quinta-feira, 28 de abril de 2011

Panfleto

Falar de liberdade é um jeito fácil de se fazer de livre
E desaparecer na noite com o que sobrou do corpo
e do copo de cachaça de semana passada:

De quem é o riso torto e o beijo vago que você
tem me empurrado desde que pisou aqui?
A pista tá cheia, o mundo tá acabando, e só você aqui não está gritando:

Eu faço de sua corrente, meu pingente, minha arma, punhal, e declaro guerra, guerra, guerra, guerra pois:

O direito de calar, e o direito de ferir, tem o mesmo peso do direito de ir embora, desligar o telefone, de mandar pro raio que o parta e de sumir sem dar notícia:

Chega de prego nesses pulsos ou de culpa nesse sexo, ou de paz de discurso, quero o caos, o caos que eu vivo agora e sempre e a vida que há de ser vida independente de eu vivê-la, eu quero o caos que sou só eu e eu fingia ser ninguém:

Já que é assim, faço desse meu remorso e rancor, meu suspense, minha trama, meu enredo agridoce, e meu caos, minha guerra, guerra, guerra: eu declaro guerra a minha preguiça, a minha fadiga, ao meu sono, a minha falta de vontade de:

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Pronto Enredo

Serei seu milagre passageiro
A chuva de um ano inteiro
Numa madrugada só
E quando você estiver tentando respirar
no metrô lotado: você vai lembrar de mim

Sempre serei o carnaval no qual você não saiu de casa
O feriado, o fiasco, o carro quebrado na beira da estrada
Quando você, apressada, tentar caminhar
Serei o campo gravitacional Lunar
E quando você, meu bem, aprender a dizer NÃO, NÃO, CHEGA, CHEGA
Eu vou também

Serei a época que ainda nos banhávamos na praia de Botafogo
O cobrador que ficou te devendo o troco
E o salva vidas vesgo
que lhe abriu a boca não pra lhe fazer respirar
Mas para lhe roubar o ar
E o beijo

A previsão do fim do mundo, Armagedom
O talvez, o sim e o não, ao mesmo tempo
Serei a canção: triste, de Smiths à Calcanhotto
Adriana, serei seu beiço, seu mal
Serei, deste canto, o enredo pronto
E o ponto final.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Se

A cidade estava inundada e o oposto do descaso era a audiência e eu poderia me casar com este silêncio que a palavra certa causa poderia me calar diante da boca boquiaberta prestes a dizer o que devia ser dito e não o que eu gostaria de ouvir e me congelar e me embriagar de vinho tinto com animais já extintos poderia sangrar a mão neste aperto de mãos e cortar a garganta de tanto cantar uma canção e poderia correr descalço pelado com frio com pressa e fadiga e chegar mais cedo onde eu deveria estar desde sempre e eu poderia retomar minha crença na Páscoa no Natal e nas promessas de um mundo novo feitas por Bono Vox e pelo Papa Bento XVI e poderia voltar a atrás e deixar de ser o que me sobrou ser ou eu poderia pular para o última página deste livro ao invés de arrancá-la e eu poderia estar errado e poderia poder voar e saltar por prédios sem me render a justiça cega da gravidade e eu poderia suspirar por filmes que não passam mais na Sessão da Tarde eu poderia beber só agua e respirar por luz solar numa vida saudável e perfeita onde eu estrelasse não o céu mas uma novela das seis e poderia fazer sexo com a mocinha sem a beijar de verdade e poderia desligar a televisão ao invés de trocar de canal eu poderia abrir um livro de Saramago e lê-lo até o fim e eu poderia fechar o tempo e jogar a chave fora e poderia esquecer de ter que ir ao trabalho quando isso me conviesse e poderia ser astronauta para roubar constelações e fazer de refém poemas baratos para em troca ter de volta o amor da minha amada e eu definitivamente poderia ser um animador de platéia no Domingão do Faustão bem quando aos fins de semana entediado eu pudesse voltar a te amar e finalmente eu poderia calar a porra da boca mas eu não.

