segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Canção Concreta ao Sol

O Sol nascia de parto normal e se espalhava pela casa em partes iguais. Duas metades pegavam a sala da frente, as outras três pegavam o quarto de trás. As roseiras nos seus vasos bebiam Sol demais e se embriagavam de clorofila. Os cães e os gatos evitavam a cor do Verão estendidos na sombra da lavanderia. O almoço pronto cheirava amarelo o molho primavera. Tamanha radiação deixava as toalhas e as roupas do Varal com gosto de Sol, cheiro de Sol, tato de Sol. Os lençóis também. Poderíamos ficar trezentas e trinta e tantas horas enrolados no lençol de Sol na cama esperando o dia se pôr, mas o efeito passava logo depois uns meios minutos. A madeira do teto e paredes esquentava e cantava, quando o Sol saía, quando o Sol entrava. Até diminuta a Lua, de puro assanho, amanhecia e ficava uns minutos no Céu refletindo a luz do mesmo Sol que já tinha dado o tom do dia. Eu e Você não podíamos sair e brincar de bola ou casinha. Parávamos os relógios toda manhã às nove e meia e fingíamos que até às seis da tarde a Terra ficava parada estátua só para o Sol durar um tanto além o quintal. E este tanto Sol fazia nascer do cimento do jardim umas folhas de hortelã e tabaco, um pé de jaca, uma laranjeira, e vários capins e ervas cidreiras. Havia cimento no jardim porque este fora vítima da censura do golpe de '87 que proibira jardins particulares no país. O Sol nunca queria se conformar com a situação. Nem a Gente quis. A água encanada espalhada pelo chão da cozinha vazava até a porta da rua porque alguém esqueceu a torneira aberta. E a Luz do Sol, concreta,  passava e a evaporava. Tantas torneiras esquecidas depois levadas águas dariam numa chuva forte sob a cidade. De toda chuva nasceriam outros quintais, renascidos do cimento. Do arco íris entre os vãos dos edifícios depois umas crianças achariam graça; uns adultos achariam ouro. Quem sabe dali tempo outro ressuscitaríamos jardins atlânticos. Quem sabe rimaremos com mais frequência e método. O gosto de Sol no canto da boca que mordeu o lençol ficaria ali por mais uns séculos.

sábado, 29 de dezembro de 2012

Benício Sings The Blues

Nevava, em pleno Dezembro, plena Nova Iguaçu, baixada fluminense carioca. A descarga do banheiro travando, da ponta dos pés os dedos da mão puxavam a corda. A vontade de perguntar o que sua mãe estava assistindo, de se ouvir a televisão ligada no quarto, levou a curiosidade a empurrar a porta e a ver a sua cama vazia. Por onde andaria? Pelos bares e boates e Rio Sampa, ou pelos postos de gasolina caçando cigarros? Até a resposta, a televisão travou companhia enquanto transmitia um seriado adulto demais para crianças, já que madrugada. O mesmo rapaz, 20 anos depois, levanta e abre a geladeira para descobrir outro protesto silencioso dos flocos de água relutando a se tornarem cubos de gelo. O Whisky on the rocks terá de virar seja lá que raios seja um shot de Whisky puro. Se pergunta se vai também ter que caçar cigarro às 3 da manhã. Acha um meio maço perdido na poltrona do sofá, provavelmente deixados por alguém da festa do dia anterior. Queria comer qualquer coisa mas, se comer, o resto do efeito de embriaguez que está na mente das horas passadas tende a acabar. Se se atracar com o resto de Peru de Natal que está ali quase uma semana, ou com o pão duro com ovo, a neve que cai lá fora tende a virar só sereno. E faz tempo que não neva. Disca o telefone com os dedos automáticos de quem disca o mesmo  número com frequência, ouve o sinal chamar o outro lado e a voz que atende responde as diferentes perguntas com as mesmas respostas; "não sei" ou "amanhã a gente conversa." Amanhã será uma segunda feira de 30 de dezembro. Arremessa o telefone no sofá que quica-quica até cair e quase quebrar. Ele resolve fazer parar de nevar. Joga o resto de Peru na frigideira e lembra que na verdade se tratava de um frango e sabe se lá porque achava que era um Peru há 131 palavras atrás. Encosta ao lado, na pia, para não deixá-lo queimar. Lava o último copo de louça suja, um verdadeiro milagre divino para seus padrões comuns de homem hétero, meio machista e solteiro, segundo elas. Prepara o prato para recolher a refeição quando o telefone toca novamente. Foi atender e não era o seu amor. Não, nenhum Vítor mora ali. Vara o aparelho novamente, agora rumo a rede ainda estendida da sala, sendo outro milagre ter acertado em cheio sem despedaçá-lo. O frango tem as beiradas queimadas, mas o mastiga. Sentado no chão novamente, que foi de onde levantou há 333 palavras, começa o processo de digestão do alimento. Lembra que por volta dessa hora, há algumas milhões de palavras já ditas, ou há 20 anos, segundo o calendário cristão, tremia de sono, frio e choro por acreditar piamente ter sido abandonado por sua mãe. Compara a sensação com a vontade de chorar agora pelo mesmo abandono. Tem raiva e rejeita o drama escroto, jogando mais frango queimado no esôfago para sentir devagar os movimentos peristálticos levarem a comida para a segunda boca do corpo, a boca do estômago. O telefone toca novamente, a bina digital repete o número que discara 300 palavras antes. A pessoa do outro lado, que é a mesma que ele queria que fosse, pede um amassador de alhos emprestado, pr'aquela mesma hora. Ele diz que não tem mais o objeto, que foi justamente para ela que o emprestou da última vez. A outra pessoa, com raiva desta vez, lhe diz para levar então cinco formas de gelo vazio. Ele diz que só tem três. Ela responde que bastava. Ele diz que chegaria em 20 minutos.

