quarta-feira, 28 de novembro de 2012

O Verbo

Você tem 21 dias para começar a me amar mais; e não porque será o apocalipse Maia dentro desta data; nem porque estou condenado a morrer de câncer; nem que eu tenha taquicardia, diabetes, leucemia, ou quaisquer outras chagas; não porque eu gosto de gengibre e você também; ou pão de queijo; ou sorvete de tapioca -sim, definitivamente, nem mesmo por isso; ou porque costumamos, nós, acertar a previsão do tempo independentemente dos magos de metereologia; nem que eu esteja carente ou acredite que você esteja; tãopouco estou apressado a me entregar a monogamia conjugal consigo: não quero você nem acredito que te faria bem e, consequentemente, não estou interessado em intercursos sexuais com sua pessoa nalguma dessas pouco mais de cinco mil horas que nos restam conforme prazo estipulado (- não que  eu duvide que eu, uma vez engajado na tarefa, fosse deixá-la insatisfeita); nem que eu tenha visto você em alguma nuvem agora cedo; nem que eu seja desses que saibam voar; nem que eu te ache com cara de paraquedas; ou parabrisas; embora eu ouça um naipe de sopros composto de flauta, fagote, trompete, trompa, sax, trombone e tuba além de serafins em coro ao pé do ouvido em trilha sonora cada vez que eu escuto seu nome; embora eu minta; embora eu cruze os dedos; não que eu seja à qualquer hora; fí-lo porque quí-lo; não que orbitemos em torno do mesmo astro ou que sejamos ambos atraídos em torno do mesmo buraco negro supermassivo; nem que compartilhemos dos Mutantes como banda favorita; ou de Kubrick enquanto cineasta; ou de Bansky como artista plástico; ou que ambas nossas mães tenham nos traumatizado, durante a infância, à música e pessoa física de Roberto Carlos; nem que nós dois estejamos usando verde hoje e que troquemos conselhos de moda e estética; nem que estejamos prestes a presenciar a primeira invasão zumbi da humanidade; ou em caso hipotético no qual zumbis não estivessem em voga como estão e fôssemos, ao invés, abduzidos e experimentados por seres extraterrestres e estes nos introduzissem em suas artes próprias artes da libido - de fato, não é o caso; nem que eu saiba do que eu esteja falando ou que eu acredite que você saiba, geralmente; nem que eu espere que você goste de poesia ou de ler qualquer modalidade literária; menos ainda que eu necessariamente te subestime em tais assuntos, sendo este ponto apenas uma referência à minha indiferença à tentativas de cortejo intelectualizadas por recursos artísticos; nem porque eu espere uma resposta criativa à esta carta a qual lhe endereço, muito embora você tenha a total liberdade e meu interesse em redigir e me enviar uma reação sua; à este ou algum outro assunto que lhe vier à mente e vontade de dissertar a respeito. 

Você tem 21 dias para começar a conjugar o verbo porque eu esqueci totalmente porque você devia me arfar mais. Rimas ocorridas no percurso foram acidentais.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Aspas