domingo, 24 de abril de 2011

Ode ao Imperativo

Tire suas mãos desse sorriso
Fira suas mãos neste domingo
Tire suas mãos desse gatilho
Fira suas mãos nesta segunda
Ponha suas mãos nesta virilha
Quebre suas mãos neste sorriso
Fira seu sorriso nestas mãos
Tire seu gatilho destas mãos
Mire arrombe escreva compareça voe minta assine enterre quebre chore sangre coopere apareça declare separe tricote batalhe perca desespere chova desintegre desapareça fira fira fira fira abençoe sorria espere prepare avance dispare esqueça esfaqueie desarme tire suas mãos deste domingo cante supere traumatize lipoaspire morra beba disserte quebre todos os meus ossos saia anoiteça vigie suspire coopere desame disfarce suspire desconfie prometa jure decepcione funcione desajeite decepcione nasça coma cague decepcione corra viva destrua decepcione faça omeletes com ovos de avestruz confunda mire confunda-se puxe duvide atire duvida acerte nunca ame com efusividade pessoas estranhas bloqueie ame odeie mire arrombe escreva compareça voe minta assine enterre quebre chore sangre coopere apareça declare separe tricote batalhe perca desespere chova desintegre desapareça fira fira fira fira abençoe sorria espere prepare avance dispare esqueça esfaqueie desarme tire suas mãos deste domingo cante supere traumatize lipoaspire morra beba disserte quebre todos os meus ossos saia anoiteça vigie suspire coopere desame disfarce suspire desconfie prometa jure decepcione funcione desajeite decepcione nasça coma cague decepcione corra viva destrua decepcione faça omeletes com ovos de sabiá confunda mire confunda-se puxe duvide atire duvida acerte nunca ame com efusividade pessoas estranhas bloqueie ame odeie mire arrombe escreva compareça voe minta assine enterre quebre chore sangre coopere apareça declare separe tricote batalhe perca desespere chova desintegre desapareça fira fira fira fira abençoe sorria espere prepare avance dispare esqueça esfaqueie desarme tire suas mãos deste domingo cante supere traumatize lipoaspire morra beba disserte quebre todos os meus ossos saia anoiteça vigie suspire coopere desame disfarce suspire desconfie prometa jure decepcione funcione desajeite decepcione nasça coma cague decepcione corra viva destrua decepcione faça omeletes com ovos de crocodilo confunda mire confunda-se puxe duvide atire duvida acerte nunca ame com efusividade pessoas estranhas bloqueie ame odeie mire arrombe escreva compareça voe minta assine enterre quebre chore sangre coopere apareça declare separe tricote batalhe perca desespere chova desintegre desapareça fira fira fira fira abençoe sorria espere prepare avance dispare esqueça esfaqueie desarme tire suas mãos deste domingo cante supere traumatize lipoaspire morra beba disserte quebre todos os meus ossos saia anoiteça vigie suspire coopere desame disfarce suspire desconfie prometa jure decepcione funcione desajeite decepcione nasça coma cague decepcione corra viva destrua decepcione faça omeletes com ovos de Cobra confunda mire confunda-se puxe duvide atire duvida acerte nunca ame com efusividade pessoas estranhas bloqueie ame odeie mire arrombe escreva compareça voe minta assine enterre quebre chore sangre coopere apareça declare separe tricote batalhe perca desespere chova desintegre desapareça fira fira fira fira abençoe sorria espere prepare avance dispare esqueça esfaqueie desarme tire suas mãos deste domingo cante supere traumatize lipoaspire morra beba disserte quebre todos os meus ossos saia anoiteça vigie suspire coopere desame disfarce suspire desconfie prometa jure decepcione funcione desajeite decepcione nasça coma cague decepcione corra viva destrua decepcione faça omeletes com ovos de crocodilo confunda mire confunda-se puxe duvide atire duvida acerte nunca ame com efusividade pessoas estranhas bloqueie ame odeie mire arrombe escreva compareça voe minta assine enterre quebre chore sangre coopere apareça declare separe tricote batalhe perca desespere chova desintegre desapareça fira fira fira fira abençoe sorria espere prepare avance dispare esqueça esfaqueie desarme tire suas mãos deste domingo cante supere traumatize lipoaspire morra beba disserte quebre todos os meus ossos saia anoiteça vigie suspire coopere desame disfarce suspire desconfie prometa jure decepcione funcione desajeite decepcione nasça coma cague decepcione corra viva destrua decepcione faça omeletes com ovos de macaco confunda mire confunda-se puxe duvide atire duvida acerte nunca ame com efusividade pessoas estranhas bloqueie ame odeie mire arrombe escreva compareça voe minta assine enterre quebre chore sangre coopere apareça declare separe tricote batalhe perca desespere chova desintegre desapareça fira fira fira fira abençoe sorria espere prepare avance dispare esqueça esfaqueie desarme tire suas mãos deste domingo cante supere traumatize lipoaspire morra beba disserte quebre todos os meus ossos saia anoiteça vigie suspire coopere desame disfarce suspire desconfie prometa jure decepcione funcione desajeite decepcione nasça coma cague decepcione corra viva destrua decepcione faça omeletes com ovos de crocodilo confunda mire confunda-se puxe duvide atire duvida acerte nunca ame com efusividade pessoas estranhas bloqueie ame odeie mire arrombe escreva compareça voe minta assine enterre quebre chore sangre coopere apareça declare separe tricote batalhe perca desespere chova desintegre desapareça fira fira fira fira abençoe sorria espere prepare avance dispare esqueça esfaqueie desarme tire suas mãos deste domingo cante supere traumatize lipoaspire morra beba disserte quebre todos os meus ossos saia anoiteça vigie suspire coopere desame disfarce suspire desconfie prometa jure decepcione funcione desajeite decepcione nasça coma cague decepcione corra viva destrua decepcione faça omeletes com ovos de Pokémons confunda mire confunda-se puxe duvide atire duvida acerte nunca ame com efusividade pessoas estranhas bloqueie ame odeie não leia este texto na íntegra e tire férias.


