Começo a escrever estas mal traçadas linhas porque: mal traçadas estão pois as escrevo, ao vivo, direto da minha rede. Minha rede nova, esticada, instalada recentemente na sala de estar, foi minha melhor aquisição nos últimos tempos. Melhor que a televisão 200 polegadas que ocupa uma das quatro paredes inteiras da sala, que eu ligo apenas à noite para assistir os jornais; melhor que assinatura da Revista "Eras", especializada em história e antropologia acadêmica; melhor que meu microondas novo, que além de "novo", é programado para cantar uma canção diferente à cada dia da semana que eu entro na cozinha pela manhã, embora eu talvez devesse esperar até o Natal para adquirir a nova versão customizada, que varia cantando canções temáticas de chuva, neve, e de datas festivais, conforme seu calendário interno; melhor inclusive, digo, quase melhor que o meu telescópio que instalei e agora está na janela do meu quarto. Começo a escrever e está sol, que bate diretamente na rede, aquecendo o pano e deixando um "cheiro de Sol" pela sala, e acho que apesar de deitado, esta é a melhor sensação que ela me garante. Comecei a escrever de dia, mas agora revisando já escurece, e ao terminar, mais provável que seja noite. Muito porque decido e tenho que escrever logo o fato que será descrito a seguir, menos pela sua importância e mais pela minha memória, que, agora adulta, tende a se tornar seletiva. Alzheimer chega para todos, em maior ou menor grau: está aí uma prova que a ciência um dia há provar. No mais:
Escrevo logo pois preciso contextualizar, e inclusive relembrar em ato de exercício, um ocorrido recente na minha vida cotidiana. Pois bem, em primeiro momento, tinha eu 9 anos de idade, juntamente com Mizaela e Fabrício, em um final de tarde, no "parquinho" do prédio (dependendo do ano que você nasceu, chamaria-o de "playground", ou, abreviadamente, "play"). Disputávamos os lugares do balanço. Por quê: recentemente, dos três balanços principais, um estava enferrujado a ponto de já ter rendido uma vacina de tétano para um amigo próximo; o segundo tinha as correntes quebradas, cuja cadeira havia sido retirada para conserto; e apenas o terceiro, este terceiro sim, próprio e perfeito para nossa atividade de risco. Tal atividade consistia em jogar-mo-nos à distância, e ver quem chegaria mais longe. O parquinho não era dos maiores, porém grande o bastante para ninguém jamais ter conseguido o feito de atingir o muro externo, de cimento, que marcava o limite da área coberta de areia. Pois bem:
E: - Hoje eu finalmente vou conseguir chegar lá
F: - Não vai não, o recorde é de Tales, ele chegou na altura da terceira gangorra quando pulou aquele dia. Você nunca passou da segunda gangorra
E: - Sim, mas hoje eu consigo. Tô treinando, às vezes desço aqui de noite pra ficar treinando sozinho
M: - Mentira, não mente que é feio
E: - Tá, eu não treino de pular, mas fico treinando impulso. Só o impulso, sabe?
F: - Mentira
E: - Verdade, e eu te provo
F: - Como?
M: - É
E: - Hoje eu consigo chegar além da terceira gangorra, e quase roçar no muro de cimento farpado
F: - Aiii... o nome nem é esse
E: - Dana-se, eu vou
M: - Não é perigoso? Daquela vez que você forçou, deu de bunda no chão e nem foi tão longe
E: Sim, é difícil pra daná, né? Mas eu consigo. Acho que consigo até girar o balanço uma volta completa
F: 360º?
E: O quê?
F: Meu pai me disse que uma volta completa são 360º, e que é muito perigoso fazer isso
E: Por quê? Que que seu pai sabe de balanço? Ele não vive em escritório?