A:- Me beija que é segunda feira
E:- Acordou poeta?
A:- Aham
E:- Que que tem que é segunda?
A:- Que não é domingo
E:- Pensava que você odiava domingo
A:- Prefiro sábado, mas não odeio domingo. Eu odeio você
E:- Que bom, também te odeio
A:- Melhor assim
E:- Certo
A:- Por que você exatamente me odeia?
E:- Odeio... esse restinho de tinta guachi na sua mão
A:- Como se escreve tinta "guachi"?
E:- Gê, û, á, cê, agá, i?
A:- Errou! É gê, u, cê, agã, ê
E:- Letra é?
A:- Não, letra ê. Se fosse "é", teria acento
E:- Sério, jurava que se escreve com i.
A:- Com "i" fica parecendo "guachí", tônica no "i"
E:- Se a tônica fosse no "i", teria acento
A:- Quando essa conversa virou debate gramatical, mesmo?
E:- Quer Whisky?
A:- Depende, como se escreve Whisky?
E:- "Dábliu"... você sabe
A:- Sim. A tinta é porque estou desenhando um retrato seu. E não, não quero, é amargo
E:- Depois me mostra, tá-pronto-já?
A:- Não. Depois.
E:- Vou pegar bebida pra mim
A:- "Não"; esticado no "ã", dramático
E:- Por quê?
A:- Sua boca fica amarga quando te beijo de whisky
E:- "Beijo de whisky" daria um poeminha ou canção da Rita Lee
A:- Certeza. Tem alguma coisa mais romântica pra beber?
E:- "Uma coisa mais romântica pra beber."
A:- Vinho, champagne
E:- Como se escreve champagne?
A:- Se escreve com a mão esquerda, pois a direita estaria muito ocupada
E:- Hm, interessante
A:- Hm: dois pontos, esticando a letra "ême".
E:- Justo
A:- Quero mais política no nosso relacionamento
E:- "Política" oxítona, proparoxítona ou paroxí?
A:- Eu quero mais política
E:- Eu também. Que tal uma democracia?
A:- "Monarquia"
E:- Interessante, depois debatemos. Levanto "às seis"... com crase?
A:- Sim, vamos deitar, que já-já é terça
E:- Vou na cozinha antes
A:- Se for beber whisky mesmo, espreme uma laranja junto
E:- "Jack and Citrus"; quer?
A:- Não. Quero chover
E:- Sinestesia à essa hora da noite?
A:- Sempre
E:- Uma poeta, essa moça
A:- Tô meio Clarice, né?
E:- Meio toda
A:- Chata?
E:- Não, nem tanto
A:- "Nem tanto", nome do meu próximo livro
E:- O próximo que vai ser o primeiro
A-: Chega, deitar logo antes que o tesão passe e o sono fique.

Chá

-Diego, quando você vai tirar essa barata daqui?
-Que barata?
-Tem uma barata morta do lado da privada
-Ah, é, matei quando saí do banho agora pouco
-E quando você vai tirar?
-Já-já tiro
-Tira agora
-Mas você tá usando aí
-Que que tem?
-Eu não vou entrar aí agora
-Por quê?
-Porque não, você tá... não sei o que você está fazendo. E nem quero saber
-Só estou fazendo xixi, não é número dois
-Que nojo
-Que nojo o quê!
-Depois eu faço isso, tô bebendo café agora, vou comer
-Tá com nojo de mim, é?
-Não, mas, lembra da nossa conversa sobre usar banheiro juntos?
-Ahn?
-É, você mesma que começou, eu acho. Ou eu? Enfim, todo papo de que intimidade demais destrói um relac/
-Pela mordedeus, só tira essa barata daqui, não vou conseguir fazer xixi assim
-Tá, onde ela tá exatamente?
-Tá... do lado do box. Entre o box e a parede
-À sua esquerda
-Isso
-Tá, então vou passar por você de olhos fechados
-Vai acabar pisando em mim
-Tá, eu vou olhar pra baixo, pegar um papel higiênico e tirar a barata daí. Sem olhar pra você
-Tá
-Ok, só vou apagar o café
-Amor, aproveita que está ai e põe um chá no fogo? Pra mim tá muito tarde pra beber café.
-Certo.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Acupuntura

Com um dedo
se aponta a culpa
Com um dedo
se coça o medo
Com um medo
se sabe só
o escuro
a altura
acupuntura
credo.

Com enredo
se toca o samba
se conta o conto
se dança ela
Confiança
que livra o preso
que rima cedo
que rima quando
que rima como
sê lima com pêra
se cima, cai
se baixo, céu
com acento, caí.

Com três dedos escrevi "mel"
Com quatro, abacaxi.

