terça-feira, 28 de abril de 2015

Monólogo Entre Cinco Paredes: Dois (ou "Finado Papo")

Que doideira, a última coisa que lembro era atravessando a rua. Boa tarde pra você também. Desculpa, é que eu tô pensando alto, onde eu tô exatamente? "Onde" é meio relativo, é que você morreu, cara. Como assim? Morreu, a última coisa que você se lembra não era atravessando a rua? Era. Mais o quê você lembra? Lembro que... sei lá. Vai, se esforça, se tu lembra disso, tu lembra de mais coisas. Certo, eu lembro que eu esperava o sinal abrir, estava mandando mensagem pelo celular, daí eu vi de relance uma pessoa atravessar de volta e lembro de ter tido a sensação que o sinal estava aberto. Mas você nunca viu se o sinal tava aberto mesmo, certo? Sei lá, que diferença faz agora? Nenhuma. Pois é. Na verdade, mais ou menos. Por quê? Porque isso pode explicar algumas coisas sobre como você foi enterrado. Como assim? Já explico, senta. Certo... eu estava deitado numa cadeira? Então, você estava só com a sensação de estar deitado, assim como estar sentado também é só uma sensação agora, mas tenta não focar nisso. Certo, tem alguém ali? Ali onde? Ali atrás da porta. Tem. Quem é? Eu tô no céu? Bem... Puts, bem que eu devia não ter largado religião, caralho. Eu era espírita, né. Você é meu anjo da guarda? Não. Onde eu tô afinal? Cara, você tá dentro de você mesmo. Como assim? Você tá dentro de você mesmo, o "você" que você tá pensando agora é na verdade uma fração da sua consciência que está, neste exato momento que nos falamos, se desintegrando. Se eu tô dentro de mim mesmo, quem tá lá fora? É você também. Como assim? Ali é outra fração da sua consciência, com ele eu já conversei. Por sorte ele era um neurônio que estava mais ligado aos movimentos musculares, então fez menos perguntas, menos comentários... O que ele falou? Falou que a última coisa que lembra era que estava coçando seu nariz. Meu nariz? Você não sou eu também? Não. Preciso de um copo d'água. Olha, geralmente não temos essas regalias, mas por sorte choveu há poucas horas atrás e eu posso te conseguir uma molécula de água. Quê? Toma, bebe.

Tô confuso. Vai facilitar se de agora em diante diferenciarmos quem está falando por algum recurso. Apesar de não ser você eu estou dentro de você pra te auxiliar, e as coisas podem ficar meio emboladas. Emboladas como? Assim. Assim como? Assim, tá vendo? Tô vendo o quê? Sei lá. Quê? Batata. Porra, para, cara. Viu? Quem está falando agora? Não sei. Você já está com dificuldades pra saber quem sou eu e quem é você mas se outra parte da sua consciência entrar aqui as coisas vão piorar ainda mais. Tá, como faz? Você terá a letra E seguida de dois pontos no início de cada fala sua. E: Tá bom. E eu terei a letra D. E: Certo. D: Vamos dividir também em diálogos com espaços, pra facilitar a leitura. 

E: Leitura de quem? 
D: Evita perguntas metalinguísticas, cara. Temos relativamente pouco tempo.
E: Certo. Então, eu morri. Suponho que morri atropelado.
D: Isso. Tudo o que consegui até agora dos seus outros neurônios foi justamente isso. 
E: Bem, depois disso eu vi um borrão, acho. Um movimento rápido.
D: Sim, seguido de uma dor insuportável. Que durou pouco tempo, pelo menos
E: Por que eu morri logo em seguida? 
D: Sim.
E: Eu estou dentro do meu cérebro... certo. Se o cara que tá ali atrás da porta, que na verdade nem está fazendo mais barulho, é outra parte da minha consciência... Eu lembro das coisas que lembro por quê?
D: Porque você é um neurônio das células dos olhos, não sei se já falei. Seus neurônios tem uma certa ligação com o que era sua consciência no momento da morte, mas como, bem, a sua cabeça ficou meio despedaçada, vocês estão se comunicando dessa forma truncada. Eu tô aqui pra mediar essa comunicação. No momento eu quero saber apenas o que aconteceu com seu corpo.
E: Não sei, como poderia saber?
D: Você tava na visão, e pelo o que parece, você morreu de olho aberto, talvez tenha algo a mais para acrescentar ao que conseguimos achar até aqui.

