domingo, 27 de julho de 2014

Sereno

Havia um campo, e eu nunca fui uma pessoa de campos, criado entre cinzas e cidades. As cinzas são literais, da família de fumantes. Havia uma casa, embora faça anos que eu adentrei uma pela última vez, destas de jardim, de bancada, de telhado, de rede de balanço na varanda. Apertava a campainha, que ninguém atendia, embora houvessem sons vindo de algum cômodo, um trombone, uma percussão, ouvi por tanto tempo o que faziam, que até arriscaria o tom: Sol. Talvez influenciado pelo tempo limpo e alaranjado, pela sensação que as 7 horas da manhã traz e trazia ali. Mas enquanto aguardava alguém notar minha presença, na tentativa de incomodar o quão menos possível, evitando interromper aquilo que acontecia, seja o que fosse, pois, ademais, ainda desconhecia onde estava, apertei meu tabaco e o fumei uma vez mais antes de insistir contato com os moradores. A música se interrompeu como se fosse por vontade própria, aquém de quem a produzia, e um curto silêncio seguido de uma conversa inaudível entre alguéns e alguéns, apertei novamente, e estava, felizmente, pelo final do cigarro e da seda. Uma moça de vestido longo, porém tecido leve, florido, ou qualquer adjetivo que caia pois nunca fui bom em distinguir vestimentas, abriu a porta, e embora tenha perguntado o meu nome, e eu o tenha mentido, dito outro, seja lá qual reflexo me tomou na hora, talvez o gosto da nicotina ainda se ajeitando nas veias do pescoço pra cima. Embora tenha perguntado o meu nome, cuja verdadeira natureza eu o tenha omitido, ela parecia me reconhecer, e além, parecia saber da minha mentira, o que não impediu em sorrir e dizer que estavam me esperando, me desejar as boas vindas, me pegar pela mão, levemente, na verdade, pra ser preciso, pelo pulso, e me direcionar para dentro da residência.

A casa por dentro parecia maior do que por fora, como toda casa bem projetada deve parecer, embora eu desconheça qualquer conhecimento sobre arquitetura. As janelas pareciam, também, pelo menos, três vezes maiores, e a luz solar adentrava o interior do imóvel como se fosse este, na verdade, o descampado de onde eu acabava de chegar, e talvez esta sensação que se mantivesse em mim, fosse o chão amadeirado que fazia o barulho abafado porém indiscutivelmente diferente do cimento, do piso em azulejo, ou da grama, e a terra molhada, referência ali anteriormente imediata. Parecia ter chovido no dia anterior, a umidade ainda me era palpável, provável resposta do meu corpo a uma chuva caindo de fato no meu corpo deitado, exausto e dormido, como iria descobrir depois. A sala era consequentemente também desproporcional, e haviam poucos móveis além dos sofás e tapetes, uma escrivaninha no canto esquerdo, e o piano de armário do lado esquerdo, atrás de uma das poucas pilastras que sustentavam a estrutura. Definitivamente ninguém encostava ao piano há pelo menos uns bons meses, era a única peça empoeirada que tomei nota durante minha estadia, e definitivamente a música que eu ouvia antes estava dispensando seu acompanhamento. 

Os músicos eram a família da moça, e estavam todos na cozinha, para onde ela me levou de imediato, me apresentando seus respectivos membros e instrumentos. O irmã caçula, cujo nome, não lembrarei de nenhum nome além do dela, mas cujo nome, fosse o que fosse, rimava com o instrumento que ela ainda segurava com as mãos, e era uma rabeca. Encostou este em cima da mesa da cozinha, único móvel também ali presente, além das cadeiras, da pia, e fogão, encostou o instrumento e me abraçou, como se matasse saudades, e, apesar de seus prováveis 11 anos, que arrisco, arranhava próxima minha altura, o irmão, mais velho, temporão, devia ter mais de 30, me apertou a mão duramente, e o trombone era o seu instrumento, mas seu nome, que já avisei me fugir à memória, definitivamente não rimava com nada. O pai foi mais gentil, assim como a mãe, os dois aparentando a casa dos 70 anos, o lapso de tempo ali, na hora, me causa estranhamento apenas agora, a propósito. O pai, de minha altura, tocava um violão de 7 cordas, que me escapou ao ouvido quando ainda espionava a festa que faziam, e a mãe, levantada de um pequeno kit de percussão, me abraçou como sua caçula, perguntou como havia sido a viagem, me ofereceu um chá preto, que aceitei, perguntando se podia acender um cigarro para acompanhá-lo, o qual ela concordou com simpatia, me solicitando, contudo, para fumá-lo na janela da sala. A moça da porta, que aliás se chamava Lerena, era formalmente ainda desconhecida para mim, mas lembro dos demais parentes a referindo vez e meia conforme acontecia esta apresentação. Havia no ambiente outros dois ou três membros, da família ou não, da banda, que seguravam clarinete, flauta transversa e doce. Nunca fomos apresentados.

