaso de cactus nas costas
Em querer fazer um daqueles piercing bridges
Com imã embutido p'ra pendurar óculos, daí
Em querer perder p'ra pagar a aposta
Só pra ter uma desculpa p'ra andar pelado por aí

Em querer cultivar bonsais de Acácias baianas
Em querer sair de casa pra se morar sozinho
(Ou debaixo da ponte)
Em querer inventar refrigerante de banana
Em querer ser Visconde
Em querer ser Sabugosa
Em querer me manter em sua vida
Em querer viver de tablado
Em querer chorar por uma película de Almodóvar
Em querer chorar em uma segunda-feira
Em querer chorar e ser consolado
Em querer chorar
Em querer uma orquestra de samba de Gafieira
Tocando na festa de seu casamento
Em querer jogar Super Mario
Em querer pintar o cabelo de verde ou roxo
Em querer ser picareta aos propícios momentos
Em querer rimar e só achar no dicionário
Um tal d'um peixe chamado "Sável"
Em querer dizer o que eu sinto
Por mais que o que sinta seja "hjkwerttyysytrtupiodsafgfj"
Impronunciável.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Luz

Luz do sol
Sem lâmpada
Fotossíntese
Do samba

Luz que avista
É vista
Pr'a além dos mares
Faróis
Barras
Carnavais
Anos luz
Supernovas
Clarices
Cellphones
Pegos no Buraco Negro
Que que sobrou
Da tua luz?

P'ra onde vai
A luz da vela
Quando ela for
Apagá-la?

P'ra que tanta luz?
P'ra que tanta sombra?

Quem apaga a luz
Quando já estamos dormindo?
Quem deixa a luz acesa?

Quem vê a luz
Dos olhos que se fecham?

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Lilith

Quero a liberdade de desquerer o que devia querer
Quero minha palma da mão tocando a outra palma além da minha outra
Quero aplausos, mas das macieiras
Quero vento
Sem abanador.

Quero a saída mais fácil e hábil e táctil para o céu
Quero sem Deus, sem adeus, Edem ou prece
Quero você, Lilith, quero esquecer de rezar
Quero dormir a hora que eu quiser
Quero lençóis
E companhia.

Quero cansar e duvidar do cansaço ou do laço
Que ata os pés e consequentemente suas asas
Quero cantar pela boca e pelo corpo
Alto o bastante pra propagar no vácuo
O silêncio que é só meu
E seu
Quero ter a luz e a pressa escusa
Das estrelas.

Quero crianças correndo nesse quintal
Quero crianças cantando nesse quintal
Quero crianças
Quero ter um quintal

Quero a paz do caos de suas metrópolis
Quero trafégo, tráfico clandestino de amor
Quero que voltem a proibir o amor
Pra que possamos amar mais
E nos tornarmos viciados
Quero me esconder em outras tocas
Além da minha
Quero respirar por outras bocas
Além da minha
Quero você, Lilith, e esquecer de acreditar
Que quero um mundo melhor
Eu quero aprender a esperar.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Passaredo

O que passou
Passou
Passou de passo em passo
Até chegar
Do outro lado
O dia que passou
Como passeata
Foi como um exército
De passantes
Transeuntes
Jurando lutar
Pela causa nobre
Que passou do ponto
Quem fez sinal
Quem repassou o conto
Foi a verdade, nua
Morena, sorrindo
Esperando, grua
Me elevar também
Pro outro lado da lua
Mas s'eu passar pra lá
Me diz, se houver ninguém
Do outro lado da rua?