sábado, 10 de novembro de 2012

Poema Ambidestro

a violência necessária para ser feliz. queria poder amputar meu lado direito. limitando menos ao braço como para o lado inteiro, perna, olho, orelhas. orelha, singular, digo. o cérebro talvez me dê problemas se cortado pela metade, este lado devo manter. tudo de bichado em mim está do lado destro de mim a começar pela caligrafia. minha letra é horrorosa. pior ainda com a mão esquerda mas foi com a direita que pratiquei a vida a fio, podia sair algo esteticamente mais aceitável, sim? antes disso o primeiro detalhe distorcido foi o olho direto. direito. ainda pequeno e de colo. um primo sádico já falecido me botou em cima do escorregador do parquinho da praça da rua onde morávamos. na tentativa de escorregar meus calções de nylon que nunca tiveram muito atrito se agarraram na ferrugem do brinquedo. eu me empolguei na tentativa de desentalar-me e cai lá de cima dando com a cara direto numa pedra no chão. mentira. ninguém sabe exatamente como foi, pode ser de nascença, acontece que sou cego deste olho. meus cistos. tenho dois. o primeiro surgiu na bochecha direita, grande surpresa. outro nas costas, pra ser justo quase no meio, mas traçando uma linha paralela à coluna há de se ver que ele está mais inclinado do lado desastroso de meu corpo que do outro. tenho preguiça de removê-los. tenho medo de facas. até meu pé direito deve ter chulé mais forte que o esquerdo. vamos comparar. não, nesse quesito o esquerdo ganha. nem sempre se perde nessa vida. minhas unhas direitas, agora falo das de cima, são mais tortas, esquisitas e feias, porém isso escolha minha. esquizofrenia pessoal. cadê, desaprendi de usar letras maiúsculas? Não vou editar o texto inteiro de novo só por isso. O que mais? Anotei num pedaço de calendário velho - que encontrei no trabalho - os defeitos localizados à direita dessa carcaça e já continuo e acho. Achei, sim, careca. Minhas entradas para calvície começaram, claro e em caixa alta, destras. É como se Moisés estivesse bêbado e errado a mira do meio do mar vermelho. Descobri essa semana no médico, também, que o canal interno da minha narina direita tem um defeito crônico de nascença que impede em 90% a passagem do ar pela região. Isso explica porque nunca consegui tragar cigarro ou maconha sem parecer uma bexiga com alfinete preso na biqueira. Ou porque respirar pelo nariz enquanto toco trompete me faz me sentir como uma buzina. Buzina, palavra boa, devia terminar esta crônica assim. Ou seria conto? Se eu inserir um dragão de estimação nessa altura, o que hei de tornar o relato? Pois bem, moro numa selva, e os animais, todos amputados de seus membros direitos, estão urgindo (sério?). Meu pai deve ter voltado do mercado com sucrilhos. Como ele, descobri que minha escoliose tá apontando para esquerda, contradizendo as previsões dos especialistas. Nem sempre se perde nessa vida. Eu já disse isso. Tanto faz, queria ter nascido canhoto. Poderia ter escrito aqui com qualquer uma das mãos. Exceto nu. Exceto o céu que tem mão nenhuma e só pode ter escrito as nuvens com o céu da boca.

