O grito ecoado era um só, que era pra pisar fundo até ouvir um estalo. E eu nunca conseguia, pisava o pé como se fosse um caco de vidro e eu estivesse descalço. Ou pisava como se acreditasse que o peso do corpo não ia inteiro se concentrar naquele ponto mas se espaçar, flutuar e, por algum motivo que a física ainda estava por explicar, poupar a vida do indivíduo esperneante. A casa onde morávamos era repleta de pestilências, uma contrapartida de morarmos no Centro da cidade. Era menos questão de higiene que de localização geográfica e arquitetura pois eram velhas as tubulações, o piso de madeira posto há décadas atrás, quando uma engenharia ultrapassada os projetou, criava diversos porões embaixo de nossa residência, fazendo morada de ratos e baratas. Sobretudo baratas. O medo delas acabei por perder muito cedo em consequência disso. Eram várias, e eu pouco espaço tinha para temer, afinal, era eu ou elas. E veio esta lição sobre morte quão cedo quanto possível: se for pra matar, se mate bem feito. Uma certa noite, voltando da escola, acesas as luzes do banheiro me deparei com não 1, ou 2, nem 5, mas 8 destas ditas-cujas. Provavelmente foi ali que perdi de vez a aflição. Matei as 5 primeiras e as outras 3 surgiram em seguida, secas por vingança.
Mas a lição do estalo veio anos antes. Meu padrasto sempre reclamava que eu não as matava mesmo, só quebrava o casco por cima. E, ainda vivas, elas se arrastavam para as frestas escuras onde as baratas se escondem e conseguiam dar luz aos ovos por nascer. E ele fazia questão de frisar que eram centenas. No caso aqui eu gritei porque a criatura havia desaparecido, ou ressuscitado, segundo eu. Aí veio a pergunta do estalo. Porque o estalo era o indício de que a caixa torácica da criatura havia quebrado e ela não poderia ir mais a lugar nenhum. E não, o meu pisão deve ter no máximo feito ela desconjuntar uma pata ou três ou ter lhe dado um mal jeito na coluna. E ninguém morre de torcicolo, acredito. Então cada vez que aparecia uma, ele fazia questão de me chamar para matá-la, como se eu fosse um gato em fase de aprendizado. Ele vinha e virava o bicho com um empurro de pé e dizia. "Pisa até o fundo". Meu chinelo, que já era uma borracha velha e molenga, me permitia controlar o peso da pegada e eu acabava nunca pisando até o fim. E ele repetia, gritando no meu ouvido, que queria ouvir estalar. E eu tentava pisar aos poucos, arrepiado de nojo ou pena, nunca entendi, aliás, até ouvir o primeiro "crack". Olhava para ele pra saber se era o bastante e ele gritava "mais fundo!", e eu tinha continuar o movimento para que o número de "cracks" fosse de se perder a conta e não estalasse mais nada.
Posteriormente a gentrificação da região nos obrigou a mudar de residência e nos afastamos da região Central. Por mais que a nova casa tivesse muito menos insetos e ratos, nunca superei a aflição de assimilar esse som com esta angustia. Mesmo agora pouco, quando abracei meu filho de 5 anos com força nos braços e estalei sua coluna de leve, um impulso cerebral horroroso, que durou nem um quarto de segundo trouxe, de volta a memória da sensação de estar matando novamente.
