quinta-feira, 31 de julho de 2014

Em primeiro lugar:

Vai, se estende no quintal,
Balança a corda do varal,
Aproveita esse Sol pra se secar

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Monólogo em Areia e Dedo: Vinte e Três

Você é como a pilha de frutas que me apodreceu. Estava te visualizando aqui, assim, estendida na mesa. Você que era amarela, agora cinza. Lembro do cheiro, paladar, dos primeiros pedaços seus que eu provei antes de partir viagem. Mas parti, demorei, e na volta perdi o voo, ou o trem, quiçá carroça, perdi e me atrasei ainda mais do que já tava tarde. Cheguei, a pilha de fruta que eu não quis levar na mala pra não amassar, porque ia amassar, concertezamente, frágil daquele jeito passou do ponto, demasiadamente madura. "Madura", entre aspas, até a figura de linguagem que se usa pra fruta de verdade tem a ver com a palavra que vou aqui pregar. Apodreceu, e eu não consigo jogar fora, deixo ali, cheirando, porque o cheiro ainda é bom, diferente, agridoce, deve ter a ver com a tal maturidade. Só que não calha provar de novo, os cachos sobrados, pelo gosto amargo, porque iam me pesar o corpo. Uma pena, pois queria tanto te ver revisitar a minha boca, os meus dentes, meu aparelho digestivo completo: a minha faringe, esôfago e estômago, queria te ver provar do gosto da minha vesícula biliar, das minhas enzimas digestivas, e se deslizar pelas paredes de meu intestino. Queria ser testemunha novamente do prazer que já me deu. Por isso é impossível o descarte. Então deixo ali, na mesa, dando na vista, enquanto cair bem à vista. Essa metáfora seria ainda melhor ainda se as frutas tivessem pernas pra fugir, e tentassem e ficassem acorrentadas o dia inteiro por conta disso, ou melhor,c engaioladas, impedindo a fuga e também seu furto, em caso de haver visitas curiosas, esfomeadas. Fruta em gaiola, será que tem quem faça isso? Se sim, elas ficam paradas, esperando as formigas, ou as moscas magricelas, que passam pelas grades, ou outro alguém que tenha as chaves vir comê-las. Sim, é uma coisa escrota isso de te comparar com fruta. 

Monólogo em Areia e Dedo: Vinte e Dois

Vocês sabem o que é paraíso astral? É tipo entrar no elevador, errar duas vezes seguidas o botão do seu andar e ainda assim não perder seu horário, tu que já tá atrasado, já tá com sono porque dormiu pouco e dormiu mal de noite, e ainda assim não perder seu horário porque as duas pessoas que vieram logo atrás coincidentemente iam exatamente para os andares que você acionou sem querer.

Paraíso astral é derrubar o copo de café em cima do teclado mas ele estar vazio. É derrubar esse copo de café vazio de novo, mas agora na direção do chão, mas pegar ele no ar, como faria o grande Mestre Miyagi. A natureza tem dessas ironias, a genética te faz nascer estabanado, só que também te dá rápidos reflexos que você nunca vai realmente usar de forma útil na vida porque por mais que você seja rápido você nunca vai desviar de uma bala ou conseguir saltar por cima de um carro antes dele atropelar você. Mas pelo menos sobra história pra contar, você, que é assim também, que é do tipo que tropeça na quina da calçada com um pé mas se equilibra no outro antes de cair. Paraíso astral é esticar o braço pra trás pra se espreguiçar e naquele movimento que a gente sempre faz de abrir e fechar a mão, amassar em cheio o mosquito que tava te incomodando há horas. 

No mais, bom dia pra você que ajeita a bainha da calça com grampeador. Que só limpa o dente com a unha. Sou ateu mas quero batizar minha primeira filha como "Maria", mãe de Jesus. Batizar é forma de dizer. "Maria" assim, puro, sem nome composto. Tem um peso dramático, sabe? Dá nome de artista. Bom dia pra você que leva seu próprio café pro trabalho numa garrafinha porque o café da empresa é uma merda. Bom dia, bom dia. Bom dia pra você que dá bom dia pra estranhos, e pra você que não dá bom dia pra ninguém não, só levanta, sai, volta. Mania feia que essa galera tem de que você tem que estar feliz com a zorra toda, desejando bom dia pra todo mundo. Você tá certo também. Tem que estar serelepe não, tem que estar puto, isso é papo auto ajuda de neoliberal, aquele mesmo cara que fala que você tem que ter determinação no trabalho e animação, passa videozinho motivacional, bola-cheia, bola-murcha, mas que na hora de aumentar salário, ficam cantando "lá, lalalalá, lalalalá, lalalalã...", com a melodia daquela musiquinha de final de ano da Globo. Vai, fica puto com eles também, porque na hora que você pensa em se articular com seu sindicato, vão esperar a primeira desculpa esfarrapada pra te demitir. Tem que estar puto, puto pra cacete. Mas se você consegue ficar puto e sair ao mesmo tempo cantando pela rua qualquer samba do Noel Rosa ou Cartola, bem, aí já é melhor, recomendo.

Bom dia, bom paraíso pra você que ainda sabe onde achar aquele biscoito de goiabinha amanteigada por um real. E sabe em qual beco você deve entrar, ali no centro da cidade, perto da Uruguaiana, para comprar um legítimo Kinder Ovo, não por um real, porque aí só com máquina do tempo, voltando pra década de 90, mas por dois e cinquenta. E nesse mesmo lugar dá pra comprar, amigo Kit Kat por 2 reais, os dois no último mês de validade. Bom dia, paraíso, pra você! que repara naquela banca de jornal localizada numa rua minúscula e difícil de achar, até no Google Maps, essa rua, por exemplo, chamada Francisco Serrador, perpendicular à Senador Dantas e paralela a Evaristo da Veiga. Essa banca de jornal pequena, minúscula, que desde que aqueles prédios comerciais da região começaram a fechar ficou capenga, falida, mas tem aquele jornaleiro tão simpático que sempre dá bom dia também pras pessoas que se perdem e passam ali por engano, porque só assim, e pros fiéis apostadores de Jogo do Bicho que frequentam os botecos dessas vielas ali pela Cinelândia. Uma banca tão simpática que você, que quase não fuma,  volta e meia, passa sempre lá só pra comprar um cigarro varejo. Bom dia, pra você que julgou mal e olhou torto porque pegou a copeira da sua empresa recitando Mario Quintana e Carlos Drummond de Andrade, por quê? Só porque ela copeira não pode gostar de poesia? Eu retiro meu bom dia, você não tem que ter bom dia não. Também retiro meu bom dia pra você que é de escorpião, se encaixou em algum caso que eu disse aqui, mas fala mal de todo mundo pelas costas. E olha que eu tenho ascendente escorpião também e sei como é isso.