E: Um campo de futebol.
D: Quê?
E: Me veio essa imagem, um campo de futebol. Nunca vi na vida, eu tenho, ou tinha, memória fotográfica. Acho que ia saber. Um campo. A trave tá sem rede. A gente passa por dentro dela. Tem uma árvore. Aparece um buraco no pé da árvore. Acho que não lembro de mais coisa porque obviamente não consigo me mexer e mudar o ângulo de visão. Mas isso.
D: Ah, menos mal então. Isso explica a disponibilidade de água.
E: Como assim?
D: Você foi enterrado num campo de futebol, ao leu. Deve ter chovido umas horas atrás e o que resta do seu corpo sugou um pouco de H2O. Bem, finalmente, fim de turno. Voltar pra casa. Seja lá quem atropelou você não queria que te encontrassem. 
E: Pera, como assim, e agora? Que que eu faço?
D: Você tem duas opções. Você pode voltar a deitar e dormir e assim sua consciência vai diluir de vez. A outra opção é nunca dormir e andar por aí, conversando com suas outras células, neurônios, partes. Ou pelo menos com quem ainda não resolveu dormir também.
E: Tem muita gente acordada?
D: Acho que tem uma galera fazendo carteado no final desse corredor. O pessoal com memória motora se juntou com outros da memória visual e estão jogando buraco. Escolha sugestiva.
E: E se eu dormir?
D: Se você dormir você vai se dissipar e se decompor de vez, vai se misturar com a terra, com a chuva, com as larvas, com a árvore. Você até que se deu bem, no final das contas. Tem gente que é enterrada em concreto de calçada, é um tédio. Mas a sua consciência, a atual, vai... cara, como posso te dizer isso? Você agora já tá fragmentado. Depois de dormir, vai ficar mais ainda. Vai se misturar com a zorra toda, sabe? Mas relaxa que isso acontece com todos. E de qualquer forma, se resolver ficar mais um pouco, ó, o tempo não vai ser infinito, mas pode ser também razoavelmente longo. É mais uma questão de quem aguenta o tédio mesmo. Tem gente que é interessante, viu uma renca de coisa na vida, viajou, leu pra caramba, daí é como se tivesse um universo interior bacana, sabe? Então essa gente consegue se distrair por um bom tempo dentro de si, mas claro que isso não dá pra medir em dia, anos. Você, pelo o que deu pra ver das conversas que tive anteriormente, teve uma vida bacana. Morreu cedo, pois é, mas teve uma vida interessante. Faz o seguinte, dá uma volta por aí, vai trocando uma ideia, vai relembrar bastante coisa. Existe muita interação possível. Está rolando um samba jazz joia no primeiro andar! Você tinha uma boa memória auditiva, pra tua sorte.

E: Vou fazer isso. Bem, de qualquer forma, obrigado. Curiosidade, com quantas pessoas você falou hoje?
D: Com quantos outros você, né? Deixa eu ver aqui na listagem... você foi o "eu" número 20 bilhões quatrocentos e sete mil e novecentos. 
E: Eita, que trabalho!
D: Que nada, o corpo humano tem mais de trilhões, cara. Apesar de que uma parte sua ficou lá no asfalto mesmo. Na real eu tô saindo antes do expediente hoje. Minha esposa vai até estranhar. Vou levar um vinhozinho pra tudo ficar suave.
E: Pode crer. Bem, obrigado de qualquer jeito. Você me lembra alguém. Não pelo rosto, mas o jeito...
D: Lembra nada, você era só o olho esquerdo e você nunca me viu. Bem, até mais.
E: Vamos nos ver de novo?
D: Não.
E: Ah, tudo bem então. Espera, se você não sou eu, quem é você?
D: É uma explicação longa, você vai realmente desperdiçar seu tempo com isso? Eu quero aproveitar o restante do dia pra pagar umas contas. E, pra ser sincero, cara, você não está integrado com sua memória auditiva, cognitiva... eu vou começar a explicar e você vai começar a se perder pelo caminho. Deixa isso quieto. 
E: Certo. Bem, mas valeu aí. Abraço.
D: De nada, abração.
E: Beleza.
D: Que Oxalá te abençoe, aliás.
E: Eita, não é que a galera do Candomblé que tava com a verdade?
D: Se eles são donos da verdade ou não, eu não sei, cara. Mas que eu sou filha de Iemanjá da cabeça aos pés, eu sou. 