segunda-feira, 18 de abril de 2011

Custo

Ela passou aqui mais cedo hoje, e deixou, por debaixo da porta, o seguinte bilhete; o qual eu confesso, compreendi muito pouco conteúdo; inclusive acredito que não foi escrito pra mim, agora, mas para um outro eu, um eu que a dita cuja acha que morou aqui dentro, neste corpo, anos atrás:

Já estou sem noite, e meu dia vai nascer mais claro, mais cedo
Quando você chegar, se aparece lá em cima, lá em casa
Quebra um prato, uma janela
Pergunta minha idade
Pede meu açúcar já roubado, pega meu sexo emprestado
E não devolve não
P'ra falar a verdade
Já estou sem dia, e minha noite vai nascer mais escura, tardia
Estou sem paciência p'ra minha própria poesia
P'ro meu próprio amor
Se me ligar, vou te desligar o telefone à cara e te desejarei o inferno
E te darei o inferno
E Arnaldo Jabor
Amor é bossa nova
Sexo é Heavy Metal
Te morderei a boca, e quererei cortar o seu riso à faca
Arrancar à mão seu siso e
Outras coisas que a lei me pune
Mas sorte sua: não lido bem com sangue - nunca lidei -
Por conta disso, me manterei calada
Você vai fingir que nunca leu
Terei certeza: escrevi nada.



ps;provavelmente ela tem alguma razão.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Chocolate Nº 2

"A vida bate aqui - pede doces e travessuras - essa parte do céu nunca fora tão escura - a cor dos lábios que embranqueceu - o brinquedo novo que não é mais seu"

"Acho que vou sempre ser partido, um coração - pedindo doce de São Cosme e Damião - batendo a beiço na porta de estranhos - me apaixonando por olhos castanhos. "

"O dente cai, tão cedo e tão tarde - mesmo suor de quem joga bola e joga o corpo - contra a parede, a ferida arde - a lágrima que cai no ombro que já foi beijado, cai no chão - a boca suja de sorvete se suja de batom - não falo do chocolate, nem de mágoa, não, não falo mais de chocolate, nem de páscoa."