Dedicado à Mario Quintana.

domingo, 2 de maio de 2010

Sundae

Saudade pra ela é Vale a Pena Ver de Novo
Saudade pra ela é Corujão
De madrugada
Com potes de sorvete numa sexta à noite

Raiva pra ela é uma passeata
De movimento do MST
Interditando a Avenida Paulista
Raiva pra ela é chegar tarde em casa
É molhar a chapinha

Amor pra ela é domingo à tarde
Domingo no Parque?
Domingo no Shopping
Shopping é Shopping em qualquer lugar
Aeroportos também, já disse
Aeromoças são iguais
Amor é poster
Amor é férias
Amor é Londres
Amor é quase
Amor é tendência
Mas amor não é tendência
Amor pra ela é deixar recado
E deixar em branco.

Nosso

Meu nome está na boca de qualquer pessoa
Porque eu gosto de ouvir qualquer voz
E qualquer não é qualquer
Por ser qualquer
Mas por ser você
E o mundo inteiro

Meu nome está sobrando
Aqui dentro desta frase
Se a chuva que cai
Me envolve em drama
Se a tarde que é tarde
É tarde porque não quer mais
Porque mais é menos
Menos você
Que mais ou menos
Sempre há de somar

Meu nome e o seu, o nosso e a doçura
De dois desenhos animados Disney
Passando na Sessão da Tarde
Saindo pra jogar bola
No parque do prédio
Antes do jogo da Seleção
A inocência
Trocando figurinhas da Copa do Mundo
Contra a bipolaridade
Existencialista
Discutindo economia na mesa do bar
E o excesso de drama
Que a falta de amor e chocolate
Sem trama
Encena.

Terça Menor Diminuta (Ainda É Terça)

É que hoje cedo acordei mais cedo
Por ter me dado um sonho tão angustiante
Terremotos, pais chorando, terças-feiras
A Ouvidor já teve samba às terças-feiras?
A Ouvidor já teve samba às terças-feiras

Na Conceição, compradores de ouro
Oferecem à cura para amores perdidos
Amantes frescas
A SAARA é mesmo um deserto
É mesmo um deserto aos Domingos

E as vendedoras das lojas de atacado
Se chocam e se espasmam
O Rio Amazonas agora pega atalho
No de Janeiro
As aguas de Março agora agendam pouso em Abril

E a Lapa, A Lapa, A Lapa
E a Lapa, A Lapa, Ah lá, pai, A Lapa
Com seus gringos, travestis, empresários aposentados
E universitários clamando ajuda porque ainda é terça
Ainda é terça, ainda é terça, ainda é terça
Ainda é terça, ainda é terça, ainda é terça

E tal da cidade maravilhosa
Com seus taxistas, PM's e funcionários públicos
Clamando misericórdia porque ainda é terça
Ainda é terça, ainda é terça...
Mas os mendigos na Candelária
Todos eles me parecem muito bem.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Goodbye, Malone

The hardest part of letting go is to know you're gonna miss:
Your arms, your legs, eyes and your Marvel Comics
The hardest part of letting go is to go on
But that's when going on means going to another direction
You were willing to go
And I'm not talking about the Gavea's Planetarium
And that's the hardest part of saying "no", and it ain't even "perhaps"
No is no, like water is water, watery
To be stoned is to be stoned, stony
And a wall is a wall, Wally
Where are you, Wally?
The hardest part of letting go is to learn the exactly hour to stop kidding
The hardest part of letting you know que agora era a hora certa
A hora certa vem antes da hora de se esconder
Mas antes da hora de se esconder, há a hora de se expôr
Que é logo depois da hora certa
Mas o relógio da Central do Brasil nunca está certo
E eu vou tentar te dizer em inglês porque é mais seguro
E fácil
"Por quê?"
Porque sim
Como não?
Como assim tu não entendes?
Ok, ok. Whatever - que as paredes se distraiam e não ouçam
O que eu estou pra te dizer.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

As Pazes

I - Consigo

Toda luz que se apaga
É toda luz que se apega
Ao que vai se apagar em breve
Com o Sol
Agora

Na beira do céu
Meia dúzia de anjos esperando o fim do mundo acabar
Espiando o fim
Em pay-per-view

Homens de Peter Pans
Vestidos em verde mais porque
Fazem parte do Greenpeace
Que por esperança

II - Com eles

Mirando as sobras da rua
Na quarta feira de cinzas
Que é o domingo à madrugada no centro da cidade
Brenda conhece seu deus

E pra ele pergunta:
Quem

De
Apagar
Quem?