Já na portaria, trancado o portão, desejado o feliz ano novo do porteiro, vestiria o casaco se este não estivesse dentro de casa. No ponto, o ônibus ou táxi resolvem não passar; teria que dirigir o próprio carro embriagado. Quando ameaça pegar o telefone para explicar que chegaria atrasado, um carro amarelo e azul vira a esquina piscando o farol. Para de nevar quando ele descreve o endereço para o motorista. O motorista deseja boa noite, boas entradas, conta sua história e o porquê de ter começado a rodar apenas à meia noite; que a correia dentada do motor havia arrebentado às 5 da tarde, que passara meia lua inteira tentando achar uma substituta, que tudo ficava fechado aos finais de semana e que, sobretudo, já era praticamente véspera de ano novo. Chegando ao destino, pagos os dinheiros do taxista, dá meio toque na campainha. Mal tem tempo de levantar a cabeça quando a sensação acontece. Ou um "déjà vu", no sentido clínico do termo, ou de fato vivenciou um diálogo similar vida passada:

— Onde você tava?
— Procurando cigarros; não achei
— Você tinha me dito que ia parar de fumar
— E ia mesmo
— Devia ter me avisado
— Avisado do quê?
— Que ia demorar, pra onde ia, porque ia
— Você tem razão, desculpa
— Desculpo-não
— Desculpa-sim
— Desculpo-não
— Então tá bom
— Que raio de poeira branca é essa na sua roupa? Caspa?
— Não, é neve
— Ah, claro. Bom saber que ainda tem senso de humor para essa hora da noite.

A porta bateu e ninguém lembrou das formas de gelo. Ele nem percebeu que mentiu a respeito dos cigarros. O taxista ainda viria repetir a mesma história e dia para outros 3 passageiros. O porteiro ainda viria a ignorar outros 4 desejos de boas festas. A visita corriqueira ao banheiro depois do Sexo o faria notar que a descarga dela também travava, como a sua travou há 910 palavras atrás. A neve que nunca caiu derretia e virava gotas d'água na beira da janela. Era 9:03 da noite quando terminou de escrever este conto. 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Duas Estações Depois de Barra Raza

"E descobri que não podíamos transar porque ele é meu primo! Este tal de amor me parece de uma violência impalpável." Ele disse esta fala pretensiosa numa madrugada de Sábado pra Domingo, cravando unhas nas costas de Deus, que então metia meio mal. "Deus" era o apelido do ex-namorado, que viria aparecer outras vezes nos dias dali em diante. O primo era outro, que na verdade sabia que era primo, sabiam ambos, mas sei lá, sentimento cristão que bateu na hora H, I, J. Kamila, com "K" mesmo, foi a primeira menina obesa com quem ficou, com quem quase engatou em namoro sério, aliás. De quando aprendeu que essa balela de menina magrinha acontece diferente na prática e a relevância na prática física do ato sexual da coisa variava. Apesar disso, Kamila fez dieta, emagreceu, se mudou pra outra cidade e começou a namorar outro carinha; três namorados depois casou, voltou a engordar, mudou de volta pra capital e Ele encontrou-a no Shopping Zazza na semana antes do Natal. Comprava um carrinho amarelo pra filha que havia insistido no presente, foi quando ele apresentou o namorado da época, espantando de leve a moça. Não era o primo, o primo se mudara pros Estados Unidos pra fazer Mestrado em Engenharia da Computação; lá uma semana depois conhecera uma garota, com quem viria a se casar, e foi quando Ele aprendeu a sentir Ciúme.