Bom dia pra você que acha que não paga nada por nada, que baixa música gratuita, tem tanta "cultura" sem tirar um tostão do bolso, mas é soterrado por propaganda da Netshoes, do Submarino, da Lojas Americanas, só de ter clicado uma vez na vida em qualquer um desses sites. Não paga por nada mas tem que esperar no  Youtube 5 segundos, ou até 30, de um comercial para assistir aquele vídeo de gatinho fofinho deitado na pia do banheiro ou aquele que tem um panda filhote acordando a mamãe panda gigante com um espirro alto pra cacete. Você, bom dia, você que acha que não paga nada mas tá clicando no link e compartilhando a notícia ou artigo daquele reacionário babaca da Veja que tá ganhando uma grana com número de acessos. Bom dia pra você que acha que não paga nada e tá sempre com o celular descarregado e as pessoas nunca conseguem falar contigo e você só vai aprender essa duríssima lição que a vida tem pra te dar, que é andar sempre com o carregador na bolsa ou bolso, quando um ataque atômico ao distrito de Nilópolis, RJ, não puder ter sido evitado porque você não atendeu o telefone.

Bom dia, paraíso astral é você sair da balada, trêbado, com fome e com sono ainda, mas encontrar o Fornalha ali de Botafogo ou Copacabana, ou qualquer outro lugar, lanchonete ou boteco que, orgulhosamente, sim, cumpre essa digníssima função social que é vender coxinha empanada de frango com catupiry às 5 e meia da manhã de um sábado ou domingo. E paraíso é começar com seus amigos e colegas e desconhecidos a cantar clássicos do Claudinho, Bochecha, Molejo, Cazuza e Cássa Eller, e tornar o estabelecimento um grande musical, só não tão grande assim porque tem a galera que tá trabalhando, e essa galera já virou o raio da noite inteira ali, já tá pé da vida com essa pessoal voltando dessas festa', essa galera que tá de férias eternamente e  não precisa trabalhar nem virar a noite no serviço, cantando "pro dia nascer feliz, o mundo inteiro acordar e a gente dormir", bando de pat e playboy, essa gente chapada de vodka, cachaça, pó e maconha, vindo zoar o nosso trabalho. Paraíso astral são esses nobres trabalhadores, mesmo putos da vida com você e seus amigos bêbados barulhentos pra cacete, não virem a cuspir no seu suco de caju ou maracujá nem alterar seu troco aproveitando o estado de embriaguez de tais clientes vocês. 

Bom dia pra você que faz três, cinco, quatro, sete coisas ao mesmo tempo, mas nunca consegue focar em 'orra nenhuma e inclusive já foi quase demitido de justa causa do trabalho porque seu chefe te pegava o tempo todo jogando paciência ou campo minado. Bom dia pra você que passa a noite inteira fazendo nada, nem a cera do ouvido limpou, só botou ração pros gatos porque eles ficaram te enchendo o saco, só guardou a pilha de roupa que já tava chegando no teto porque já não tinha onde sentar nem deitar na sala. Que só resolveu limpar a cozinha porque ficava ouvindo barulho estranhos vindo de lá de noite. A noite inteira fazendo nada e inventa de ficar criativo, de trabalhar na sua tese de mestrado, monografia, naquele seu haikai que ninguém vai curtir no Facebook, naquela cartinha de amor que você vai ter preguiça de digitar e mandar por email praquela pessoa, porque nem faz mais esse tipo de porra hoje em dia. Que inventa, assim, em cima da hora, de tirar aquela música do Jorge Vercilo no violão nos únicos 20 minutos que você tem pra se arrumar, lavar cabelo e comer, porque acordou atrasado, de novo. Você que precisa aceitar que criatividade é uma coisa féladaputa, com todo amor as putas, que você não doma, não domestica, que ela, no máximo vai aceitar que você lhe ponha água e troque ração duas vezes por dia.

Bom dia, bom dia. Paraíso astral é receber 3 razoáveis propostas de emprego ao mesmo tempo, sendo que você passou os dois meses anteriores, que, ó, correspondem ao inferno astral!, quando passou esses meses acumulando dívidas, estourando o cartão de crédito e acabou indo parar no Serasa. Paraíso astral é ter os pesadelos mais bizarros de noite e acordar não se lembrando de nada. Como você sabe então que foram pesadelos bizarros? Porque você acordou com a cama toda mijada. Bom dia e levanta porque é terça feira ainda.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Tirinha S/ Quadrinho Nº 02

─ Essa camisa é injusta
─ Ela tá justa, apertada ou eu que tô gordo?
─ Não, é injusta mesmo, essa estampa é machista.
─ Como é que é?
─ Desculpa, vou ser mais claro: você é idiota.

"Alguma coisa é bem mais que nada: mas é com o nada que eu vou"

Por que eu não sei, aqui de pé
Quem você pensa que é
Mas eu que não soul.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Confesso:

Em terra de Haikai
Quem tem título tem um verso
A mais

Tirinha s/ Quadrinho: Haikai de Inv(f)erno

"Estamos chegando...", disseram as Sombras.
"A porta tá aberta", respondeu o Sol.

domingo, 27 de julho de 2014

Sereno

Havia um campo, e eu nunca fui uma pessoa de campos, criado entre cinzas e cidades. As cinzas são literais, da família de fumantes. Havia uma casa, embora faça anos que eu adentrei uma pela última vez, destas de jardim, de bancada, de telhado, de rede de balanço na varanda. Apertava a campainha, que ninguém atendia, embora houvessem sons vindo de algum cômodo, um trombone, uma percussão, ouvi por tanto tempo o que faziam, que até arriscaria o tom: Sol. Talvez influenciado pelo tempo limpo e alaranjado, pela sensação que as 7 horas da manhã traz e trazia ali. Mas enquanto aguardava alguém notar minha presença, na tentativa de incomodar o quão menos possível, evitando interromper aquilo que acontecia, seja o que fosse, pois, ademais, ainda desconhecia onde estava, apertei meu tabaco e o fumei uma vez mais antes de insistir contato com os moradores. A música se interrompeu como se fosse por vontade própria, aquém de quem a produzia, e um curto silêncio seguido de uma conversa inaudível entre alguéns e alguéns, apertei novamente, e estava, felizmente, pelo final do cigarro e da seda. Uma moça de vestido longo, porém tecido leve, florido, ou qualquer adjetivo que caia pois nunca fui bom em distinguir vestimentas, abriu a porta, e embora tenha perguntado o meu nome, e eu o tenha mentido, dito outro, seja lá qual reflexo me tomou na hora, talvez o gosto da nicotina ainda se ajeitando nas veias do pescoço pra cima. Embora tenha perguntado o meu nome, cuja verdadeira natureza eu o tenha omitido, ela parecia me reconhecer, e além, parecia saber da minha mentira, o que não impediu em sorrir e dizer que estavam me esperando, me desejar as boas vindas, me pegar pela mão, levemente, na verdade, pra ser preciso, pelo pulso, e me direcionar para dentro da residência.