Louise vê fantasmas saindo pela janela
Fugindo de casa em plena sexta feira
Véspera de feriado
Levando o dinheiro de contas que ela devia acertar
Mas que ia pagar

III - Com o resto

Los dos brazos amputados
Los dos riñones subastados
Los dos ojos caídos
(Sin embargo, no tiene lágrimas ahora)
Las dos risas rotos
Pero no hay final feliz
Cuando la película llega a su fin
Los dos tímpanos sangrientos
Usted tiró esta mañana
Estará de regreso esta noche
Por amarte

Com sua voz fazendo concerto
Coro, luz, noite, plutônio
Estrela cadente, armagedônio, Cecília faz barulho
Porque, de silêncio, o mundo está cheio.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

"Tristeza"

E se a tristeza se vai
O que é que fica no lugar
E se a tristeza se vai
Quem é que fica no lugar
Se Sofia se vai, eu é que não
Eu é que não fico em mim pra ver
No que vai dar
Se Sofia se vai, se Sofia me encanta
E canta pra você
Canções de amor demodê
E rima paz com faz
Só pra te fazer, te ter, feliz
E eu quis, eu quis
Te avisar, ah, como eu quis
É tempo, é cedo
Distância e enredo
De película espanhola
Com desfecho infeliz, embora
As letrinhas que sobem
A tristeza que sai da sala vai,
De lenço e cheque em mãos,
Esquecer-se-só
Na praça de alimentação.

domingo, 11 de abril de 2010

A Paz

— E pra que se apaixonar então?
— Ora, como assim?
— Essa agonia, esse peito pra lá e cá, tanta desarmonia, dor, pressa, dúvida, sufoco, me diz, pra que, pra quê!?
— Veja, me deixa quieta. 'Cê tá me ouvindo reclamar? Há tanto, há muito tempo era esse desespero que eu esperava. E agora ele chegou, entrou. Pela janela, mas entrou. Me deixa em paz que a paz eu tenho assim.
— Nem me venha com poesia a essas horas, garota! Sossega, se aquieta, desencana! 'Tô falando sério! Isso ainda vai te...
— ...então vamos começar a falar de brincadeira, de sacanagem. Me passa a bola. Anda!
— Ora...
— Agora é a sua vez de falar um nome de animal com a letra T...

sábado, 3 de abril de 2010

Barcos

Ela se satisfaz com tão pouco
ela se satisfaz com meu pouco
meu pouco devia ser
demais pra ela
mas é só isso que ela pede
e se ela me esperasse
na saída da escola
(se houvessem escolas)
ela só me pegaria
pela mão
e me levaria pra casa
e se ela me dobrasse origamis
e se ela me mandasse cartas nos feriados
(se houvesse papel
para se escrever na casa dela)
ela não me imploraria respostas
ou barcos de papel em banheiras
ela nem perguntaria se eu li alguma coisa
a única coisa que ela me perguntaria
a vida inteira
seria "o que você quer?"

Enfim

Tire a ponta
De seu dedo
Da ponta do meu olho
Esquerdo
Atire de vez
Todo esse ódio contra o céu porque
Se eu lhe digo
Que é verdade
É verdade
Finja que tem medo também
Quando desligar
A luz

O lado de cá
Desta manhã
A tarde inteira
É baía
Do lado de lá
Da noite e madrugada
É oceano
Mas finja que tem medo também
E abraça o chão
Sujo no meio do lençol
Que eu deixei
Há muito tempo atrás
Na sua cama