"O riso se abre mesmo sem dentes, e esta tarde, esta noite, essa risada de quem mente, esta noite chegou tarde demais, e esta falta, a falta da mão que se abre para apertar se contra a outra, do abraço que se abre pra se abraçar o mundo... mas todo abraço se fecha alguma hora, e uma hora essa hora chega, e uma hora essa hora já chegou, e, nessa hora, Deus que ore por nós, e uma hora já é uma manhã e é hora de dormir. A sós."

terça-feira, 5 de abril de 2011

As Coisas Que Eu Te Diria Se Eu Soubesse Mentir

Meu amor
O que você quer de mim
Claro, claro que pode ser
Acende o incenso de jasmim
Abre o seu email
Que lhe mandei boas notícias

Vou te dizer
Você me dá mais do que o bastante
Embora seu rosto seja meio torto
Embora eu não te queira mais
Não te queira mais

Não quero mais seu pão de queijo
Só quero seu corpo
Queime todas as fotos da nossa viagem pra Buenos Aires
E pra Madrid
E formate seu HD
Formate seu HD

Não, não vou escrever canção alguma sobre você
Não, não vou recitar poema algum sobre você
Não, não vou dizer mais não pra você
Não, não vou dizer mais não pra você

domingo, 3 de abril de 2011

Café Nº 3

A minha cachorra resmungando sobre provavelmente um gato no meio do quintal, a passar no muro da vizinha ou a se jogar com ela, aloitando, por pedaços perdidos de ração que acabaram de acabar e que levarão um certo tempo até eu ter tempo de comprar mais e reabastecê-los; um mendigo mexendo na lixeira de 15 metros depois do meu portão, e morar no Centro da cidade tem lá suas características inusitadas, até porque provavelmente o indivíduo nem deve estar procurando por comida, afinal, o restaurante a um real em torno da Central do Brasil é a nona maravilha do mundo moderno; ele deve estar a procura de latas de alumínio para reciclar e então, de uma vez por todas, financiar seu próprio Apê em Realengo; um ponto de ônibus, o 455 passando direto do ponto, sorte que qualquer carroça que passe aqui me deixa na porta do trabalho, e eu pego o ônibus, lotado como sempre, e tenho que ver e ouvir, logo pela manhã, e isso me irrita profundamente, pessoas xingando e resmungando porque alguém furou a fila, porque um lugar para idosos/obesos/deficientes físicos não foi dado a quem o merecia por direito, ou simplesmente irritados porque suas digníssimas esposas não lhe ofereceram carne na noite anterior, e jogando suas maletas irritados sobre a mesa do trocador, e este pedindo calma, e a pessoa dizendo "foda-se, eu já estou irritado, me deixa em paz", e o trocador (ou "cobrador," depende de em qual estado tu, tu que estás a me ler agora, foi culturalizado), naturalmente, dizendo que não se trata de problema dele, e de qualquer forma, é irritante ver pessoas enxendo-se os sacos uma das outras, desculpem-me as damas, aliás, mas é assim que as coisas funcionam numa manhã de segunda feira; mas já é quarta, o mesmo ônibus, um cheiro de cigarro que também já me foi irritante mas com o qual hoje em dia já me encontro familiarizado, e a orla de Botafogo, e as pessoas andando com seus cachorros de raça exótica, e um caro desconhecido sentado ao chão com o seu Beagle, googleiem por favor, e, então, deixem me dissertar um pouco acerca desta figura: esporadicamente venho notando que este indíviduo se encontra sentado ao chão, geralmente cabisbaixo, em expressão desolada, acompanhado sempre do referido cachorro que vos falei; sempre ao mesmo local, sempre a mesma hora, ou eu suponho que seja assim, anyhow, eu, este que vos fala, me via sempre contornando a mim mesmo a questionar a origem da tal figura inusitada - permitam-me descrevê-lo, seria um homem adulto de não muito mais de 30 anos, nem gordo nem magro, sempre vestido de branco com, sei lá, bermuda ou calça, 5 segundos de vista ao passar de ônibus por ele não me são o bastante para mais detalhes afinco, mas, contudo, claro, incoerentemente, são me o bastante para dissertar sobre sua natureza: me pergunto se se trataria de um fantasma, e essa é a hipótese mais interessante, acompanhado sempre por seu Beagle, este talvez fantasma ou não, talvez não, talvez sim, quer dizer, talvez sim, porque é um cachorro carismático e com certeza, se este fosse vivo, alguém o já teria levado consigo - de qualquer forma, um fantasma, que morreu há poucos anos, que perdeu sua esposa, seu grande amor, e desde então morreu de tristeza, sendo assim acompanhado por passeios matutinos com seu cachorro - não, claro, eu moro no Rio de Janeiro, metrópole, e se eu estiver errado culpem meus finados professores de Geografia, mas então, Rio, a hipótese mais provável, seria esta, dele se tratar de um doido, maluco, "lhouco", sendo assim, não tão interessante, visto ser algo relativamente comum por estas bandas; assim, o homem em questão podia se tratar apenas de um homem meio lêlé, que de manhã não tem mais o que fazer senão passear com o seu cachorro e sentar no nada, no meio da grama, acho que ainda não havia dito isso, mas ele se encontra na grama, de frente pra praia, bem próximo ao túnel que dá de frente pro Rio Sul; gosto de jogar com a possibilidade, também, dele ser um veterinário, que sai todas as manhãs pra ver outros cachorros, levando consigo o seu mascote favorito; também há a possibilidade dele não existir, e ser reflexo do excesso de café matutino que uma ilusão de ótica me causaria, mas você sabem que esta possibilidade não é pra ser levada a sério, por mais que, de fato, o meu consumo diário de café seja acima do nível considerado saudável pelos médicos que palpitam no Jornal Hoje.