F: Ai, seu burro, meu pai é engenheiro, tá? Ele tava me explicando, fez umas contas que não entendi, mas parece que não dá pra dar uma volta sentado na cadeira. Não dá, não tem impulso, sei lá. É mais provável da cadeira não ir toda e tu dá de cabeça com o ferro que segura. Ele me proibiu de continuar saltando balanço também
M: O pai de Fabrício tá certo, e minha mãe me proibiu também de pular
E: Claro, claro, tá certo, né, sua anta
M: Não me chama de anta
E: Não você, Fabrício
F: Porr..
E: Claro que eu não vou girar 370º graus, eu só acho que dá pular tão longe e deixar a cadeira dar uma volta toda. Não vou ficar na cadeira pra ver, vou pular, né? dã...
F: Duvido
E: Duvida mesmo?
M: Fala "duvida" não, que ele é maluco. Vai acabar se machucando e vai sobrar pra gente
F: Duvido mesmo, você é só... só.. gogó.
E: Você nem sabe que que isso, que palavra é essa? Enfim, não interessa, façamos assim, se eu conseguir isso... quer saber, vâmo apostar?
F: Vâmo. Agora.
E: Beleza, não. Não aperta minha mão agora. Ouve primeiro. Se eu ganhar, essa balanço bom é meu durante uma semana. Só meu, só de eu chegar aqui no parquinho, você vai ter que levantar e me dar lugar.
E também você vai me dar metade do seu lanche todo dia semana que vem na escola.
F: Por que não todo?
E: Porque não quero que você passe fome, também. Mas tem mais, o principal: se eu ganhar, você vai me dar todas as figurinhas dessa semana que vem que vierem nos salgadinhos. E as que vierem no Toddynho também! E, o principal: agora sim é o principal:
M: O quê? O quê?
F: Fala logo, porra
E: Óia, até falou palavrão! Milagre! Então, o principal é que você e a Mizaela vão me deixar tocar a campainha da casa de vocês a semana inteira. Qualquer hora. Manhã. Madrugada. Vou tocar, vou sair correndo de volta pra casa, e vocês vão saber que fui eu, mas não vão poder falar nada pros seus pais. E aviso logo: adoro andar por aí de madrugada!
F: Você é idiota, vai acordar meus pais, eles vão ficar puto! Vai sobrar pra mim, porra!
M: Pra mim também, e por que eu tenho que estar no meio? E o que a gente ganha em troca?
E: A mesma coisa, da minha parte
F: Metade do seu lanche pra nós dois?
E: Sim, vocês racham. Figurinhas inclusive, mas ai já querem demais, vocês revezam. Mizaela nem liga pra isso
M: Tá, mas eu não quero participar, eu nem pulo mais! Faz um tempão que eu não pulo essa droga!
F: Tá, eu topo
E: Vai, Miza?
M: Pra quê? Por quê? Não!
E: A maior parte do pessoal tá viajando esse fim de semana, praticamente só tenho vocês pra testemunhar a parada. Se os dois tiverem pagando a aposta, a galera vai acreditar mais na história.
M: Tá, tá. Mas a parte da campanhia na minha casa não precisa. Não vou apertar a da sua casa mesmo
E: Tá. Fechado então? Agora podemos dar as mãos
F: Fechado.
M: Fechado, mas se você machucar, nem vou deixar seu pai te levar no hospital. Essa ideia é idiota.