Quando desligar
Atende logo o telefone
Que eu sei que é pra você
Porque o silêncio só tem pressa
Quando chove
Que a melhor oração que eu faço
É adormecer
Sem sonho
Que eu vou dizer "não" mais uma vez
Só pelo prazer
De me privar.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Agosto

E você se me escancara a porta
A mentira sai, e eu também
E mais ninguém vai saber
Quem é quem
E você se me bebe o copo
De vez, se engasga o peito
E a cabeça o troço na garganta
E vá saber depois do que adianta
Você me sair pela janela
E se voando se estatela
No céu, e se a santa chuva, aquela
Que cai diante de mim for só tela, vaidade
TV, mas se for você, por algum Agosto
Estando diante de verdade da verdade, me diz
Como ei de te limpar de meu rosto?

sábado, 20 de março de 2010

Debaixo do seu teto,
Eu,
Debaixo da sua mesa,
Sofia com joelho e beiço vermelhos,
Debaixo do meu céu da boca
o dela, eu quis
Debaixo da areia
o passarinho, a arca, os pés, a concha
Debaixo da Terra
Eu, de novo,
escancaro a porta, adentro a casa minha dela, e

domingo, 7 de março de 2010

Isadora

Dó, Doce Dora
Dó da minha dor
Sob este cimento
Sob este rubro martelo
Sob o firmamento
Mas sobra me força
Pra te abraçar
Falta tua falta
Pra te esquecer, ó Deus!
Graças a Deus!

Dó, meiga Isa
Dó maior, e Sol
Bela manhã
Sob esta rua
Que devia se chamar
"Só sou tua
se jogar pião e bola"
Sob esta lua a faiscar
A prometer Sol para amanhã
Do teu lábio azul, azul
De tua saudade sul
Graças, fadas, azul!

Mas evita de atrasar
Quando você se for
Pela noite a dentro
Que amanhã já é dezembro
De novo
E eu parti em fevereiro.

sábado, 6 de março de 2010

Quiçá

Não tô aqui pra te salvar
Não tô aqui pra te dizer "te amo"
Não tô aqui porque você pediu
Nem estou aqui porque eu quero
Ou porque te quero

Não estou aqui pra te dizer "não"
Embora não pareça
Contudo, tampouco não vou te dizer "sim"
Não estou aqui pra te dizer "te odeio"
Embora não pareça
E embora você queira
Não estou aqui porque não tenho mais
o que fazer, embora eu gostaria

Eu estou aqui porque eu tenho
Muito o que fazer
Mas não farei
E o mesmo vale pra você

Eu estou aqui porque eu tenho
Mais o que fazer
Mas não farei

Porque a terra começou a girar
Ao contrário, porque
o mundo real se constitui
por esses pontos turísticos
logo à sua esquerda e
porque o Rio de Janeiro
se resume às novelas
do Manoel Carlos
e apenas porque a vida inteira
me resume
numa fotografia lomográfica

Eu estou aqui porque eu tenho
Muito mais o que fazer
Mas não farei
Deixa o Haiti pra mais tarde
E o mesmo vale pra você

E antes que você me processe
Ou se magoe, ou se ofenda
Ou venha me falar de direitos humanos, querida
Isso é uma ironia.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Vicodin Nº 2

"Everything is Wrong". As coisas estão absoluta e concretamente erradas. Até a mais perfeita erratidão se atrapalha e agrava entre tantos tropeços, mal-entendidos, vinganças e cagadas. Minha saliva jamais será tão boa pra boca dela. Meus lençóis nunca federão e transpirarão o bastante quando seu corpo quiser feder e enxarcar. Cada luta será um adeus. Cada adeus será o precipício, e eu e o coiote caindo, e, depois do chão ao fundo perfurado pela nossa carcaça, um outro precipício, e depois deste outro chão e precipício, e um outro, um outro e um outro, e o mesmo eu, e, o coiote. O mesmo Deus deslizando sobre a superfície da água.
The dead end is the other dead end after the dead end.