Deixem-me falar do tal do meu emprego, é um emprego comum, nem chato, nem excitante, desafiador, no mínimo, porém, valendo mais a pena pelos colegas de trabalho em si, e por nossa convivência informal, descontraída, do que pelo prazer da labuta ou por boa remuneração que esta nos daria; e dali, seus arredores, Ipanema, Arpoador, ah, a zona nobre do Rio de Janeiro, trabalhar na Zona Sul tem lá seu o seu Glamour, não é mesmo, gente? tão idolatrada, tão bela e citada e recitada, em canções de amor, novelas das 9 e cartões postais - ali perto, e deixe-me me falar também do Leblon, da Lagoa, da vista linda, do cheiro de fossa, das dondocas que acham que ainda pertencem a High Society citada por Rita Lee em canção, com certeza, esta, inspirada por estas, outras, figuras, e de qualquer forma, é bom seguir pela manhã, e ver estas senhoras, não todas, sejamos justos, muitas são simpáticas e acessíveis, mas em geral, estas, outras, a quems me refiro pejorativamente, apontando o firmamento com a ponta de seus narizes, desconhecendo a palavra obrigado, e despencando-se de seus prédios, que, como elas, estão em estado de decomposição avançada; mas deixem-me falar dessa vida que ninguém vive, e da sexta feira, quando esta realmente, finalmente, redundamente, chega; das construções do Centro da cidade que sempre demoram o tempo do mandato do atual prefeito em questão para ficarem prontas; da Estação Cidade Nova, do lixo reciclável, também já citados em canção terceira; enfim, não perdamos o foco, deixe-me falar de amor, de beijos, de sexo casual, enfim, o que importa é que já não importa o que importa, já diria Sérgio Sampaio, quem está no fogo é pra se queimar, então, pra que chorar? esta cidade não vai chorar por mim, e acho que já passei da idade de chorar à toa pelas coisas, agora é rir, ironizar, deixar pra lá, afinal, desencontro, morte, desapego, e, porque deixar de citar?, o encontro, a vida e o apego, estas coisas todas fazem parte do pacote que chamamos de vida; mas me perdoem a filosofia barata, mas estou nesta mesa de bar, como havia lhes dito, atualizando meu blog antes de cair na noite, pelo celular high-tech que nem meu é, anyways, hoje é uma sexta feira, vou cair na noite, beber pra caralho, tô sem aula na faculdade a noite, porque algum fusível do prédio onde tenho aulas soltou faísca e a fez pegar fogo, e só, sei lá, só deus sabe quando terei aula novamente; mas, digamos que grande banda está por vir ao nosso estado no próximo mês? sim, naturalmente, eu também odeio cambistas, ainda bem que tenho meus contatos, e de qualquer forma, estou aqui escrevendo em meu blog e atualizando meu twitter, e a noite mal começou; sim, é bom aproveitar enquanto ainda se sabe escrever corretamente, é bom aproveitar enquanto ainda se consegue falar sem embolar-se as palavras e soltar asneiras; vamos pintar o Bar da Cachaça! e as poesias? lembro-me de quando era estudante de Letras, dos recitais no pátio, sob poucos ouvintes; e lembro-me, de quando era estudante de História, das bandas de rock, das rodas de samba, das pessoas dançando e, ouvindo pouco, porém, contudo, o mais importante, bebendo, bebendo mesmo, pra valer; lembro-me de tudo isso, e hoje já é sexta, o fim de semana vai passar como bala perdida, mas disso já estamos acostumados, e o domingo? que fazer do domingo? que fazer além de odiá-lo, de falar mal do Faustão, do Gugu, de desligar a TV, que ultimamente serve apenas pra decoração da sala, que fazer das terças feiras, dos programas de Humor óbvio dos quais já estamos cansados desde os 12 anos de idade?; que fazer da boca que se abre sem inspiração pra dizer "bom dia, em que posso ajudar"? que fazer das loucas bipolares pelas quais eu e em geral, os homens da minha geração, acabam se apaixonando? que fazer da louça suja? que fazer quando está abafado demais para ficar sem ventilador mas morno o bastante para sentir frio na pele enquanto ele está ligado? que fazer desta foto que me dá arrepios, tesão? desta boca que eu queria morder? do baseado que eu apertei mas não fumei? da ressaca que eu sei que vai me acontecer? (deus está neste instante me proibindo de ser irônico.) Novamente, que fazer da boca, em segunda pessoa, que eu quero morder? E que fazer do excesso de perguntas? Deitar e dormir.