E: Claro que você vai, você é marrenta mas é boazinha
M: Sou otária mesmo. Vai logo e fica quieto
E, calado, logo fui eu. Sim, tomando impulso, de fato, a parte de ter treinado de noite era só meia verdade. Fiz uma ou duas vezes no máximo, enquanto meu pai estacionava ou esperava vaga do estacionamento liberar. Eu tinha que dar credibilidade à peripécia. Não sei porque raios ia tentar aquilo, sabendo dos perigos. O principal motivo, que minha cabeça adulta e caduca cavouca na minha memória afetiva, era minha intenção de deixar uma recordação daquele pessoal de mim: iria me mudar em fevereiro próximo. E, claro: de impulso em impulso, me movi, e as correntes da única cadeira de balanço bom perdiam o ângulo reto quando estava atingindo maior velocidade. Voltando de costas, quando senti que minha altura já havia passado a do ferro de apoio, que segurava o brinquedo inteiro, decidi que aquele naquela volta eu iria pular. E pulei. Talvez a prática virtual em salto em distância, que acompanhava pela TV, me auxiliou, pois estiquei os pés pra frente, aumentando as chances de atingir o tal do muro. Tudo entre "aspas", afinal, o que dava pra fazer de profissional aos nove anos de idade, com a ideia quase nula de perigo? Talvez até tenha sido um milagre de natal, para o qual faltava 2 semanas, mas meus pés foram longe, eu me senti no ar por quase um minuto, embora na prática e utilidade científica definida por Gauss aos segundos, eu deva ter passado nem 3s flutuante. No mais do mais. Aconteceu: meus pés atingiram o muro de cimento farpado, cujo nome hoje ainda desconheço, inclusive ralando meus dedos levemente. Boquiabertos, Mizaela e Fabrício presenciaram, cumprimentaram, ela com um abraço, ele com um aperto de mão sem jeito. Nem lembro se a cadeira deu a tal da volta de 370º, esquecemos de ver isso. Acontece que eu fui dormir, àquela noite, com uma aposta ganha. Embora mais curta, eis a segunda parte da história:
Durante a tal da semana, ganhei os lanches de Fabrício e Mizaela, embora os dela eu em geral preferia, por serem sempre mais apetitosos. Fabs, como o chamaríamos na oitava série, levava de lanche quase sempre a mesma coisa que eu: biscoitos genéricos de sal e isopor. Portanto, dele, eu mais fiquei com as figurinhas. O balanço foi meu por aquela semana, sim, e esta parte foi gratificante. A moral de chegar no parque "podendo", e ver meus dois amigos levantando para me dar lugar é inesquecível (embora só tenha ocorrido de fato umas 3 ou 4 vezes). Porém o divertido - e sádico - lado da história, era, sim, com desrepeito às campanhias. Poupei Mizaela do pesadelo maior, embora ela fosse ficar apreensiva mesmo assim. Já Fabrício não teve escolha, todo dia na escola eu ameaçava tocar a campanhia de madrugada em sua casa. Ele implorava, pedia um não, tentava aumentar apostar pro lado dele, com mais comida gratuita, mas eu não aceitava. No primeiro dia, não fiz nada. No segundo, lembrando que a semana teria sete, eu deixei de tocar o dia inteiro, para tocar apenas às 21 horas. Minha mente criminosa sempre me assustou, e se mostrou... como se diz em português? Em inglês é algo como "underused", pouco usada, desaproveitada, podia render mais. Minha conclusão era, enfim, que eu não ia abusar da traquinagem em si pois sabia que os pais do Fabrício não nasceram ontem: eu sabia que eles iam me descobrir, contar aos meus parentes, e eu ia me prejudicar. Porém, eu queria, precisava brincar com psicológico do meu coleguinha, cujo maior crime fora duvidar de mim. Pois bem:
