— O café branco ficando cada mais preto a outro gole que você bebe. O amor incondicional por Conceição, por Iolanda, pela Nina, pelo Jorge, pela Iasmin — em diferentes proporções e qualidades afetivas, porém todos quase na mesma intenção e intensidade sexual. A cara rechonchuda de um dos seus ex vindo a sua mente quando você compra um pão de queijo — uma saudade meio culinária, meio afetiva no beijo da língua queimando na coalhada quente. "Mais café?" sim, mais café, dona. Lembra da vez que você trabalhou de assistente de Papai Noel no shopping Eldorado e se apaixonou por você um dos revendedores da varejista Arapuã? Que vinha 8 vezes por dia puxar assunto, mesmo estando a 3 andares distância. Que o que você queria era que a outra assistente queresse você. Lembra quando achávamos, eu e nós todos, que íamos morrer de câncer por termos visitado a usina de Angra dos Reis porque fomos lá muito antes de saber toda problemática política em torno do local. Lembra quando Kinder Ovo era um real? claro, todo mundo lembra quando Kinder Ovo custou um real. Nem todos lembram do plano real, hoje fomos invadidos e finalmente colonizados pelo dólar. Parece surdo. Quem é você pra lembrar, você com o fetichismo do capital e só passa cartão de crédito e nunca mais viu e nem quer ver dinheiro vivo, com raíz, caule, galhos e respiração fotossintética. O café branco ficando cada mais preto a outro gole que você bebe porque você nunca mistura direito o leite, com açúcar e o grão. Falando em grão, vem amanhã mais cedo pra gente torrar o VR em cachaça, o bar daqui de esquina agora aceita. Aproveita que tá chovendo e abre a janela. Você chegando cedo amanhã em casa e tirando os chinelos na minha cabeça cheia de caspa logo e eu pensando uma penca de coisa que eu não sou. Vejo a hora de podermos desligar o ventilador. Tá sonolento? É engraçado como a beleza da vida às vezes é uma mera questão de como você organiza a ordem das coisas ou como elas acontecem. Se eu disser "amor arde que fogo sem é doer", vai achar que eu tive um derrame, só que, do jeito certo, dá Camões. É como dizer que a humanidade vai acabar no exato momento que você beber a última gota do copo que está bebendo. Essencialmente nada significa, exceto a forma e a ordem em que se coloca a vida. Cafona. Alguém entre nós dois está começando a ficar chapada. Esses dias li na internet sobre um jovem radical extremo de algum partido que eu nem lembro se de direita ou esquerda, invadiu o campus de Direito de uma das maiores universidades do Arizona e matou 115 inocentes. Penso que isso poderia virar moda, mas também que eu deveria ser presa por achar isso. Concorda, moço? Acontecimentos assim viram matérias nos jornais, documentários, até estudos acadêmicos. Seu relacionamento com os seus 17 gatos renderia uma dissertação também. Sei por experiência curricular que você devia evitar gente de Capricórnio no trabalho. No mais, só caso contigo se fizer bolo de fubá pra mim. Ou de chocolate com cenoura. Fica calma que a sua vontade de dormir o dia inteiro é só anemia. Prefixo de Verão. É legal que às vezes se tira a blusa por causa do calor e acham que a gente tá dando mole. Eu juro que já-já eu paro, mas estou há 50 minutos trocando música em música sem parar nem 30 segundos em uma. Odeio quando você fica quieto horas enquanto eu converso contigo. Parece surda. E eu o louco. Vou tentar voltar a escrever. Isso ai que tá tocando agora. Conheço essa música de algum lugar.
— Da vida.
— Isso dá uma saída bem dramática pra um texto qualquer. Vou anotar.— Anota.
— Que que houve?
— Nada.
— Nada mesmo?
— Nada mesmo, só com sono.
— Cedo assim?
— Cedo assim.
— Bebe café, ainda tem.
— Deixa, deito cedo.
— Então deita.
— Logo-logo. Morrendo de sono.
— Morrendo de sonho. Morrendo de pressa. Morrendo daquilo. Morrendo de tarde. Morrendo de tédio. Morrendo de sódio. Morrendo de gripe. Morrendo de trabalhar. Morrendo de coceira. Morrendo de escrever. Morrendo de quererer. Morrendo de vaidade. Morrendo de fedor. Morrendo de pai. Morrendo de mãe. Morrendo de filho e de janela quebrada por bola. Morrendo de joelho ralado porque caiu. Morrendo de teto. Morrendo de quintal, de nuvem, de pedra pra machucar a palma do pé. Morrendo de sola, morrendo de solo. Morrendo de estrela e só disso. Morrendo de morrer de amor e acordar inferno. Morrendo de reencarnar inseto. Morrendo de suíngue e da ginga suada numa pista, balada. Morrendo de álcool de cozinha porque deixou cair no corpo e acendeu um fósforo. Morrendo de batucar em cadeira da Escola. Morrendo de dente. Morrendo de sangue. Morrendo de arroz queimado. Morrendo de obrigado. Morrendo de nada. Morrendo de deitar e dormir debaixo da ponte embora não haja mais pontes. Morrendo de língua dos outros. Morrendo de quem já morreu e já enterrou. Morrendo de engasgo com guimba de cigarro. Morrendo de ciúme, mas quem ainda morre de ciúme? Morrendo de infecção nuclear. Morrendo de sal. Morrendo de idade. Morrendo de escuro. Morrendo de escuro, de novo. Morrendo de escuro três vezes, pra enfatizar.
— Não ouvi direito, que que você disse?

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