O Ciúme, segundo Caetano, é uma flecha negra que vigia. Ou um ponto negro, que aponta e fura. Por aí. Samanta foi sua primeira menina séria, de dormir e transar em casa, bonitinho. Samanta era hétero, mas sua mãe não. Moravam com elas a sua "amiga", que estava procurando emprego e a quem estavam ajudando a se restabelecer. Acontece que a amiga da mãe da Samanta, quando dizia que ia jogar currículos nas agências, saía era para trabalhar o seu bem remunerado emprego; moraria pelos próximos 10 anos. Samanta devia saber; se se importava, escondia. Sabia conversar muito bem, a pessoa com quem travou o maior e melhor número médio de conversas relevantes sobre a vida, arte, transa, moral, filosofia, política, culinária e antropofagia. Sonhava em comer um ser humano. Não para matar, se satisfaria com um dedo, uma mão, uma perna. Não era uma assassina. Samanta tinha um senso de humor idiossincrático. Foi com ela que aprendeu essa palavra, também. Com ela aprendeu a gostar de John Coltrane e (a fazer) sexo oral. Dizia que "A Love Supreme" arrepiava até pedra do alto do Baixo Lago. Samanta, num 16 de Dezembro, disse que aprendeu a gostar de outras pessoas ao mesmo tempo, e propôs uma forma diferente de relacionamento. Foi a segunda vez que sentiu Ciúme na vida. Embora tenha aprendido com ela também a gostar de várias pessoas simultaneamente. Essa palavra já sabia. A propósito, foi Deus que lhe ensinou a usá-la, quando o conheceu num boteco qualquer do Baixo Barra. Disputaram quem viraria mais canecas  de cerveja enquanto caminhando de costas. Acordou de ressaca na casa de Deus, ligou, pediu pra Samanta vir lhe buscar e está esperando o carro dela até hoje.

Queria experimentar outras coisas, outros Deuses, mas aí literalmente, conheceu o Budismo, percebeu que o desprendimento de qualquer sentimento e o grande nada era a única solução para a verdadeira Paz. Teve conflitos pois percebia que quando bebia cerveja a vontade de sair correndo explodindo carros e beijando idosos na boca era maior, e que tamanha intensidade não dava rima. Tentou o Espiritismo também, só que era culpa demais, era remorso demais, aprender lições de vidas que sequer lembrava. Sobretudo, eles também implicavam com álcool. Se aproximou da Umbanda, que era mais leve com as questões da carne, mas acabou se afastando por falta de tempo na faculdade. Fazia Direito e tinha pouquíssimos amigos lá. Após meio semestre de cursinho de Alemão, decidiu que escreveria dali em diante certas palavras com letra maiúscula. O "Deustch" dá letra maiúscula para todo substantivo, próprio ou não. Se formou, trabalhou por uns bons anos no Tribunal de Contas, e acabou casando. Acabou casando mesmo, Ele, com uma menina, depois de superar o amor platônico pelo primo, de superar Deus, de superar a grande depressão de 32. Tudo começou há um tempo atrás na Ilha da Lua, onde passou a frequentar uma igreja; uma igreja que na verdade aceitava modernidades de verdade. Ele mentia e não acreditava em nada daquilo tudo; frequentava mais porque a igreja ficava há duas quadras do trabalho e precisava enrolar uma hora ou duas para a faculdade quando não estava em época de provas.

Aliás, havia passado no Mestrado. Menos porque queria um salário melhor e mais porque qualquer coisa. À igreja; nas horas que passava nesta, a pastora, Mulher de 20 e uns, pregava as palavras de cristo hiperativamente com determinado tesão. Ou Ele pelo menos enxergava nela tal sensualidade. Samanta gostaria de tê-la conhecido. Principalmente porque sua abordagem do evangelho de cristo era vanguarda, interpretava o amor divino englobando gays, drogas, política, sem pejoração. A igreja teve um início problemático, outras igrejas apontavam-na como antro de perversão e satanismo. Inferno e diabo. Isso era interessante. Sua Fé mesmo vinha da cara da pastora, que se chamava Luiza, que subtraindo o "a" era quase Luz. Luz que vinha de seus olhos escuros e cabelos ainda mais escuros, como piche; pele por sua vez branca como Queijo Branco. Beijava bem. Ele ficou um dia depois do culto para semear assunto; dias depois nisso, bem sincero, disse que se importava praticamente zero com o lado religioso do evento,  e que admirava, contudo, a coragem da pastora a tomar posturas tão polêmicas. Luiza agradeceu a sinceridade e depois de uns cafés, drinks e cigarros, se apaixonaram, transaram, e foram morar juntos. Ela era definitivamente um ser iluminado por Deus; literalmente, o seu ex se convertera para igreja e trabalhava de contra-regra e chefe de iluminação no templo, localizado no bairro de Barra Raza.