O pesadelo de Fabrício durou 7 dias, sendo que de fato, eu apenas tocara a campanhia de sua casa em 3 momentos. A primeira, que já citei; a segunda, que foi no quarto dia, às sete da noite; e a última... ou melhor, foram "as" últimas. Bem, sabia eu, Fabs, estaria sozinho em casa naquela sexta, pois seus irmãos mais velhos viviam madrugada à fora em bares, e seus pais iriam a um show do Roberto Carlos (ou tralha que o valha). Naquela manhã, eu deliciosamente ameaçara de todas as formas o meu amigo, com sonoplastias repentinas durante a "forma", "piii piii", batendo "toc toc" na cadeira dele durante a chamada em aula, e perguntando, hipoteticamente, coisas como "o que você diria pro seu pai se ele entrasse no quarto de madrugada perguntando se você tem algo a ver com o fato da campanhia estar tocando todo dia de madrugada?". Repetia e lembrava ele que nunca, nunca poderia me entregar, e, vocês sabem como são crianças de noves anos quando coagidas. Talvez, hoje, bata um fundo de arrependimento em mim:
Àquela noite, de fato, toquei a campanhia primeiro às 22 horas. Tomei cuidado de não deixar claro que eu lembrava bem do programa da família de Fabrício neste dia. Intensificar o terror. Novamente, depois, as 23h30. Meus parentes sempre foram de dormir cedo e de ter sono pesado, não dariam por minha falta tão cedo. 00h e 00h30, toquei estridentemente, sempre correndo escada abaixo com velocidade. Morava apenas um andar abaixo, no caso dele. Mizaela eu perturbei apenas uma vez de tarde, que eu sabia que ninguém lá dormia cedo. Finalmente: esperei na portaria do prédio (que naqueles tempos de violência moderada, tinha porteiro só de vez em quando) pois já havia decorado onde os carros dos pais de Fabs estacionavam. O plano era: quando os veria estacionando, subiria o elevador, que eu já teria chamado no primeiro andar e travado a porta com chinelo para que ele não subisse. E assim foi, fí-lo, corri, subi o andar, toquei novamente a campanhia de Fabs, já por volta de 00h59, e desci de novo em casa. O resultado, só viria saber no dia seguinte, quando fiz uma visita casual à família. Entre uma sessão de video game e outra, conversamos mais ou menos isso:
F: - Oi, eu sei que hoje é o sétimo dia, e você ainda pode fazer de novo, mas por favor, não, não, não, pára! Eu não consegui dormir direito ontem, porra, porra, porr..
E: - Sua mãe te deixa falar palavrão, agora? Enfim, o trato foram sete dias, e hoje tem mais. Se prepara, sem beiço
F: - Por tudo, por tudo, pára, ontem por muito pouco você não acordou meus pais. Sorte que eles tinham saído. Nossa, você é maluco, idiota, louco, pera, minha mãe tá vindo...
E: - Oi, tia. Tem biscoito ainda? Obrigado... Pronto, já foi. Diga
F: - Você ri? Mas é sério! Meu pai já chegou puto ontem porque ele e minha mãe tinham brigado, se eles ainda acordam por causa da campanhia, por favor, para, para com isso
E: - Vou pensar
F: - Por favor. Eu faço qualquer coisa
E: - Qualquer coisa?
F: - É
E: - Então.. vou pedir uma coisa. Envolve a Mizaela também, então, você vai ter que convencê-la. É ass... OI, Tia!! Obrigado pelos biscoitos, Sim, meus parentes vão bem. O quê? Me interfonaram e pediram pra eu ir pra casa? Tá, já venho, Fabrício!
F: - Tá
Chegando em casa, meus parentes mandaram tomar banho pois iríamos no casamento de uma outra parente em outra cidade. Só voltaríamos depois do almoço do dia seguinte. Ah, claro, o maldito bizarro casamento de merda! Que falha maldita no meu plano! Ainda hoje me emputeço. Jurava, na época, que a data marcada era na semana por vir, e durante os últimos dias passava pouco tempo em casa para conversar com as pessoas e me lembrar do fato. Falha de amador, erro que pode valer a vida, mas que, felizmente, nunca mais repeti. Nunca houve outra chance de ter os dois em uma aposta, à mercê de mim dessa forma. Certas lições se aprende cedo. Resumida a missa: isso, consequentemente, arruinou os planos preparados até então. Ou melhor, arruinou os planos (adoro reticências)... até dois dias atrás, quando recebi uma visita inesperada: comecei a escrever estas mal traçadas linhas, embora agora tanto-faça, afinal já estou passando à limpo na máquina de escrever, fechei a janela por conta dos mosquitos; escrevia porque precisava registrar e explicar, o que aconteceu há duas semanas: estava eu, dormindo, aqui em casa, madrugada de sexta feira, sonhando provavelmente com carne e minha coleção de armas brancas, quando tocou novamente a campanhia:
E: - Porra, quem é essa a hora? quem é?
