domingo, 21 de outubro de 2012

Alfazema

Acho bonitas essas coisas pelo caos que fazem só que é preciso cuidado. É preciso precisar um pouco menos dada a certeza do abraço. É preciso parar de dar pitaco e quão cedo sua boca parar de dar afta poderás gargalhar novamente. E quão cedo a saliva livre de DSTs secar esta livre estará de judiar a si o céu. Judiaria também querer mal de um ciso entalado. Quereria mal querer um mau fim aos mal amados por mais que estes o torturem-anistiem e demitam. Acorda o pesadelo e joga da cama com a sorte de acordar na hora o trabalho. Tropeça o violão com a mulher e percebe ela linda de qualquer jeito. Um recado dado ao passado e logo cedo de casa haveria um vão dentre o copo de café e o pedaço de pão em margarina. A esposa que cheira o pescoço e cheira alfazema e logo logo será a década de 90. Embrulho o azul antes que nuble e ponho na pasta que o escritório fica lá do outro lado e a cidade acaba antes. Chegando eu chego e grito Sol quando tem quem grite estrelas mais distantes. Que guerra terá declarada quem respira e sopra um tejo quando neste estabelecimento sequer o gerente sabe o que é um tejo. Embrulho umas frutas o horário de almoço e carrego meia dúzia e meia de paçoca para as crianças e compro sete pois uma é minha. Reclama aqui a tarde tá mais clara que é horário de verão saímos pois amanhã terá trabalho mais que hoje. A bola amarela se põe pro lado de casa dizendo as horas lembrando porém que sexta tem cerveja e parque novo na praça. Tal da roda gigante é novidade aqui e em casa a menina e o menino pulam no colo pra agradecerem o doce que vão querer bem feliz o final de semana que vem chegando. Algodão doce é da minha época e mesmo eu quererei um pedaço. A esposa que cheira além beija novo: de novidade tem um golpe militar indo pra tal democracia; tem o tal do roquênrol, também falou de guerra fria; tem computador potente, tem uma nova doença na tevê; e ri de alto porque escreveu com cuidado as palavras assim afim de que rimassem pra mim. Do riso isso importa menos que o que vou te fazer e o que eu te fiz pois de leite eu fiz pudim. Aponta a gente o norte e dorme outra noite.

 Acho bonitas essas coisas que se espalham no chão e no ar deixando o dia bom. Só é preciso voar amar de vez pra frente que de ré já basta o acorde.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Primavera nº82

Porque já mal consigo falar as pessoas tentam se passar por minha língua. Se não os dedos dessa mão esquerda que ainda escreve - bem, a propósito - teriam me empurrado uma cadeira de rodas. Sim, motorizada, com controle remoto, uma cadeira, com rodas, para aleijados. Nada contra os pobres aleijados, só que eu ainda tenho pernas, ainda ando. Amputei nada. Primeiro foi uma muleta, a perna esquerda dobra muito mal, só quebra galho. Depois duas, por insistência de minha neta ao ver minha dificuldade de pegar as chaves e abrir a porta de casa. Me irritei e relevei, afinal, temos que aceitar certos limites do corpo. Agora me arranjaram uma muleta esquisita, tripé, com rodas. Essa coisa é feita de metal, diferente da madeira das muletas, e sempre pita na porta giratória do banco. Só saio de casa com ela quando Maria Clarice insiste. O problema é que os assuntos por raridade se limitam à minha saúde. Tenho um terreno muito bom que adquiri na década de 60, na Barra Rasa. Foi na esperança de realmente montar uma casa lá, mas acabamos ficando por aqui mesmo em Rio Amarelo. A mulher, meu broto, que Deus a tenha, queria morar perto das irmãs. Me arrependo pouco, foi bom para nossa filha crescer perto dos primos. Voltando ao terreno, queriam eles vendê-lo por uma fortuna média a uma construtora, que quer construir um condomínio de luxo em Barra. Imediatistas, insisti e bati o pé, ou melhor, minha canhota. Escrevi que me recusava, que já havia assinado em meu testamento que o terreno vai ficar para minhas netas. Reclamaram e discutiram, e o debate continuou por meses. Porém no último ano, isso foi em 2009, concordaram comigo após todos os jornais indicarem que a região era a que mais se valorizaria. Na minha época nem entendia de especulação imobiliária, e ainda entendo pouco, mas pelo visto foi o certo. Sofia está construindo uma loja lá para ocupar o terreno. Maria Clarice ainda vai decidir o que fazer da vida, mas sabe que o terreno também é dela.

