domingo, 24 de maio de 2015

Estalar

O grito ecoado era um só, que era pra pisar fundo até ouvir um estalo. E eu nunca conseguia, pisava o pé como se fosse um caco de vidro e eu estivesse descalço. Ou pisava como se acreditasse que o peso do corpo não ia inteiro se concentrar naquele ponto mas se espaçar, flutuar e, por algum motivo que a física ainda estava por explicar, poupar a vida do indivíduo esperneante. A casa onde morávamos era repleta de pestilências, uma contrapartida de morarmos no Centro da cidade. Era menos questão de higiene que de localização geográfica e arquitetura pois eram velhas as tubulações, o piso de madeira posto há décadas atrás, quando uma engenharia ultrapassada os projetou, criava diversos porões embaixo de nossa residência, fazendo morada de ratos e baratas. Sobretudo baratas. O medo delas acabei por perder muito cedo em consequência disso. Eram várias, e eu pouco espaço tinha para temer, afinal, era eu ou elas. E veio esta lição sobre morte quão cedo quanto possível: se for pra matar, se mate bem feito. Uma certa noite, voltando da escola, acesas as luzes do banheiro me deparei com não 1, ou 2, nem 5, mas 8 destas ditas-cujas. Provavelmente foi ali que perdi de vez a aflição. Matei as 5 primeiras e as outras 3 surgiram em seguida, secas por vingança. 

Mas a lição do estalo veio anos antes. Meu padrasto sempre reclamava que eu não as matava mesmo, só quebrava o casco por cima. E, ainda vivas, elas se arrastavam para as frestas escuras onde as baratas se escondem e conseguiam dar luz aos ovos por nascer. E ele fazia questão de frisar que eram centenas. No caso aqui eu gritei porque a criatura havia desaparecido, ou ressuscitado, segundo eu. Aí veio a pergunta do estalo. Porque o estalo era o indício de que a caixa torácica da criatura havia quebrado e ela não poderia ir mais a lugar nenhum. E não, o meu pisão deve ter no máximo feito ela desconjuntar uma pata ou três ou ter lhe dado um mal jeito na coluna. E ninguém morre de torcicolo, acredito. Então cada vez que aparecia uma, ele fazia questão de me chamar para matá-la, como se eu fosse um gato em fase de aprendizado. Ele vinha e virava o bicho com um empurro de pé e dizia. "Pisa até o fundo". Meu chinelo, que já era uma borracha velha e molenga, me permitia controlar o peso da pegada e eu acabava nunca pisando até o fim. E ele repetia, gritando no meu ouvido, que queria ouvir estalar. E eu tentava pisar aos poucos, arrepiado de nojo ou pena, nunca entendi, aliás, até ouvir o primeiro "crack". Olhava para ele pra saber se era o bastante e ele gritava "mais fundo!", e eu tinha continuar o movimento para que o número de "cracks" fosse de se perder a conta e não estalasse mais nada. 

Posteriormente a gentrificação da região nos obrigou a mudar de residência e nos afastamos da região Central. Por mais que a nova casa tivesse muito menos insetos e ratos, nunca superei a aflição de assimilar esse som com esta angustia. Mesmo agora pouco, quando abracei meu filho de 5 anos com força nos braços e estalei sua coluna de leve, um impulso cerebral horroroso, que durou nem um quarto de segundo trouxe, de volta a memória da sensação de estar matando novamente. 

domingo, 17 de maio de 2015

"Uma gota de sangue no chão do banheiro..."

Uma gota de sangue apareceu no chão do banheiro este final de semana. Lógico que fiquei intrigado. Procurei algum bicho pela parede que, por uma mutação genética, tivesse sangue vermelho como aquele e que eu pudesse ter ferido e pisado enquanto me banhava. Sou de gestos expansivos e podia muito bem tê-lo feito. Encontrei apenas os costumeiros, aranhas-de-poeira, gongolos, moscas-dos-filtros, apenas artrópodes cujos fluidos, mesmo após teste prático, não resultavam nesta coloração. Nem mosquitos aquela tarde moravam em meu lavabo e portanto tive que eliminar a mais plausível possibilidade de ter assassinado um destes insetos logo após o seu almoço. Cogitei os demais moradores da casa. Só havia um, que não estava ali desde a sexta feira anterior e eu me encontrava em pleno domingo. Seu sangramento haveria de ter manchado o chão? Talvez, mas eu teria de ter aberto a porta do banheiro, retirado minhas roupas, cortado as unhas, usado o vaso sanitário, tomado banho, e ter repetido este ritual completo três vezes e só agora ter notado esta gota de sangue vermelho no azulejo bege. (A barba eu farei novamente apenas na próxima semana.) Pouco provável. Além, tanto eu quanto o morador ausente somos do sexo masculino, o que diminuiria as chances de um sangramento desta magnitude ter ocorrido casualmente sem causar alarde. Pouco antes de tossir novamente já havia usado minha própria toalha úmida para limpar a poça de sangue. A segunda feira estava perto e haviam problemas maiores com que me preocupar. Por último verifiquei, sem sucesso, o teto. Porque vai que o sangue havia brotado de lá? Desde que vi um imã descer em câmera lenta um tubo de cobre venho concluindo que a gravidade pode ser traiçoeira.