F e M: - Somos nós!
E: Nós? Nós quem?
M: - Fabrício e Mizaela
F: - É.
E: - Não acredito! ... Entrem, entrem! Como estão... além de bêbados: agora?
M: - Oi, oi, abraço! Estamos bem, estávamos passando, e, bem, é uma longa história, e estou meio bêbada, mas...
F: - Ó, resumindo, esses dias minha mãe encontrou aquele seu parente na rua de baixo, e pegou seu endereço. Levou lá pra casa e esqueceu de me dizer, a coisinha me lembrou só hoje cedo. Anotei, porque a gente trabalha aqui perto, aliás! nós estamos trabalhando juntos há alguma semanas. No Tribunal Regional do Trabalho, sabe? Ali na Almirante Barro...
E: - Sim, eu sei. E como vocês estão bêbados? Nossa, que cheiro..?
M: - Há...! Longa história, mas era um aniversário dum colega do trabalho, bebemos, mas tivemos que sair cedo, estamos meio que botando a conversa em dia também, falta de tempo, e nossa, estamos aqui! surpresa! Longa historia, mas durante o papo ele lembrou que tava com seu endereço na bolsa, e, quanta coincidência junta... daí resolvemos dar uma passada! O seu porteiro pareceu não se importar, tava mais com cara de sono que qualquer coisa..
E: - É, um dia ele vai pagar. Mas, entrem, café? Tinha acabado de deitar, mal peguei no sono
F: - Sabe que horas são, "Ê"?
E: - Ainda me chama disso? Enfim, agora são... 3 pra uma
F: - Sim! Três pra uma! Lembra do que você fez comigo mais ou menos nesse horário, há tempo pra caralho atrás?
M: - Você falou que não ia tocar no assunto
E: - Lembro.. e, você sabe?
M: - Ele me falou hoje mesmo, não levei a sério. Falei que não importa, pô, a gente não se vê desde o terceiro ano, e isso já passou..
F: - Passou, eu tô de boa, pô. Só queria ver se você lembrava. Aquele dia eu fiquei perturbadaço
E: - Sempre inventando palavras, risos
F: - É. Bela risada, como sempre. E o café?
E: - Tem ainda fresco, eu fiz há pouco tempo. Quer leite junto?
M: - Eu aceito. Nossa, desculpa nosso estado... depois, eu juro, juro que fazemos uma visita mais decente e sóbria.
F: - Pois é, e foi mal, se fiquei meio grosso, mas é que fiquei bolado com isso na época, só que nunca falei. Meu psicólogo... bem, meu psicólogo falou pra eu passar a me abrir mais, e..
E: - Relaxem, a hora não podia ser melhor.
M: - Por quê?
E: - Não sei, estou sozinho, ultimamente, bom conversar com alguém. Mesmo que sobriedade não seja o assunto...
F: - Ora, beba também! Tá cedo, bora descer num bar qualquer, entorna umas e..
E: - Não, melhor aqui. Não preciso beber, mas se quiserem, tem um pouco de vodka no freezer da geladeira. Pego pra fazer drink às vezes. Não é das melhores, mas.. Quebra um bom galho.
F: - Smirnoff, pô! Tá ótimo, na faculdade já bebi tanta coisa muito pior que isso..
M: - E eu que só passei a beber destilado só quase na minha formatura!?
E: - É... entendo. Bebam mais, então. Querem caipirinha?
M: - Quero
F: - Quero, bora
E: - Boa
(...)
E: - Está bom?
F: - Ótimo!
M: - 'Cê não vai querer beber não?
E: - Não, vai me atrapalhar.
M: - Atrapalhar pro quê?
E: - Pro que eu quero propor pra vocês
F: - E o que que é?
E: - Não sei se devo dizer.. Digo, não nos vemos há muito tempo, mas é algo que venho tentando
experimentar não é de hoje. É um jogo
M: - Bora! É o jogo do "Eu nunca?"