Sou muito independente pra minha idade, embora odeie estruturar minhas frases com essa justificativa. A despeito de saúde, nascer na década de 30 não é desculpa para reclamar da vida. Hoje, por exemplo, saí de novo. Engraçado como as coisas mudaram nessa cidade. Muitos amigos que tinham casa se mudaram para a capital do estado, e eu continuei. Tanto pelo emprego público que consegui e me aposentei, quanto pela tranquilidade e estrutura que a região oferece. Moramos apenas em dois bairros diferentes, e neste aqui estamos há mais de 40 anos. Um dos meus grandes prazeres é a nossa Praça São Alegrense, que foi feita por um prefeito meio corrupto há quatro eleições atrás para ganhar votos. Os moradores tinham certa dúvida de como lidar, afinal, ia aumentar e muito a movimentação no bairro, que já vinha acrescido de pontos de comércio. Porém, acredito que seja consenso agora, a mudança foi para melhor. Já temos até uma feira, a feira São Alegrense, que pode se chamar de tradicional. Vende-se diversos produtos, em sua grande maioria artesanais, e a cada dia há um tema diferente: antiguidades, horti-fruti, brechó. Me perco um pouco nesses detalhes, mas ontem encontrei até um ventilador muito velho, idêntico ao que eu tinha da época de solteiro. Muito bom, ia quebrar um ótimo galho para o Dezembro Verão que se achegará em breve. Deixei pra próxima por ser pesado demais para carregar, porém. Este é o sétimo ano seguido que mantenho um diário, tenho tal hábito desde que perdi parcialmente minha fala. Amanhã já é último dia de Novembro, o que significa que estou bem perto de conseguir novamente um registro por dia, uma agenda completa. Tudo bem, umas páginas maiores, outras menores. Por esta liberdade uso um caderno. Este registro está maior porque talvez eu esteja tagarela essa semana. Explico, há a possibilidade de Sofia estar grávida. Estou ansioso com a possibilidade de ser bisavô. O sorriso que faço agora é bem parecido com o que fiz quando Ana nasceu. A casa estará cada vez mais cheia. Voltando à feira, hoje comprei dois abacaxis também, menos pra mim e mais para o povo daqui de casa, diabetes me impede de comer a fruta desde 1999. Mesmo que ninguém coma, no final das contas, compro pelo aroma, mais. Lembro que minha finada mãe comprava três ou quatro e  deixava na mesa cozinha de casa só para perfumar a cozinha. E eu concordo com o que ela dizia, "cheiro de abacaxi é uma das melhores coisas da vida". 