Como percebemos, Ele aprendeu a fumar, com Luiza; só tinha a "bad" constante de morrer a qualquer momento. Do cigarro. Deus lhe dizia que ninguém pode morrer fumando tão pouco. Agradecia. Às vezes saiam os três a beber depois do culto; geralmente as quintas feiras um Pub ali perto tinha dose dupla de Chopp por 4 choradas. Na época as casas noturnas ainda se permitiam esse tipo de promoção, antes da grade crise de 32. Luiza dizia ao Barman, Deus lhe pague; aí literal, pois mantinha sua Fé na Bíblia. Falavam quase zero de religião, na prática; um belo dia Deus levou o novo namorado, que conhecera na igreja também, e ficavam discutindo cinema e música. Modernos. O governo recentemente, afim de diminuir a violência urbana homofóbica, proibiu qualquer pessoa de se beijar em público. A primeira proposta era apenas coibir os gays em si, mas após diversos protestos, aos quais Ele, Luíza, Deus e outros crentes da igreja compareceram em massa, foi se posto mais democrática uma proibição geral. A medida durou 1 ano, quando o governo seguinte do partido de oposição elegeu-se e a baniu, optando então a tornar mais duras medidas corretivas de violência urbana gratuita quando estimuladas por ódio racial, religioso ou oriundas de homofobia. Isso compensava em parte várias medidas econômicas taxativas e protecionistas, as quais o debate foge à relevância deste conto. Portanto, deixando de lado o cenário político, em mais um dia de pub qualquer, Luiza revelou que pensava em casar, um dia, porque sim. Foi a deixa pr'Ele pedi-la em noivado. Ela que recusou, pela razão de que saiam apenas há 16 meses, mas que podiam discutir o assunto novamente se continuassem juntos dali um ano. Acontecidos e completados 28 meses juntos, resolveram marcar o casamento no próprio templo, o primeiro celebrado. Neste período o número de fiéis quadruplicara, e tiveram que migrar pra um antigo armazém da região. Foram abertas outras duas filiais. 4 anos depois, Luiza sairia candidata a vereadora, mas já então Ele e Ela divorciariam no papel e no físico.

Conheceu Mica no Pub citado anteriormente; Mical, seu nome de batismo, puxou assunto numa quarta feira com Ele, aproveitando que Luiza havia ido ao Toalete. Se apresentou e disse que tinha visto o casamento deles, que fora aberto ao público; que costumava frequentar o templo mas que queria outras coisas da vida. Ele disse que também parara de frequentar o templo e também queria outras coisas da vida; assim perguntou quais seriam essas outras coisas que Mica queria. Trocaram emails, depois telefones e, quando o divórcio com Luiza viria a tona, passaram a trocar saliva também. Fidelidades fora, dali em diante manteria, na verdade, um relacionamento aberto com Luiza, que se achava muito nova para nunca mais voltar a transar com ninguém diferente. Ele concordara mais para poder penetrar Mica e Deus, com quem ainda tinha contato, do que realmente pensando no Ciúme que poderia vir depois. Este que veio e fora aquela a terceira vez que sentira a palavra agulhada na pele; talvez a mais dura e real das vezes. Luiza viria a morar com 3 rapazes, sendo ele o quarto amante, queriam manter o lado bom do relacionamento que cultivavam. Queria matá-los todos os outros rapazes que se deitavam com ela à serra elétrica; embora um deles, jeitoso e simpático, houvesse proposto um menáge entre Ele e Luiza. Impedido pela ideia de ter que dividi-la na cama com outro homem ao mesmo tempo que si, ficaria 6 meses sem dormir novamente com Luiza, período no qual aconteceu de aprofundar sua relação com Mimi, apelido original que Ele inventara para seu novo affair. "Mica" era mais pros outros amigos, como eu.

Ela, que é Ela, tinha uma beleza bíblica, fazendo juz ao nome. Ao contrário da esposa da Davi, podia criticar Ele a vontade sem tornar-se estéril. Os pais a batizaram com tal nome esperando não ter netos. O que aconteceu foi bem o contrário; idos 2 anos de relacionamento com Ele, engravidou. Mica já tinha uma filha, de 3 anos de idade. Chamava Virgínia, pela escritora. Brincava de video-game e bola com Ela quando dormia na casa de Mica. O pai e a mãe eram ausentes; mas do outro país que estavam mudados mandavam recursos financeiros via transferência bancária. Sendo assim e estável sua relação com Mica, dentro de meses Ele resolveu se mudar de vez para sua casa. Gravidez ocorrera mais ou menos planejadamente; um primo, de Mical, qualquer, foi padrinho do lado de mãe, e Luiza foi madrinha do lado d'Ele. Duas crianças em casa, ele me contava que os dois tinham um problema cada para lidar com determinadas datas, sobretudo, o Natal. Mica, de família de ex-judeus recém convertidos à outra religião qualquer, tornou-se ateia aos meros 7 anos de idade visto pouca influência moral em sentido contrário em sua formação, segundo Ele. Decidiram por fim aos finais de ano, em coerência aos interesses antropológicos d'Ele pela recém iniciada nova faculdade em Ciências Sociais, fazer em casa uma adaptação do feriado solsticial de diferentes culturas. Comemorariam a data sob "variadas influências estético-valorativas" a cada ano. Foi assim que após primeiramente o Hannukah, quase equivalente ao Natal no Judaísmo, numa tentativa de Mica em experienciar sua formação perdida, a família teve diversas diferentes cerimônias: xintoístas, hinduístas, taoístas, budistas.  Isto a partir da data que seu filho comemoraria seus 6 anos de idade e Virgínia os seus 11, tendo então ambos compreensão e lembrança dos acontecimentos; seu filho se chamava Otávio, sem referência literária específica, e nascera no dia 26 de dezembro, para alegria da família.