Na sala, "Lê", como preferiu ser chamada por mim, dando a entender que estranhava a formalidade do nome completo vindo de minha parte, me guiou rumo ao sofá e janela, pedindo para eu aguardá-la retornar com o chá e o bolo de café. Falei que não havia necessidade, e eu mesmo pegava, mas antes disso, o irmão, mais velho, já estava ali com uma bandeja e ambos, e ela riu pela primeira vez de mim. Os cachos escuros e a pele morena, me seria doce e engraçado sorrir e recitar um poema improvisado da rima talvez proposital de sua graça com sua natureza étnica. Porém espaço para graças ainda me fora poupado, e me pus a sentar, beber um gole do chá, o pequeno bolo em cafeína, que degluti com cerca de três mordidas, e preparar e acender o cigarro. Feito meu vício rapidamente, Lerena, como ainda prefiro me referir aqui, mais por saudade que porque sonoridade estética, me perguntou se eu fumava todos os dias. Eu disse que sim. E se ela poderia provar. E eu disse que não. Ainda omiti a sua idade, mas Lerena era claramente mais velha que eu, por volta de 26 anos. No universo que me encontrava imerso, por algum motivo, eu era mais jovem do que de fato sou, e mesmo sem ter fitado durante esta história meus documentos ou quaisquer coisas que o valham, eu tinha convicção de meus 22 anos. A natureza subversiva do ato de lhe conceder um cigarro, portanto, se desfaz. Mas se desfazeria, se é que existe esta flexão verbal, em seguida de toda forma, pois ela disse que apenas queria provar de tabaco da cidade, pois desconhecia seu sabor. Abriu uma cartela de cigarros industriais, tirou de algum lugar um isqueiro que até então me passara despercebido, e, enquanto tragava, riu pela segunda vez de mim.

Desconcertado com a situação, e minha inocência, avistei, o que havia também me passado despercebido dado aquele instante, uma pilha de blocos de madeira para se montar construções no pé do sofá. Lerena, percebendo que minha atenção fora desviada, ergueu os blocos sob o assento do sofá, um a um, e, ainda em silêncio, tragando seu cigarro, jogando as cinzas pela janela, que ficava atrás de seu encosto, começou a montar uma espécie de torre ou prédio com as menores peças quadriculares. Conseguia empilhar cerca de 8 ou 9 blocos, antes deles caírem em desiquilíbrio, o que a superfície amaciada colaborava. Mas ela continuou na empreitada algumas vezes antes de me perguntar como eu havia chegado ali, de carro ou avião. Respondi que de trem, embora lembrasse nada de qualquer imagem anterior ao que descrevo aqui pra vocês. Lerena me disse que ia em breve voltar para cidade, que estava cansada do campo, que precisava retomar sua vida, pelo menos conforme pudesse voltar a trabalhar em casa. Mas a família não permitiria tão cedo isto acontecer novamente, não sem aprovação explícita, clara, dos médicos. Falava-me estas informações fortes como quem descasca batatas, comenta do tempo, do mar, da areia, do céu, e, mesmo assim, uma trava na garganta me impedia de perguntar e saber mais, quando tudo o que eu fazia era tragar novamente contra a janela. 