domingo, 10 de maio de 2015

(Mas O Gesto Não Cabe Aqui.)

Já me antevejo e te disparo meu amor: 
mais que por tentar 
(em vão)
seguir a contramão do tempo que segue sentido único 
– se falarmos em termos da matéria – 
porém a memória cumpre esta função metafísica
de apontar para dentro e pro passado. 

Esta revivência me revisa tuas lições de carinho, 
epistemológicas ou tácteis, 
posturas, afagos,
que repito agora ainda com imperfeição.
(Embora calejado.)

Disparo pela saudade, 
materna, por definição,
que aprendeu contigo a gritar só quando necessário seja 
– isto é – 
se desmedidamente resignada
se demasiadamente calada.
Já me antevejo, portanto, e grito:

(Mas o gesto não cabe aqui.)

sábado, 9 de maio de 2015

Monólogo entre Cinco Paredes: Quatro (Chefe and I)

Quase toda noite sonhava que era demitido. O pesadelo recorrente favorito! E não era apenas uma conversa específica rememorada, mas uma gama grande de situações que podiam resultar na demissão. Claro, certas cenas clássicas se reprisavam aqui e ali, como sair do elevador injuriando o patrão e ele estar na porta assim que abriu ou virar uma esquina do escritório prometendo vingança em voz alta e esbarrar com ele, com a frase "agora eu te peguei, filho da puta" esculpida na cara. Situações que quase foram realidade também apareciam, como o mero ato de enviar por engano uma foto sua nua para o grupo do trabalho de email ou Whatsapp. Mas frequentemente eram fatos complicados de se repetirem no mundo real e aí que tava a grande graça! Como da vez que, junto dos outros colegas de serviço, quase morriam para capturar e matar um elefante cuspidor de fogo e, bem na hora que iam fazer um baita churrasco com a carne, chegava o raio do chefe dizendo que o horário de almoço já tava acabado e os processos não iam ser protocolados sozinhos, não! 

Sonhou também uma vez que ficava pra morrer no alto de um prédio na beira da Avenida Rio Branco, embora nunca tinha trabalhado lá, pendurado pelos dedos na barra de concreto de um prédio em construção, com o supervisor que tinha na época levantando dedo por dedo até o corpo cair: a ousadia aqui era que em plena queda, veja só, teve o instinto de erguer o dedo do meio e gritar um "vai tomar no cu!" sonoro que, bem instante antes de bater no chão da Carioca, conseguiu ouvir que foi respondido por um "então tá demitido, mermão, vaza daqui que ainda é justa causa!" Como essa frase enorme inteira conseguiu voar pros ouvidos de um cérebro espatifado no chão? Aí é coisa que só o mundo dentro daquele inconsciente explica.

Havia uma versão mais obscura e angustiante do sonho que ficava frente a frente com o patrão numa sala, sem testemunhas, tendo que implorar pra manter o emprego e jurar de pé junto mentiras deslavadas: não só não era flamenguista mas como odiava mulambos; não só odiava mas como tinha alergia à trilogia clássica de Star Wars; não só tinha alergia, mas detestava cevada, cerveja, qualquer tipo de cachaça, vinho, uva, vodka, birita, nem pintados de energético. Geralmente quando acontecia essa versão era melhor virar e pedir demissão no mundo real mesmo. 