O tempo passa e um dia vem na porta um senhor perguntando sobre o que andava fazendo esta tal de Mical. Este senhor era seu pai e remetia muito aos traços de Mica fisicamente; veio dizer que sua mãe havia falecido. Sobre isso, ainda não entramos no mérito  da aparência da esposa d'Ele, Mical, mas é preciso saber que ela era azul como azul é de piscina, no sentido de infância e férias; e morena como morenas são as primeiras morenas por quem alguém se apaixona; e tinha manchas no braço, manchas avermelhadas, espalhadas aleatoriamente em ambos os, o que tornava ela mais bela pois realmente se importava nada com detalhe seu em sentido pejorativo; e era leve, não magra, mas leve, nem tão pequena, de forma que podia levantá-la nos braços pelas pernas na cozinha ou elevador e fazer amor; o cabelo era liso mas de um liso estranho que tinha dias que acordava cacheado; doce e atenciosa, mesmo ignorando mensagens, e não retornando ligações; alegre, mesmo fumando 2 maços de cigarro por dia; direta e prática, mesmo sendo seu mestrado especializado em filosofia hegeliana; culta, mesmo gostando de sorvete de passas ao rum; calma, mesmo brava, brava porque leu este parágrafo que escrevi sobre ela me mandou parar de descrevê-la no passado como se estivesse morta, pois não está.

Após a morte da mãe de Mica e respectivo enterro, a família viria a a renascer, não como nosso senhor, e sim metafísica. Gerará mais filhos e netos, com gente e amigos e inimigos vindo se abrigar na casa d'Eles por volta e meia, incluindo Deus em pessoa e Luíza. Moravam num largo belo e com poucos moradores de rua, bem no Alto Barra. Luíza cansou da igreja um belo dia, e repassou a administração e lucros para outra amiga pastora, com quem teve um romance temporário uns 17 meses quando se descobrira também bissexual. Mais ou menos quando saiu para Vereadora. Estará solteira agora. Ele, nosso protagonista, percebeu que, que pela condição financeira que tinha, Luíza ainda era boa pessoa. Luíza fez aplicações na bolsa com a renda acumulada então provavelmente terá poucos problemas financeiros restante de sua vida. Passava alguns finais de semana em sua casa, quando experimentavam sexo aberto, costume que durou apenas as primeiras visitas, visto as crianças na sala de estar. Mica lidava bem com a situação. Samanta e o primo não deram mais notícias. E Eu? Morava Eu há duas estações deles. Nos conhecemos numa fila de Cinema, quando puxaram assunto devido minha camisa do Miles Davis. Também sou desses, Pretensioso. Ele engatou uma carreira promissora só que me proibiu de falar exatamente o quê e entrar em detalhes aqui. Ele, aliás, se chama "Ele", mesmo. Só que com dois éles: "Elle Figueiredo Campos". Dia desses se reencontrou com Deus em um boteco sujo depois do trabalho e descobriu que ele abriu seu próprio Pub em Barra Raza. Parou na casa d'Eles após uma ressaca. Seu bar se chamava "Céu", e abria de Quarta à Sexta. Era Terça. Deus preferia ser chamado agora pelo seu nome de batismo, "Odin." Findando o conto, poderia esticar aqui suas vidas, mas é onde chegamos no presente e faria pouco sentido inventar coisas que ainda estão por acontecer. Lembrei de uma coisa que gostaria de dizer: apesar de haver pouca evidência disso, Elle me jura que nunca mais sentiu Ciúme.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Pois


Sim e não, me acabei em prosa.
Dodecassílabo versei e foda.
Apocalíptico.
Matei o cigarro.
Quebrei a garrafa de cerveja em pedaços e espalhei os cacos na varanda.
(só porque gosto da palavra "varanda")
Acabou a pólvora.
Acabou a coca.
Acabou o leite e o pó de café.
Feito o trompete beijei sustenido o que era pra ser só fá
Morri à flor da pele
Renasci fruto e flor nenhuma
Pontuado, exclamei ponto vírgula
Quatro vezes você
É dois mil trezentos e trinta
Abstrato, escrevi qualquer coisa pois qualquer coisa serve.