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Malaxofobia

Ele me amava quando chovia
Água caía, a sede vinha
Nosso amor era em porão
Ratos se amando sob o chão

Sabia de cor cada pedaço meu
Se rasgado ou inteiro, se seu,
Se já registrado por terceiros:
Sabia de cor o meu passado

Um diabo cansado de outro diabo
Mastigava entediado
O prato repetido

Se via de lado uma assimetria
Repetia olhando uma fotografia.

Monólogos entre Cinco Paredes: Um (Afiada)

Acordei de susto com uma arma enfiada na minha boca. Que calibre era? Sei lá que calibre, manjo disso não. Mesmo se manjasse, a arma tava apontada pra dentro da minha goela. Um maluco encapuzado me falando pra ficar quieta, quietinha, que se fosse boazinha ele não explodia minha cabeça. Que se eu ficasse saidinha a parede ia ficar toda suja de cérebro, meu cérebro. Como assim se eu conhecia o marmanjo? Tava de capuz! Não, a voz não era familiar não. Falou pra ficar quieta que eles iam passar uma geral na casa e já me liberavam. E eu contando até vinte e sete pra não gritar, sei lá porque vinte e sete, inventei na hora esse número. Não sei quantos eram, o cara que tava com a arma na minha boca mandou eu fechar os olhos porque senão ele enfiava um travesseiro na minha cara e ia ser muito pior, porque ele teria que sentar em cima e ele era pesado. Mas tavam fazendo um barulho do caralho. Sei lá de onde eram, o sotaque parecia ser do Rio mesmo. Não, meu senhor, não pareciam ser "favelados" não. Tem bebedouro aqui? Alguém me arruma um copo d'água, por favor.

Levaram a porra toda, eram dois carros, levaram a TV digital, que ainda tava pagando, o computador de mesa, ainda deixaram uns cabos pra trás, idiotas, o roteador... tá anotando? As duas câmeras fotográficas, o contrabaixo, que nem era meu, estava servindo de garagem pruma amiga. Aí foi o primeiro o carro, eu ouvi lá do portão, iam empacotar o segundo. O cara que tava com a arma na boca falou pro outro que ainda tava lá que queria dar umazinha comigo, pra ele ajudar a me segurar. Que merda isso, comecei a gritar, ele enfiou a arma mais pra dentro da garganta pra eu calar. Eu quase vomitei essa hora. O outro disse que só ia ajudar se me comesse também. Nessa hora eu vi que só tinham os dois porque o resto da casa ficou muito quieto. Iam terminar comigo e depois levar o ar condicionado. Como eles iam tirar, roubar e vender um troço velho daquele não faço ideia, imagina o trabalho. O outro veio me segurar os braços e eu percebi que era mais esperta que eles porque eu resolvi ficar quieta e esse outro achou que eu tava calma e só apoiou os meus ombros. Daí eu vi que dava pra fazer alguma coisa. O cara da arma colocou o trabuco na beira da cama e foi arrancando minha calcinha e eu resisti só um pouco pra não deixar na cara o que eu tava pensando em fazer. Como assim qual o meu CEP? Tu tá prestando atenção? Tá de brincadeira que não é sua jurisdição? Na boa, apaga tudo. Esquece.

Menina, delegacia é foda, ninguém quer te ajudar, cada um te empurra prum lado, é uma bosta. Pela diferença de uma quadra me jogaram pra uma DP que fica 3 quilômetros daqui, acredita? Não vou voltar, não vou abrir inquérito nenhum, não. Sei lá o que vou fazer com os corpos! Sexta-feira vou dar minha festa de despedida daqui e vou ter que tirar esses merdas do freezer. Posso deixar o carro deles no seu prédio mais uns dias? Quero aproveitar pra levar, vender, sei lá. Como tá aquele terrenozinho que fica atrás aí do campo, tá bem baldio ainda? Já falei que não vou me livrar dessa peixeira, foi herança da minha madrinha! Foda-se que é evidência. 