sábado, 2 de abril de 2011

Paranóia

Por isso eu quero ficar
por isso eu quero ficar calado
no silêncio, me firo pouco
na ausência, me exponho menos
porém, se você me chamar
pra sair de braço dado com a noite
se cair uma gota de chuva
ou suor
ou lágrima
se você me chamar pra viver
eu vou.

Do Lado de Fora

Estava prestes a abrir a porta sem olhar quem me chamava, a rua estava vazia, ao menos pelo olho mágico, mas meus ouvidos ouviam uma voz ofegante que solfejava o meu nome, enfim, do lado de fora, a chuva estava por cair, o vento se metia pela minha respiração, e, apressado, eu corri em direção a voz que eu ouvia e que agora sussurava um segredo, um segredo que eu precisava ouvir de perto, e esta voz, macia que só, passou a cantar, e a canção que esta voz cantava passou a crescer, a ser seguida por uma orquestra, filarmônica, completa, e esta orquestra se silenciou por uns instantes, dando espaço ao som de uma banda, uma banda de rua, destas que passam a tocar marchinhas tradicionais, e estas marchinhas voltaram a ser seguidas pela orquestra, e o volume passara a crescer mais e mais, enfim, agora, novamente, a voz macia tornara a surgir, e esta voz retomara o cantar da canção, da canção sem nome, sem letra, secreta, a canção que me dizia um segredo, um segredo que sem medo, eu queria pra mim, eu queria em mim, e assim que tomei nota, no bloco de notas, do que se tratava este segredo, eu tratei de guardá-lo pra sempre no canto mais arejado, melhor servido pelo sol, cercado de plantas, de água fresca - eu tratei de guardá-lo no melhor pedaço da casa onde eu vivia - eu tratei de guardá-lo, estampado, na minha ferida mais aberta - eu tratei de guardá-lo, em todo pedaço de mim que eu chamava de vida - eu tratei de guardá-lo e cantá-lo em todo e qualquer canto.