Acordei com sol fraco, limpei as minhas unhas, uma coisa estranha grudou na minha língua. Preciso parar de lamber minha barriga. Com fome, visitei minha casa, meu dono anda sumido. Outro dia sem ração. Consigo coisas melhores, pelas lixeiras dos locais de comida da área, seria bom contar com uma comida certa com mais frequencia. Em minha segunda casa, telhados daqui, o humano que deixa comida de humano em uma canteira para eu me alimentar esqueceu novamente de fazê-lo. Preciso visitá-lo mais vezes. Esfregar-me com mais frequência em suas pernas, logo restarão me apenas as lixeiras, os ratos ocasionais. Os ratos estão crescendo também, difícil comê-los, são bichos mais agéis que costumavam ser. Ultimamente o número de humanos nas ruas e cantos desta cidade aumentou. Os locais de comida estão cada vez mais cheios, mais barulhentos com mais sobras nas lixeiras. Estranhamente eles desperdiçam grandes quantidades de comida todos os dias. Inclusive há horas certas para empilhá-las na parte de trás dos estabelecimentos. No início era apenas eu, conforto breve, outros gatos da vizinhança descobriram meu segredo. Frequentemente aparecem novos concorrentes. Estou ficando cansado, imponho-me pelo meu tamanho, e apelar para violência é necessário nos dias que aparecem vários outros famintos. Nenhum gato daqui anda em bando. Derrubo ou espanto um por um que me aparece, geralmente a partir do final da tarde, noite ou madrugada. Novatos que desconhecem o próprio território o qual tentam ser donos. Parece que vai chover em breve, mal lembro a última vez que choveu, tive uma ideia. Vou tirar outro cochilo. As ruas estão cada vez mais perigosas, tenho vários conhecidos morrendo envenenados nos últimos tempos, preciso me cuidar. Outros são mortos por pedaços de pau por humanos furiosos. Ouvi falar que certos homens tem despelado nossos corpos, fritado nossa carne e se alimentado. Tenho nojo. Mesmo assim surgem mais gatos, minhas brigas tem se tornado cada vez mais frequentes, tenho dificuldades de me estabelecer. Estou grávido pela primeira vez. Fica tudo mais difícil, a barriga aos poucos pesa mais, tenho mais sono e fome. Pelo meu tamanho me impunha conseguindo afastar possíveis amantes, com violência se necessário, só que mal tinha subido o sol quando fui pego desprevenido. Era um gato ligeiramente maior. Quando ele abaixou a guarda consegui cortar sua face, o fracote correu gritando a dor, já era tarde demais. Pelo menos acho que nem tantos filhotes vêm por aí. Trabalhoso, a chuva passou, acho que sinto cheiro de peixe. Toda casa parece agora ter filhotes de cachorro. Logo eles estarão maiores, e transitar para os lados se tornará mais arriscado, ou simplesmente menos discreto. Amanhã é dia de peixe empanado em outra casa telhados daqui. Hoje foi dia de macarrão, alimento que apenas belisco, quando tanto. Prefiro peixe. Às vezes penso em um lugar onde haja peixes por toda parte, nunca vi um vivo, apenas cozinhados ou congelados. Pergunto-me como caminhariam no chão. Gostaria de ir para bem longe, conhecer outros bichos e descobrir o lugar de onde todos os peixes vêm. Distantemente. Perderia território em minha cidade, recuperá-lo depois seria pouco provável, além da dificuldade de me adaptar a um local totalmente novo. Sou um dos maiores gatos destas bandas. Quem me garante que lá haverão bichanos menores como aqui, e se todos forem maiores do que eu e eu que me tornasse o gato magro e fraco? Lembrei que um amigo também teve filhos. Escondeu a si e os filhotes atrás de uma casa velha, onde outros conhecidos e desconhecidos costumam se arrastar perto da hora de morrer, lá tem água fresca. Talvez eu use o mesmo local quando chegar minha vez. Este amigo teve menos sorte com sua ninhada, nasceram vários, e a maioria continuou viva. Ele terá dificuldades para se alimentar com tantos filhotes mamando o tempo inteiro. Outro fato me ocorre, a caminho de uma das refeições, passei por um terreno vazio coberto por vegetações. Encontrei um humano morto. Isto me ocorreu outras vezes, lembro vagamente, pois cheiravam todos muito mal. Tinha também vários buracos espalhados na altura do peito. Este tinha o rosto e seu corpo diferentes, bem diferentes dos outros humanos quando sentem dor, ou quando estão gritando. Já feri alguns, quando ameaçado, por isso entendo do assunto. Pouco me orgulho disso. Coberto por terra molhada em um canto, pergunto-me se este seria meu primeiro dono, que mal vejo há semanas. Queria poder lembrar de seu rosto, lembro que me chamava "Jô...", ou outro som parecido com este. Era um bom humano. Às vezes me dava uma bebida branca, morna, parecida com a que eu bebia das tetas do gato que me pariu. Mesmo defunto, e inusitado, aquele humano ali no chão me parecia bem. Deve ter morrido de barriga cheia.
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
Assinar:
Postar comentários (Atom)

O_o
ResponderExcluirEstou confusa.