quarta-feira, 30 de julho de 2014

Monólogo em Areia e Dedo: Vinte e Dois

Vocês sabem o que é paraíso astral? É tipo entrar no elevador, errar duas vezes seguidas o botão do seu andar e ainda assim não perder seu horário, tu que já tá atrasado, já tá com sono porque dormiu pouco e dormiu mal de noite, e ainda assim não perder seu horário porque as duas pessoas que vieram logo atrás coincidentemente iam exatamente para os andares que você acionou sem querer.

Paraíso astral é derrubar o copo de café em cima do teclado mas ele estar vazio. É derrubar esse copo de café vazio de novo, mas agora na direção do chão, mas pegar ele no ar, como faria o grande Mestre Miyagi. A natureza tem dessas ironias, a genética te faz nascer estabanado, só que também te dá rápidos reflexos que você nunca vai realmente usar de forma útil na vida porque por mais que você seja rápido você nunca vai desviar de uma bala ou conseguir saltar por cima de um carro antes dele atropelar você. Mas pelo menos sobra história pra contar, você, que é assim também, que é do tipo que tropeça na quina da calçada com um pé mas se equilibra no outro antes de cair. Paraíso astral é esticar o braço pra trás pra se espreguiçar e naquele movimento que a gente sempre faz de abrir e fechar a mão, amassar em cheio o mosquito que tava te incomodando há horas. 

No mais, bom dia pra você que ajeita a bainha da calça com grampeador. Que só limpa o dente com a unha. Sou ateu mas quero batizar minha primeira filha como "Maria", mãe de Jesus. Batizar é forma de dizer. "Maria" assim, puro, sem nome composto. Tem um peso dramático, sabe? Dá nome de artista. Bom dia pra você que leva seu próprio café pro trabalho numa garrafinha porque o café da empresa é uma merda. Bom dia, bom dia. Bom dia pra você que dá bom dia pra estranhos, e pra você que não dá bom dia pra ninguém não, só levanta, sai, volta. Mania feia que essa galera tem de que você tem que estar feliz com a zorra toda, desejando bom dia pra todo mundo. Você tá certo também. Tem que estar serelepe não, tem que estar puto, isso é papo auto ajuda de neoliberal, aquele mesmo cara que fala que você tem que ter determinação no trabalho e animação, passa videozinho motivacional, bola-cheia, bola-murcha, mas que na hora de aumentar salário, ficam cantando "lá, lalalalá, lalalalá, lalalalã...", com a melodia daquela musiquinha de final de ano da Globo. Vai, fica puto com eles também, porque na hora que você pensa em se articular com seu sindicato, vão esperar a primeira desculpa esfarrapada pra te demitir. Tem que estar puto, puto pra cacete. Mas se você consegue ficar puto e sair ao mesmo tempo cantando pela rua qualquer samba do Noel Rosa ou Cartola, bem, aí já é melhor, recomendo.

Bom dia, bom paraíso pra você que ainda sabe onde achar aquele biscoito de goiabinha amanteigada por um real. E sabe em qual beco você deve entrar, ali no centro da cidade, perto da Uruguaiana, para comprar um legítimo Kinder Ovo, não por um real, porque aí só com máquina do tempo, voltando pra década de 90, mas por dois e cinquenta. E nesse mesmo lugar dá pra comprar, amigo Kit Kat por 2 reais, os dois no último mês de validade. Bom dia, paraíso, pra você! que repara naquela banca de jornal localizada numa rua minúscula e difícil de achar, até no Google Maps, essa rua, por exemplo, chamada Francisco Serrador, perpendicular à Senador Dantas e paralela a Evaristo da Veiga. Essa banca de jornal pequena, minúscula, que desde que aqueles prédios comerciais da região começaram a fechar ficou capenga, falida, mas tem aquele jornaleiro tão simpático que sempre dá bom dia também pras pessoas que se perdem e passam ali por engano, porque só assim, e pros fiéis apostadores de Jogo do Bicho que frequentam os botecos dessas vielas ali pela Cinelândia. Uma banca tão simpática que você, que quase não fuma,  volta e meia, passa sempre lá só pra comprar um cigarro varejo. Bom dia, pra você que julgou mal e olhou torto porque pegou a copeira da sua empresa recitando Mario Quintana e Carlos Drummond de Andrade, por quê? Só porque ela copeira não pode gostar de poesia? Eu retiro meu bom dia, você não tem que ter bom dia não. Também retiro meu bom dia pra você que é de escorpião, se encaixou em algum caso que eu disse aqui, mas fala mal de todo mundo pelas costas. E olha que eu tenho ascendente escorpião também e sei como é isso.

