sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Jojô

Acordei com sol fraco, limpei as minhas unhas, uma coisa estranha grudou na minha língua. Preciso parar  de lamber minha barriga. Com fome, visitei minha casa, meu dono anda sumido. Outro dia sem ração. Consigo coisas melhores, pelas lixeiras dos locais de comida da área, seria bom contar com uma comida certa com mais frequencia. Em minha segunda casa, telhados daqui, o humano que deixa comida de humano em uma canteira para eu me alimentar esqueceu novamente de fazê-lo. Preciso visitá-lo mais vezes. Esfregar-me com mais frequência em suas pernas, logo restarão me apenas as lixeiras, os ratos ocasionais.  Os ratos estão crescendo também, difícil comê-los, são bichos mais agéis que costumavam ser. Ultimamente o número de humanos nas ruas e cantos desta cidade aumentou. Os locais de comida estão cada vez mais cheios, mais barulhentos com mais sobras nas lixeiras. Estranhamente eles desperdiçam grandes quantidades de comida todos os dias. Inclusive há horas certas para empilhá-las na parte de trás dos estabelecimentos. No início era apenas eu, conforto breve, outros gatos da vizinhança descobriram meu segredo. Frequentemente aparecem novos concorrentes. Estou ficando cansado, imponho-me pelo meu tamanho, e apelar para violência é necessário nos dias que aparecem vários outros famintos. Nenhum gato daqui anda em bando.  Derrubo ou espanto um por um que me aparece, geralmente a partir do final da tarde, noite ou madrugada. Novatos que desconhecem o próprio território o qual tentam ser donos.  Parece que vai chover em breve, mal lembro a última vez que choveu, tive uma ideia. Vou tirar outro cochilo. As ruas estão cada vez mais perigosas, tenho vários conhecidos morrendo envenenados nos últimos tempos, preciso me cuidar. Outros são mortos por pedaços de pau por humanos furiosos. Ouvi falar que certos homens tem despelado nossos corpos, fritado nossa carne e se alimentado. Tenho nojo. Mesmo assim surgem mais gatos, minhas brigas tem se tornado cada vez mais frequentes, tenho dificuldades de me estabelecer. Estou grávido pela primeira vez. Fica tudo mais difícil, a barriga aos poucos pesa mais, tenho mais sono e fome. Pelo meu tamanho me impunha conseguindo afastar possíveis amantes, com violência se necessário, só que mal tinha subido o sol quando fui pego desprevenido. Era um gato ligeiramente maior. Quando ele abaixou a guarda consegui cortar sua face, o fracote correu gritando a dor, já era tarde demais. Pelo menos acho que nem tantos  filhotes vêm por aí. Trabalhoso, a chuva passou, acho que sinto cheiro de peixe. Toda casa parece agora ter  filhotes de cachorro. Logo eles estarão maiores, e transitar para os lados se tornará mais arriscado, ou simplesmente menos discreto. Amanhã é dia de peixe empanado em outra casa telhados daqui. Hoje foi dia de macarrão, alimento que apenas belisco, quando tanto. Prefiro peixe. Às vezes penso em um lugar onde haja peixes por toda parte, nunca vi um vivo, apenas cozinhados ou congelados. Pergunto-me como caminhariam no chão. Gostaria de ir para bem longe, conhecer outros bichos e descobrir o lugar de onde todos os peixes vêm. Distantemente. Perderia território em minha cidade, recuperá-lo depois seria pouco provável, além da dificuldade de me adaptar a um local totalmente novo. Sou um dos maiores gatos destas bandas. Quem me garante que lá haverão bichanos menores como aqui, e se todos forem maiores do que eu e eu que me tornasse o gato magro e fraco? Lembrei que um amigo também teve filhos. Escondeu a si e os filhotes atrás de uma casa velha, onde outros conhecidos e desconhecidos costumam se arrastar perto da hora de morrer, lá tem água fresca. Talvez eu use o mesmo local quando chegar minha vez. Este amigo teve menos sorte com sua ninhada, nasceram vários, e a maioria continuou viva. Ele terá dificuldades para se alimentar com tantos filhotes mamando o tempo inteiro. Outro fato me ocorre, a caminho de uma das refeições, passei por um terreno vazio coberto por vegetações. Encontrei um humano morto. Isto me ocorreu outras vezes, lembro vagamente, pois cheiravam todos muito mal. Tinha também vários buracos espalhados na altura do peito. Este tinha o rosto e seu corpo diferentes, bem diferentes dos outros humanos quando sentem dor, ou quando estão gritando. Já feri alguns, quando ameaçado, por isso entendo do assunto. Pouco me orgulho disso. Coberto por terra molhada em um canto, pergunto-me se este seria meu primeiro dono, que mal vejo há semanas. Queria poder lembrar de seu rosto, lembro que me chamava "Jô...", ou outro som parecido com este. Era um bom humano. Às vezes me dava uma bebida branca, morna, parecida com a que eu bebia das tetas do gato que me pariu. Mesmo defunto, e inusitado, aquele humano ali no chão me parecia bem. Deve ter morrido de barriga cheia. 

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Piraquê e Coca-Cola

Faz dias. Faz pães. Faz fim. Faz não. Faz quer. Faz Jazz. Faz Mais. Faz Mim. Faz aqui.
ou
Ali. Faz Eu. Faz baunilha. Faz tu. Faz café com creme. Faz flocos. Faz leite, mistura. Faz greve. Faz amor. Faz tempo: e embrulha pra viagem.
Faz tanto que faz quase. Quase certo, firo assim, morde toalha e sangra menos. Faz guerra e explode os corais em alto mar. Faz nossa casa no céu. Faz calor, faz assim: de mim outra miragem e volta a ter sede. Ou me come de novo. E nessa vida: quem não é fruta? Faz Lipo não. Faz dieta não.
e
Faz de conta, me bate agora e abandona, porque eu me acho seu dono. Traz a faca. Jaz aqui comigo o sal, me ardendo à língua. Faz sol. Nasce de vez de dentro de mim e aponta pra fora.
Faz tempo: que horas são?
Faz sanduba, com alface e riso, passa manteiga, enfia no pão e mastiga que
faz bem pros rins.