A casa por dentro parecia maior do que por fora, como toda casa bem projetada deve parecer, embora eu desconheça qualquer conhecimento sobre arquitetura. As janelas pareciam, também, pelo menos, três vezes maiores, e a luz solar adentrava o interior do imóvel como se fosse este, na verdade, o descampado de onde eu acabava de chegar, e talvez esta sensação que se mantivesse em mim, fosse o chão amadeirado que fazia o barulho abafado porém indiscutivelmente diferente do cimento, do piso em azulejo, ou da grama, e a terra molhada, referência ali anteriormente imediata. Parecia ter chovido no dia anterior, a umidade ainda me era palpável, provável resposta do meu corpo a uma chuva caindo de fato no meu corpo deitado, exausto e dormido, como iria descobrir depois. A sala era consequentemente também desproporcional, e haviam poucos móveis além dos sofás e tapetes, uma escrivaninha no canto esquerdo, e o piano de armário do lado esquerdo, atrás de uma das poucas pilastras que sustentavam a estrutura. Definitivamente ninguém encostava ao piano há pelo menos uns bons meses, era a única peça empoeirada que tomei nota durante minha estadia, e definitivamente a música que eu ouvia antes estava dispensando seu acompanhamento. 

Os músicos eram a família da moça, e estavam todos na cozinha, para onde ela me levou de imediato, me apresentando seus respectivos membros e instrumentos. O irmã caçula, cujo nome, não lembrarei de nenhum nome além do dela, mas cujo nome, fosse o que fosse, rimava com o instrumento que ela ainda segurava com as mãos, e era uma rabeca. Encostou este em cima da mesa da cozinha, único móvel também ali presente, além das cadeiras, da pia, e fogão, encostou o instrumento e me abraçou, como se matasse saudades, e, apesar de seus prováveis 11 anos, que arrisco, arranhava próxima minha altura, o irmão, mais velho, temporão, devia ter mais de 30, me apertou a mão duramente, e o trombone era o seu instrumento, mas seu nome, que já avisei me fugir à memória, definitivamente não rimava com nada. O pai foi mais gentil, assim como a mãe, os dois aparentando a casa dos 70 anos, o lapso de tempo ali, na hora, me causa estranhamento apenas agora, a propósito. O pai, de minha altura, tocava um violão de 7 cordas, que me escapou ao ouvido quando ainda espionava a festa que faziam, e a mãe, levantada de um pequeno kit de percussão, me abraçou como sua caçula, perguntou como havia sido a viagem, me ofereceu um chá preto, que aceitei, perguntando se podia acender um cigarro para acompanhá-lo, o qual ela concordou com simpatia, me solicitando, contudo, para fumá-lo na janela da sala. A moça da porta, que aliás se chamava Lerena, era formalmente ainda desconhecida para mim, mas lembro dos demais parentes a referindo vez e meia conforme acontecia esta apresentação. Havia no ambiente outros dois ou três membros, da família ou não, da banda, que seguravam clarinete, flauta transversa e doce. Nunca fomos apresentados.

Na sala, "Lê", como preferiu ser chamada por mim, dando a entender que estranhava a formalidade do nome completo vindo de minha parte, me guiou rumo ao sofá e janela, pedindo para eu aguardá-la retornar com o chá e o bolo de café. Falei que não havia necessidade, e eu mesmo pegava, mas antes disso, o irmão, mais velho, já estava ali com uma bandeja e ambos, e ela riu pela primeira vez de mim. Os cachos escuros e a pele morena, me seria doce e engraçado sorrir e recitar um poema improvisado da rima talvez proposital de sua graça com sua natureza étnica. Porém espaço para graças ainda me fora poupado, e me pus a sentar, beber um gole do chá, o pequeno bolo em cafeína, que degluti com cerca de três mordidas, e preparar e acender o cigarro. Feito meu vício rapidamente, Lerena, como ainda prefiro me referir aqui, mais por saudade que porque sonoridade estética, me perguntou se eu fumava todos os dias. Eu disse que sim. E se ela poderia provar. E eu disse que não. Ainda omiti a sua idade, mas Lerena era claramente mais velha que eu, por volta de 26 anos. No universo que me encontrava imerso, por algum motivo, eu era mais jovem do que de fato sou, e mesmo sem ter fitado durante esta história meus documentos ou quaisquer coisas que o valham, eu tinha convicção de meus 22 anos. A natureza subversiva do ato de lhe conceder um cigarro, portanto, se desfaz. Mas se desfazeria, se é que existe esta flexão verbal, em seguida de toda forma, pois ela disse que apenas queria provar de tabaco da cidade, pois desconhecia seu sabor. Abriu uma cartela de cigarros industriais, tirou de algum lugar um isqueiro que até então me passara despercebido, e, enquanto tragava, riu pela segunda vez de mim.

Desconcertado com a situação, e minha inocência, avistei, o que havia também me passado despercebido dado aquele instante, uma pilha de blocos de madeira para se montar construções no pé do sofá. Lerena, percebendo que minha atenção fora desviada, ergueu os blocos sob o assento do sofá, um a um, e, ainda em silêncio, tragando seu cigarro, jogando as cinzas pela janela, que ficava atrás de seu encosto, começou a montar uma espécie de torre ou prédio com as menores peças quadriculares. Conseguia empilhar cerca de 8 ou 9 blocos, antes deles caírem em desiquilíbrio, o que a superfície amaciada colaborava. Mas ela continuou na empreitada algumas vezes antes de me perguntar como eu havia chegado ali, de carro ou avião. Respondi que de trem, embora lembrasse nada de qualquer imagem anterior ao que descrevo aqui pra vocês. Lerena me disse que ia em breve voltar para cidade, que estava cansada do campo, que precisava retomar sua vida, pelo menos conforme pudesse voltar a trabalhar em casa. Mas a família não permitiria tão cedo isto acontecer novamente, não sem aprovação explícita, clara, dos médicos. Falava-me estas informações fortes como quem descasca batatas, comenta do tempo, do mar, da areia, do céu, e, mesmo assim, uma trava na garganta me impedia de perguntar e saber mais, quando tudo o que eu fazia era tragar novamente contra a janela. 