Disse para eu apagar o cigarro que ia me mostrar o outro lado da casa, cuja base, na verdade, tinha dois andares, a base se dividia em dois grandes salões, que chamavam de salas. Apaguei e acompanhei, quando ela me tomou novamente pelo pulso. No outro cômodo, cuja única separação, além da pilastra que descrevi a esconder o piano, era uma cortina, enorme. O restante da família já havia retomado, há uns minutos, a música que reproduziam, muito similar a primeira que escutei, contudo com variantes dos instrumentos de sopro, que improvisavam temas diferentes do que eu ouvira anteriormente. Não que minha cabeça pudesse fazer esta distinção racionalmente, mas meu palpite ali e então era este. O outro sofá, menor, também estava repleto de brinquedos, quando me dei conta que não haviam crianças naquela casa para brinquedos daquela faixa etária. Eram bonecas, bonecos de plástico também, figuras de ação, carros, bolas, peças de Lego aleatórias espalhadas, todas que ela arremessou até o chão para sentarmos, colocando o cinzeiro de madeira escura, que também me havia passado despercebido, na base da outra, gigante, janela. 

Sentados novamente e ela me pediu para recitar algum dos meus poemas, e eu a lembrei, porque um motivo me dava a certeza de que já havia lhe dito anteriormente isto, que nunca consigo decorar nada do que escrevo. Com desdém e humor, riu de mim pela terceira vez e retirou de um bolso até ali pra mim inédito, uma coisa que me parecia familiar, podendo, factualmente, ser de minha autoria. Eu li os versos que diziam: "A noite escura mais eu, em um pedaço do talher de Deus, cujos cachos herdei, das tardes por meu Rei." Reproduzo parte do que lembro, obviamente, exatidão em sentimentos abstratos é complicada, imagine a abstração de criatividade exercitada enquanto o sonho, que, por si, é a abstração da abstração. Pareceram-me apropriados, de qualquer forma, para os fins do contexto, vide o plágio claro por Cecília Meireles, ferramenta da associação, esta coisa comum de acontecer por nossas noites. Após citado, eu rio, talvez ali já reconhecendo que eu plagiara alguém, lembrasse quem, Lerena ria comigo e encostava seus lábios nos meus, porém sem movimentar os músculos em beijo ou estalo. O estalo vem de minha parte, e o atrito, finalmente, forma o que se chamam de selo, em diminutivo. O segundo estalo vem dela, e ri de mim pela quarta vez, antes de lhe desvendar a língua. Nossos narizes, grandes, bem maiores do que eu havia notado então, se cruzam como se abraçassem tal como viríamos a fazer, também, em seguida. O som dos beijos são altos, mais altos do que eu jamais ouviria um beijo soar anteriormente, mas as pessoas na sala de jantar, digo, na cozinha a tocar, a mesma música até onde eu pensava em prestar atenção novamente, jamais poderiam ouvir, graças aos instrumentos de sopro ensurdecedores. Um naipe de metais pareceu surgiu do nada, agora, trompete, trombone, saxofone barítono, seja o que fosse, estou improvisando, claro, mas seja o que fosse, era muito alto, e em questão de segundos era como se fizéssemos amor no meio de uma multidão em um carnaval de Recife.

Com o corpo por cima do meu, ou com o meu por cima do dela, de alguma forma parecia ser os dois movimentos ao mesmo tempo, talvez porque invertíamos constantemente, talvez porque é complicado mesmo lembrar destas coisas mesmo quando de pé, acordados, sãos e sóbrios. Em algum momento todos os botões da camisa, notando naquele instante pela primeira vez que estava com camisa de botões, arrebentavam, assim como arrebentava a alça do vestido de Lerena, assim como certas partes do corpo estavam mais quentes do que as outras, assim como uma peça ou pedaço de brinquedo ainda despercebido no sofá me machucou as costas e eu jogaria para longe, e o seu barulho batendo no chão faria mais barulho do que eu esperava, mas o carnaval vindo do outro cômodo estava cada vez mais alto, a cortina nos cobria a vista, e em breve o movimento se fazia constante, nem tão breve eu removia as roupas de debaixo, mas em breve ela removia as dela, e sequer havíamos entrado um no outro já emitia gemidos baixos, que se manteriam razoavelmente baixos durante tudo, apesar da música a acontecer nos permitir explodir duas granadas na sala sem sermos notados a não ser, quem sabe, pelo cheiro de pólvora que viria se espalhar e obviamente chamar atenção de alguém, afinal, sons e cheiros não se misturam, embora concomitantes. Como ali, seu cheiro, que eu sequer havia notado, assim, também inédito, era de alfazema, me perguntava quem ainda usava alfazema a não ser para sarar piolhos, mas claro que a centelha milisegundo de reflexão inútil se perdeu em sua própria inutilidade e mais me preocupei, em seguida, em buscar lhe as partes que eu ainda não havia conhecido. Antes, contudo, me interrompe, dizendo que alguém viria. Um cheiro de pólvora, agora, além de conjectura, realidade, me atingia o nariz, e provavelmente se tratava de um ser, no mundo real, estar preparando algo à cozinha, também, do mundo real. Pega me pelo pulso outra vez, avisa que a casa está sendo bombardeada, e o barulho de carnaval que eu estava então associando, na verdade era uma guerra proclamada ali naquele instante. Lerena me beija me mais uma vez pela boca, diz para acompanhá-la até seu quarto e que tudo ficará bem, rindo pela quinta vez de mim. 