No Balanço

Começo a escrever estas mal traçadas linhas porque: mal traçadas estão pois as escrevo, ao vivo, direto da minha rede. Minha rede nova, esticada, instalada recentemente na sala de estar, foi minha melhor aquisição nos últimos tempos. Melhor que a televisão 200 polegadas que ocupa uma das quatro paredes inteiras da sala, que eu ligo apenas à noite para assistir os jornais; melhor que assinatura da Revista "Eras", especializada em história e antropologia acadêmica; melhor que meu microondas novo, que além de "novo", é programado para cantar uma canção diferente à cada dia da semana que eu entro na cozinha pela manhã, embora eu talvez devesse esperar até o Natal para adquirir a nova versão customizada, que varia cantando canções temáticas de chuva, neve, e de datas festivais, conforme seu calendário interno; melhor inclusive, digo, quase melhor que o meu telescópio que instalei e agora está na janela do meu quarto. Começo a escrever e está sol, que bate diretamente na rede, aquecendo o pano e deixando um "cheiro de Sol" pela sala, e acho que apesar de deitado, esta é a melhor sensação que ela me garante. Comecei a escrever de dia, mas agora revisando já escurece, e ao terminar, mais provável que seja noite. Muito porque decido e tenho que escrever logo o fato que será descrito a seguir, menos pela sua importância e mais pela minha memória, que, agora adulta, tende a se tornar seletiva. Alzheimer chega para todos, em maior ou menor grau: está aí uma prova que a ciência um dia há provar. No mais:

Escrevo logo pois preciso contextualizar, e inclusive relembrar em ato de exercício, um ocorrido recente na minha vida cotidiana. Pois bem, em primeiro momento, tinha eu 9 anos de idade, juntamente com Mizaela e Fabrício, em um final de tarde, no "parquinho" do prédio (dependendo do ano que você nasceu, chamaria-o de "playground", ou, abreviadamente, "play"). Disputávamos os lugares do balanço. Por quê: recentemente, dos três balanços principais, um estava enferrujado a ponto de já ter rendido uma vacina de tétano para um amigo próximo; o segundo tinha as correntes quebradas, cuja cadeira havia sido retirada para conserto; e apenas o terceiro, este terceiro sim, próprio e perfeito para nossa atividade de risco. Tal atividade consistia em jogar-mo-nos à distância, e ver quem chegaria mais longe. O parquinho não era dos maiores, porém grande o bastante para ninguém jamais ter conseguido o feito de atingir o muro externo, de cimento, que marcava o limite da área coberta de areia. Pois bem:

E: - Hoje eu finalmente vou conseguir chegar lá
F: - Não vai não, o recorde é de Tales, ele chegou na altura da terceira gangorra quando pulou aquele dia. Você nunca passou da segunda gangorra

E: - Sim, mas hoje eu consigo. Tô treinando, às vezes desço aqui de noite pra ficar treinando sozinho
M: - Mentira, não mente que é feio

E: - Tá, eu não treino de pular, mas fico treinando impulso. Só o impulso, sabe?
F: - Mentira
E: - Verdade, e eu te provo

F: - Como?
M: - É
E: - Hoje eu consigo chegar além da terceira gangorra, e quase roçar no muro de cimento farpado
F: - Aiii... o nome nem é esse

E: - Dana-se, eu vou
M: - Não é perigoso? Daquela vez que você forçou, deu de bunda no chão e nem foi tão longe
E: Sim, é difícil pra daná, né? Mas eu consigo. Acho que consigo até girar o balanço uma volta completa

F: 360º?
E: O quê?
F: Meu pai me disse que uma volta completa são 360º, e que é muito perigoso fazer isso
E: Por quê? Que que seu pai sabe de balanço? Ele não vive em escritório?
F: Ai, seu burro, meu pai é engenheiro, tá? Ele tava me explicando, fez umas contas que não entendi, mas parece que não dá pra dar uma volta sentado na cadeira. Não dá, não tem impulso, sei lá. É mais provável da cadeira não ir toda e tu dá de cabeça com o ferro que segura. Ele me proibiu de continuar saltando balanço também

M: O pai de Fabrício tá certo, e minha mãe me proibiu também de pular
E: Claro, claro, tá certo, né, sua anta
M: Não me chama de anta
E: Não você, Fabrício

F: Porr..
E: Claro que eu não vou girar 370º graus, eu só acho que dá pular tão longe e deixar a cadeira dar uma volta toda. Não vou ficar na cadeira pra ver, vou pular, né? dã...
F: Duvido
E: Duvida mesmo?

M: Fala "duvida" não, que ele é maluco. Vai acabar se machucando e vai sobrar pra gente
F: Duvido mesmo, você é só... só.. gogó.
E: Você nem sabe que que isso, que palavra é essa? Enfim, não interessa, façamos assim, se eu conseguir isso... quer saber, vâmo apostar?
F: Vâmo. Agora.

E: Beleza, não. Não aperta minha mão agora. Ouve primeiro. Se eu ganhar, essa balanço bom é meu durante uma semana. Só meu, só de eu chegar aqui no parquinho, você vai ter que levantar e me dar lugar.
E também você vai me dar metade do seu lanche todo dia semana que vem na escola.
F: Por que não todo?