Disse para eu apagar o cigarro que ia me mostrar o outro lado da casa, cuja base, na verdade, tinha dois andares, a base se dividia em dois grandes salões, que chamavam de salas. Apaguei e acompanhei, quando ela me tomou novamente pelo pulso. No outro cômodo, cuja única separação, além da pilastra que descrevi a esconder o piano, era uma cortina, enorme. O restante da família já havia retomado, há uns minutos, a música que reproduziam, muito similar a primeira que escutei, contudo com variantes dos instrumentos de sopro, que improvisavam temas diferentes do que eu ouvira anteriormente. Não que minha cabeça pudesse fazer esta distinção racionalmente, mas meu palpite ali e então era este. O outro sofá, menor, também estava repleto de brinquedos, quando me dei conta que não haviam crianças naquela casa para brinquedos daquela faixa etária. Eram bonecas, bonecos de plástico também, figuras de ação, carros, bolas, peças de Lego aleatórias espalhadas, todas que ela arremessou até o chão para sentarmos, colocando o cinzeiro de madeira escura, que também me havia passado despercebido, na base da outra, gigante, janela. 

Sentados novamente e ela me pediu para recitar algum dos meus poemas, e eu a lembrei, porque um motivo me dava a certeza de que já havia lhe dito anteriormente isto, que nunca consigo decorar nada do que escrevo. Com desdém e humor, riu de mim pela terceira vez e retirou de um bolso até ali pra mim inédito, uma coisa que me parecia familiar, podendo, factualmente, ser de minha autoria. Eu li os versos que diziam: "A noite escura mais eu, em um pedaço do talher de Deus, cujos cachos herdei, das tardes por meu Rei." Reproduzo parte do que lembro, obviamente, exatidão em sentimentos abstratos é complicada, imagine a abstração de criatividade exercitada enquanto o sonho, que, por si, é a abstração da abstração. Pareceram-me apropriados, de qualquer forma, para os fins do contexto, vide o plágio claro por Cecília Meireles, ferramenta da associação, esta coisa comum de acontecer por nossas noites. Após citado, eu rio, talvez ali já reconhecendo que eu plagiara alguém, lembrasse quem, Lerena ria comigo e encostava seus lábios nos meus, porém sem movimentar os músculos em beijo ou estalo. O estalo vem de minha parte, e o atrito, finalmente, forma o que se chamam de selo, em diminutivo. O segundo estalo vem dela, e ri de mim pela quarta vez, antes de lhe desvendar a língua. Nossos narizes, grandes, bem maiores do que eu havia notado então, se cruzam como se abraçassem tal como viríamos a fazer, também, em seguida. O som dos beijos são altos, mais altos do que eu jamais ouviria um beijo soar anteriormente, mas as pessoas na sala de jantar, digo, na cozinha a tocar, a mesma música até onde eu pensava em prestar atenção novamente, jamais poderiam ouvir, graças aos instrumentos de sopro ensurdecedores. Um naipe de metais pareceu surgiu do nada, agora, trompete, trombone, saxofone barítono, seja o que fosse, estou improvisando, claro, mas seja o que fosse, era muito alto, e em questão de segundos era como se fizéssemos amor no meio de uma multidão em um carnaval de Recife.

Com o corpo por cima do meu, ou com o meu por cima do dela, de alguma forma parecia ser os dois movimentos ao mesmo tempo, talvez porque invertíamos constantemente, talvez porque é complicado mesmo lembrar destas coisas mesmo quando de pé, acordados, sãos e sóbrios. Em algum momento todos os botões da camisa, notando naquele instante pela primeira vez que estava com camisa de botões, arrebentavam, assim como arrebentava a alça do vestido de Lerena, assim como certas partes do corpo estavam mais quentes do que as outras, assim como uma peça ou pedaço de brinquedo ainda despercebido no sofá me machucou as costas e eu jogaria para longe, e o seu barulho batendo no chão faria mais barulho do que eu esperava, mas o carnaval vindo do outro cômodo estava cada vez mais alto, a cortina nos cobria a vista, e em breve o movimento se fazia constante, nem tão breve eu removia as roupas de debaixo, mas em breve ela removia as dela, e sequer havíamos entrado um no outro já emitia gemidos baixos, que se manteriam razoavelmente baixos durante tudo, apesar da música a acontecer nos permitir explodir duas granadas na sala sem sermos notados a não ser, quem sabe, pelo cheiro de pólvora que viria se espalhar e obviamente chamar atenção de alguém, afinal, sons e cheiros não se misturam, embora concomitantes. Como ali, seu cheiro, que eu sequer havia notado, assim, também inédito, era de alfazema, me perguntava quem ainda usava alfazema a não ser para sarar piolhos, mas claro que a centelha milisegundo de reflexão inútil se perdeu em sua própria inutilidade e mais me preocupei, em seguida, em buscar lhe as partes que eu ainda não havia conhecido. Antes, contudo, me interrompe, dizendo que alguém viria. Um cheiro de pólvora, agora, além de conjectura, realidade, me atingia o nariz, e provavelmente se tratava de um ser, no mundo real, estar preparando algo à cozinha, também, do mundo real. Pega me pelo pulso outra vez, avisa que a casa está sendo bombardeada, e o barulho de carnaval que eu estava então associando, na verdade era uma guerra proclamada ali naquele instante. Lerena me beija me mais uma vez pela boca, diz para acompanhá-la até seu quarto e que tudo ficará bem, rindo pela quinta vez de mim. 

Subimos as escadas da casa que tinha dois, três, quatro andares, ainda não havia notado que se tratava quase de um edifício, e corríamos sob os bombardeios que furavam a sala como se as paredes fossem manteiga, e na verdade deviam ser, pois o cheiro de pólvora se misturou com o aroma da manteiga, do pão, queijo derretido e café, e por um pouco a situação de quase morte não me empapou de saliva os lábios, fome. Porém ainda sob adrenalina, subíamos e subíamos as escadas, e as paredes ao redor derretiam, como disse, e pergunto de sua família, Lerena diz "vão ficar bem", e continuamos, e eu olho para cima, o teto da casa, ou edifício, parece ainda existir, apesar de sustentado por nada, pelos quatro cantos era explosão, mísseis, tiros, faíscas aconteciam, e o cheiro de comida, e eu tropeçava e ela caía sobre mim voltando e me beijar e dizia que me queria ali na hora e eu dizia que sim, por favor, pois não, mas pouco depois se levantava e me levantava também, como se tivesse o dobro ou triplo da minha força, e devia mesmo ter, e dizia que precisávamos mesmo chegar em seu quarto, e eu perguntava quanto mais teríamos que subir e cansar para chegar lá, se seu quarto ficava no telhado, pergunta que ela respondeu com a palavra "sim".