Lições de Esgrima: Capítulo II

No instante seguinte estava no balanço, quase paralelo ao solo, o movimento do pêndulo no auge. O corpo retornava de costas e a sensação de bater a nuca em alguma coisa embora coisa nenhuma houvesse pra bater se repetia a cada ciclo. A volta, de frente, era onde a adrenalina pitava alto, a barriga borbulhava leve o leite de cedo, e o franja da testa bagunçava conforme o vento batia para atingir um novo auge, maior que o anterior. A hora de saltar nunca era exatamente óbvia, um misto de intuição e disposição. Quando as correntes que seguravam o assento balançavam, dificultando que o balanço se mantivesse reto, geralmente indicava que passara do ponto. Deviam estar completamente alinhadas as correntes, a coluna, para que o movimento fosse potencialmente valorizado. Isto era física vetorial feita por um menino de 9 anos de idade. Às vezes tinha que saltar porque a mãe gritava o almoço, daí era parar na marra, fincando os pés na areia ou saltar. Dependia do humor. Por ser um dos garotos gordos da turma, talvez por isso, conseguia saltar mais longe que os demais que tentavam. Exceto o Tiago, mas o Tiago era muito novo e menor, magro e leve, ele podia voar para fora do parque se tivesse coragem. Talvez fosse mesmo uma questão de coragem, mais que de análise vetorial, de ter disposição ou de faltar o senso do perigo mesmo. 

Quando o momento ideal chegava, o balanço estava alinhado, as pernas sincronizadas, pois o movimento era delas e da coluna, esticando para frente, encolhendo para trás, intercaladas contrariamente. No ponto perfeito, quando ele apitasse de dentro da cabeça, era soltar as mãos, encolher rapidamente os braços para não roçar nas correntes, embora sempre ralasse nelas um pouco, e manter aproximadamente a mesma posição que o corpo fazia, de pernas encolhidas, como se sentado, como se sentado no ar por uns instantes, para cair na areia. As pernas, se na posição correta, amorteceriam o impacto, o traseiro e os braços aparariam o restante e então medíamos quem havia ido mais longe. Se em uma tarde fresca, sem pressa, o apogeu do salto era adiado para aproveitarmos a liberdade do pêndulo. Na história das histórias, a única sensação de liberdade que um par de correntes já ajudou a causar. Nessas horas, se sozinho ou sozinha no parque, a prática havia mas era tímida, sem grandes ousadias. Não costumávamos nos atrever a saltar com afinco demais por medo de quebrarmos o nosso próprio recorde e não ter ninguém para testemunhar. O que acontecia às vezes, vinha alguém dizendo que quebraram a marca do condomínio, mas ao vivo nunca cumpriam à altura do prometido. Interessante o sucesso associado ao aplauso ter se tornar condição desde cedo. 

E, ciências e filosofias a parte, aquela tarde eu fui tão distante que atingi o muro da frente, que delimitava o parquinho do estacionamento. Tão longe que meus dedos dos pés ralaram e abriram com a pancada, no cimento chapiscado daquela parede com grades. Havia atingido o limite físico possível do salto. Lembro que, se não foi a primeira, foi uma das primeiras vezes que me machuquei com severidade sem derramar uma lágrima. Atingira o auge da minha carreira de saltador de balanços. Posteriormente descobri que o Tiago conseguira quebrar meu recorde pois mudaram o brinquedo de lugar no parque afim de evitar novo ou pior acidente do tipo. Mas me aposentei no auge e não devia nada a ninguém. Essa história e essa certeza ainda me pintam um sorriso estranho na boca. 

Lições de Esgrima: Capítulo I

Um gosto de poeira na boca, como se eu tivesse lambido o chão que há debaixo da cama e engolido inteiro, sem um gole d'água ajudar a ingestão. O primeiro pé naquele vagão de metrô foi esse. O segundo pé veio com um cheiro de cup-noodles, aquele macarrão supersaturado, industrializado, condensado, sei lá e a combinação desses elementos era inusitada demais praquela hora da tarde ou pra qualquer outra. Uma menina sentada no chão jantava ou almoçava o copo, nunca dá pra saber se é um ou outro quando você se alimenta desse tipo de comida às quatro e meia, pós meio dia. Provavelmente encarava uma transição entre trabalho e faculdade, supus. A estação de Botafogo não chegava nunca, menos pela minha pressa, mais pelos exatos 10 minutos que permanecemos parados entre o Largo do Machado e o Flamengo. Bastou ter pressa, dizia o ditado. Nem sei se isso é ditado mesmo. 

