Comia rapidamente o sanduíche na pausa de 15 minutos pra poder ter um tempo de puxar um cigarro lá fora, na calçada, na frente do restaurante. Essa rua de Laranjeiras é pouco movimentada naquela hora do dia. Com o bom vento que batia a sensação do tabaco subia a cabeça e baixava a pressão sanguínea, me ajudando a relaxar um pedaço dos 6 minutos de intervalo que sobravam. Jogava a bituca apagada devidamente na lixeira pra não levar esporro do patrão e entrava com 1 minuto e meio de sobra para dar tempo de lavar, enxaguar as mãos e bocejar que fosse uma água com sabão pra tirar o gosto da boca. Pontual eu fui, higiênico o bastante? Não. O primeiro comentário que ouvi, assim que encostei na beira do bar, pra reencontrar meu bloco de anotar pedidos, foi: "Tava fumando de novo, né?" Dizia a porra do meu chefe num tom de voz rápido e crescente, daqueles que só usa quem sabe que vai pregar um susto; "Já falei pra tu parar. Só não te ponho na rua porque tu vai e mete uma porra dum processo trabalhista, pena que isso ainda não é justa causa, mas ainda vai ser, se Deus quiser. Antigamente podia fumar em qualquer lugar, era uma puta duma bagunça. Aqui mesmo, vivia fedendo de tudo, de cigarro barato, cachimbo. Mas já avisei, melhor parar. Fumei durante 20 anos nessa vida", e eu sentia que ia repetir como sempre repetia uma familiar ladainha do cacete, "estraguei meu corpo, pulmão fodido, inflamado, tive que fazer hemodiálise, até, mas sobrevivi, tô aqui, contando história. Agora vê se escova direito essa boca, chupa uma Valda, qualquer porra, que tem cliente na mesa 13 esperando pra fazer pedido."
Esquina da Ladeira onde moro com Senador Pompeu, apertava o passo, um carro freia que quase estaciona em cima dos meus pés. Negra, usava um turbante com saia lindos, pronta para qualquer festa na Lapa. O que não me impedira de soltar e gritar "Aqui é preferencial, cara, tu tá maluco?"; Que respondia: "Tu tá no meio da rua, piranha!", que eu retrucava: "Tu sequer ligou a seta, imbecil, se tu tivesse ligado eu saberia que iria tentar subir minha rua, mas você não ligou, então eu suponho que tu ia virar no edifício garagem. E mesmo que você tivesse ligado, isso aqui é região residencial, tu não tem que ficar andando a 60 quilômetros por hora, e porra da preferencial sempre é do pedestre em vias não sinalizadas por semáforos. Eu que não dirijo sei dessa porra, tu comprou a merda da tua carteira ou fingiu que esqueceu as regras de trânsito porque é um puta dum babaca mesmo?" O motorista, desgostoso, já fazia a ré e subia do meu lado enquanto eu estava na metade do discurso anterior. Acelerando e, dessa vez, roçando o carro na bolsa que carregava, ele gritava, "vai prestar concurso pro Detran, então, vadia preta mal comida", subindo o restante da ladeira a bem mais do que o limite estabelecido por lei.
Sicrano me chamou pra tocar pandeiro em uma faixa do disco novo dele. nos conhecíamos de vista, de algumas dessas noites no Baixo Gávea, não era de suas faixas mais criativas, mas topava a empreitada pelas redes que sempre se estabelecem dessas empreitadas musicais. Chegando no estúdio, havia um contrato pronto, que eu nem sabia que existia, que cedia todos os meus direitos para os produtores e artistas do álbum, deixando claro em cada vírgula de cada cláusula que uma vez que eu assinasse aquilo eu não poderia jamais, nunca, never, jamé, como recorrer e ganhar qualquer lucro daquela sessão. Assino de todo jeito, embora incomodado com tamanha burocracia e mesquinharia de uma galera que sempre teve dinheiro para caralho, e eu, fodido, trabalhando de telemarketing para complementar renda, sujeito àquilo. Assino, toco, a versão final da canção ficou ainda mais genérica e derivativa do que a demo que me foi passada era. Boa o bastante, porém, para render alguns views pela Internet, alguns compartilhares. Calculei, inclusive. quanto ganhariam por um vínculo adsense com o Google. e deve ter rendido, pelos 45 mil views, uns 27 reais para o artista. Dividindo com produtor e co-compositor, dava para cada um pagar uma garrafa de cerveja. Das mais baratas, porque beber na Zona Sul, já viu. Lembro antes de acordar que lia uma atualização de status do artista em questão dizendo que considerava a importância do seu trabalho essencial para fortalecer a cena atual carioca. Uma plateia virtual concordava aplaudindo entusiasmadamente.
Acordava, levantava, mijava, deitava e voltava a dormir em seguida, me ajeitava de barriga pra cima no chão da calçada coberto de pedras portuguesas. Durmo mais algumas horas e semi acordo, mantendo a vista entrecerrada. No meu pé da cama agora se prostrava um casal observando e cochichando a respeito de algo que olhavam. Sentia o cheiro real de vômito que sei lá se era meu, Meu local de repouso era a mureta da Urca e era possível ouvir o som baixo da maré quase sem ondas desse pedaço da Baía de Guanabara. O casal insistia nos comentários e travava o seguinte diálogo: "Olha, que bonitinho, está dormindo? Acho que está morto. Mas será? Acho que sim, presta atenção na barriga. Se não mexe a barriga, não respira. Acho que se mexeu. Acho que não. E essa pele, tava com sarna, tadinho? Está com sarna, porque acho que tá vivo. Como será que aguentam, largados assim? Vivem de sobra, a Urca deve ter lixo de primeira qualidade. Com certeza, devem até comer melhor do que o povo lá de casa. Pois é. Pode crer, tá vivo sim, acho que vi a barriga se mexendo agora. Foi, vai brincar com aquela latinha? Cuidado pra não cair na água, ratinho."