- Papai, por que cê tá bebendo?
- Porque papai tá triste
- Por que tá triste, papai?
- Trabalho, só trabalho. E você? Tá bem? Aprontou hoje?
- Não..
- Aposto que não fez dever de casa
- Fiz sim, quer que eu mostre?
- Não precisa, eu acredito. Vai lá pro quarto dormir pro papai acender um cigarro
- Por que cê vai fumar? Você não falou que ia parar?
- Falei, mas nem tudo nessa vida que a gente diz parar de fazer a gente para mesmo. Esse "para" é sem acento, agora, viu?
- Tá bom. Que que cê tá ouvindo?
- Jazz, Chet Baker. Muito bonito, né?
- É
- Depois te falo sobre ele
- Tá
- Amanhã vai dar tempo da gente sair logo cedo e a praia.
- Tá bom
- Vai lá deitar, tá tarde, as donas do "Nossa Senhora da Paz" vão brigar comigo se descobrirem que deixei o senhor dormir essa hora.
- Mas hoje é sábado
- Não importa. Não esquece de ligar pra sua mãe, que ela diz que fui eu que não deixei você ligar
- Tá
- Ela briga comigo também, mas eu me viro
- Vou ligar
- Fumar faz mal, viu? Papai faz só porque não tem mais o que fazer
- Tá
- Você desculpa o papai?
- Desculpar do quê?
- Porque seu pai não é melhor exemplo de quase nada
- Tá
- Desculpa?
- Desculpo
- Isso, vai lá, escova os dentes, liga pra sua mãe e deita. Já já eu vou lá te dar boa noite, também
- Posso usar a sua pasta?
- De dentes? A ardida? Ela arde, eim?
- Eu sei, mas eu gosto
- Sim, pode, mas põe pouco na escova
- Tá
- Beijo no pai
- Beijo
- Encosta a janela, se deixar aberta mosquito entra
- Eu gosto de mosquito
- Gosta nada, gosta é de mim
- Também
(O maço de cigarros estava vazio.)
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
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