O primeiro ensejo
A primeira cor brilhando azul
A primeira árvore sorrindo verde
A primeira rede
A primeira ciesta
Desde o primeiro agarra-agarra
No banco do metrô
Do primeiro cheiro na nuca
Da primeira mão invadindo a blusa
A primeira lembrança
Lembrancinha, o cartão postal
Do primeiro bilhete na cabeceira
Desde o primeiro sms
Do primeiro toque a cobrar
Desde aquele papo
No meio da madruga
Desde os seus primeiros dentes
A morde-lhe as costas
O primeiro embate
Sobre política externa
E sobre a legalização do aborto
Desde o primeiro olhar
Desde o primeiro clichê
Desde a primeira canção
Dedicada no rádio
Mas já quase ninguém
Ouve rádio hoje em dia
O primeiro final de mês
O primeiro pôr-do-sol no Arpoador
Desde a primeira trilha ao Alto do Corcovado
A primeira bebedeira no meio da Lapa
O primeiro piercing pregado na Augusta
Desde o primeiro agosto
E do primeiro desgosto
Desde a primeira rima
A primeira prece
Que ninguém rezou
Desde a primeira oração ao Deus Sol
A Shiva
Odin
E a outros deuses pagões
Desde o primeiro gole de sangue
Da primeira gota de saliva dela
Que sobrou na sua boca
Desde a primeira manhã
Do primeiro café preto
Com pão, com requeijão
Desde a primeira marca de pasta de dente
Que ela tirou do canto da sua bochecha
Desde a primeira sessão de cinema
Da primeira carícia nas suas genitálias
Desde o fim do primeiro calendário Maia
Desde o primeiro fim do mundo
Desde da primeira noite fora
Das primeiras férias na Europa
Do primeiro dia de Casados
Do primeiro filho
Da primeira filha
Do primeiro cão
E da primeira Iguana mexicana
Desde o primeiro segundo
Desde a primeira foda e do consequente unilateral gozo
Desde o primeiro sim
Ele sabia: amor não era
Nem era amor
E vice-versa
E versa-vice.

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