E: Porque não quero que você passe fome, também. Mas tem mais, o principal: se eu ganhar, você vai me dar todas as figurinhas dessa semana que vem que vierem nos salgadinhos. E as que vierem no Toddynho também! E, o principal: agora sim é o principal:
M: O quê? O quê?
F: Fala logo, porra

E: Óia, até falou palavrão! Milagre! Então, o principal é que você e a Mizaela vão me deixar tocar a campainha da casa de vocês a semana inteira. Qualquer hora. Manhã. Madrugada. Vou tocar, vou sair correndo de volta pra casa, e vocês vão saber que fui eu, mas não vão poder falar nada pros seus pais. E aviso logo: adoro andar por aí de madrugada!
F: Você é idiota, vai acordar meus pais, eles vão ficar puto! Vai sobrar pra mim, porra!
M: Pra mim também, e por que eu tenho que estar no meio? E o que a gente ganha em troca?

E: A mesma coisa, da minha parte
F: Metade do seu lanche pra nós dois?
E: Sim, vocês racham. Figurinhas inclusive, mas ai já querem demais, vocês revezam. Mizaela nem liga pra isso

M: Tá, mas eu não quero participar, eu nem pulo mais! Faz um tempão que eu não pulo essa droga!
F: Tá, eu topo
E: Vai, Miza?
M: Pra quê? Por quê? Não!
E: A maior parte do pessoal tá viajando esse fim de semana, praticamente só tenho vocês pra testemunhar a parada. Se os dois tiverem pagando a aposta, a galera vai acreditar mais na história.

M: Tá, tá. Mas a parte da campanhia na minha casa não precisa. Não vou apertar a da sua casa mesmo
E: Tá. Fechado então? Agora podemos dar as mãos
F: Fechado.

M: Fechado, mas se você machucar, nem vou deixar seu pai te levar no hospital. Essa ideia é idiota.
E: Claro que você vai, você é marrenta mas é boazinha
M: Sou otária mesmo. Vai logo e fica quieto

E, calado, logo fui eu. Sim, tomando impulso, de fato, a parte de ter treinado de noite era só meia verdade. Fiz uma ou duas vezes no máximo, enquanto meu pai estacionava ou esperava vaga do estacionamento liberar. Eu tinha que dar credibilidade à peripécia. Não sei porque raios ia tentar aquilo, sabendo dos perigos. O principal motivo, que minha cabeça adulta e caduca cavouca na minha memória afetiva, era minha intenção de deixar uma recordação daquele pessoal de mim: iria me mudar em fevereiro próximo. E, claro: de impulso em impulso, me movi, e as correntes da única cadeira de balanço bom perdiam o ângulo reto quando estava atingindo maior velocidade. Voltando de costas, quando senti que minha altura já havia passado a do ferro de apoio, que segurava o brinquedo inteiro, decidi que aquele naquela volta eu iria pular. E pulei. Talvez a prática virtual em salto em distância, que acompanhava pela TV, me auxiliou, pois estiquei os pés pra frente, aumentando as chances de atingir o tal do muro. Tudo entre "aspas", afinal, o que dava pra fazer de profissional aos nove anos de idade, com a ideia quase nula de perigo? Talvez até tenha sido um milagre de natal, para o qual faltava 2 semanas, mas meus pés foram longe, eu me senti no ar por quase um minuto, embora na prática e utilidade científica definida por Gauss aos segundos, eu deva ter passado nem 3s flutuante. No mais do mais. Aconteceu: meus pés atingiram o muro de cimento farpado, cujo nome hoje ainda desconheço, inclusive ralando meus dedos levemente. Boquiabertos, Mizaela e Fabrício presenciaram, cumprimentaram, ela com um abraço, ele com um aperto de mão sem jeito. Nem lembro se a cadeira deu a tal da volta de 370º, esquecemos de ver isso. Acontece que eu fui dormir, àquela noite, com uma aposta ganha. Embora mais curta, eis a segunda parte da história:

Durante a tal da semana, ganhei os lanches de Fabrício e Mizaela, embora os dela eu em geral preferia, por serem sempre mais apetitosos. Fabs, como o chamaríamos na oitava série, levava de lanche quase sempre a mesma coisa que eu: biscoitos genéricos de sal e isopor. Portanto, dele, eu mais fiquei com as figurinhas. O balanço foi meu por aquela semana, sim, e esta parte foi gratificante. A moral de chegar no parque "podendo", e ver meus dois amigos levantando para me dar lugar é inesquecível (embora só tenha ocorrido de fato umas 3 ou 4 vezes). Porém o divertido - e sádico - lado da história, era, sim, com desrepeito às campanhias. Poupei Mizaela do pesadelo maior, embora ela fosse ficar apreensiva mesmo assim. Já Fabrício não teve escolha, todo dia na escola eu ameaçava tocar a campanhia de madrugada em sua casa. Ele implorava, pedia um não, tentava aumentar apostar pro lado dele, com mais comida gratuita, mas eu não aceitava. No primeiro dia, não fiz nada. No segundo, lembrando que a semana teria sete, eu deixei de tocar o dia inteiro, para tocar apenas às 21 horas. Minha mente criminosa sempre me assustou, e se mostrou... como se diz em português? Em inglês é algo como "underused", pouco usada, desaproveitada, podia render mais. Minha conclusão era, enfim, que eu não ia abusar da traquinagem em si pois sabia que os pais do Fabrício não nasceram ontem: eu sabia que eles iam me descobrir, contar aos meus parentes, e eu ia me prejudicar. Porém, eu queria, precisava brincar com psicológico do meu coleguinha, cujo maior crime fora duvidar de mim. Pois bem:

