sábado, 10 de novembro de 2012

Poema Ambidestro

a violência necessária para ser feliz. queria poder amputar meu lado direito. limitando menos ao braço como para o lado inteiro, perna, olho, orelhas. orelha, singular, digo. o cérebro talvez me dê problemas se cortado pela metade, este lado devo manter. tudo de bichado em mim está do lado destro de mim a começar pela caligrafia. minha letra é horrorosa. pior ainda com a mão esquerda mas foi com a direita que pratiquei a vida a fio, podia sair algo esteticamente mais aceitável, sim? antes disso o primeiro detalhe distorcido foi o olho direto. direito. ainda pequeno e de colo. um primo sádico já falecido me botou em cima do escorregador do parquinho da praça da rua onde morávamos. na tentativa de escorregar meus calções de nylon que nunca tiveram muito atrito se agarraram na ferrugem do brinquedo. eu me empolguei na tentativa de desentalar-me e cai lá de cima dando com a cara direto numa pedra no chão. mentira. ninguém sabe exatamente como foi, pode ser de nascença, acontece que sou cego deste olho. meus cistos. tenho dois. o primeiro surgiu na bochecha direita, grande surpresa. outro nas costas, pra ser justo quase no meio, mas traçando uma linha paralela à coluna há de se ver que ele está mais inclinado do lado desastroso de meu corpo que do outro. tenho preguiça de removê-los. tenho medo de facas. até meu pé direito deve ter chulé mais forte que o esquerdo. vamos comparar. não, nesse quesito o esquerdo ganha. nem sempre se perde nessa vida. minhas unhas direitas, agora falo das de cima, são mais tortas, esquisitas e feias, porém isso escolha minha. esquizofrenia pessoal. cadê, desaprendi de usar letras maiúsculas? Não vou editar o texto inteiro de novo só por isso. O que mais? Anotei num pedaço de calendário velho - que encontrei no trabalho - os defeitos localizados à direita dessa carcaça e já continuo e acho. Achei, sim, careca. Minhas entradas para calvície começaram, claro e em caixa alta, destras. É como se Moisés estivesse bêbado e errado a mira do meio do mar vermelho. Descobri essa semana no médico, também, que o canal interno da minha narina direita tem um defeito crônico de nascença que impede em 90% a passagem do ar pela região. Isso explica porque nunca consegui tragar cigarro ou maconha sem parecer uma bexiga com alfinete preso na biqueira. Ou porque respirar pelo nariz enquanto toco trompete me faz me sentir como uma buzina. Buzina, palavra boa, devia terminar esta crônica assim. Ou seria conto? Se eu inserir um dragão de estimação nessa altura, o que hei de tornar o relato? Pois bem, moro numa selva, e os animais, todos amputados de seus membros direitos, estão urgindo (sério?). Meu pai deve ter voltado do mercado com sucrilhos. Como ele, descobri que minha escoliose tá apontando para esquerda, contradizendo as previsões dos especialistas. Nem sempre se perde nessa vida. Eu já disse isso. Tanto faz, queria ter nascido canhoto. Poderia ter escrito aqui com qualquer uma das mãos. Exceto nu. Exceto o céu que tem mão nenhuma e só pode ter escrito as nuvens com o céu da boca.

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