Pocket Truths (03)

Jesus hoje em dia não salva nem documento do Word.
Mas salva a graça do blog de muita gente
(O Google tá ai, di prova).

Só Tetris salva de encosto e da Maria Padilha (só quem já pegou ônibus para Av. Brasil vai pegar essa... Tá, metade dessa).

Pocket Truths (02)

Orgasmo é orgasmo em qualquer cultura.
Incesto é incesto também, mas isso foi Levi-Strauss quem disse.

Publicidade é publicidade, propaganda é propaganda, em qualquer país.
O Youtube tá ai pra provar.

Pocket Truths (01)

Provavelmente as pessoas com quem você será quase mais que perfeito serão suas grandes amigas.
Provavelmente as pessoas com quem você será, feliz e infelizmente, muito mais que humano serão suas mais intensas amantes.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Miranda

Miranda cantava em Sol
De mãos dadas com o sol
Seu o gato chiava com a antena
Amarrada nas costas
A televisão miava o horário nobre
E a ralé cantava a abertura da novela nova
Da porta da cozinha sua mãe avental
À gritar "devolve essa saudade antes que suje
tira o amor d'cima do muro, menina, tão rude...
cadê o beijo que tava aqui em cima da pia?
tá morta? me trag'a garganta de volta!
antes d'eu bater, chega, minha filha
essa porta! oi? eu vou contar até três: um..."

dia.
se foi.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Gengibre Maçã

Ainda que você seja o adeus mais justo que me aconteceu
Ainda a mão
Ainda que seja seu o sorriso que me restar, por Deus
Ria não
Ainda que não haja ninguém depois de você
Vai ter sim
Ainda que estas cidades sem seus portos, Carnavais
Fevereiros, e sem santos, ademais...
Vê? Eu vim
Ainda que você seja a maior palavra que eu já disse
Soletre-se-à mim
(Com cada consoante e reticências)
Ainda que eu volte atrás, pra onde você não está
Esteja no mesmo lugar
Que eu deixei
Ainda que seja sim o não que hei de ouvir na hora H
(E se eu errei)
Sorria, tá?
Ainda que, do gengibre, eu morda o lábio seu
Ou que a ferida inflame
Ou que eu ouça outro nome
Fica, vá.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Suíte Post Moderna, Parte I - Abertura (Retalhos)

I

Ana, profana, ó, sana!
'Miga tão mana
Faz jus não à tua fama
Troca o caldo da cana
Pelo açaí da banana
Com granola, e desencana
Dessa lama, levanta da cama
Sê si mesma, fim de semana
Vossos mistérios, Suçuarana!

II

De antes do carnaval seu grito me faz mal ao pensamento e, no, dia à dia, alegria alegria, no convento, febre sob as águas, e toma, toma a Vaca Vegan que El Niño é teu, se o ar condicionado quebra é graças à deus, sim, todo PMDB deve ser castigado por tanto mal, e o inverno no Leblon nunca fora tão equatorial, e a Banda de Ipanema continua ainda engarrafando o trânsito do sul da Zona Sul, e o Céu de Verão da cidade à nascer nas pessoas (não o contrário), continua azul.

IV

Ae, ae, ae, ae
Ê, ê, ê, ê
Ôooooooooooo
(Mais uma!)
Ae, ae, ae, ae
Ê, ê, ê, ê
Ôoooooooooo...

V

Peço, agora, adeus
Que o ato de falho de se perder tempo
Seja enfim recompensado
Com muito mais tempo para se perder.

