sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Gimme Shelter

Fácil assim: você me inspirou uns versinhos que rabisquei aqui na parede! E eu nunca vou te mandar porque é óbvio que eu não vou arrancar um pedaço de concreto assim  com as unhas. Surpresa! Quanto tempo! Reconheceu a assinatura do remetente, o pseudônimo? Sim, sou eu. Sonhei contigo ontem a noite, tomei coragem e resolvi dar notícias. Engraçado que mesmo tanto tempo depois você ainda me inspira, dependendo do dia, do clima. Um guarda chuva mesmo meu quebrou ontem e eu lembrei de você também. Levei a garoa pra casa. Tenho morado na rua, sabia? Por isso sumi desse jeito. 

Essa Primavera com cara de Verão do Rio de Janeiro está me dando no saco. Morar na rua é o de menos, aguentar esse abafamento e chuva todo dia que é pouco prático. Haja papelão pra trocar. Fico mais ali naquela praça entre a Graça Aranha e a Cinelândia, que tem saída pro metrô. É bom, dá passagem mas não passa tanta gente.

A galera aqui é legal, fiz amizade, por isso posso ficar por essas bandas. Esses dias eu caminhando tentando achar outro lugar pra esticar e dormir depois do almoço e esbarro numa menina com camisa dos Smiths, até achei que ela nem sabia que que era Smiths, preconceito meu. Pois sabia e era fã, emendamos a falar de música e foi assim que fiz amizade. Falamos até de Stones, tem uma banca ali na Carioca que fica passando música boa naqueles Dvds, passou o show deles na Praia de Copacabana. Nunca tinha visto gravado e fiquei tentando identificar eu você na multidão de um milhão verde de pessoas. Sobre minha nova amiga ainda: ela falou que há anos não conversava sobre música com ninguém, e concordamos em conjunto que temos que nos atualizar. Tem alguma dica de banda pra indicar pra gente? No mais, como dizia, conheci o restante do pessoal e tem de tudo aqui, a gente se junta pra se proteger. Principalmente as moças, nascidas moças ou não. Perigoso ficar andando sozinha pelo Centro. Tem muito babaca nessa mundo. Começaremos a vender umas artes que ela faz com sabugos de milho verde. Quando que eu voltar a escrever com mais frequência vou tentar fazer uma dessas zines e me juntar com aqueles meninos que vendem poesia perto do CCBB. Mas acho que não é fácil assim chegar junto deles, tem mó cara de máfia aquilo... 

Tava com a garganta inflamada semana passada, morar na rua essas horas é foda por causa disso. De dia era tranquilo, doía só quando engolia a saliva. Quando não tava afim de engolir eu cuspia na cuspideira improvisava que fiz de um copo de Guaravita. De noite era pior, a porra do vento do mar vinha e fazia o raio do ouvido arder como se tivesse uma agulha fazedo acrobacia lá de dentro. Me derrubou um mês mas já passou. Mas tô evitando falar em voz alta, cada conversa que eu começo parece uma maratona que eu não vou aguentar terminar. Acho que por isso também desatei a te escrever essa carta. Tenho muitas curiosidades. Como está o seu cabelo? Amarelo ainda? Sempre preferi essa cor. Mais que o vermelho, e aquele azul que você cismou outra época. E essa boca? Beijando muito? Tá namorando? E esse corpo? Ainda tem espinhas pelas costas toda? Bateu uma vontade de espremer espinha sua agora. 

Caralho, você viu que o Chaves morreu semana passada? Lembrei de você na hora que vi na capa do Meia Hora, nem acreditei! Parecia outra piada. Lembrei de você imitando o "piripaque", e eu te jogando água gelada. Deu até sede lembrar. Falando em lembranças, superei minha fobia de insetos! O calor atrai todo tipo de bicho e a gente tem que se acostumar. Matei uma barata com a mão outro dia. Sentei pra usar um banheiro em um desses botecos quase na Lapa, um dos poucos cujo dono ainda não trata a gente com nojo ou tesão. A dita-cuja veio vindo pela porta e parou quando me viu. A minha perna não ia se esticar e agir na velocidade necessária para matar a bicha, então tinha que ser com  a mão. Coisas que a gente aprende quando tem que se virar só. Fechei o punho e bati que nem marreta em cima dela no chão de azulejo. Doeu mas foi mais nojento que doído. O pior foi que 2 minutos depois ela voltou a se mexer, parecia até aquilo que eu sinto por você porque toda vez que eu esmagava voltava depois a se contorcer, três patas, duas patas, uma antena... estribuchando minha decisão. 