O pesadelo de Fabrício durou 7 dias, sendo que de fato, eu apenas tocara a campanhia de sua casa em 3 momentos. A primeira, que já citei; a segunda, que foi no quarto dia, às sete da noite; e a última... ou melhor, foram "as" últimas. Bem, sabia eu, Fabs, estaria sozinho em casa naquela sexta, pois seus irmãos mais velhos viviam madrugada à fora em bares, e seus pais iriam a um show do Roberto Carlos (ou tralha que o valha). Naquela manhã, eu deliciosamente ameaçara de todas as formas o meu amigo, com sonoplastias repentinas durante a "forma", "piii piii", batendo "toc toc" na cadeira dele durante a chamada em aula, e perguntando, hipoteticamente, coisas como "o que você diria pro seu pai se ele entrasse no quarto de madrugada perguntando se você tem algo a ver com o fato da campanhia estar tocando todo dia de madrugada?". Repetia e lembrava ele que nunca, nunca poderia me entregar, e, vocês sabem como são crianças de noves anos quando coagidas. Talvez, hoje, bata um fundo de arrependimento em mim:

Àquela noite, de fato, toquei a campanhia primeiro às 22 horas. Tomei cuidado de não deixar claro que eu lembrava bem do programa da família de Fabrício neste dia. Intensificar o terror. Novamente, depois, as 23h30. Meus parentes sempre foram de dormir cedo e de ter sono pesado, não dariam por minha falta tão cedo. 00h e 00h30, toquei estridentemente, sempre correndo escada abaixo com velocidade. Morava apenas um andar abaixo, no caso dele. Mizaela eu perturbei apenas uma vez de tarde, que eu sabia que ninguém lá dormia cedo. Finalmente: esperei na portaria do prédio (que naqueles tempos de violência moderada, tinha porteiro só de vez em quando) pois já havia decorado onde os carros dos pais de Fabs estacionavam. O plano era: quando os veria estacionando, subiria o elevador, que eu já teria chamado no primeiro andar e travado a porta com chinelo para que ele não subisse. E assim foi, fí-lo, corri, subi o andar, toquei novamente a campanhia de Fabs, já por volta de 00h59, e desci de novo em casa. O resultado, só viria saber no dia seguinte, quando fiz uma visita casual à família. Entre uma sessão de video game e outra, conversamos mais ou menos isso:

F: - Oi, eu sei que hoje é o sétimo dia, e você ainda pode fazer de novo, mas por favor, não, não, não, pára! Eu não consegui dormir direito ontem, porra, porra, porr..
E: - Sua mãe te deixa falar palavrão, agora? Enfim, o trato foram sete dias, e hoje tem mais. Se prepara, sem beiço
F: - Por tudo, por tudo, pára, ontem por muito pouco você não acordou meus pais. Sorte que eles tinham saído. Nossa, você é maluco, idiota, louco, pera, minha mãe tá vindo...
E: - Oi, tia. Tem biscoito ainda? Obrigado...   Pronto, já foi. Diga
F: - Você ri? Mas é sério! Meu pai já chegou puto ontem porque ele e minha mãe tinham brigado, se eles ainda acordam por causa da campanhia, por favor, para, para com isso
E: - Vou pensar
F: - Por favor. Eu faço qualquer coisa
E: - Qualquer coisa?
F: - É
E: - Então.. vou pedir uma coisa. Envolve a Mizaela também, então, você vai ter que convencê-la. É ass... OI, Tia!! Obrigado pelos biscoitos, Sim, meus parentes vão bem. O quê? Me interfonaram e pediram pra eu ir pra casa? Tá, já venho, Fabrício!
F: - Tá

Chegando em casa, meus parentes mandaram tomar banho pois iríamos no casamento de uma outra parente em outra cidade. Só voltaríamos depois do almoço do dia seguinte. Ah, claro, o maldito bizarro casamento de merda! Que falha maldita no meu plano! Ainda hoje me emputeço. Jurava, na época, que a data marcada era na semana por vir, e durante os últimos dias passava pouco tempo em casa para conversar com as pessoas e me lembrar do fato. Falha de amador, erro que pode valer a vida, mas que, felizmente, nunca mais repeti. Nunca houve outra chance de ter os dois em uma aposta, à mercê de mim dessa forma. Certas lições se aprende cedo. Resumida a missa: isso, consequentemente, arruinou os planos preparados até então. Ou melhor, arruinou os planos (adoro reticências)... até dois dias atrás, quando recebi uma visita inesperada: comecei a escrever estas mal traçadas linhas, embora agora tanto-faça, afinal já estou passando à limpo na máquina de escrever, fechei a janela por conta dos mosquitos; escrevia porque precisava registrar e explicar, o que aconteceu há duas semanas: estava eu, dormindo, aqui em casa, madrugada de sexta feira, sonhando provavelmente com carne e minha coleção de armas brancas, quando tocou novamente a campanhia:

E: - Porra, quem é essa a hora? quem é?
F e M: - Somos nós!
E: Nós? Nós quem?
M: - Fabrício e Mizaela
F: - É.

E: - Não acredito! ... Entrem, entrem! Como estão... além de bêbados: agora?
M: - Oi, oi, abraço! Estamos bem, estávamos passando, e, bem, é uma longa história, e estou meio bêbada, mas...
F: - Ó, resumindo, esses dias minha mãe encontrou aquele seu parente na rua de baixo, e pegou seu endereço. Levou lá pra casa e esqueceu de me dizer, a coisinha me lembrou só hoje cedo. Anotei, porque a gente trabalha aqui perto, aliás! nós estamos trabalhando juntos há alguma semanas. No Tribunal Regional do Trabalho, sabe? Ali na Almirante Barro...