domingo, 4 de novembro de 2012

Três Vezes Roberto

- Então, eu acho que foi muito bom
- O "quê" foi muito bom, Roberto?
- O Jantar, ué; todos se divertiram, riram, nossa comida tava ótima...
- Roberto, você está descrevendo os primeiros, sei lá, vinte minutos de jantar; e os outros quarenta? O que aconteceu nos outros quarenta, Roberto do céu?
- Por que cê tá me chamando assim, por que cê tá falando assim?
- Porque sim
- Fala, anda, fala
- Roberto, o que aconteceu quando você começou a descrever a sua viagem na Europa?
- Eu descrevi minha viagem, ué, os lugares, as pessoas, expus minha visão, minha experiência...
- E você fez isso com toda delicadeza do mundo?
- Como assim?
- Sem como assim, quer saber? estou exausta e irritada, não sei com que cara vou olhar pro povo do trabalho segunda que vem.. minhas amigas da faculdade, graças, algumas só vou ver a cara no ano novo e olha lá, mas as gentes do trabalho... quer saber, boa noite
- Não, agora termina, não tô entendo o drama
- Drama? Que drama, Roberto?
- Sim, eu só falei como foi minha viagem, vocês estavam comentando de Paris, de Londres, de Madrid, de puta que o parta, dai compartilhei minha experiência a respeito
- Sim, exatamente, nesse tom, você compartilhou sua experiência
- Que que te irritou tanto?
- Ah, frases suas, o jeito que você diz, e hoje não se limitou ao jeito, mas foi bem claro sobre o que você acha de todos os meus amigos
- O que eu acho dos seus amigos, então?
- Que são princesinhas e princípes criados em aquários, alienados, deslumbrados com o mundo de faz de conta que os papaizinhos deles criaram; um mund-, um mundo... ah, chega
- Termina, anda!
- Não
- E eu disse isso? foi isso? Só porque quando fui pra Europa foi de uma forma totalmente diferente que seus amigos perfeitos tiveram; por isso você se volta contra mim?
- Quem disse que eu me voltei contra você?
- Você! Agora! Duas frases atrás
- Para de putaria
- Para você!
- Não, chega, já cansei de toda vez que qualquer assunto do gênero venha você jogar na cara o quanto odeia a Europa, o quanto acha retardada e débil qualquer pessoa que fale minimamente bem do desenvolvimento deles! a Clarice estava apenas comentando de um restaurante em Paris e você...
- Vê, vê? "Desenvolvimento", termo débil e imbecil criado para fazer brasileiro se sentir uma merda
- Você que se sente uma merda
- E eu só disse a verdade! Só me fodi naquela merda de continente, fui tentar trabalhar honestamente e fui escrotizado, jogado e humilhado. Você sabe que meu sócio, aquele francês filho da puta, me fodeu, fiquei 3 dias pedindo dinheiro e dormindo na rua até me descobrirem e deportarem de volta pra cá.
- Isso foi só na França, nos outros países...
- Mesmo quando tentávamos fechar a situação dos distribuidores nos outros países eu via, eu via o olhar de desprezo deles. No aeroporto, porra! Na época meu inglês era mediano, e mesmo se fosse fluente, esses viados queriam que eu falasse espanhol, queriam que eu falasse grego, francês, toda merda de idioma que é deles só deles e se eu falasse algo sem querer em português, a cara de nojo deles me dava vontade de andar com um taco de beisebol na rua amassando a cara de cada um
- A ironia é que ao invês de falar pedaço de pau você fala taco de beisebol; você mesmo se...
- Não interessa, seus amigos ficam chupando pau de gringo e isso é imbecil, burro. Lá fora eles têm nojo da gente, e olha que eu não chego a ser preto, ao contrário de você
- Tá me chamando de preta?
- Isso te ofende?
- Não, mas você falou com desdém
- Que desdém? Desdém o quê, que porra é essa? você tá ficando louca, escuta...
- Escuta nada, vou tomar banho e dormir. Chega. Amanhã é segunda.
- Escuta, escuta, desculpa, te amo, eu sou grosso e intenso, não queria que sentisse vergonha de mim
- Eu também queria que você não sentisse vergonha de você, Roberto.
- Como assim?
- Chega. Boa noite. Vai se banhar também.

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Copacabana fede. Veja essa esquina, moscas, mini-moscas. De onde demônios vêm essas moscas? O cheiro de mijo dos cracudos deve estar atraindo isso. E os guardas municipais, nojo. Passa o pivete, leva o cordão, depois a gente volta e acha o garoto chama o guarda que diz "não foi flagrante, não posso fazer nada". Tudo cagão, medroso dos drogados juntarem eles de porrada mais tarde. Lugar fedido. Cheio de gente velha. Que ódio da fila do mercado, bando de velho atrás do outro. Um dia ainda ligo uma serra elétrica e saio matando tudo. Ia ser hilário porque metade ia morrer do coração antes de chegar a vez de virar rosbife cru. Eu tô ficando velho, já tenho 70, mas espero morrer antes de ficar caquético. E gente gorda, quanta gente gorda. O Rio de Janeiro está cada vez mais obeso. Parece São Paulo. Isso aqui já foi a capital da saúde. Agora só os viados são saudáveis, isso porque querem comer outros viados. Vejo quase nenhuma mulher de calção de ginástica com rabão passando pra lá e pra cá. Quando passa, meu pau fica duro, sim, ele ainda fica. Dou no coro gostoso, minha namorada de 50 que o diga. Mas é foda. Malditos gringos também. Todo mundo babando ovo, chupando pau, uns literalmente, os viados adoram pau com pentelho louro de gringo. E a gringaiada vem atrás dos viados afrodescendentes. Não sou racista nem homofóbico, mas eles tão dominando tudo. Aqui no prédio tem um casal gay, ambos negros, deus sabe como vieram parar aqui, moram no quinto. Cansei de vê-los subindo elevador com gringos. Deve ser raridade na bosta da Europa, negro e gay, pauzudo. Esses vem pro Brasil só pra isso. Os cracudos diminuiram uns anos atrás, era Olimpíada, polícia passou matando tudo. Tão precisando passar de novo levando no tiro e no pau esses infelizes. Uns nem força pra roubar pra comprar mais droga têm. Ficam dormindo na porta dos bancos, maldito lugar pra ter banco às pencas. Ficam lá e perto das igrejas. Dia de feriado de santo é uma tristeza, fazem fila pra pegar dinheiro nas poucas igrejas que ainda restam nesse bairro fedido. As velhas à beira da morte rezando, dando dinheiro e falando mal dos outros. E as putas? Ah, das putas eu sinto falta. Ainda têm, claro, mas a mesma merda de polícia fez reduzir o número que ficava na orla. Foram todas pra Glória ou pra Lapa. Quando tava bem de emprego, tinha contato com umas, não dessas de rua, mas dessas que atendiam em casa. Uns anos atrás conheci uma Sabrina uma vez, cobrava 450 contos, hoje em dia seria uns 700 reajuste de inflação. Valia o investimento, morena, meio india, rabão enorme, bucetuda. Buceta meio larga, também, faz parte do ofício, mas com jeitinho liberava o cu que era uma maravilha. Isso faz uns 10 anos, deve estar acabada hoje em dia. Minha ex-mulher outro dia veio pra cá, tá morando em São Paulo com o novo marido, a infeliz. Ligou, queria marcar alguma coisa, mas eu sei dessa louca que era falsidade - pra eu não jogar na cara depois que ela veio pra cá e não me procurou. Pensando bem, tá certa ela. Mesmo com raiva até consegui ser educado, falei que ia viajar na mesma semana, feriadão, com minha atual pra Região dos Lagos. Ficou hospedada na casa de outra amiga na Barra. Lugar escroto também. Só é mais escroto que ser escroto é tentar ser o lugar escroto. Filosofei. Porque Ipanema costumava ser melhor, mas tá começando a ficar tomada de cracudos, velhos e viados também. Leblon não sei como anda, aquilo lá tá fechado, tem pedágio pra sair e entrar. As comunidades e Favelas que existiam na região foram removidas para depois de Itaguaí. Virou um grande condomínio para Judeus, europeus donos da rede de hotelaria carioca e atores, apresentadores e diretores da Globo.  Volta e meia um mendigo é morto por andar por lá de bobeira. Preciso sair dessa cidade.