(Mas bastou ter pressa pra você se foder e atrasar dobrado, ao cubo, já dizia Murphy. Vim em um filme faz pouco tempo que o teórico é muito mal interpretado, na verdade. Sua teoria apenas diz que o que tiver que acontecer, acontecerá. Parece que é algo como: Se eu me pegar despedaçando biscoitos em cima do notebook, por mais que tenha cuidado e o faça com frequência, um farelo escapará em algum momento, o que fará, no longo prazo, do computador um nova colônia de formigas. Isso sim devia ser um ditado. Talvez seja.)

Assim que voltou a caminhar sob o trilho de metal quente o veículo estacionou, finalmente, na estação do Flamengo, devíamos estar há menos de 10 metros de lá. Dois acentos se fizeram livres. Estava de pé desde o início, vale dizer. Sentei, a menina do chão levantou e sentou também. O copo com macarrão processado ainda estava pela metade, e devia estar frio, mas ela não parecia com pressa, comia devagar, embora a cara fosse de fome, mas quem era eu pra julgar? Liguei a câmera do celular e usei como espelho e vi que a minha fuça estava muito pior e nem fome eu tinha. Meu papel de parede era uma referência um desenho animado já extinto, a menina apontou e comentou que adorava, que foi assim que começou a gostar de gatos. Concordei e inventei na hora que provavelmente por isso também me afeiçoei a felinos. Não sei se posso citar marcas registradas por aqui mas ambos falávamos do Gato Felix, aliás. 

Entre o Flamengo e Botafogo demoramos mais do que o costume devido a outra lentidão do trem. Minha estação já era a próxima e pensei em pedir o contato da garota, mas o assunto havia sido curto demais para que esta intervenção não soasse intrusiva.  Ela, na verdade, não parava de falar, e dentre seus comentários, se eu estivesse prestando atenção o bastante, teria notado que disse que ela e sua esposa tem um casal de gatos chamados Yin e Yang, pelos motivos óbvios que levariam alguém nomear um casal de gatos assim. Distraído levantei pra sair e me despedi e ela veio atrás também. Um moço tocava um sax na saída do metrô, tanto eu e ela paramos pois conhecíamos o figura de vista, de noites pela Lapa. Ultimamente, quando percebem que o seu público é basicamente feito de jovens cariocas que de turistas, esses artistas tem vindo para Laranjeiras e Botafogo, pois os altos preços do antigo bairro boêmio não têm estado convidativos para universitários e afins. 

Mesmo atrasado parei para observar que o rapaz cujo nome nunca soube e suas melodias populares intercaladas de escalas quase aleatórias. A menina dizia que começou aprender a tocar flauta transversa mas preferia mesmo cordas. Era uma boa hora para pegar seu contato e, se eu tivesse prestado atenção, como disse, ao que ela dizia no metrô, não teria me assustado quando outra garota a abraçou ela pelas costas, aparentemente amarrando um encontro marcado. O dia estava meio nublado e o aniversário para o qual eu me dirigia já havia começado há mais de uma hora, mas pensei, que seja! quem marca uma comemoração em dia útil pra começar às 3 da tarde? Acontece que a aniversariante era a garota com quem eu estava saindo. Já conformado caminhava para o boteco marcado e a menina do cup-noodle veio depois na minha direção e me passou o Facebook da banda dela, uma outra informação que provavelmente ela me disse no metrô mas que me passou despercebida. Agradeci e foi assim que conheci a Larissa, nome artístico Lara Lahm. Agora veja que bizarro, quantas histórias vocês conhecem de pessoas que se conheceram enquanto andavam de transporte público e mantiveram o contato por anos? Pois é, nem eu. Só conheço essa mesmo que inventei agora. 

Tradição no liquidificador da modernidade:

1- Querer adquirir um carrinho de feiras após se ver com 10 quilos de compras nos braços;
2- Pesquisar preços no Google e esperar encontrar versões do artefato popular com gadgets e wi-fi embutidos, cuja função é informar os melhores preços dos sacolões da região;
3- Encontrar no Mercado Livre um treco moderno desses e, ao ver as fotos ampliadas, não levar fé que uma palhaçada dessas aguentará as 20 unidades de melão que você provavelmente um dia vai comprar porque sim;
4- Suar litros na rua e finalmente entender porque sua mãe sempre levava uma pequena toalha nos ombros toda vez que ia ao sacolão;
5- Montar uma playlist no smartphone para próxima vez que for à feira (5.2! evitar a famigerada canção d'O Rappa);
6- Adquirir uma toalha para pôr nos ombros (reciclá-la de uma toalha de banho inutilizada se for necessário);
7- Reencontrar como herança nos fundos da casa o antigo carrinho de compras da família. Analógico mesmo.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Ode Valente Para Duas ou Mais Vozes