Três Marias

Epitáfio. Gostaria de deixar qualquer palavra de amor escrita ou falada aqui dedicadas para Marialice. Provavelmente repetirei ou farei releituras de algumas ideias expressadas anteriormente. Também gostaria de dedicar e dedicar talvez; espera; onde foi parar minha educação? boa noite a todos vocês, é uma honra estar aqui em cima e saber o nome de todo e cada sorriso apontando pra mim. Hoje estamos bebendo um pouco de café porque esse é só a primeira apresentação do dia, pra apresentação seguinte temos cerveja, vodka e vinho; mas não é nada demais, Vodka mais barata dentre as garrafas de vidro, com promoção de 13 reais porque vem com energético de açúcar puro e saco de boi fresco. Vinho é vinho caro, não porque pagamos, mas porque nos deram. Doação faz bem a alma; e não é apenas isso que somos hoje todos nós? Nosso contra-regra pegou duas horas de fila no Mundial para garantir pra gente, por favor, uma salva de palmas! Tem Mundial aqui nessa cidade? Foi o seu João quem comprou. João Caetano, nome artístico dele, um beijo na boca do João. O ventilador da minha casa quebrou hoje cedo, após 30 anos ininterruptos de funcionamento impecável. Esse ventilador nunca me deu choque. Claro que púnhamos óleo de vez em nunca; fora isso. Voltando ao assunto, um grande prazer estar aqui com vocês, preparei um conjunto de canções e poemas, algumas piadas, como vocês podem ter notado até aqui; saímos nessa turnê há 5 meses atrás, com meia dúzia de datas confirmadas, todas no eixo Rio-São-Paulo, e a resposta do público foi grande, que acabamos marcando mais. Morremos, e viemos parar aqui. Pelo menos há a vista para o oceano Pacífico. Ontem mesmo estávamos, em Porto Alegre, da beira do Rio Guaíba cantando e falando merdas. Não que hoje estejamos cheirando a desodorante. Bebi chimarrão logo cedo, e não foi a primeira vez; foi a quarta ou quinta. Feira, vi a feira da Redenção, comprei livrinho vegetariano com uns Hare Krishnas, falamos da vida; olha, caramba, escrevi até com a grafia correta o nome deles aqui no roteiro. É o nome da próxima canção, que é nova, compus ontem. Fala de uma certa Maria. Obrigado, obrigado pelo café, como vai sua mãe? Eu não quero mais mentir. No mais, a próxima canção da noite é uma bem famosa, eu que fiz, dei pra Maria Leão gravar e pulou direto pras rádios, mas eu tinha gravado antes, juro. Já p'ragora preparamos uma versão de Sangue Latino dos Secos e Molhados; chamei Ney Matogrosso pra cantar também, ele tá aqui em BH gravando alguma coisa com Bethânia, mas ele não podia; gente fina. Bethânia ainda não conheço. Na música que vocês ouviram há pouco teve um teclado maravilhoso de Quinho Gato, nosso violonista que quebra um galho em outros instrumentos quando não tá tocando violão. Começamos uma banda bem informal, ano retrasado, no segundo ano do ensino médio. Sim, queríamos comer as meninas. Conseguimos, até, uma ou duas, menos do que esperávamos e mais do que merecíamos; nunca abrimos um latão de Picles. Parece que vai chover, hoje cedo levei as crianças na escola e jurei que amava, que amava minha esposa. A empregada Dolores me fez sexo e pediu que eu largasse ela, que viajássemos para outro país; Dolores definitivamente superestima minha renda mensal. Semana passada tirei o lixo pela primeira vez de casa. Uma letra M, batizei minha segunda filha de Maria Joana. A primeira, Sofia Virgínia, odeia o próprio nome; e o que sabem os jovens até os 21 anos? Ana dormiu aqui em casa ontem de novo, Ricardo, e não sei até quando ela vai ficar. Pede divórcio, pede dinheiro pras meninas de pensão, e me jura que me ama. Vamos vender limonada de novo pra conseguir o dinheiro dos escoteiros. Ninguém era escoteiro na minha turma, só eu e Luana. Queria ter comido a Luana. Devia compor um disco pra minha primeira namorada. Letícia, você sabe que namorei trinta garotas antes, só que contigo é diferente. Carmicamente, é você, só você. E a Ana? A Ana é minha vizinha da frente, a gente se dá bem, já rolou sexo, mas só. Ela tá até namorando uma garota, virou fancha. Não vou me adaptar, cara. Pra quando vai chegar essa pizza? A próxima canção é bem simples, vou ensinar agora pra vocês, ela começa com um sol, depois vem uma ponte simples pro ré, um sustenido, um acorde menor qualquer, é basicamente isso, sol e ré. No final da apresentação os discos estão à venda lá fora, consegui uma promoção pra vocês, afinal estamos aqui na Lapa. No formato de cd é 22, digo, 20 reais, e o mais recente também. Também, falei merda, juro, juro que não estou chapado. De novo. No formato de cd o disco novo custa 20 reais, o anterior custa 18. Se vocês comparem os dois juntos, a promoção é essa, sai por 30 reais os dois. E é acabamento certinho, o mesmo que vocês compram na loja por 30, 35, na minha mão comprando junto sai pela metade do preço. Já posso trabalhar de ambulante no trem, trajeto Central-Santa Cruz. Então, fiz isso tudo pensando na balada de vocês, não queria tirar dinheiro de bebida. Obrigado pelos aplausos. Quem quiser me oferecer um copo de Heineken ou Original depois do concerto, sinta-se à vontade. Eu não vou me adaptar a essa vida com uma bala perdida. Não é "como" uma bala perdida, não tô falando poema, cacete, é sério, literal, tem uma bala perdida aqui que atravessada e entalada na minha perna; a polícia pensou ontem que estávamos tentando furar o bloqueio da blitz. Bando de pau no cu. Ainda bem que tínhamos deixado a maconha em casa. Aperto o cinco que é o andar da sua irmã, e pergunto pra ela se você já chegou; ela diz que não e fazemos amor na lixeira do prédio. Mariazinha já tava dormindo. Eu não te disse nada. Desce logo pro play, Tiago, tá geral aqui e tá faltando você pra completar a porra do time. Tá, tá, tu começa na linha, e eu no Gol, mas desce logo. E diz pra sua prima que ainda quero ela. Meu pai avisou que esse ano não vai ter presente de Natal. Queria Lego. Deus está aqui na platéia, me julgando, as mãos com um saco de pipoca e meio litrão de refrigerante. Uma salva de palmas para deus. Fizemos amor na lixeira porque Mariazinha já estava dormindo, não queríamos acordá-la. Adoro ênclises. Desfazê-la em beijos. Te amo, Mariana.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Primavera nº2