Subimos as escadas da casa que tinha dois, três, quatro andares, ainda não havia notado que se tratava quase de um edifício, e corríamos sob os bombardeios que furavam a sala como se as paredes fossem manteiga, e na verdade deviam ser, pois o cheiro de pólvora se misturou com o aroma da manteiga, do pão, queijo derretido e café, e por um pouco a situação de quase morte não me empapou de saliva os lábios, fome. Porém ainda sob adrenalina, subíamos e subíamos as escadas, e as paredes ao redor derretiam, como disse, e pergunto de sua família, Lerena diz "vão ficar bem", e continuamos, e eu olho para cima, o teto da casa, ou edifício, parece ainda existir, apesar de sustentado por nada, pelos quatro cantos era explosão, mísseis, tiros, faíscas aconteciam, e o cheiro de comida, e eu tropeçava e ela caía sobre mim voltando e me beijar e dizia que me queria ali na hora e eu dizia que sim, por favor, pois não, mas pouco depois se levantava e me levantava também, como se tivesse o dobro ou triplo da minha força, e devia mesmo ter, e dizia que precisávamos mesmo chegar em seu quarto, e eu perguntava quanto mais teríamos que subir e cansar para chegar lá, se seu quarto ficava no telhado, pergunta que ela respondeu com a palavra "sim".

Partiu na minha frente, no final das contas, e eu tentava acompanhá-la, e as primeiras nuvens começavam a aparecer, e o cheiro de manteiga, café e pólvora evanesciam, eu olhando pra cima via um pedaço de seu vestido amarelo, não sei porque demorei tanto para lhe notar a cor, o amarelo se tornava menor, se tornava um ponto, um caroço de milho, na escadaria acima, metáfora que me deu fome novamente. Distante, eu corro para alcançá-la, e em um intervalo que em minha memória soa como dez, ou vinte minutos, no decorrer ali então deveria ter sido questão que poucos segundos bastariam, finalmente chegava ao final da escada e uma porta trancada separava o seu fim do telhado. Uma chave estava no tapete, e eu e a levantava, e, na fechadura, abria a porta, e uma névoa, que na verdade era uma nuvem, embaçava meus óculos. Conforme a vista voltava, o telhado estava firme, inclusive eu saltava sob ele, e as nuvens começavam a se dispersar, e havia nada de fato naquele terraço a contar, apenas, por um colchão, sem colcha, umedecido pelo sereno natural de se estar tão perto da parte do céu onde as águas evaporadas se condensam em nuvens. Grito por Lerena sem ser atendido, e um silêncio onipresente de sons e inodoros de aromas me preenche. No sentido do sonho em questão eu teria escola no dia seguinte, e teria que descrever para minha professora uma redação sobre como haviam sido minhas férias. Começo a rir histericamente sobre a possibilidade de explicar pra qualquer pessoa os fatos que haviam acontecido ali. Sento me sob o colchão, úmido, como disse, e decido esperar por seu sinal. De repente, o aroma da alfazema retorna e corta o que havia de inodoro ali. De sua beira cabeceira, me aproximo para senti-lo perto. Desta beira, também, reparo que dava para uma ponta do telhado. Espio, então, o abismo abaixo, e o campo verde espairece, infinito, sem sinal de guerra.

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