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Um Exercício:

e o Sol que não acaba
e o Verão que não se põe
e o Cigarro que não mata
e a Verdade que não científica
o Interesse que não condena
o Silêncio closed caption
a Gravidade que não física
e o Tumor que não vacina
e a Pochete que não fashion
e a Distância que não esquina
e o Teto que não queda
e a Caneca que não quebra
e o Bueiro que não da Light
e a Bossa que tão brega
e a Dança que não dança
e o Chá que não é mate
e a Cachaça que não fura
e a Trova que não rima
e a Cadeira que deitada
e o Teto que no céu
e a Metade que minguante
e a Cidade que não brilha
e o Cartão que só Sodexo
e a Risada que não cura
e a Letícia que não canta
e o Fernando que não masturba
e a Mães que são tão filhas
em discursos tão sem nexo
e a Mão que não asfixia
e o Não que não é não
Só quando afagia
a Poesia que não fode
o Sol que não se explode
a Reza que não credo
a Verdade que não mata
o Cigarro que não cala
o Verão que não veneno
a Dança que não samba
Métrica que não dodecassílaba
Academia que não gradua
Letícia não me cura
Paixão que não é cínica
Consignado que de Deus
gente Rica que não se Estrêla
Tumor que não punheta
Abraço e cheiro quase seus
Leite maltado, a Piraquê
Bueiro que não céu
Ti prego aspettami perché
seu Lar que não se põe que não se cala me canta rima enverga e queda;

Creio agora remota a imagem:
Creio em Alquimia e almas gêmeas
Creio me em Libras traduzido, fácil
Creio me óbvio como clara e gema.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

22:43

Querido Diário,
eu tento me esconder, eu forjo um mistério, e termino demais, vomitando a mim mesma, sobre meu dia, o que mergulhei na xícara de café, o arroz coalhado lembrando purê, me repito, me cito, me escarro, me tanto, paragrafeio;
tento ficar triste, fazer beiço, distante, não respondo mensagens, viro noite fumando plena crise de asma e bebendo Whisky em quarta feira, o gelo dura nem 3 minutos no copo, deixo tocar Pavana de Ravel, chego tarde no trabalho no dia seguinte, e fracassadamente me sinto alegre;
não sei se é o calor do Rio de Janeiro que sabota e cutuca a introspecção, que quando se tem vontade de chorar dá uma coceira estranha nas costas molhadas, se puxa o sutiã apertado deixando marca, solta o elástico que dá um estalo na pele e, se se começa a rir, não se para mais;
quando vejo, mesmo já atrasado, acordo tarde e nem troco a cueca, faço festa com Totó, beijo minha gata, me enfio no ônibus quente porque Metrô vai demorar, no trabalho me xingam, me cospem, e, ainda cansada, só consigo escapar um sorriso otimista pro almoço que preparei porque carne grelhada é minha especialidade;

queria nascer com vocação pra ser triste, Diário.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

23:45

- Papai, por que cê tá bebendo?
- Porque papai tá triste
- Por que tá triste, papai?
- Trabalho, só trabalho. E você? Tá bem? Aprontou hoje?
- Não..
- Aposto que não fez dever de casa
- Fiz sim, quer que eu mostre?
- Não precisa, eu acredito. Vai lá pro quarto dormir pro papai acender um cigarro
- Por que cê vai fumar? Você não falou que ia parar?
- Falei, mas nem tudo nessa vida que a gente diz parar de fazer a gente para mesmo. Esse "para" é sem acento, agora, viu?
- Tá bom. Que que cê tá ouvindo?
- Jazz, Chet Baker. Muito bonito, né?
 - É
- Depois te falo sobre ele
- Tá
- Amanhã vai dar tempo da gente sair logo cedo e a praia.
- Tá bom
- Vai lá deitar, tá tarde, as donas do "Nossa Senhora da Paz" vão brigar comigo se descobrirem que deixei o senhor dormir essa hora.
- Mas hoje é sábado
- Não importa. Não esquece de ligar pra sua mãe, que ela diz que fui eu que não deixei você ligar
- Tá
- Ela briga comigo também, mas eu me viro
- Vou ligar
- Fumar faz mal, viu? Papai faz só porque não tem mais o que fazer
- Tá
- Você desculpa o papai?
- Desculpar do quê?
- Porque seu pai não é melhor exemplo de quase nada
- Tá
- Desculpa?
- Desculpo
- Isso, vai lá, escova os dentes, liga pra sua mãe e deita. Já já eu vou lá te dar boa noite, também
- Posso usar a sua pasta?
- De dentes? A ardida? Ela arde, eim?
- Eu sei, mas eu gosto
- Sim, pode, mas põe pouco na escova
- Tá
- Beijo no pai
- Beijo
- Encosta a janela, se deixar aberta mosquito entra
- Eu gosto de mosquito
- Gosta nada, gosta é de mim
- Também

(O maço de cigarros estava vazio.)