E: - Sim, eu sei. E como vocês estão bêbados? Nossa, que cheiro..?
M: - Há...! Longa história, mas era um aniversário dum colega do trabalho, bebemos, mas tivemos que sair cedo, estamos meio que botando a conversa em dia também, falta de tempo, e nossa, estamos aqui! surpresa! Longa historia, mas durante o papo ele lembrou que tava com seu endereço na bolsa, e, quanta coincidência junta... daí resolvemos dar uma passada! O seu porteiro pareceu não se importar, tava mais com cara de sono que qualquer coisa..

E: - É, um dia ele vai pagar. Mas, entrem, café? Tinha acabado de deitar, mal peguei no sono
F: - Sabe que horas são, "Ê"?
E: - Ainda me chama disso? Enfim, agora são... 3 pra uma
F: - Sim! Três pra uma! Lembra do que você fez comigo mais ou menos nesse horário, há tempo pra caralho atrás?

M: - Você falou que não ia tocar no assunto
E: - Lembro.. e, você sabe?
M: - Ele me falou hoje mesmo, não levei a sério. Falei que não importa, pô, a gente não se vê desde o terceiro ano, e isso já passou..

F: - Passou, eu tô de boa, pô. Só queria ver se você lembrava. Aquele dia eu fiquei perturbadaço
E: - Sempre inventando palavras, risos
F: - É. Bela risada, como sempre. E o café?

E: - Tem ainda fresco, eu fiz há pouco tempo. Quer leite junto?
M: - Eu aceito. Nossa, desculpa nosso estado... depois, eu juro, juro que fazemos uma visita mais decente e sóbria.
F: - Pois é, e foi mal, se fiquei meio grosso, mas é que fiquei bolado com isso na época, só que nunca falei. Meu psicólogo... bem, meu psicólogo falou pra eu passar a me abrir mais, e..
E: - Relaxem, a hora não podia ser melhor.

M: - Por quê?
E: - Não sei, estou sozinho, ultimamente, bom conversar com alguém. Mesmo que sobriedade não seja o assunto...

F: - Ora, beba também! Tá cedo, bora descer num bar qualquer, entorna umas e..
E: - Não, melhor aqui. Não preciso beber, mas se quiserem, tem um pouco de vodka no freezer da geladeira. Pego pra fazer drink às vezes. Não é das melhores, mas.. Quebra um bom galho.

F: - Smirnoff, pô! Tá ótimo, na faculdade já bebi tanta coisa muito pior que isso..
M: - E eu que só passei a beber destilado só quase na minha formatura!?
E: - É... entendo. Bebam mais, então. Querem caipirinha?
M: - Quero
F: - Quero, bora
E: - Boa

(...)

E: - Está bom?
F: - Ótimo!
M: - 'Cê não vai querer beber não?
E: - Não, vai me atrapalhar.
M: - Atrapalhar pro quê?

E: - Pro que eu quero propor pra vocês
F: - E o que que é?
E: - Não sei se devo dizer.. Digo, não nos vemos há muito tempo, mas é algo que venho tentando
experimentar não é de hoje. É um jogo

M: - Bora! É o jogo do "Eu nunca?"
F: - Eu pilho, bora
E: - Não, quase..
F: - Fala, ainda

M: - Fala, o máximo que pode acontecer é a gente não querer brincar por estar quase passando mal
E: - Certo. É o seguinte, é de fato um jogo pra três pessoas. Não, ainda não tem nome. Eu pego um baralho... divido em três. Cada um de nós pega a primeira carta, do recorte que fizer. Quem tem a carta mais alta, ganha. Ás é a carta mais alta, não vale "1". Em caso de empate com cartas de mesmo naipe, a hierarquia entre naipes é: Paus, Ouro, Copas, Espadas.

M: - Certo, é fácil, mas quem perde perde o quê e quem ganha, ganha o quê?
F: - É, entendi, mas é isso ai, no que vai dar?
E: - Então...
M: - Fala! Vamos apostar dinheiro?

E: - Não, vamos apostar sexo
M: - Quê?
F: - Que porra é essa?
E: - Isso, o vencedor ganha o direito de fazer sexo com um ou dois dos perdedores, na posição que quiser, onde quiser, nessa casa. Topam?

F: - Que ideia doente, você come merda?
M: - ...
E: - Vamos, vai ser divertido. Adrenalina
M: - Essa proposta é muito mais interessante pra vocês do que pra mim, certo?
F: - Tá, pera ai, você me acha feio?

M: - Não é esse o ponto, mas é sexo fácil e barato, numa aposta troncha, bem, eu consigo me deitar com caras em situações bem mais dignas que isso. Vocês são homens, qualquer coisa é jogo
E: - Vamos, estamos entre amigos, seja o que acontecer, isso nunca sairá dessas quatro paredes. Ou cinco...

F: - Tá, peraí, você me acha feio, Miza?
M: - Não, porra!
E: - E a mim, você acha?
M: - Mão! Quer dizer, n... eu tô bêbada, sem camisinha, com dois amigos de infância, um tá querendo comer todo mundo.. eu estou tentando ser a mente mais sã daqui.
E: - Eu tenho várias camisinhas aqui em casa, e, se não confia em mim, aposto que o Fabs tem um ou duas na carteira dele

F: - Foda é que eu tenho mesmo
M: - Porr.. tava pensando... pensando em me comer, safado?
F: - Não sei! Era uma festa, pessoal do trabalho, um homem tem que se previnir, porra
E: - Acho que vocês estão começando a ceder. O que acham?