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- A estética da violência
- Como, senhor?
- Nada, vou querer aquele tênis ali
- Pra levar?
- Não, testar primeiro
- Certo
- Está ótimo no pé, ele em si...
- Sim, esse novo modelo da Adidas é totalmente ergométrico, com amortecedor...
- Espera, você sabe o que é ergométrico?
- Bem, é...
- Ergométrico é aparelho que mede batimento cardíaco, esse troço mede isso?
- Não, não senhor, eu me confundi...
- Então pare de falar demais. E esse tênis é horrível de feio, nossa
- Senhor... se acha feio, porque pediu pra eu trazer?
- Estou precisando de um tênis pra correr, mas tô vendo que esse não vai prestar; tem alguma coisa da Asics?
- Tem sim, são esses daqui
- Um, tem um que faça meus pés não parecerem pés de super herói?
- Como? Todo tênis de corrida tem essas cores, senhor
- Todo tênis de corrida parece saído de seriado japonês, então? Que bosta, vou continuar com meu All Star, então...
- Mas tênis desse tipo não são apropriados para atividades físicas... o senhor pode vir a ter problemas na coluna, por exemplo
- Você é médico?
- Não
- Você é ortopedista, fisioterapeuta, pediatra?
- Não
- Você nem sabe que pediatra é médico de criança e não tem nada a ver com o assunto; por que você está vendendo tênis?
- Senhor, se nada mais lhe interessa, vou pedir licença para atender outro cliente...
- Então vai.
...
- Boa noite, preciso de um tênis pra corrida. Comecei a correr com meu All Star do colégio mas não param de nascer bolhas nos meus pés. E parece que estou com princípio de escoliose.

Maçã


Nem espero que te faça diferença
Eu só queria tomar cuidado aqui
se conta os dedos os dias na vida
que se acorda de paraquedas

tem uma ranhura da vez que eu falo
mas nada
nada que um pouco de mel e maçã
não calo.

A porta é mesmo essa
o ombro machuca um lado
mas a porta é mesmo essa
a fome cavouca um fado
mas a porta é mesmo essa
o riso machuca um cado
mas a porta é mesmo essa
a janela dá no telhado

e eu espero que te faça diferença
eu só queria tomar cuidado em ti
se conta os dedos os dias na vida
que se acorda um paramédico

se conta os cedos os dias na vida
que se acorda um parabrisas
se conta os dedos os dias na vida
que se acorda um paraíso.