Partiu na minha frente, no final das contas, e eu tentava acompanhá-la, e as primeiras nuvens começavam a aparecer, e o cheiro de manteiga, café e pólvora evanesciam, eu olhando pra cima via um pedaço de seu vestido amarelo, não sei porque demorei tanto para lhe notar a cor, o amarelo se tornava menor, se tornava um ponto, um caroço de milho, na escadaria acima, metáfora que me deu fome novamente. Distante, eu corro para alcançá-la, e em um intervalo que em minha memória soa como dez, ou vinte minutos, no decorrer ali então deveria ter sido questão que poucos segundos bastariam, finalmente chegava ao final da escada e uma porta trancada separava o seu fim do telhado. Uma chave estava no tapete, e eu e a levantava, e, na fechadura, abria a porta, e uma névoa, que na verdade era uma nuvem, embaçava meus óculos. Conforme a vista voltava, o telhado estava firme, inclusive eu saltava sob ele, e as nuvens começavam a se dispersar, e havia nada de fato naquele terraço a contar, apenas, por um colchão, sem colcha, umedecido pelo sereno natural de se estar tão perto da parte do céu onde as águas evaporadas se condensam em nuvens. Grito por Lerena sem ser atendido, e um silêncio onipresente de sons e inodoros de aromas me preenche. No sentido do sonho em questão eu teria escola no dia seguinte, e teria que descrever para minha professora uma redação sobre como haviam sido minhas férias. Começo a rir histericamente sobre a possibilidade de explicar pra qualquer pessoa os fatos que haviam acontecido ali. Sento me sob o colchão, úmido, como disse, e decido esperar por seu sinal. De repente, o aroma da alfazema retorna e corta o que havia de inodoro ali. De sua beira cabeceira, me aproximo para senti-lo perto. Desta beira, também, reparo que dava para uma ponta do telhado. Espio, então, o abismo abaixo, e o campo verde espairece, infinito, sem sinal de guerra.

"Noveno"

Olhos abertos, de repente, lábio superior e inferior da boca umedecendo-se um ao outro conjuntamente com a língua, primeiro piscar de olhos, o mais demorado que viria acontecer naquele dia. Reabertos os olhos, a procura pelo relógio, que marca dez pras onze, a janela escapando o fio de luz solar que acertou diretamente o rosto e fê-lo despertar, os grãos de poeira estendidos no ar, sente o lençol cobrindo, agora, apenas uma perna do corpo de duas pernas, estende o braço pro lado direito do colchão onde ainda há a mornidão causada por outro corpo ali presente 5 minutos antes. Ao roçar os dedos na colcha, repara e lembra que precisa aparar as unhas, a perna esquerda agora em movimento forma um ângulo quase perfeito de 61 graus entre a coxa e a cama, 20 entre o pé e a mesma superfície, e 99 graus entre as duas metades de seu membro inferior. Em um repente, outro, após por a mão esquerda sob o peito em movimento incalculado, acaba percebendo e relembrando da existência do coração, e passa a tentar calcular a média de sua pulsão cardíaca ali. Após resgatar a memória de suas aulas de primeiros socorros, acontecidas em contexto completamente diferente e irrelevante para o que aqui descrevo, chuta o valor de 87 batidas por minuto. Admite consigo que há razoável possibilidade de equívoco a respeito disso. A coluna começa a se dobrar em uma tentativa de se sentar, os pés ainda se mantém sob a cama, e o ângulo de 90 graus com relação ao colchão logo a coluna faz, mas logo se inclina para menos, cerca de 75, conforme os dedos enxugam as remelas das pálpebras, mais por reflexo do que pela existência material destas. Repara rapidamente no fundo o som da reprise de uma radionovela vindo da casa da vizinha cujo vestido de avó portuguesa com certeza estaria usando enquanto preparava o almoço para família, hoje reunida para assistir conjuntamente o jogo de futebol a ser transmitido mais tarde ou pela comemoração do aniversário de alguém. Ambas as imagens aparecem na cabeça sem permissão ou aviso prévio. Os pés ainda estão na cama. O diálogo na radionovela diz os dizeres: "Se um dia você quiser conselhos amorosos, pode pedir, é minha especialidade", e o silêncio do outro lado da conversa lhe constrange e remete, com empatia, um fio de memória que altera o batimento cardíaco para 99 bpm por cerca de 3 segundos. Depois a própria cabeça, algoz, trata de lhe salvar a alterar seus tópicos.

Em breve será meio dia novamente, e relembra que ainda prefere desejar "bom dia" a partir desta hora. Afinal, meio dia é meio dia, é a metade, o Sol no meio do seu caminho até a noite. Torna-se sua escolha decidir o que desejar até meio dia e cinquenta e nove, "um pras uma". A partir das treze horas, aí sim, se contentaria com a tarde. Pólvora, essa palavra surge do nada, espontaneamente, devendo ser o cheiro do fósforo queimado na cozinha, palpita, pois o outro corpo está preparando o café. Um cheiro de torrada também roça as células olfativas, lembra-se que existe isso de células dentro do nariz, e que sua quantidade é discrepante e arbitrária e varia de um para cada da um, conforme viu um dia em um documentário qualquer. Os pés ainda estão na cama e lembra, ainda no mesmo assunto, que certas pessoas tem quase o triplo de células de olfato, por isso, no dia a dia, varia tão drasticamente quem pode sentir determinados cheiros mais gratuitamente do que outros. Lembra do cheiro de madeira, como a que vem do violão que vendeu no mês anterior. "Vem", no presente, porque só porque não está aqui não quer dizer que tenha parado de exalar o aroma. A metáfora correspondente disso para as coisas que passaram na sua vida lembra-lhe o verso "o que foi, é o que fica". Como dizia, além deste, a metáfora correspondente que isso associa dói, mas dói menos que a unha encravada há duas semanas no dedo médio de um pé, que, aliás, ainda está e estão na cama. O grampo grampeado na beira do colchão, repara, mas a memória a descrever como isso aconteceu inexiste. O cheiro de pólvora dá lugar ao cheiro da cafeína se locomovendo pelo ar. Um fio de pão queimado também ressoa, embora o verbo se refira ao som, que importa? Associa-se também ao faro dos cães, com quem compartilha a sorte de sentir e cheirar muito as coisas do mundo, apesar de menor intensidade na empreitada. Os passos do corpo voltando de lá para ali começam a soar e se tornam mais fortes.