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Monólogo Entre Cinco Paredes: 3; Furto Samba

Tinha acordado com 500 reais no bolso. Foi na Lapa mesmo, digo, nem sei se aquele pedaço do Centro é Lapa ainda ou Glória. Tava debaixo de um balanço, todo sujo de areia, fedendo a cerveja, mas não estava embrigado. Sério, cara, não tava. Acho que me doparam com alguma coisa. Minha carteira tinha sido roubada, o celular também, foi o primeiro instinto bater nos bolsos e ver se ainda estava tudo ali, e não. Bateu o desespero, demorei uns minutos até me dar ligar que a identidade dormiu no bolso esquerdo da camisa. Se foi eu ou o ladrão que colocou, não sei até hoje. Só me aliviei quando comecei a fazer uma geral do que havia perdido de fato, do que estava na carteira versus o que tinha ali na hora e percebi que nem tinha perdido tanta coisa. O cartão de crédito era só bloquear, mas era tão velho que com várias letras de códigos gastos era muito difícil alguém conseguir adivinhar os dados equivalentes dos números que faltavam. O celular era velho, velhíssimo, na verdade, apesar de ter sido desses moderninhos na época, com Android. etc, eu já tinha comprado ia fazer dois anos, três anos e qualquer dia ia despedaçar em pleno uso, além da tela de touch que parecia esquizofrênica tremendo e dando coordenadas só de eu olhar pra tela. Enfim. Já me levantava, tirava a jaqueta, que é o que fedia a cerveja, quando um arrepio me deu na espinha. Meu poema. Puta que pariu, meu poema. Eu tinha escrito naquela noite mesmo, no Bar da Cachaça, com dois amigos em volta. Na verdade nem era bem um poema, tinha mais a intenção de ser uma letra de samba, não que letras de samba não possam ter qualidade poética, é modo de dizer da forma. Escrevi pra música que um desses amigos havia me cantado naquela mesa mesmo. Só tinha a melodia, que ele murmurava enquanto ia arranhando o cavaco. E eu peguei e fui escrevendo conforme bebia, o bom do frio de julho é que a cerveja demora a esfriar, embora beber gelado no frio não seja indicado pra quem sofria de sinusite, que nem eu. Mas, caralho, meu poema! Que eu havia dobrado e guardado na carteira, junto da minha última nota, que era de dois reais, eu lembro que ia passar a limpo e terminar de lapidar um verso aqui e ali e passar depois pro meu amigo ver se dava pro gasto mesmo de se ser uma letra de samba, já que eu nunca tinha tentado escrever uma. Por tudo que há de mais sagrado nessa vida, meu poema, cadê meu poema!? E eu gritando, remexendo os bolsos pra ver se quem havia me atacado, atentado, sei lá qual era o nome que ia configurar aquela agressão na delegacia depois, pra ver e torcer se quem tinha tido a breve gentileza de colocar a identidade no meu bolso ia fazer a mesma gentileza com algo tão mais delicado quanto um poema. Porra nenhuma. 

Parti para a delegacia mais próxima para fazer o B.O. E para explicar pro policial que o que me preocupava mesmo era o raio do poema? Roubaram um celular? Sim, mas era velho. Só tinha dois reais na carteira. "Meu senhor, você não entende, o que eu quero mesmo de volta é poema!" Como assim? Eu escrevi num guardanapo, dobrei, guardei na carteira, eu queria de volta! Não dava pra abrir inquérito por conta disso! Daí eu perguntei, mas e a propriedade intelectual? Não havia registrado nada, escrevi ontem, minha memória é uma merda, não ia lembrar de nada, ainda mais que já tava meio bêbado. Minto, que lembrava do primeiro verso: "Se cada vez que me negar alegria, eu vir te perdoar, Maria..." O moço que me olhava torto passou a dar umas gargalhadas e, quando parou que resolveu que ia quebrar meu galho e incluir o verso que eu disse no Boletim de Ocorrência. Eu omiti o fato que tinha 500 reais na carteira, porque daí que ele não ia me levar a sério mesmo. Chegando em casa, dormi, acordei, tomei banho, avisei meu amigo o ocorrido, não sei se nessa ordem, e ele veio e riu demais também, e falou pra deixar pra lá, que ele nem sabia se ia poder gravar aquele samba, e eu arrasado, guardei o B.O na gaveta e fui dormir. Mas eis que me passaram 5 meses, e é por isso que eu estou te contando essa ladainha toda, porque se eu tivesse lembrado, naquele dia, de mais de um verso do que aquele verso que eu falei ali há pouco, eu estava hoje milionário, camarada. Muito mais que os 500 reais de miséria que se indignaram a me pagar! Só que só com 12 palavras o B.O não ia me valer de nada. Por quê? Achei que você já tinha reconhecido a música! Escuta! Porque eu que fiquei de maluco nessa história! Me passaram 5 meses e não foi que eu me liguei o rádio e não ouvi o raio de um samba que começava justamente com a porra do meu verso, do meu poema?