Bom dia pra você que acha que não paga nada por nada, que baixa música gratuita, tem tanta "cultura" sem tirar um tostão do bolso, mas é soterrado por propaganda da Netshoes, do Submarino, da Lojas Americanas, só de ter clicado uma vez na vida em qualquer um desses sites. Não paga por nada mas tem que esperar no  Youtube 5 segundos, ou até 30, de um comercial para assistir aquele vídeo de gatinho fofinho deitado na pia do banheiro ou aquele que tem um panda filhote acordando a mamãe panda gigante com um espirro alto pra cacete. Você, bom dia, você que acha que não paga nada mas tá clicando no link e compartilhando a notícia ou artigo daquele reacionário babaca da Veja que tá ganhando uma grana com número de acessos. Bom dia pra você que acha que não paga nada e tá sempre com o celular descarregado e as pessoas nunca conseguem falar contigo e você só vai aprender essa duríssima lição que a vida tem pra te dar, que é andar sempre com o carregador na bolsa ou bolso, quando um ataque atômico ao distrito de Nilópolis, RJ, não puder ter sido evitado porque você não atendeu o telefone.

Bom dia, paraíso astral é você sair da balada, trêbado, com fome e com sono ainda, mas encontrar o Fornalha ali de Botafogo ou Copacabana, ou qualquer outro lugar, lanchonete ou boteco que, orgulhosamente, sim, cumpre essa digníssima função social que é vender coxinha empanada de frango com catupiry às 5 e meia da manhã de um sábado ou domingo. E paraíso é começar com seus amigos e colegas e desconhecidos a cantar clássicos do Claudinho, Bochecha, Molejo, Cazuza e Cássa Eller, e tornar o estabelecimento um grande musical, só não tão grande assim porque tem a galera que tá trabalhando, e essa galera já virou o raio da noite inteira ali, já tá pé da vida com essa pessoal voltando dessas festa', essa galera que tá de férias eternamente e  não precisa trabalhar nem virar a noite no serviço, cantando "pro dia nascer feliz, o mundo inteiro acordar e a gente dormir", bando de pat e playboy, essa gente chapada de vodka, cachaça, pó e maconha, vindo zoar o nosso trabalho. Paraíso astral são esses nobres trabalhadores, mesmo putos da vida com você e seus amigos bêbados barulhentos pra cacete, não virem a cuspir no seu suco de caju ou maracujá nem alterar seu troco aproveitando o estado de embriaguez de tais clientes vocês. 

Bom dia pra você que faz três, cinco, quatro, sete coisas ao mesmo tempo, mas nunca consegue focar em 'orra nenhuma e inclusive já foi quase demitido de justa causa do trabalho porque seu chefe te pegava o tempo todo jogando paciência ou campo minado. Bom dia pra você que passa a noite inteira fazendo nada, nem a cera do ouvido limpou, só botou ração pros gatos porque eles ficaram te enchendo o saco, só guardou a pilha de roupa que já tava chegando no teto porque já não tinha onde sentar nem deitar na sala. Que só resolveu limpar a cozinha porque ficava ouvindo barulho estranhos vindo de lá de noite. A noite inteira fazendo nada e inventa de ficar criativo, de trabalhar na sua tese de mestrado, monografia, naquele seu haikai que ninguém vai curtir no Facebook, naquela cartinha de amor que você vai ter preguiça de digitar e mandar por email praquela pessoa, porque nem faz mais esse tipo de porra hoje em dia. Que inventa, assim, em cima da hora, de tirar aquela música do Jorge Vercilo no violão nos únicos 20 minutos que você tem pra se arrumar, lavar cabelo e comer, porque acordou atrasado, de novo. Você que precisa aceitar que criatividade é uma coisa féladaputa, com todo amor as putas, que você não doma, não domestica, que ela, no máximo vai aceitar que você lhe ponha água e troque ração duas vezes por dia.

Bom dia, bom dia. Paraíso astral é receber 3 razoáveis propostas de emprego ao mesmo tempo, sendo que você passou os dois meses anteriores, que, ó, correspondem ao inferno astral!, quando passou esses meses acumulando dívidas, estourando o cartão de crédito e acabou indo parar no Serasa. Paraíso astral é ter os pesadelos mais bizarros de noite e acordar não se lembrando de nada. Como você sabe então que foram pesadelos bizarros? Porque você acordou com a cama toda mijada. Bom dia e levanta porque é terça feira ainda.

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