Respeito as distâncias
Como quem se benze ao sinal
De cemitérios
De Igreja

Não peço benção
Não sou a única voz do coral
Nem pretendo ser só um
Nem pretendo ser a sua
Veja

Calo-me às vezes
Menos porque tenho nada a dizer
Mais porque aprendi escutar
Quem devo escutar
E ouço.
Também me calo se quem fala é o mar
Devido a eloquência:

Aprendi
Que tanto o grito
Quanto o sussurro
Causam rouquidão
Que seja o primeiro
Paciência

"Saiba quem é nosso inimigo
Por vocação -
Ganhe tua vida
Abrindo janelas"

Caibo
Se não coubesse coragem
Que seria feito devera?
Quantos receios? Quantos aparos?
Eu caibo em mim
Que o resto se ajeite pro lado

Sorrio
Conforme o voo te avisto
Acenando verdade
Entre as nuvens no espaço
Adquirir um vício
Que nos liberta
Convém

Concluí
Que a gravidade
É só a Terra
Nos chamando pro abraço
Amém.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Micropoesia para Dispositivos Móveis: Catorze (ou "Amor em Público")

Um vulto!
Um beijo passou correndo no fundo
Escondido até dois segundos atrás
Lá vem mais, que susto!
Foi outro, olha isso... Outro!
Agora se deixou demorar, exibido
Em purpurina de ouro
Aproveitando o ensejo
Como se estivesse pedindo!
Pedindo o quê?
Pedindo outro beijo
O que mais devia ser?

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Está Pensando em Adquirir um Novo Imóvel? Mars Is The New Earth!

Em Marte não há mosquitos ou baratas
Nem passeatas, nem afetos modernos
Ou avenidas engarrafadas

Em Marte não há impostos nem governo
Alergia a ativistas?
Lá não há políticos ou advogados esquerdistas
Nem poetas vendendo em papel reciclado poesias

Eu sei, não é tentadora a profecia
Se Marte praticamente não tem oxigênio no ar
A verdade é dura
Não há cerveja, nem praia, nem mar
Seu ponto turístico para visitas
São vulcões de quilômetros de altura

Mas em Marte não há eu nem minhas companhias:
Feministas, maconheiros, cubanos, "ditaduras"
Não há sequer o seu vizinho, seus funcionários
Quem se mudar pra lá primeiro será, (alegria!)
Um privilegiado latifundiário

Lá tem terremotos, meteoros, fissuras?
Sim!
Mas por favor, tenha espírito empreendedor
Pelo bem da humanidade ou de sua conta no exterior
Faça suas malas, criatura
E se mude para Marte

Empacote o Merthiolate
Se passar pelos polos, leve um agasalho
Não esqueça o dicionário.

Micropoesia Para Dispositivos Móveis: Treze (ou "Cinco Cidadãos")

Um pensamento magro
Uma confissão pequena
Que caiba em bolso, em frasco
Ou atrás da orelha esquerda

Saindo do armário em um sorriso
O ódio irracional entre os dentes
Só um preconceito discreto
Pra levar no peito, casualmente

Uma alegria:
A vontade tacanha de matar agonia, a fome, o chefe
O rosto virado num blefe
Soco na parede que queria ser beijo
A pequena cicatriz que memoriza o pescoço
Do dia que o medo perdeu pro desejo

Numa esquina empoeirada, um pó de riso
Terra a vista ou parcelada
Inconfundivelmente brasileiro
O bar que aceita vale-refeição
Pede a saideira, abraça a sexta-feira
Cumprimenta o garçom

Espirro a qualquer hora, alergia
A modesta vontade de rebeldia
Domesticada no contracheque de mesma magnitude
Mas no meio do vão dos dedos das mãos, quem diria?
Uns grãos de pólvora encontram uma faísca
E tomam uma atitude.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Canto para Duas Cidades

uma ponte amanheceu nessa voz rouca
caiu me concreto nos ombros
terremotos no estômago
e açúcares pela minha nuca

acordei com um edifício nas costas
com uma marreta nos cotovelos
com uma rodovia nos calcanhares
com seus cabelos no pescoço

a tempestade decretou feriado
minhas vias públicas interditadas
o legítimo protesto por sua distância me saiu no grito
e amanheceu sorriso feito a alvorada