Bem, é isso, se não quiser me ver ou entregar carta resposta pessoalmente, eu entendo. Fiz amizade com um porteiro ali na Treze de Maio, o endereço do envelope é de onde ele trabalha. Combinei de passar toda terça e quinta pra ver se tem alguma resposta sua, tá bom? Mas sem pressão, responde e dá notícias quando puder. Sei que hoje em dia ninguém mais escreve carta, tudo tanto virtual que até foi difícil achar o envelope e a vendedora fez graça da minha cara quando pedi. Enfim, essas são as novidades. Ninguém morreu. Pode te parecer estranho, mas estou bem. Todo dia eu sinto que alguma coisa nova pode acontecer. Perdoa qualquer embananamento nas ideias, faz tempo que eu não escrevia tanto duma vez só. E perdoa também qualquer erro de gramática, não estou por dentro do último acordo ortográfico e sabe como é: o mundo analógico não tem corretor automático! Risos. Beijos. Dê notícias. Não pense mal de mim. Por favor.  

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Declaração de Doador de Órgãos

Aproveito o ensejo e me declaro doador de órgãos, embora, por motivos óbvios, o pulmão e o fígado, e sobretudo este último, não sejam lá muito aproveitáveis. O coração, apesar de umas ranhuras e marcas de calos características de uso, trabalha muito bem. Digo, de vez em quando dá umas travadas, mas é só tirar pra soprar a poeira ali da junção que funciona em seguida.

Sustenido/Bemol

O meu ato é de amor cuja natureza liquefeita
Toma variada forma se em métrica ou na prosa o expresso
Do amor característico do ato meu o amplifico para fins de urgência
Ou o aquieto, silencioso, estagnando-o na dimensão espacial que se circunscreve dentro do perímetro dado por você durante nosso último encontro
Contudo, hoje, neste dado momento, violo o acordado anteriormente. Portanto,

Aqui, e me permita a insistência descritiva: Do que derrama, vide a amplitude da palavra escrita ser insuficiente, este sentimento meu que eu tento e falho em descrever, embora crível, transborda e toma sua forma imprevisível:

(A ordem das coisas importa menos, pois todos os eventos a seguir ocorrem concomitantemente:)

Temos, Esta consciência íntima:
Se adapta à erosão dos solos, azulejos, paralelepípedos,
À depressão dos vales, repletos de vida vegetal, animal, mineral.
Minerais não tão vivos, mas que por esta faculdade de compreender se tornam repletos de significantes;
Se acomoda às curvas do corpo,
preferencialmente deitado,
Se adapta exato à cada uma cicatriz nossa,
À cada memória de dente cravado,
Às sombras dos pelos,
Às marcas de vacina;

E se a gravidade dos fatos
da Terra, minto,
for suficientemente leve,
O meu amor transbordado se espalha em gotas de variados volumes e formas pelo ar
Formando soluções químicas ainda desconhecidas com os demais amores transbordados em menores e maiores graus de quantidade e subjetividade; todos pois pairando nesta mesma atmosfera e arrastados para outras partes.

Meu ato é um ato de coragem por ser explícito em sua limitação original.
Expresso ato, de fato, nesta superfície material ou digital.
Valente e estrebuchado porque consciente!
Da curta imensidão que se propõe, única e simplesmente.
Por fim, eu, o eu lírico prolixo cujas escolhas resultam em rotas engarrafadas,
Advirto: Qualquer atrito me é intencional.
Recomendo: Quase qualquer vontade acidental.