quarta-feira, 25 de março de 2015

Fogo, Repouso, Fogo

O leão cavalgado se assenta na sala de estar e fica. Repousa com o peito em cima das duas suas patas grossas. Exausto de granir, ronrona, o que, pela proporção de seu sistema respiratório, ecoa alto em bom som como se seu intento fosse amplificado e o ambiente fica repleto de tal granido. O leão cavalgado observa o corpo estendido adormecido na cama no quarto ao lado que tem a porta escancarada enquanto ele, maior tanto pela sua física quanto por sua nobreza, descansa no chão acarpetado. Conclui que o corpo estirado na colcha deve respirar porém discretamente já que não está a preencher o ambiente com ruído algum, pequeno que é. Seu ronrono inexistente é substituído por um ronco, cujo problema respiratório no septo nasal é a causa. Também há a saliva a umedecer algodão do travesseiro, detalhe irrelevante para o leão. O felino de fato observa este corpo mais com pudor que com a malícia da fome a presa, embora complacente, menos acusativo. O som das futuras presas fora de casa, incluídos animais vizinhos a ladrar, cortam o silêncio ocasionalmente.

O travesseiro em questão é na verdade a vestimenta dobrada e usada na madrugada finda há pouco. Trata-se de sua blusa xadrez batizada de diversos variantes de substâncias, da cevada ao mel, do batom ensalivado a cinza do cigarro. Embora não fume, o leão cavalgado compreende em seu faro cada dessas nuances e boceja, enquanto retoma a avaliar suas preocupações de fato:

O primeiro pensamento que surge em sua mente é que a caça futura instante agora repousa mais e melhor do que ele pode, ao se distrair com tais insignificâncias. Balança e força tantas vezes incomodou seu espírito, cogitar a possibilidade de, no dia, ao dia, que, demais cavalgado, ficaria por sem se alimentar, e a presa, solta e selvagem, alimentada do pasto fresco que não cessa em nascer, revitalizada, sem ter quem lhe cavalgue, escape valente cada vez mais e cada vez mais faminto e fraco, chegue o dia que jamais se alimentará de novo. São noites como estas, com o peso alheio e indiferente à desnatureza que é e há em cavalgar um leão que se desanima. Apesar de colosso em sua proporção, esta que séculos e gerações se fortaleceu para labuta da caça e não para que transportasse nas costas qualquer outro mamífero sedentário, em noites assim cogita e reflete acerca da possibilidade de sua derrota definitiva que um dia o conjunto dos fatos ainda há de lhe submeter. "Não hoje, nem amanhã ou depois", se tranquiliza em seguida, ao se sentir firme no peito seu próprio coração de quase dois quilos pulsar no pulso de sua pata esquerda. Lambe seu restante com sua língua grossa e áspera que num mero gesto rotineiro e desmedido de carinho poderia dilacerar a carne  humana do cavaleiro que lhe cavalga antes como a seda lida o atrito à espada. 

Adormece, finalmente, pois relembra da mesma forma que a selva adiante é longa e o Sol, apesar de seu irmão de fogo, arde igualmente contra e a favor todos. Presa ou grama, ele não pretenderá se apiedar de seus descuides ou falta de gana. Portanto, atento, antes do meio dia a carne de outra zebra ou búfalo descuidado lhe preencherão o apetite e vazio gástrico. O cavaleiro frágil, cuja ressaca física e moral lhe prendera em um quarto cuja porta estava escancarada, ainda se encontrava descordado. Ganhara o dia de folga.

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