- Chegou
- o que
- voce
- sim
- nosso amor sabia
- sabia o que
- sabia que cabe na gaveta de cabeceira_
- o que cabe na gaveta
- o nosso amor
- isso e bom ou ruim
- bom
- por que
- porque sim junto e sem acento
- que
- e bom porque fica ali por perto se a gente tem pesadelo pode virar pegar abracar cheirar ter ali e depois guardar de novo e saber que pode contar com aquilo sabe_
- ta bom entendi
- nosso amor e que nem jaca
- jaca e ruim fede
- eu gosto de jaca
- voce e voce eu sou eu
- que tal ser que nem amor de novela_
- novela mexicana ou das oito
- tanto faz detesto novela
- entao porque voce falou
- sua mae ta em casa_
- nao
- cade ela_
- vai chegar tarde ligou agorinha dizendo que ia encontrar minha tia pra combinar as coisas da primeira comunhao de Julinha
- Julinha vai fazer quantos anos_
- vai fazer oito
- tempo passa
- e e ela disse tambem pra se voce resolvesse passar aqui deixar voce so na sala trancar a porta do quarto porque ela confia em mim mas desconfia de voce acha que voce ta cheio das malicias comigo
- voce tambem acha isso
- so um pouco
- vamos alugar alguma coisa pra assistir sua mae chega ve a gente na sala comportado vendo filme e fica tudo certo
- pode ser quer ver o que
- qualquer um de super heroi
- tem um romance novo lancamento saiu na locadora
- sera que da pra alugar_
- acho que sim e dia de semana esses assim saem mais pra sexta feira sabado domingo
- ta bom vamos pegar um ja ja entao meu pai ja esta chegando pego dinheiro com ele e passo ai
- isso
- tem pipoca ai_
- tem nao
- e agora
- ainda nao tem
- boba
- tem leite condensado e nescau qualquer coisa a gente faz brigadeiro
- otima ideia por isso que te amo
- ta
- e
- to ouvindo musica
- ta ouvindo o que_
- adivinha
- ta nosso amor e como mel
- que musica e essa
- nenhum to falando sobre nosso amor
- de novo caramba
- sabia que mel nunca estraga_
- serio
- serio
- sei nao eim
- juro mel e parada que estraga nunca pode ver pode deixar apodrecer na prateleira da cozinha anos sem comer e pouco importa quando voce come vai estar doce com certeza e limpando os fungos da garganta
- faz sentido
- claro que faz
- faz cafe pra mim quando for ai
- aham
- preciso aprender a fazer tambem
- precisa
- ...
- cafeteira e facil de usar sabe a tomada faz o trabalho todo
- pois e
- tive uma ideia
- hm
- vou pegar la pra ver
- o que_
- pronto peguei mas veja esse mel aqui de casa diz data de fabricacao tres de outubro de 2005
- e dai_
- e dai que depois fala que e valido por 24 meses apos a fabricacao
- quanto tempo e 24 meses_
- 2 anos
- e o que acontece depois de 24 meses_
- estraga
- duvido
- tambem duvido.