sábado, 28 de maio de 2011

Lumaquela

A espera na sala de espera
O cigarro que acabou
O seu sobrinho nascido
Com síndrome de Down
O beijo que falou que beijava e que vinha
Mas não beijou e nem veio
A gravidez da menina mais nova da sua rua
O grande amor de infância
Que viciou em cocaína e morreu
O relógio da Central do Brasil
Que não marca a hora certa
Quando isso vai ser problema meu?

O meio sim, o meio não
Ou o se cale para sempre
Os cracudinhos cheirando cola no sinal
Os cachorros estranhos
Das dondocas do Leblon
E das velhinhas de Ipanema
Ou de Copacabana
Os 45 graus de febre
Do filho da vizinha
A tartaruga que caiu no esgoto
E se afogou
A formiguinha na parede que se perdeu
Tantos carros na Avenida Brasil
Tanta chuva pra pouco guarda-chuva
Quando isso vai ser problema meu?

A sala de jantar, art nouveau
A exposição de Arte Moderna
No Museu de Arte Moderna, ou no CCBB
A vontade de viver e o beijaço Gay
Em todas capitais
O José Bolsonaro, o bon vivant
Que se engasgou com a espinha do peixe
Enquanto você estava jantando
A cor de sangue manchada
No uniforme da PM
O velho cego e sem perna
Implorando por esmola
No Largo da Carioca
Os crentes na esquina
Fazendo feira, e festa
Comendo cachorro quente
E cantando alegremente:
Aleluia

Aleluia

Aleluia
O show do Pearl Jam que o seu filho perdeu
O show do Led Zeppelin que você nunca vai ver
O Brasil Império
O Brasil Colônia
As Capitanias Hereditárias
Que o Coronel herdou
O padre do catecismo que queria te comer
O messias que ainda não veio
O fim do mundo que ainda não veio
A paz de espírito que ainda não veio
O sangue que é só seu:
E que nem assim
Eu estou disposto a doar
Quando isso vai ser problema meu?

A cura do câncer
A cura da AIDS
O tumor que eu tenho na perna esquerda
Mas não descobri ainda
O meu vizinho do 315
Morrendo de tesão por minha filha de 10 anos
O palácio do planalto
As férias em Brasília
O medo de arranjar emprego público
O medo de ir no Maracanã
O medo da torcida do Flamengo
O medo de ouvir seguir e concordar
Com o palpite alheio
O medo de pretos
Pretos, pobres e quase pretos
Medo também dos quase pretos de tão pobres
O medo de gostar de Caetano e Gil
O medo de precisar de outro fígado
O medo de caminhões de lixo
O medo de cavalos
O medo da diabetes
E medo dá diabetes?
A vontade de comer sorvete de baunilha
A vontade de trocar de marido
A vontade de voltar a fumar
A vontade de matar o trabalho amanhã
E medo dá diabetes?

A pornochanchada tão brega
Reprisada no Canal Brasil
O segredo que não era seu
Que você explanou no Twitter
O gole de saliva que você já bebeu
O gole de porra que você já engoliu
E sua esposa nem suspeita
A comida fria que cabe no prato
O sangue quente que cabe no quarto
O corpo livre que não cabe na casca
O riso solto que não cabe na casa
O mais cedo ou o mais tarde
A fé política da Inquisição
O céu e o telescópio de Galileu
A lumaquela é uma rocha calcária formada
Por conchas aglomeradas
Mas quando isso vai ser problema seu?

Porque Deus Quis

Deus já tá cansado de falar de deus
De discutir relação
De ter DR
De TPM
De sua própria TPM
Demasiado estranho, Deus ainda é megalomaníaco
De vez em quando me fala do Apocalipse
De Armaggedon
De como gosta daquela música do Aerosmith
Deus pensou num verso bem bonito pra botar nesta prosa fajuta: mas esqueceu
Defendeu-se dizendo que toda memória do mundo já foi dada aos Elefantes
De caridade, porém, nos inventou este refrão:
"De todo Kinder Ovo se espera uma surpresa"
De cara, me disse, "quem veio primeiro foi a Eva!"
Declarando: "Adão é o caralho! Lugar de sonho é padaria!"
Deus acabou de citar André Dahmer
De brinks, falou que qualquer dia desses ia se transfigurar num cineasta:
Deus agora se chama Woody Allen!
"All I have in life is my imagination!"
Deus não é cristão
Deus não é espírita
Deus não é Judeu, Jesus que era
Dedé dedica à Japeri esse refrão:
"De todo Kinder Ovo se espera uma supresa"
Deus só ouve Heavy Metal, Zeca Baleiro sabe
Deus não gosta de ser chamado de Senhor
Demora, mas Deus aprende:
De que amor verdadeiro e câncer são como azia: vem de dentro
Deus me falou que eu devia tentar caminhar sobre as águas da Guanabara
Deu que quase eu me afoguei
Deus me pediu desculpas
Deus não é perfeito, nem eu
Deus me curou do mal olhado
Deus me curou uma afta em três dias úteis e eu voltei a ser crente:
"De todo Kinder Ovo se espera uma surpresa."

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Obviamente um Recital às Cores

De que cor é a tua bicicleta quebrada?
De que cor é a tua bicicleta roubada?
De que cor ficou a tua blusa desbotada?
Que cor fica quando o lábio ressacado?
A cor que eu visto é vermelho e preto
A cor que eu visto é cor-de-pele
Você me diz o que é cor-de-pele?
Qual é a cor da cor da cor-de-pele?
Você me diz?
A cor que insisto ser a cor que eu visto
A cor que eu minto ver no alto, o firmamento

O que que o arco íris tá fazendo ali no acostamento
Se envolvendo, misturando com a poça de água e gasolina
O que o arco íris faz com o sol ali no alto, ali no morro?
O que o arco íris tá fazendo ali debaixo da ponte?