17:45

Mordedor
Mordedeira
Mordedura
(Morder)
Quem veio ou virá abocanhar
Mama
Mamá
Mamadeira
Chupeta
Frauda
Dedão
Mindinho
Sabonete
Lençol
Toalha
Camisa
Giz
   de Cera, de Cal
Lápis
   de Cor e Grafite
Massinha
Paçoca
Cadarço
Canudo
Canetinha
Caneta
Caneta
Caneta
Bochecha
Braço
Boca
Pescoço
Nariz
Ombro
Orelha
Língua
Mão
(própria) Boca
Unha
Caneta
Amigos
Livros
Contrato
Emprego
Cachaça
Mordaça
Preservativo
Pênis
Vagina
Lençol
Barriga
Caneta
Caneta
Teta
Unha
Chupeta

Nariz
Dedão
Lençol
Escuro
Mamá
Mamadeira
Mordedor
Sorvete
Sucrilho

domingo, 9 de dezembro de 2012

00:09

Quando acabar de usar a Faca, lava e guarda. Dorme demais de tarde e vira noite acordada. Para de me pedir permissão pra tudo, pedir licença pra mim é como a distância geográfica entre tucano e pinguim. Eu sei que outros já te disseram isso. Escrevo o que eu quiser. Saber de determinado fato há muito tempo não é sinônimo de aceitá-lo. Deixa eu filosofar em paz.

20:55

Pari mim mesmo e a ti e viemos nós dois enrolados umbigo a umbigo e eu meio de fome vim mordendo sua orelha de leve e me nos pus diante lareira para aquecer e crescer forte então árvores laranjeiras e ninhos e pássaros e balanço e criança penduradas aos galhos. Da sua vez de parir tu e eu o cordão veio enrolado no pescoço meu e quase de susto morri quando era luz e nasci tão leve que me confundiram com nuvem e arremessaram pela janela e já quando quase tristeza caí ao chão e tão breve levantei ganhei peso e virei pedra mas pedra pouco fui pois logo grão e terra voei virei montanha arranhei céu e chega.

20:12

O café branco ficando cada mais preto a outro gole que você bebe. O amor incondicional por Conceição, por Iolanda, pela Nina, pelo Jorge, pela Iasmin em diferentes proporções e qualidades afetivas, porém todos quase na mesma intenção e intensidade sexual. A cara rechonchuda de um dos seus ex vindo a sua mente quando você compra um pão de queijo uma saudade meio culinária, meio afetiva no beijo da língua queimando na coalhada quente. "Mais café?" sim, mais café, dona. Lembra da vez que você trabalhou de assistente de Papai Noel no shopping Eldorado e se apaixonou por você um dos revendedores da varejista Arapuã? Que vinha 8 vezes por dia puxar assunto, mesmo estando a 3 andares distância. Que o que você queria era que a outra assistente queresse você. Lembra quando achávamos, eu e nós todos, que íamos morrer de câncer por termos visitado a usina de Angra dos Reis porque fomos lá muito antes de saber toda problemática política em torno do local. Lembra quando Kinder Ovo era um real? claro, todo mundo lembra quando Kinder Ovo custou um real. Nem todos lembram do plano real, hoje fomos invadidos e finalmente colonizados pelo dólar. Parece surdo. Quem é você pra lembrar, você com o fetichismo do capital e só passa cartão de crédito e nunca mais viu e nem quer ver dinheiro vivo, com raíz, caule, galhos e respiração fotossintética. O café branco ficando cada mais preto a outro gole que você bebe porque você nunca mistura direito o leite, com açúcar e o grão. Falando em grão, vem amanhã mais cedo pra gente torrar o VR em cachaça, o bar daqui de esquina agora aceita. Aproveita que tá chovendo e abre a janela. Você chegando cedo amanhã em casa e tirando os chinelos na minha cabeça cheia de caspa logo e eu pensando uma penca de coisa que eu não sou. Vejo a hora de podermos desligar o ventilador. Tá sonolento? É engraçado como a beleza da vida às vezes é uma mera questão de como você organiza a ordem das coisas ou como elas acontecem. Se eu disser "amor arde que fogo sem é doer", vai achar que eu tive um derrame, só que, do jeito certo, dá Camões. É como dizer que a humanidade vai acabar no exato momento que você beber a última gota do copo que está bebendo. Essencialmente nada significa, exceto a forma e a ordem em que se coloca a vida. Cafona. Alguém entre nós dois está começando a ficar chapada. Esses dias li na internet sobre um jovem radical extremo de algum partido que eu nem lembro se de direita ou esquerda, invadiu o campus de Direito de uma das maiores universidades do Arizona e matou 115 inocentes. Penso que isso poderia virar moda, mas também que eu deveria ser presa por achar isso. Concorda, moço? Acontecimentos assim viram matérias nos jornais, documentários, até estudos acadêmicos. Seu relacionamento com os seus 17 gatos renderia uma dissertação também. Sei por experiência curricular que você devia evitar gente de Capricórnio no trabalho. No mais, só caso contigo se fizer bolo de fubá pra mim. Ou de chocolate com cenoura. Fica calma que a sua vontade de dormir o dia inteiro é só anemia. Prefixo de Verão. É legal que às vezes se tira a blusa por causa do calor e acham que a gente tá dando mole. Eu juro que já-já eu paro, mas estou há 50 minutos trocando música em música sem parar nem 30 segundos em uma. Odeio quando você fica quieto horas enquanto eu converso contigo. Parece surda. E eu o louco. Vou tentar voltar a escrever. Isso ai que tá tocando agora. Conheço essa música de algum lugar.
Da vida.
Isso dá uma saída bem dramática pra um texto qualquer. Vou anotar.
Anota.
Que que houve?
Nada.
Nada mesmo?
Nada mesmo, só com sono.
Cedo assim?
Cedo assim.
Bebe café, ainda tem.
Deixa, deito cedo.
Então deita.
Logo-logo. Morrendo de sono.
Morrendo de sonho. Morrendo de pressa. Morrendo daquilo. Morrendo de tarde. Morrendo de tédio. Morrendo de sódio. Morrendo de gripe. Morrendo de trabalhar. Morrendo de coceira. Morrendo de escrever. Morrendo de quererer. Morrendo de vaidade. Morrendo de fedor. Morrendo de pai. Morrendo de mãe. Morrendo de filho e de janela quebrada por bola. Morrendo de joelho ralado porque caiu. Morrendo de teto. Morrendo de quintal, de nuvem, de pedra pra machucar a palma do pé. Morrendo de sola, morrendo de solo. Morrendo de estrela e só disso. Morrendo de morrer de amor e acordar inferno. Morrendo de reencarnar inseto. Morrendo de suíngue e da ginga suada numa pista, balada. Morrendo de álcool de cozinha porque deixou cair no corpo e acendeu um fósforo. Morrendo de batucar em cadeira da Escola. Morrendo de dente. Morrendo de sangue. Morrendo de arroz queimado. Morrendo de obrigado. Morrendo de nada. Morrendo de deitar e dormir debaixo da ponte embora não haja mais pontes. Morrendo de língua dos outros. Morrendo de quem já morreu e já enterrou. Morrendo de engasgo com guimba de cigarro. Morrendo de ciúme, mas quem ainda morre de ciúme? Morrendo de infecção nuclear. Morrendo de sal. Morrendo de idade. Morrendo de escuro. Morrendo de escuro, de novo. Morrendo de escuro três vezes, pra enfatizar.
Não ouvi direito, que que você disse?