O outro corpo traz uma bandeja e senta ao seu lado da cama, mantendo os pés no chão. Pergunta se o açúcar do café está bom e lhe responde que sim mesmo antes de provar. A torrada de fato cheira bem, e faz questão de citar isso para o outro corpo ouvir, em uma tentativa de gentileza, seguida do travar de dentes que lhe devoraria em instantes, vide sua fome. O duplo sentido é proposital. Com os pés ainda no chão, este corpo outro se levanta e abre as janelas e o fio de Sol que dava o contraste necessário para poeira pairando no ar ser visível desaparece dando espaço a um feixe maior. Feixe que logo, com a outra janela também aberta, se torna um manto só de luz espalhado no quarto. Se há a poeira, e ainda deve haver, ninguém mais vê. A radionovela ainda ressoa, verbo este apropriado aqui, mas o diálogo indiscernível se mistura nas palavras que o outro corpo insiste em dizer. "Hoje", "tarde", "fome" tem o mesmo peso que "suicídio", "doença" ou "abacate", "abismo" ou "intifada". O corpo outro se volta a sentar, põe seus pés na cama, agora há dois pares de pés sob o colchão. Sua mão, e aqui prefiro não especificar qual nem de quem, mas sua mão, seja lá, roça o couro da cabeça pregada no pescoço alheio, que naquele instante estava inclinada, com o cuidado para evitar que as unhas mal aparadas firam sua superfície da pele. Antes que se tirem interpretações e conclusões, os dois lados do casal vivem com as unhas por fazer. A palavra "casal" surge, assim, também gratuitamente, nos pensamentos, como a palavra pólvora havia surgido momentos antes, e, ao contrário da primeira, cujo caos foi devidamente controlado, explode-lhe em pensamentos armagedônicos que preferia revisitar nunca novamente ou pelo menos a alguma hora mais avançada do dia, poupando-lhe a manhã de Domingo para situações e sensações verdadeiramente aprazíveis. Lembra-se que os pés estão ligados ao mesmo tronco que todo o resto de seu corpo por intermédio das pernas e que pode usar isso a seu favor. Assim, os pés que ainda não haviam levantado da cama até agora se põem ambos no chão. Isso aconteceu um pouco depois do membro superior esquerdo, também conhecido como braço e mão canhotos, ter virado, em um gole só, o copo de café cabeça e goela abaixo. Conforme notaria depois, o movimento brusco lhe causara ali, em um mal jeito, uma dor no ombro, mas seus cotovelos permaneceram intactos.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Sonhos Recorrentes Dois

Sonhos recorrentes parte dois: dentes caindo, sempre. Me diziam quando era menor e supersticioso que isso era uma referência à morte. Já era pra ter tido uma guerra nuclear então a dizimar a humanidade, pela frequência que ocorrem e pela verossimilhança da sensação. Também sonho que vou ser preso, qualquer dia, saindo de casa pro trabalho, antes de fechar a porta, um oficial de justiça acompanhado pela Polícia Civil pedindo para que eu acompanhar até a delegacia para averiguações preventivas e de lá acabar emendando em Bangu 3. Enquanto me dirijo ao veículo, ele apaga um cigarro na sola do sapato e vê as horas no relógio da Central, que do ângulo da minha casa dá pra ver, simbolicamente, sempre 25 minutos atrasado. Mesmo me expondo cem vezes menos do que meus e minhas companheirxs atacados pelos órgãos de repressão do Estado, desde ano passado até agora, acontece. Dispenso o segundo sonho recorrente, deitado, e repudio, de pé. De medo, nestas noites, já me bastam os dentes caindo.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

"Vivemos Tempos Deliciosamente Difíceis"

Vivemos tempos amargamente belos e deliciosamente difíceis. Somos a geração da informação. Mas não sei que geração, tenho amigos que nasceram espaçadamente em um raio de 10, 15, 20, 25 anos. Somos infantaria, somos calo calejado. Somos, e sou, digo, são minhas, também, às vezes, as costas viradas. Diante de nós, um sistema com cada vez menos representatividade, mas só Zeus sabe onde vem a pedra, o gás, o vidro e a bala dos quais agora desviamos. Só que Zeus tem nome, endereço e pessoa jurídica. Onde foram parar nossas casas? Porque somos filhos da geração do "não é problema nosso". Mas aprendermos, de berço a ser do contra. Com diferentes graus de sucesso nessa empreitada. Alguns dias vão ser nossos. Alguns outros não vão ser. Eis o discurso de aniversário que eu nunca vou fazer. Somos o amor correspondido quase nunca, mas que amor, princesa (que mané, princesa, rapá!), mas que príncipe (nunca me chamaram disso, o que é sintomático)? Nos aprendemos a amar em algum ponto do caminho, digo, eu acho, espero. Em outro ponto nos lembraram que isso é lição pra todo dia. E alguns dias vão ser nossos, outros dias não vão ser. É o amor livre, é amor mono, bi, tri, poligâmico, e é o que tiver que ter. 

Nunca ouviremos todas as canções do mundo, mesmo se, a partir desse instante, ninguém mais cantasse nada novo e fôssemos só nostalgia: tendenciosamente focada nas décadas de 60 e 70, é verdade, por mais que ontem ainda tivesse. Nunca leremos todos os livros já lançados sequer no nosso idioma, quanto mais estrangeiros, mesmo que ninguém nunca mais digite um caractere seguido de Ctrl+S. Existem bilhões de troços, crônicas e contos no idioma árabe, japonês, mandarim, russo, jamais traduzidos pra cá e nunca teremos ideia que aconteceram. E o Cinema? Ah, o cinema... E o teatro? E a cena de artesanato independente de carrancas no Sertão de Pernambuco e Bahia? E os origamis? MEU DEUS, e as últimas descobertas da astronomia? Da última vez que contei, Júpiter tinha 67 satélites. Até eu terminar de escrever esse texto, terão encontrado outro. Imagina se isso tudo fosse Gol? As luas de Júpiter são o "Brasil vs. Alemanha" da Via Láctea.