VI

Obrigado.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Yo! Ma Lady (Pés)

Instruções:
Esta é mais uma daquelas poesias malas
de depois do pós-post-modernismo

E como fruto de toda pós-post-modernidade tem suas contradições
Ironias, e doses de humor britânico (sem gracisse mesmo), em sentido lato.
Essas instruções já estão ficando maiores
que o conteúdo do poema de fato.
Então vamos lá:
Favor ler em ritmo de recitação de rap

Se rolar preguiça, pule de poema ou vire a página
Porque (junto e sem acento) não vai adiantar.
Imagine-se em qualquer periferia
Que você jamais visitaria
Depois das 6 tarde
Porque não é problema seu
E, não, claro, nem de Deus
Beijo, divirta-se e se cuida.

There's something sweet about that lady...
NO! There's something sick about that bitch
That stupid depressing bitch
Whose nose could not be any closer to the sky
The boring, bipolar whore
Her lies, her cries, too dry, no more
Empty and full of any love lace
Misplaced, dear Lord, in peace and space.

Mas quandoquando eu detesto eu dedico
Barrinha de cereal Nestlé, NÃO!, Chokitos
E frusto-me do amor o qual ia, e aplico
Ao céu azul, foz nascente, este bendito
Canto, e se sou eu, o eu lírico, que me isento
Da paz que outrora eu próprio me intento
Frusto a tal da santa e ofusco, a mira, o cupido
Furo o asfalto ausente de meus pés, este maldito.

P.S:
Favor colaborar com o autor e,
após a leitura deste poema, doar, escrever mesmo, um verso aleatório
qualquer coisa, em francês
, no verso ou no final desse papel
ou no espaçozinho pra comentários do blog.
Claro, isso se você souber francês
(se não souber, não precisa escrever nada não).
O autor ainda não teve tempo (dinheiro, claro) de fazer um cursinho desses
para aprender um pouco do elegante e famigerado idioma.
Muito grato desde já.

P.P.S:
Os versos coletados serão usados em um próximo poema.
Também pós-post-moderno.
(Se eu lembrar disso, é claro.)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

"Eu Sou Alberto Pereira"¹

As cidades que amanhecem
E seus Centros com odor de urina
Todo e qualquer Centro fede a urina
As namoradas que desapegam, da Lan House
O E-mail derradeiro de despedida, beijos me liga
As manchetes que ignoro de meia em meia hora
A tragédia humorística do jornal popular
Os convites de emprego nas cidades do interior
As colônias francesas cheirando ao pescoço
As flores e o sangue
As audições no Projac
O passeio na Ilha de Itaparica
No Jardim Botânico, a trilha no Parque Lage
O fim de semana em Paraty
O Natal da Avenida Paulista
E da Lagoa Rodrigo de Freitas
O Shopping da Barra, o Barra Shopping
(Shopping é shopping em qualquer canto
Pessoas são diferentes)
O cochilo papelão deitado e distraído
Na própria merda e no próprio mijo
Quiçá nas próximas férias na Europa
E as últimas férias na Região dos Lagos foram
Há 20, 30 anos atrás
O Caetano, o Haiti e o Leblon
Daqui é um longo vôo até Paris e os
Aeroportos fechando às vésperas do Carnaval
(Aeroporto também é Aeroporto em qualquer lugar
Aeromoças, idem)
Porém seu vôo particular do Santos Dummond
O furúnculo ainda aberto da sua barriga
O dinheiro que parou de pedir
Porque ninguém pedia
A fita amarela amarrada e o pedido
De assistir à próxima e a última Copa na África
O fim de semana no Centro da cidade e a paz
A paz que só sente quem sabe
O que o silêncio dessas ruas traz.

¹Palavras recitadas, ou gritadas, por um mendigo no centro da cidade
do Rio de Janeiro
em uma manhã de Domingo, enquanto socava violentamente o chão.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Sabiás

O gosto de mim na minha boca
quando toco você com minha fome
que sinto
em qualquer canto
por qualquer arte
Moderna ou Barroca
do eu, do dela, o céu da sua Terra inteira
E do meu Senhor do Bonfim
Apenas satisfaz quem espia aquele que saboreia, e faz,
Da ladeira que subo, as pedras coloniais
Do Portugal que ainda me vive
E do seu céu, da boca, eu desço levando
Essa saudade cansada, mas de febre, e reencontro
Acordes em ferrugens ecoando da poeira
E cadarços amarelecidos no armário, desarramados
Porque nada jamais faria abalar, abafar
Nova, essa saudade tiroteia e descalça
Que há de teimar em calçar o pneu e bater a lata.