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Haikai de Exílio

'Cha a janela, sorte
Que a liberdade vem logo e
Dentro dela, a porta.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Afasia

Luar que é bom, dia
Da próxima vez que você talvez, sim
Gravidade é coisa que dá e passa
Gravidez se desse em homem, não dava
Alto que se diz anão, arranha céu
Por foco coragem chegou o refrão
Boca escancarada solfejando,
Cilada
Os dedos buscando sílabas tônicas
Estética do quase Sol, da próxima vez
Que talvez, você, agoura
Beijar que é dom, afasia
Coragem arranha o sim
O céu sem gravidade
Das nuvens se formando no quintal
Grávido da Lua já movo as marés
Que bom que é dia
Abstrata é a mãe.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Meio Romântico

Por você
Aprenderia a gostar de Frejat
Por você
Coaria com minhas meias seu chá
Por você
Trabalharia com de cartão de crédito
Por você
Fazia até passar um filme inédito
Na Sessão da Tarde
Por você
Rimaria frade com mate
Lavaria o banheiro
Três vezes ao mês
Distribuiria dinheiro
Pra desvirar burguês.

Por você
Religaria filamento de lâmpada
Por você
Só tiraria o pé de casa no sábado
Pra passar cada buteco em buteco
Até encontrar o seu tabaco
Compraria seu absorvente
Apoiaria seu presidente
Faria pudim e poesia
Pra mesma mulher.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Recital ou Rap de Asfalto Verão Nublado

Quando chega o verão
O dia extende no quintal
Afim de piquenique, afim de Marijuana
De marquise, genital
De pedra quente logo cedo
E das cutias no campo de Santana

Quando chega o verão
Quase tal como a Primavera
O verso se inspira de azul e pede esmola
Em Jacaré ou Madureira
Ipanema ou Laranjeiras
E até parece que saudade traduzida tem cheiro de cola

Já Dezembro e Janeiro
Por culpa de Deus
Parece três da tarde em plenas quatro
O samba nos dedos do pé
Cheio de cachaça com café
Quente; quase no anonimato
A prefeitura deixa o suco de côco mais caro
Porque o Verão chegou
E a cidade está aberta pra turismo

Quando os gringo chega
Chega junto o eufemismo
A paz joga bolinha no sinal
Suínga e pega esmola
Aceita até cartão de débito agora
Sobe a favela e pede voto
E se os gringo rala peito
40 graus do Inferno esse calor
Governador
Rala nada
Rala a gente
Fode, mente
Haja ventilador.