sexta-feira, 24 de abril de 2015

Lições de Esgrima: Capítulo II

No instante seguinte estava no balanço, quase paralelo ao solo, o movimento do pêndulo no auge. O corpo retornava de costas e a sensação de bater a nuca em alguma coisa embora coisa nenhuma houvesse pra bater se repetia a cada ciclo. A volta, de frente, era onde a adrenalina pitava alto, a barriga borbulhava leve o leite de cedo, e o franja da testa bagunçava conforme o vento batia para atingir um novo auge, maior que o anterior. A hora de saltar nunca era exatamente óbvia, um misto de intuição e disposição. Quando as correntes que seguravam o assento balançavam, dificultando que o balanço se mantivesse reto, geralmente indicava que passara do ponto. Deviam estar completamente alinhadas as correntes, a coluna, para que o movimento fosse potencialmente valorizado. Isto era física vetorial feita por um menino de 9 anos de idade. Às vezes tinha que saltar porque a mãe gritava o almoço, daí era parar na marra, fincando os pés na areia ou saltar. Dependia do humor. Por ser um dos garotos gordos da turma, talvez por isso, conseguia saltar mais longe que os demais que tentavam. Exceto o Tiago, mas o Tiago era muito novo e menor, magro e leve, ele podia voar para fora do parque se tivesse coragem. Talvez fosse mesmo uma questão de coragem, mais que de análise vetorial, de ter disposição ou de faltar o senso do perigo mesmo. 

Quando o momento ideal chegava, o balanço estava alinhado, as pernas sincronizadas, pois o movimento era delas e da coluna, esticando para frente, encolhendo para trás, intercaladas contrariamente. No ponto perfeito, quando ele apitasse de dentro da cabeça, era soltar as mãos, encolher rapidamente os braços para não roçar nas correntes, embora sempre ralasse nelas um pouco, e manter aproximadamente a mesma posição que o corpo fazia, de pernas encolhidas, como se sentado, como se sentado no ar por uns instantes, para cair na areia. As pernas, se na posição correta, amorteceriam o impacto, o traseiro e os braços aparariam o restante e então medíamos quem havia ido mais longe. Se em uma tarde fresca, sem pressa, o apogeu do salto era adiado para aproveitarmos a liberdade do pêndulo. Na história das histórias, a única sensação de liberdade que um par de correntes já ajudou a causar. Nessas horas, se sozinho ou sozinha no parque, a prática havia mas era tímida, sem grandes ousadias. Não costumávamos nos atrever a saltar com afinco demais por medo de quebrarmos o nosso próprio recorde e não ter ninguém para testemunhar. O que acontecia às vezes, vinha alguém dizendo que quebraram a marca do condomínio, mas ao vivo nunca cumpriam à altura do prometido. Interessante o sucesso associado ao aplauso ter se tornar condição desde cedo. 

E, ciências e filosofias a parte, aquela tarde eu fui tão distante que atingi o muro da frente, que delimitava o parquinho do estacionamento. Tão longe que meus dedos dos pés ralaram e abriram com a pancada, no cimento chapiscado daquela parede com grades. Havia atingido o limite físico possível do salto. Lembro que, se não foi a primeira, foi uma das primeiras vezes que me machuquei com severidade sem derramar uma lágrima. Atingira o auge da minha carreira de saltador de balanços. Posteriormente descobri que o Tiago conseguira quebrar meu recorde pois mudaram o brinquedo de lugar no parque afim de evitar novo ou pior acidente do tipo. Mas me aposentei no auge e não devia nada a ninguém. Essa história e essa certeza ainda me pintam um sorriso estranho na boca. 

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