F: - Eu pilho, bora
E: - Não, quase..
F: - Fala, ainda
M: - Fala, o máximo que pode acontecer é a gente não querer brincar por estar quase passando mal
E: - Certo. É o seguinte, é de fato um jogo pra três pessoas. Não, ainda não tem nome. Eu pego um baralho... divido em três. Cada um de nós pega a primeira carta, do recorte que fizer. Quem tem a carta mais alta, ganha. Ás é a carta mais alta, não vale "1". Em caso de empate com cartas de mesmo naipe, a hierarquia entre naipes é: Paus, Ouro, Copas, Espadas.
M: - Certo, é fácil, mas quem perde perde o quê e quem ganha, ganha o quê?
F: - É, entendi, mas é isso ai, no que vai dar?
E: - Então...
M: - Fala! Vamos apostar dinheiro?
E: - Não, vamos apostar sexo
M: - Quê?
F: - Que porra é essa?
E: - Isso, o vencedor ganha o direito de fazer sexo com um ou dois dos perdedores, na posição que quiser, onde quiser, nessa casa. Topam?
F: - Que ideia doente, você come merda?
M: - ...
E: - Vamos, vai ser divertido. Adrenalina
M: - Essa proposta é muito mais interessante pra vocês do que pra mim, certo?
F: - Tá, pera ai, você me acha feio?
M: - Não é esse o ponto, mas é sexo fácil e barato, numa aposta troncha, bem, eu consigo me deitar com caras em situações bem mais dignas que isso. Vocês são homens, qualquer coisa é jogo
E: - Vamos, estamos entre amigos, seja o que acontecer, isso nunca sairá dessas quatro paredes. Ou cinco...
F: - Tá, peraí, você me acha feio, Miza?
M: - Não, porra!
E: - E a mim, você acha?
M: - Mão! Quer dizer, n... eu tô bêbada, sem camisinha, com dois amigos de infância, um tá querendo comer todo mundo.. eu estou tentando ser a mente mais sã daqui.
E: - Eu tenho várias camisinhas aqui em casa, e, se não confia em mim, aposto que o Fabs tem um ou duas na carteira dele
F: - Foda é que eu tenho mesmo
M: - Porr.. tava pensando... pensando em me comer, safado?
F: - Não sei! Era uma festa, pessoal do trabalho, um homem tem que se previnir, porra
E: - Acho que vocês estão começando a ceder. O que acham?
M: - Não sei.
F: - O vencedor escolhe a forma e com quem dos outros dois ganhadores vai fazer? Assim, se quiser pega os dois, senão quiser, pega ninguém? Se quiser, pega só um... sei lá
E: - É, é isso. Se você ganhar e ainda assim não quiser nada, ninguém vai forçar ninguém a nada. Gente, é só uma brincadeira. Tá, certo, de gente grande. Mas, claro, não estamos no parquinho brincando de gangorra..
M: - Ou de balanço...
E: - Exatamente, vocês lembram, não lembram? Daquele dia.
M: - Sim, começamos a conversa falando disso, "Ê". Enfim...
E: - Enfim, vamos?
M: - Vamos. Mas só se... só se eu puder ver vocês pelados antes de decidir. Assim, se eu ganhar.
E: - Por mim, ótimo
M: - Ainda não sei...
F: - Tá, foda-se. Miza, na faculdade você deve ter feito coisa muito pior que isso... e com gente estranha. Então nem vem. Faculdade de Direito só tem orgia. Eu sei, eu cursei tam..
M: - Nem vem mandando esses papos pra cima de mim não, uma coisa nada a ver com a outra, enfim, dane-se, vamos tirar essas cartas logo e ver no que dá
E: - Falou que nem uma mulher do gueto. Agora te respeito. Vamos
F: - Tá, tá, vamos.
E: - Aqui. O baralho.
F: - Ótimo. Primeiro a minha
M: - Depois a minha
E: - Agora eu. Vamos virar todos juntos:
M: - (...)
F: - (...)
E: - (...)