De que cor é o sexo da semana passada
De que cor eram aquelas pernas?
De que cor que é o hexa-campeão de Tênis
E de Fórmula 1
E da Maratona de São Silvestre
De que cor que é a sua caneta esferográfica
Pela qual você escreve agora?
Azul!

E quantas cores tem a bandeira do Brasil?
Quantas cores tem a bandeira dos States
Que cor que sangra do corpo que encontra a bala perdida
Que cor se perde e se bebe à noite, na balada
Que cor se perde no meio do caos dos olhos dela
De que cor é esse corpo extendido no chão?

Que cor trabalha 12 horas por dia
Na lavanderia
Que cor que compôs a sua canção favorita?
Que cor que limpa o seu chão?
E de que cor é seu all star?
E de que cor é seu all star?
E de que cor é seu all star?
Que você tá calçando agora?
Verde.



Valsinha S/N

Desde o primeiro beijo
O primeiro ensejo
A primeira cor brilhando azul
A primeira árvore sorrindo verde
A primeira rede
A primeira ciesta
Desde o primeiro agarra-agarra
No banco do metrô
Do primeiro cheiro na nuca
Da primeira mão invadindo a blusa

A primeira lembrança
Lembrancinha, o cartão postal
Do primeiro bilhete na cabeceira
Desde o primeiro sms
Do primeiro toque a cobrar
Desde aquele papo
No meio da madruga
Desde os seus primeiros dentes
A morde-lhe as costas
O primeiro embate
Sobre política externa
E sobre a legalização do aborto
Desde o primeiro olhar
Desde o primeiro clichê
Desde a primeira canção
Dedicada no rádio
Mas já quase ninguém
Ouve rádio hoje em dia

O primeiro final de mês
O primeiro pôr-do-sol no Arpoador
Desde a primeira trilha ao Alto do Corcovado
A primeira bebedeira no meio da Lapa
O primeiro piercing pregado na Augusta
Desde o primeiro agosto
E do primeiro desgosto
Desde a primeira rima
A primeira prece
Que ninguém rezou
Desde a primeira oração ao Deus Sol
A Shiva
Odin
E a outros deuses pagões

Desde o primeiro gole de sangue
Da primeira gota de saliva dela
Que sobrou na sua boca
Desde a primeira manhã
Do primeiro café preto
Com pão, com requeijão
Desde a primeira marca de pasta de dente
Que ela tirou do canto da sua bochecha
Desde a primeira sessão de cinema
Da primeira carícia nas suas genitálias

Desde o fim do primeiro calendário Maia
Desde o primeiro fim do mundo
Desde da primeira noite fora
Das primeiras férias na Europa
Do primeiro dia de Casados
Do primeiro filho
Da primeira filha
Do primeiro cão
E da primeira Iguana mexicana

Desde o primeiro segundo
Desde a primeira foda e do consequente unilateral gozo
Desde o primeiro sim
Ele sabia: amor não era
Nem era amor
E vice-versa
E versa-vice.


quarta-feira, 25 de maio de 2011

Fandangos

Plurais
Concorde comigo
Sou seu advérbio
Pro nome da rosa ficar mais bonito:
O adjetivo
Dois pontos amarelos pulando do prédio
Um par de fandangos
Um par de fandangos suicidas
Um par de beiços se coçando
Um par de narizes se beijando
Um isqueiro aceso
Balançante durante a balada romântica
No show da Ivete
Um isqueiro roubado
No bolso de ambos
Cúmplices do mesmo crime
O mesmo crime de amar
O mesmo crime de amar
O mesmo crime de amar comer pão de queijo
O mesmo crime de amar e apertar um beque
O mesmo crime de amar recusar um beijo
Pra dar três em seguida
Quero que sejamos a primeira pessoa a furar o sinal
Quero que sejamos a primeira pessoa a sim dizer não
Quero que sejamos a primeira pessoa do plural

Nós.

No meio da rua fazendo sinal
O busão não passa mas já tanto faz
A canção que ensaiamos com um pouco de cachaça são nosso ponto final.
(Eu juro)

quarta-feira, 18 de maio de 2011

De quem é a voz que me acorda da noite no meio do susto
De quem são as mãos a me empurrar pra fora da cama
E de quem é esse monstro que estava dormindo debaixo de mim?
Quem diz que o que mais fácil se corta é o silêncio, nunca esteve neste quarto
Nunca esteve deste ou d'outro lado da linha
Tampouco se constrangeu pela cruel indiferença do telefone que não toca mais:

Quem calou esse olhar fui eu
Quem calou esse abraço também fui eu
Mas de quem é o grito que me acorda antes da hora de sonhar?
De quem são os braços que me amputam as janelas
De quem é a chuva que entra sem ser chamada
por cada fresta que se permite:
Cada fresta dessa casa que não é só minha.



Deus No 6

Deus deixou um bilhetinho na mesa de cabeceira:
"Heaven knows I'm miserable now, mas ainda te amo"
Deus dançou comigo ontem pela sacada
Quando apertamos um Beck, discutimos Woody Allen e Dirty Dancing
Onde falamos sobre e fizemos sexo
Pouco antes de quebrarmos um ou dois vasos da portaria
E de comprarmos uma lingerie qualquer em um posto de gasolina 24 horas

Deus está morto
Nietzsche também
Deus, de coma alcóolico no chão do meu banheiro
Deus, com seus 54kg, 87cm de busto, 67 de cintura, 95 de quadris
E com seu par de olhos ora castanhos, ora azuis
Deus jura que me ama, mas eu não levo fé
eu sou ateu.