Às vezes, só às vezes, ressalto
Enojo o gosto de mim na minha boca
quando me toco com cada fome
que sinto e oro, e ore, por favor
por qualquer canto de mim
em qualquer Sinagoga
Terreiro
Roda punk
Templo budista ou
Concerto roqueiro
Mesmo diante de alguma imponente gigante
Assembléia quadrangular
Do centro da periferia
O grito dublado
Da Zona Sul e central
Amazon importado
Destas capitais à beira mar
E continental
Este Brasil-lá-fora
A sessão da tarde
Reza e adora.

E cada vez que volto do Velho Continente
Desço do céu que lhe pintaram no chão
emoldurado de suas cozinhas levando comigo
A Lua que São Jorge me emprestou
Depois da última boate do Rio Vermelho
Afastando-a, mas só um pouco
Do Cruzeiro do Sul a manhã que se seguiu
Lapa alternativa a malandragem dois mil
Para ver se cessa de vez a maresia
Este desespero salgado de praia
Que não mata, mas revive, realça
A sede e o gosto por viver
Nos mares do Trópico
Mas, que quando vê a cidade acinzentar-se
E anoitecer-se.
E petrificar-se na distância de além Noronha.
É este gosto.
Ao qual pergunto: "Por que entristece
Todas as coisas da vida que tem seu lado bom
Mesmo a morte?
Se todas as coisas da vida tem seu lado bom
Até a morte."

Às vezes detesto o gosto de mim na sua boca
quando lhe toco com tanta fome
que sinto de hora e ora
em qualquer canto de mim
por qualquer parte do país, principalmente São Paulo.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O Turista

Janeiro ia se dissolver antes
que janeiro
que vem aportasse porta adentro
Casa afora, quarto afora
Tudo pra agora, na hora
na mão.

Janeiro ia se dissolver num copo de café
Bilhetes amassados escritos e os lidos
Umedecidos pelo suor do copo que se assenta e pelo suor dos corpos
Que se esquecem enquanto dentro de si
(mas sempre lá fora anyways)
Esses risos e esperanças de one night only
Que deixamos no bolso de trás da calça
Que botamos pra lavar, deus! dels!!

Porém, sem gringo, sem grunge
O Fevereiro desse ano não tem carnaval
Quem tem sou Eu.

domingo, 10 de janeiro de 2010

20 Min

Que me atrai é paz
que me trai é medo é pressa é sono
que me faz é fome mas só me
satisfaz amor gentil e tempo, e tempo?
Rá, ene, á, ó, til! faz tempo!
Faz sala e quarto pra mim!
Esquece mais esses artigos
de versos gringos sobre Paris
que tu pariste, nem indefine
nem define que eu te peço
declara guerra, vista branco
quebra trégua, traz e volta paz
Dentro de vinte minutos mais.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Eu juro, quando eu tenho pressa
é pra estar estar mais perto, e se chove lá fora
é porque era pra você estar aqui
e se eu minto é porque se acabaram os lenços
é porque os travesseiros estão no sol pra secar
e se uma bala perdida me encontra
é porque eu estava fora, até tarde
pra te encontrar, pra encontrar a desculpa perfeita
pra tanto desencontro e para
fazer você nevar em Janeiro, no Rio e para
você acreditar agora enfim no que eu tento dizer.

sábado, 2 de janeiro de 2010

(...) vou te dar 5 razões pra acreditar na próxima década
e nenhuma delas começa com z, s ou y. (...)