F: - Ganhei
E: - Sim, Rei de paus. Só tenho Dama de Copas
M: - E eu, uma porr.. dum quatro...
F: - E agora?
E: - Escolhe quem você quer transar. Ou se quer transar com alguém. Ou se não quer nada.
F: - Porra, sei lá, isso é muito estranho. Acho que não vou fazer nada não.
E: - Então, joguemos as cartas de novo
M: - Como assim, tem mais?
E: - Sim. Eu nunca disse que seria uma rodada só.
F: - Tá certo, joga isso ai e vamos ver no que dá
M: - Tá, tá.
E: - De novo. Viremos nossas cartas juntos. Só pegar outra do monte que já temos
M: - Vai
F: - Agora perdi, 3 de paus
M: - Valete. Espadas
E: - Valete. Paus. Ganhei.
F: - ...
M: - Vamos fazer o quê?
E: - Eu quero transar com vocês dois. Ali na sala
F: - Puta que pariu, não acredito, o que tem na sala?
E: - Uma rede. Que balança. Lembra bastante o balanço de infância, não? Nunca transei com ninguém nela.
M: - Tá, vamos. Mas pega camisinha, porra, eu tô bêbada mas não tô maluca
E: - Beleza. E aí, Fabrício, vamos?
F: - ...
M: - Anda, decide logo
E: - Vem, Miza, antes que o álcool vá embora...
E assim, num ciclo, acabei realizando este sonho de infância. Na manhã seguinte, os dois foram embora sem olhar para si nem olharem para mim, embora de fato tenhamos feito um sexo careta, diferenciado apenas pela rede de balanço. Nem aproveitaram para assistir televisão na minha TV gigante; sábado pela manhã, passam vários desenhos retrô na Cartoon Network, seria outra forma de relembrar a infância. Posteriormente, ainda marquei um ou dois encontros com a Miza; já Fabrício, provavelmente com vergonha, nunca mais nos procurou. Neste final de história, consegui realizar meu sonho: porém, apenas pude reprisá-lo com a metade feminina da fantasia. Embora eu jure que ele tenha gostado da parte que desempenhou na brincadeira. Miza se revelou uma pessoa muito mais liberal, divertida e acessível que Fabs, que logo no ano seguinte se casou e se recusou a voltar a beber conosco. Exatamente nesta época, pelo o que parece, também fez prova e em pouco tempo foi chamado para outro Tribunal, em outro estado, que sequer fiz questão de saber. Mizaela e eu nem voltamos mais a fazer essas coisas: boa parte da "graça", no sentido laico do termo, se perdeu depois que nosso amigo se ausentou permanentemente:
Já é noite, a máquina de escrever* rabiscada em tintas e rasuras, em linhas praticamente mal traçadas pois tenho preguiça de ajeitar regularmente o papel a cada nova mexa. No mais, evitarei dormir ou travar relação sexual com alguém nesta rede de balanço novamente. Os coberturas de lã nunca ficam no lugar e há muitos mosquitos nesta casa maldita; acordamos nós, o casal, empelotados e com alergias. Não é o ideal. Ante ontem passei por uma loja de brinquedos, havia um balanço, parecido com o do nosso parquinho do prédio, à venda. Porém, de plástico, jamais aguentaria o meu peso, ou o peso de eu e mais um. Será que encomendam em tamanho adulto? Sou um péssimo mentiroso, não saberia criar um pretexto falso para ter um objeto destes pendurado na minha sala. E já sou visto com estranheza por amigos que me prestam visitas repentinas e veem, às vezes, a rede de pano pendurada no caminho. Mandam me comprar mais um sofá-cama, pois também serve para amigos bêbados dormirem por aqui após as festas. Insisto e defendo meu artefato, quase indígena, de descanso. Essa geração moderna: perdendo muito dos antigos prazeres.
*A respeito da máquina de escrever, na verdade escrevi diretamente ao computador, só inventei essa história por soar mais poética, retrô e pedante no corpo escrito.
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
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