M: - Não sei.
F: - O vencedor escolhe a forma e com quem dos outros dois ganhadores vai fazer? Assim, se quiser pega os dois, senão quiser, pega ninguém? Se quiser, pega só um... sei lá
E: - É, é isso. Se você ganhar e ainda assim não quiser nada, ninguém vai forçar ninguém a nada. Gente, é só uma brincadeira. Tá, certo, de gente grande. Mas, claro, não estamos no parquinho brincando de gangorra..
M: - Ou de balanço...
E: - Exatamente, vocês lembram, não lembram? Daquele dia.
M: - Sim, começamos a conversa falando disso, "Ê". Enfim...

E: - Enfim, vamos?
M: - Vamos. Mas só se... só se eu puder ver vocês pelados antes de decidir. Assim, se eu ganhar.
E: - Por mim, ótimo
M: - Ainda não sei...
F: - Tá, foda-se. Miza, na faculdade você deve ter feito coisa muito pior que isso... e com gente estranha. Então nem vem. Faculdade de Direito só tem orgia. Eu sei, eu cursei tam..
M: - Nem vem mandando esses papos pra cima de mim não, uma coisa nada a ver com a outra, enfim, dane-se, vamos tirar essas cartas logo e ver no que dá

E: - Falou que nem uma mulher do gueto. Agora te respeito. Vamos
F: - Tá, tá, vamos.
E: - Aqui. O baralho.
F: - Ótimo. Primeiro a minha
M: - Depois a minha
E: - Agora eu. Vamos virar todos juntos:
M: - (...)
F: - (...)
E: - (...)

F: - Ganhei
E: - Sim, Rei de paus. Só tenho Dama de Copas
M: - E eu, uma porr.. dum quatro...
F: - E agora?

E: - Escolhe quem você quer transar. Ou se quer transar com alguém. Ou se não quer nada.
F: - Porra, sei lá, isso é muito estranho. Acho que não vou fazer nada não.
E: - Então, joguemos as cartas de novo
M: - Como assim, tem mais?

E: - Sim. Eu nunca disse que seria uma rodada só.
F: - Tá certo, joga isso ai e vamos ver no que dá
M: - Tá, tá.
E: - De novo. Viremos nossas cartas juntos. Só pegar outra do monte que já temos
M: - Vai

F: - Agora perdi, 3 de paus
M: - Valete. Espadas
E: - Valete. Paus. Ganhei.
F: - ...
M: - Vamos fazer o quê?
E: - Eu quero transar com vocês dois. Ali na sala
F: - Puta que pariu, não acredito, o que tem na sala?
E: - Uma rede. Que balança. Lembra bastante o balanço de infância, não? Nunca transei com ninguém nela.
M: - Tá, vamos. Mas pega camisinha, porra, eu tô bêbada mas não tô maluca

E: - Beleza. E aí, Fabrício, vamos?
F: - ...
M: - Anda, decide logo
E: - Vem, Miza, antes que o álcool vá embora...

E assim, num ciclo, acabei realizando este sonho de infância. Na manhã seguinte, os dois foram embora sem olhar para si nem olharem para mim, embora de fato tenhamos feito um sexo careta, diferenciado apenas pela rede de balanço. Nem aproveitaram para assistir televisão na minha TV gigante; sábado pela manhã, passam vários desenhos retrô na Cartoon Network, seria outra forma de relembrar a infância. Posteriormente, ainda marquei um ou dois encontros com a Miza; já Fabrício, provavelmente com vergonha, nunca mais nos procurou. Neste final de história, consegui realizar meu sonho: porém, apenas pude reprisá-lo com a metade feminina da fantasia. Embora eu jure que ele tenha gostado da parte que desempenhou na brincadeira. Miza se revelou uma pessoa muito mais liberal, divertida e acessível que Fabs, que logo no ano seguinte se casou e se recusou a voltar a beber conosco. Exatamente nesta época, pelo o que parece, também fez prova e em pouco tempo foi chamado para outro Tribunal, em outro estado, que sequer fiz questão de saber. Mizaela e eu nem voltamos mais a fazer essas coisas: boa parte da "graça", no sentido laico do termo, se perdeu depois que nosso amigo se ausentou permanentemente:

Já é noite, a máquina de escrever* rabiscada em tintas e rasuras, em linhas praticamente mal traçadas pois tenho preguiça de ajeitar regularmente o papel a cada nova mexa. No mais, evitarei dormir ou travar relação sexual com alguém nesta rede de balanço novamente. Os coberturas de lã nunca ficam no lugar e há muitos mosquitos nesta casa maldita; acordamos nós, o casal, empelotados e com alergias. Não é o ideal. Ante ontem passei por uma loja de brinquedos, havia um balanço, parecido com o do nosso parquinho do prédio, à venda. Porém, de plástico, jamais aguentaria o meu peso, ou o peso de eu e mais um. Será que encomendam em tamanho adulto? Sou um péssimo mentiroso, não saberia criar um pretexto falso para ter um objeto destes pendurado na minha sala. E já sou visto com estranheza por amigos que me prestam visitas repentinas e veem, às vezes, a rede de pano pendurada no caminho. Mandam me comprar mais um sofá-cama, pois também serve para amigos bêbados dormirem por aqui após as festas. Insisto e defendo meu artefato, quase indígena, de descanso. Essa geração moderna: perdendo muito dos antigos prazeres.

