quarta-feira, 16 de julho de 2014

"Vivemos Tempos Deliciosamente Difíceis"

Vivemos tempos amargamente belos e deliciosamente difíceis. Somos a geração da informação. Mas não sei que geração, tenho amigos que nasceram espaçadamente em um raio de 10, 15, 20, 25 anos. Somos infantaria, somos calo calejado. Somos, e sou, digo, são minhas, também, às vezes, as costas viradas. Diante de nós, um sistema com cada vez menos representatividade, mas só Zeus sabe onde vem a pedra, o gás, o vidro e a bala dos quais agora desviamos. Só que Zeus tem nome, endereço e pessoa jurídica. Onde foram parar nossas casas? Porque somos filhos da geração do "não é problema nosso". Mas aprendermos, de berço a ser do contra. Com diferentes graus de sucesso nessa empreitada. Alguns dias vão ser nossos. Alguns outros não vão ser. Eis o discurso de aniversário que eu nunca vou fazer. Somos o amor correspondido quase nunca, mas que amor, princesa (que mané, princesa, rapá!), mas que príncipe (nunca me chamaram disso, o que é sintomático)? Nos aprendemos a amar em algum ponto do caminho, digo, eu acho, espero. Em outro ponto nos lembraram que isso é lição pra todo dia. E alguns dias vão ser nossos, outros dias não vão ser. É o amor livre, é amor mono, bi, tri, poligâmico, e é o que tiver que ter. 

Nunca ouviremos todas as canções do mundo, mesmo se, a partir desse instante, ninguém mais cantasse nada novo e fôssemos só nostalgia: tendenciosamente focada nas décadas de 60 e 70, é verdade, por mais que ontem ainda tivesse. Nunca leremos todos os livros já lançados sequer no nosso idioma, quanto mais estrangeiros, mesmo que ninguém nunca mais digite um caractere seguido de Ctrl+S. Existem bilhões de troços, crônicas e contos no idioma árabe, japonês, mandarim, russo, jamais traduzidos pra cá e nunca teremos ideia que aconteceram. E o Cinema? Ah, o cinema... E o teatro? E a cena de artesanato independente de carrancas no Sertão de Pernambuco e Bahia? E os origamis? MEU DEUS, e as últimas descobertas da astronomia? Da última vez que contei, Júpiter tinha 67 satélites. Até eu terminar de escrever esse texto, terão encontrado outro. Imagina se isso tudo fosse Gol? As luas de Júpiter são o "Brasil vs. Alemanha" da Via Láctea.

Esta é uma crônica estúpida, e já começo a me sentir, e inclusive peço perdão pelo momento Arnaldo Jabor (aliás, vá tomar no ouvido, seu babaca!), mas precisava te dizer que ninguém morreu até agora. Digo, muita gente morreu, mas não morreu, morreu, entende? Só parte dessa vida o que ficou, mas não vou citar Chorão eterno, nem vou te dizer que quando o sol bater na janela do seu quarto você deverá lembrar e ver que o caminho é um só. Porque o caminho não é um só, sou eu, é você, ou seja, somos vários. Somos alteridade, Devir, feminismo, conflito de classes, qualquer conceito filosófico que ajudar seguir em frente e dobrar à esquerda (por favor). Somos aqueles que não aprenderam, ironicamente, a se expressar textualmente sem aposto ou parêntese (tá vendo?). Somos os dentes de ciso que não nasceram direito, se é que nasceram. Ainda nunca usei aparelho. Alguns dias são nossos, mas tem outros em que um pedaço do teto da casa cai, tem corda do violão que arrebenta, tem gato que mija fora da areia... Tem dia que a porra toda dá errada, mas vou te cantar um segredo: ainda bem.

"Vivemos tempos deliciosamente difíceis", olha, pra ser sincero, não sou tão otimista assim. Mas a idade me ensinou a não contrariar meus instantes de bom humor. 

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