Esta é uma crônica estúpida, e já começo a me sentir, e inclusive peço perdão pelo momento Arnaldo Jabor (aliás, vá tomar no ouvido, seu babaca!), mas precisava te dizer que ninguém morreu até agora. Digo, muita gente morreu, mas não morreu, morreu, entende? Só parte dessa vida o que ficou, mas não vou citar Chorão eterno, nem vou te dizer que quando o sol bater na janela do seu quarto você deverá lembrar e ver que o caminho é um só. Porque o caminho não é um só, sou eu, é você, ou seja, somos vários. Somos alteridade, Devir, feminismo, conflito de classes, qualquer conceito filosófico que ajudar seguir em frente e dobrar à esquerda (por favor). Somos aqueles que não aprenderam, ironicamente, a se expressar textualmente sem aposto ou parêntese (tá vendo?). Somos os dentes de ciso que não nasceram direito, se é que nasceram. Ainda nunca usei aparelho. Alguns dias são nossos, mas tem outros em que um pedaço do teto da casa cai, tem corda do violão que arrebenta, tem gato que mija fora da areia... Tem dia que a porra toda dá errada, mas vou te cantar um segredo: ainda bem.

"Vivemos tempos deliciosamente difíceis", olha, pra ser sincero, não sou tão otimista assim. Mas a idade me ensinou a não contrariar meus instantes de bom humor. 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Esquizofrema

Vou decorar cada poema teu
Incluindo aqueles que nem você escreveu
Compasso teus sinais num repente
Tuas manchas da pele, tuas espinhas
Literais ou metáforas somente
Sepultadas ou minhas
Respectivamente.

Vou te ler as cartas da gaveta
Escritas ou não pra mim
Inconveniências, conversas
Rascunhos de fim
Rascunhos de sim
Vou te mandar notícias da guerra
Perdida no céu, perdida na terra.

Vais estar na ponta da minha língua
Com as palavras que precipício
Que se amarraram os pés no chão
Borradas de início
Quando ausente a saída
Ou quando ambas as mãos.

Vou te aguardar no primeiro ônibus da madrugada
No acinzentado dos olhos que mal dormiu noite passada
Na cerveja mais barata do bar.

Não faço mais que a minha maçã
Espalho cartazes pela cidade, meu todo lugar
Pra decorar tuas metades
(A esquizo e a sã).
Te minto isso tudo porque é verdade.

Não Vai Bastar Morrer, Não Vai

Depois de procurar ouvir o espanto,
Porque quem tanto evita o susto,
Nunca passa o soluço.
Que tanto adianta arranhar primeiro,
Que bem te faz acusar o espelho,
Se ele não te contraria: mente.
Que diferença faz morder, ligeiro,
32 dentes e nenhuma fada:
(Que quem tende a solidão
Até acha graça:)
O queixo?
Deixa sorrir, deixa cair,
Que, do chão, não passa.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Catarata

Quase enfartei quando Deus me deu a mão na hora de dormir.
Mas era só um lençol lavado, com gosto de Sol ainda.
Tenho certeza que já te disse isso antes.
Que cheiro é esse vindo da cozinha?
Ninguém me faz mais café.
Ninguém morre de catarata.
Estala os dedos, o mundo acaba.
Era só um paiol queimado.
Tentei te encontrar mais cedo mas teu trem já tinha passado.
Vira o espelho pro outro lado.
Que que isso, branco, no seu olho, filho?
Enfartei quando Deus me ouviu o sermão, mas era só a minha mão.
A minha mãe, asterisco.
Dislexia, e esse cheiro vindo do pescoço.
Há quantos anos um lençol lavado.
Eu tentei te assustar mais cedo mas seu soluço já tinha passado.

sábado, 5 de julho de 2014

Sonhos Recorrentes

Sonhar que puxei uma matéria ("cadeira") na faculdade cuja as aulas esqueci completamente de ir e descubro apenas quando já estou reprovado por faltas. Sempre sonho também que eu comprei uma passagem de avião para outro estado ou país e esqueço a data da viagem, ou descubro em cima da hora e não chego no aeroporto a tempo. Nessa situação às vezes vem um impulso de voar eu mesmo, ignorando a gravidade, e costumo começar bem... até me enroscar nos fios de um poste de luz. Outro sonho é esquecer que temos um pote de sorvete de flocos no congelador e só lembrar quando minha irmã já comeu tudo. 

terça-feira, 1 de julho de 2014

Meia Vertigem

Achou num canto da sala, um chumalhaço de papel. Camalhaço? Camalhaço, achou, o título: Songbook do Chico Buarque. Xerocado, claro. Desistira de tocar de violão uns anos atrás. Desistira? Sim, digo, nesses critérios, largou de mão, amassou, jogou fora, e vinham outras partituras, que nunca aprendeu a ler, listas de acordes. Um panfleto pra alguma festa que nunca foi. Ou foi? Talvez, rasga, acha um pacote de bala melada que deve estar completando aniversário ali, atrás daquela poltrona. Comenta consigo mesmo, "ha-ha-ha, mais 4 anos podia ficar aí por usucapião", mas não abre a boca pra fazer a piada, só pensa, preguiça, nem a companheira com quem racha o apartamento ia achar graça, deixa pra lá, esquece, esqueceu. Rasga, joga, agora, um texto da faculdade: "As grandes cidades e a vida do espírito (1903)", de Georg Simmel. Não se lembra do porquê ter tirado esta fotocópia, o título faz um sentido remoto, não rasga esse, por algum motivo, guarda numa caixa, pra ler depois, essa caixa, que é de sapatos, já é a quarta ou quinta, outras caixas de sapatos, recheadas de textos ou anotações pra depois. Em uma dessas estão as únicas 3 cartas que jamais recebeu na vida. E já é muito, justifica isso com a sua idade, consigo, por outro lado gostaria mais. Para para anotar alguma coisa, "para não se acentua mais", veja a bagunça, fica de cacofônico agora, malditos gramáticos, nunca vai se acostumar com isso. Para de fazer isso para arrumar a cama, esse quarto nunca vai terminar arrumado assim, vamos, falta pouco, falta muito, falta tudo, vai, pelo menos a cama, vamos dormir hoje, tem visita vindo, olha essa sala, chama de sala mas é só um quarto mesmo, tem visita vindo dormir contigo, mentira, não tem ninguém, pega a espátula da cozinha pra arrumar o lençol, pronto. Mentira. 

Estava em uma fase mais otimista do que antes, embora não exista barômetro pra isso. Digo, não ia se trancar em casa, com pijama e sorvete de passas ao rum, nunca entendeu o ódio das pessoas por esse sabor, e assistir toneladas de séries, quãopouco iria, também, se entupir de cocaína? Não, nunca teve critério bom de loucura pra se fazer na vida, vide vida caseira, digo, sempre que ia usar exemplos terminava assustando as pessoas, tipo sabendo usar verbos como "esquartejar" totalmente fora de contexto. Digo, ia preferir sair pra dançar, estava bem, até tinha voltado a ouvir Beatles, fase pré Rubber Soul. Digo, ia sair pra dançar mas sem abrir mão de uma lágrima no canto do rosto no meio da pista se acontecesse. Quer porque quer fumar, só sobrou Derby Azul, como raios um resto de maço de Derby Azul veio parar no bolso da calça? Desiste de fumar, precisando parar mesmo. Tá vendo, por isso está bem. Nunca, nunca estaria bem, veja os vizinhos estão transando, ah, essa Copacabana, mentira, estavam ajeitando qualquer coisa na varanda, mais que vida chata essa, nem pra ver uma foda ao vivo e de graça Deus ajuda. Tem um dente no vaso, a amiga pergunta de onde veio, é só um pedaço de algodão, diz, ela chegou abrindo a porta, sem bater, e odeia quando isso acontece, mas releva, estica a perna pra comprar um maço na rua, repetindo consigo "not today, my friend, not today." 