*A respeito da máquina de escrever, na verdade escrevi diretamente ao computador, só inventei essa história por soar mais poética, retrô e pedante no corpo escrito. 

terça-feira, 14 de agosto de 2012

40 Polegadas


F: - Eu acho que Evandro vai chegar a qualquer momento
G: - Se liga, já te falei, cara, ele não vem.
F: - Ele te disse isso? porra, e se ele te disse, por.. porquenãomiavisoutambém?
G: - Calma, me avisou porra nenhuma, mas eu sei que ele não vem. Conseguiu uma coisa mais interessante lá debaixo das doca.
F: - Mas era pra ele se ligar só no número de segurança e pronto. Era pra perguntar se tinha emprego, pra ficar de bituca e ver se os hôme vigiava aqui. Não era pra arranjar um de verdade, puta que pariu! Planejo a coisa toda, a embarcação com as televisão da gringa chega em meia hora, e cadê? como é que esse viado me arranja um emprego do nada?
G: - Não é emprego, é bico, ele comentou por cima, mas eu tô ligado na dele não é de hoje, da outra vez foi assim também
F: - Que outra vez? Que outra vez éessaquetunãomefal.. falou?
G: - Ah, já tive um esquema com esse moleque antes, mas na época não era do crime não. A gente tinha sei lá uns 19 ano, montamo uma barraquinha lá perto de casa, pra vender cachorro quente. A minha mãe fazia a salsicha, o molho cheio das cebola, a mãe dele ia ajudar no capital inicial, a gente retornava só o que ela gastou e o lucro era da gente. Eu ficava num canto da comunidade, ele noutro, iamos fazer tipo uma rede de fast-food, tá ligado? Bolamo até um nome, "Hotdog Xpress", curtia porque lembrava dos Xmen, lembra desse desenho?
F: - Caralho, termina de contar o que ele fez, porra. Tu já ligou pra ele?
G: - Já, dá fora de área. E tá, caralho, então, ficamo nem uma semana, esse corno me arranjou de trabalhar numa barraca de pipoca no Leblon, conhecido de conhecido, furou nosso esquema legal, viado nem e avisou e tive que botar meu irmão menor pra cuidar de um dos carrinho. Foda.
F: - Se tu não confiava, por que chamou ele pr'esse esquema de agora, caralho?
G: - Não tinha ninguém pra chamar, tu acha que é fácil achar maluco pra fazer isso? Tinha ninguém. Sem contar que ele nem sabe como funciona o esquema mesmo, só sabe que é muamba, vai ajudar a gente carregar e só.
F: - E tu ainda me põe esse filho da puta do Evandro pra trazer outro pra ajudar a carregar. Se só nós dois pegarmos os 60 televisores que temos que pegar, vai demorar o dobro de tempo, e tu sabe que não podemos chegar lá com menos de 60 televisão, que a gente vai acabar ganhando é nada.
G: - Eu sei, tu tá repetindo isso desde o primeiro dia, fica quieto, vamo esperar o barco chegar e dai a gente vê o que faz.
F: - E como que o cara fala que arranjou emprego no Porto e tu me fica quieto com ele?
G: - Ele falou que tava dentro ainda, dentro dos esquema, que depois do roubo ia tentar ficar de boa. Bem, ia continuar repassando maconha pros granfino ali de Ipanema, até porque prenderam o cara que fechava com geral lá. Virou festa. Os playboy tudo subindo o Cantagalo pra revender.
F: - É, se ele furar o esquema de hoje, já sei onde achar o viado. Furar ele todo.
G: - Calma, Fernandão, calma, ele deve aparecer já, já.

(...)

F: - Que barulho é esse?
G: - A embarcação?
F: - Não, porra, falta 10 minuto ainda, e isso é barulho de gente, sua anta. Tem alguém vindo aí, abaixaabaixa.
G: - Tá, tá.
F: - Fica aqui de bituca, vê se vem alguém
G: - Fala baixo, porra
F: - É ele?
G: - Não, é outro, mas acho que conheço
F: - De onde, caralho?
G: - Essa cara num me é estranha, de onde? porra, acho que é conhecido
F: - Tem certeza? Se a gente sair daqui e não for tamo fudido.
G: - Pera, vamo ver o que ele vai fazer.
F: - Tá fazendo nada, parece que tá procurando alguma coisa
G: - Será que Evandro mandou um parceiro pra ajudar?
F: - Sei não, talvez
G: - Ele tá tirando um troço da mochila, ele tá de mochila, será que é arma?
F: - Acho que é
G: - ...
F: -  ...
G: - Não! caraca, é um troço cumprido. Ele tá.. tá comendo?! Sentou no chão e tá comendo!
F: - Puta que pariu, eu mereço, esse viado vai atrapalhar os esquema, pega a .38 ae
G: - Que mané pistola, trouxe porra nenhuma não, só porrete mesmo, tu falou que era tranquilo, não ia dar polícia ou segurança, gosto dessas coisa não.
F: - Uma porra de ladrão que não anda armado, quer morrer mesmo nesse caralho, né?
G: - Cala a boca, olha ele, parece que ouviu a gente
F: - Tá pegando outra coisa na mochila, porra, prepara pra correr
G: - Cacete, é uma arma, fudeu, corre, Gilvão...
F: - Né porra nenhuma, acho que é um pedaço de pão
G: - Foda-se essa porra, cara, vambora.
F: - Tamo fudido se não terminarmos a porra do esquema, cara
G: - Ele tá vindo pra cá, acho que ele tá vindo pra cá
F: - E agora, porra?
G: - Sei lá.
F: - Prepara pra pular em cima dele. Tenho umas faca aqui, toma uma.
G: - Que, que eu faço?
F: - Enfia no cu dele, né? fica quieto.
G: - Tá, tá. Pera, no cu dói, pode ser na orelha não?
F: - No traseiro, pode ser que ele não morra, mas na orelha tu fora o cérebro do cara. Tu é inteligente pra caralho, eim?
G: - Pera, ele tá vindo...

(...)