"Quão pouco" se escreve separado, pode crer. A padaria tava fechada, teve que andar 2, 3 quadras pra achar o maço, feriado, aliás, nunca morou em Copacabana, isso aqui é zona norte mesmo, devia estar cantando alguma coisa de Caymmi quando pensou nisso, um pouco de cultura não faz mal a ninguém. Sentou de frente pro computador, maço aceso, suco de limão carregadíssimo, porque acabou o café, digo, porque está muito tarde pra café, amanhã trabalha, eita, já vai dar meia noite. Mania terrível de parar e não continuar, perde o fluxo do pensamento, nem sabe o que ia escrever mais, levanta de novo porque encontrou uma meia solta, estampada, sem par. Tão sem par quanto eu. Mas arrota o limão, nem sabia que limão dava arroto, e espanta esse baixo astral, a amiga saiu pra fazer qualquer coisa, termina seu Marlboro na janela, que dá pra uma avenida movimentada mas é feriado, já disse. Devia ser proibido recesso de meio de semana, quarta feira. Ou devia ter folga toda quarta feira, além de sábado e domingo. Essa pausa no meio da semana às vezes cai bem, embora as gentes se empolguem achando que é sábado, e já viu, o corpo não entende dessas coisas. Chegou carta da sua mãe, a amiga retorna, jogando a carta no chão que dá pra porta do quarto, junto da conta do celular. Carta? Mas que carta? De que mãe? A mãe não está viva, e se estivesse, digo, caso, não escreveria uma carta, nem um email, porque morreu antes, certo? Teria escrito nada, se estivesse viva seria ela a visita pra esperar, e seria ela, também, o motivo pra arrumar seu chiqueiro. Ou ela viria pra arrumar tudo, embora ela não fosse sua empregada, como adorava repetir. A possibilidade absurda até desembaçou o tédio da tarde, que logo retornou ao ler o destinatário, dois pontos: não estava escrito "mãe", e sim "Mae", sem til. Mae é uma amiga da faculdade, sem abreviação de nada, só pais malucos. Estava fazendo intercâmbio no interior da França, Reims. E a carta é só um postal. Aprecia o carinho.

A amiga volta, me empresta um cigarro, entre aspas, sabe que cigarro não se empresta, mas pede nessas palavras pra amenizar. Pensa em negar mas sabe que ela só fuma um por dia, que nem termina inteiro, sabe se lá, de tempos em tempos, deve fumar uma cartela inteira enquanto você fuma uma fábrica. Deu, pronto. Volta pra janela, pra jogar a cinza, que já é metade, falha o tempo, cai no chão. Mais sujeira pra limpar. O cinzeiro, cade a porra do cinzeiro? Vai nessa caneca mesmo. Tragando agora sente um dente da boca apertar, deve ser o raio do ciso querendo nascer, de novo, cade a grana pro plano dentário, olha por debaixo do colchão, da cama que não terminou de arrumar, parece uma metáfora, nunca fez isso na vida, senta de novo no computador. Porra de inspiração de calhar de escrever depois da meia noite, amanhã às seis! Emprego sangue-suga, sangue suga tem hífen? O corretor automático fica na dele, deve ter. Tédio de novo, um funk começa tocar no fundo, em algum boteco mais ou menos próximo, pensa em escrever uma carta pra amiga de volta. Começa a escrever: "Não estou bem, mas fico melhor de saber como você está. Mal tenho saído de casa pra aprontar, emprego, tédio, já pensei nessa palavra umas cinco vezes hoje. Mas eu te amo. Traz um francês pra mim na mala, risos. Pode se casar, mas volta, viu? Beijo." Pensa que vai postar amanhã na hora do almoço mas lembra que a amiga volta em menos de um mês, a carta nunca chegaria a tempo. Seleciona tudo, deleta. Volta atrás, Ctrl+Z, salva. Quando ela voltar imprime e manda do mesmo jeito, de aniversário, de surpresa, 15 de agosto, tá chegando, o seu chega antes, contudo. Porra, em letras maiúsculas, já 30 anos. Está morrendo. Pensa em pular pela janela. Desiste. Pensa em pular só esse detalhe. E pula.

Está tudo uma bagunça ainda, acabou que não fez nada. Mas aceitável. Podia mostrar o quarto, a sala, o porão, embora nem sabia se o prédio tinha um, pra qualquer um. Só via casas e casos piores e poucas exceções. Mas jamais abriria o guarda-roupa, por ninguém, novamente. Devia queimar essas caixas pra prevenir. Quebra a promessa abrindo logo em seguida, de novo, procurando qualquer camisa mais confortável pra dormir, ainda está com a roupa do trabalho. Acha um pijama verde e amarelo. Está numa fase de odiar patriotismos que não quer porque não quer usar camisa da seleção brasileira, nem pra dormir. Joga a coisa numa gaveta do pai. Não, o pai não mora nessa casa, nem em nenhuma, mas um lado escroto do passado que nem seu psicanalista sabe explicar, até porque você não contou, sempre te fez deixar pelo menos uma gaveta sua como se fosse a do "patriarca". E lá deposita tudo aquilo que não vai querer mais. Até o dia que criar coragem e jogar fora. Não está pensando nisso, está achando e acha outra coisa qualquer de algodão manchado, amassado e gastado por excesso de amaciante. Que nem você. Ri, olha pra caixa de mais cedo, medo, abre, pega e folheia o texto do Simmel de novo, pula a nota do tradutor ao final, em um impulso randômico. Adora essa palavra. O priberam já reconhece, então tá certo. Adora anglicismos. Piada. Pula a nota do tradutor, começa a ler o final de facto do texto: "Na medida em que tais potências penetraram na raiz e na coroa de toda a vida histórica, a que pertencemos na existência fugidia de uma célula, nossa tarefa não é acusar ou perdoar, mas somente compreender". Parece interessante, um dia leio inteiro. Nunca leu.