E: - Esse ônibus que não passa, preciso ralar...
T: - Já te falei que ele não passa depois de meia noite, tínhamos que dar a volta e pegar na Presidente Vargas.
E: - Dá não, muito longe, não tenho mais saúde. A bolsa aqui pesando também. Olha ali, é ele!
T: - Né não, tá indo pra garagem
E: - Não acredito
T: - Vai fazer o que amanhã?
E: - Começo um trampo ali no cais do porto, conhecido de conhecido me arranjou
T: - E tá fazendo o que aqui essa hora?
E: - Tinha que entregar uns bagulho... e tu, como tua mãe vai?
T: - Vai bem.
E: - Tem dois caras caminhando pra cá, tô ficando bolado, bora pra Central
T: - Mandou, bora
E: - ...
T: - ...
E: - Tchutchutcha...
T: - ...
E: - Isso foi tiro?
T: - Sei lá.
E: - Pouts, acho que foi, apressa o passo, cara.
T: - Tá
E: - Caralho, caralho
T: - Que foi, porra, os maluco já foram pra outro lado. Que é?
E: - Fica quieto e segue reto
T: - Porra, te falei pra gente ir..
E: - Anda, anda. Cacete.
T: - Por que tu tá bolado?
E: - Tinha um esquema ali no cais, conhecidos meus. Cacete, será que deu merda?
T: - Foi mais pro lado da rodoviária, eu acho
E: - Tem um carro vindo varado aí, pouts
T: - E daí?
E: - Vai, se esconde atrás do ponto de ônibus. Se joga, anda-anda!
T: - ...
T: - Passou reto, subiu a Rio Branco
E: - Caralho, vamo aqui pelo canto, na moita, ninguém vai ver a gente.
T: - Nunca mais fico no bar até tarde em plena quinta feira, que estresse, cacete!
E: - Fica na boa ae, tá tudo tranquilo. Nem foi tiroteio. Deu nada. Ó, dá pra pegar um busu pra Central aqui na esquina, não precisamos andar tudo
T: - Primeira coisa que passar serve.
E: - É.
T: - ...
E: - Aí, chegou. Faz sinal, tô com bolsa.
T: - Bora.
E: - Boa noite, piloto.
T: - Que porra de esquema que tu tinha ali embaixo, Evandro?
E: - Taturana, fica na boa, melhor tu não saber
T: - Tá, tá. E tua irmã? Como tá?
E: - Casada e com filho. Ainda quer comer ela, moleque? Abre teu olho.
T: - Num fode, só perguntei, pô. Gente fina ela.
E: - Tem 20 centavos ai pra me inteirar?
T: - Passa na roleta não. Ae, piloto, pode aliviar nosso lado só até ali a Central?
P: - Tranquilo, fica ai mesmo
E: - Caralho...
T: - Que foi agora, cara?
E: - As crianças acordam cedo pra escola, colégio começa segunda que vem, já tão na alfabetização, acredita? Foda. Preciso parar de fazer merda, cara. Se minha mulher descobre, tô na merda. Preciso comprar lápis, caderno, pelo menos elas gostam de sala de aula. Outro dia me falaram de um país doido chamado Finlândia, Femlândia, sei lá..que fica no extremo norte dos oropa, neva quase o ano todo e é cheio de lugar bonito. Me mostraram uma penca de foto na internet lá de casa. O mais longe que eu fui até hoje foi pra Búzios, quando tinha 15, e moleque, e eles vem me falar da Terra do Papai Noel. Criança estudiosa enche a gente de orgulho, sabe? Tem que estudar hoje em dia, nego ai pós-graduado trabalhando em McDonalds... tu ri? É coisa séria. Tô até pensando em voltar a ir pra igreja batista, também. Opa, olha ae, tamo chegando. Bateu uma fome, vou pegar um pedaço..
T: - ...é foda, essas parada de Igreja, minha namorada tava falando...
E: - Puta... não acredito.
T: - Que foi?
E: - Roubaram meu pão, tinha uma bisnaga enorme aqui na bolsa. Não pode virar as costa um minuto, jesus! a patroa vai chiar pra caral...
T: - Fala que foram os cracudinho. Eu testemunho. Deve ter loja vendendo salgado 24h, tu compra pra quebrar um galho.
E: - É foda, cara.
T: - É foda.

Traças e Linho

De roupa em roupa
enchemos o guarda roupa
com as roupas do varau.

roupa de sair
de usar pra dormir
de ficar em casa
roupas do avesso
amassadas
roupa dobrada errada
a blusa azul turquesa que combina com quase nada
vovó: obrigado pelo par de meias
roupa de frio
esperando o próximo inverno
mas isso é Rio de Janeiro


e quisera eu
usar metáforas.




veja só
1 real no bolso dessa calça
acho que me rende meio poema.

domingo, 12 de agosto de 2012

Haikai Quietinho

O seu silêncio é tão bonito,
que vou calar a boca:
agora.


Brincadeira.
Sabe a saudade? Então.
Veio embalada num plástico
como brinde surpresa
dentro do pacote de salgadinhos.

domingo, 5 de agosto de 2012

Eu Maria Leão amo Anita Você
(Porque entre nós não quero nem uma vírgula
Apenas o verbo.)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Varal

Um bilhete
na gaveta de meias
escrito "até logo"
escritos dois telefones pra contato
de sete dígitos
papel umedecido
a marca de saliva, meio fóssil
do batom de quem não sei
amarelecida e seca a folha
daquela tarde inteira pendurada no quintal

dois sorrisos torciam,
deitados na rede,
como que tomando coragem,
pro céu acabar de bocejar
e se pôr antes das cinco,
que com a noitinha chegada,
iriam escrever de vez,
lá fora no muro,
com giz, um
"bom dia"
garrafal
pra ele ler, seja lá que horas resolver voltar ou passar
e ver que esta casa é algo além de tijolo, terra, medo.