segunda-feira, 9 de março de 2015

Crônicas de Bolso em Bytes: 30 Minutos

Eu nem tinha gastado guardanapo. Nem papel higiênico no banheiro, nem uma gota d'água porque não lavei a mão quando mijei. 61 reais e 60 centavos de conta. Repassei, recontei, procurei, que que tinha custado tanto assim. A Antártica, normal, nem era Original, tava 11 reais. Mas disso eu sabia, por isso pedi só uma, que bebi devagar, aos poucos, uns goles tão microscópicos que parecia chá de erva cidreira com arroto quando a garrafa acabou. Cereja do bolo? O carro chefe da Ambev ainda me veio meio quente. Mais justo e honesto me enfiarem uma faca na barriga pra me roubarem meu relógio Cássio (ano de fabricação: 1996) do que cobrarem sá porra de preço e não servirem a mais glacial cerveja do Rio de Janeiro. 

Permaneci no estabelecimento quase exatos 30 minutos. O bar estava lotadíssimo. Nesse tempo, cerca de 57 vezes passou um garçom na mesa perguntando se eu queria mais alguma coisa. Isso dá em média quase duas vezes por minuto com alguém repetindo essa quizila. Não, não quero mais nada. Não, não quero mais nada. Não, não quero, caralho, que que eu posso pedir sem ter que penhorar meus rins? (Fígado e pulmão já não prestam pra muita coisa.) Tinha aberto o cardápio, minha amiga que me acompanhava logou-se no Foursquare para fins de investigação. O aplicativo é dessas modernidades móveis que avaliam estabelecimentos ao seu redor via GPS. Falavam muito mal do pastel dali. Literalmente pagamos pra ver. O tamanho? Olhem a palma das suas mãos. Imaginem, agora, a palma da mão de uma pessoa com um metro e quarenta. Abstraíram? Dividam, então, esse tamanho por dois. Isso aí que vocês tão vendo é menor do que o pastel que chegou. Custaram 12 reais (6, cada). 

Tinha uma bossa nova sem vergonha arranhando de fundo, nem João Gilberto era. Emendaram num samba que nem era João Nogueira (ou o genérico do filho), mas um batuque mequetrefe que aposto meu par de orelhas que nunca tocou em laje nenhuma. A trilha devia repetir toda santa noite, notei funcionário embromando a música com a boca. Playback? Sem couvert artístico.

Me peguei lambendo o farelo do prato do pastel pra distrair. A louça tava quase mais saborosa. A conta ainda não batia. Tínhamos avaliado o gurjão de frango mas desistimos diante dos 49 reais pela porção (que era tão generosa quanto o Tio Patinhas pelo o que espionamos da mesa ao lado). Achado, estavam cobrando os dez por cento. Sempre os dez por cento. Isso porque ficamos sentados 15 minutos tentando chamar o garçom, apenas um notou, anotou e nunca que trouxe o que pedimos. Desistimos e pegamos direto do balcão. Daí que começaram a pipocar aos milhares querendo engordar nossa conta. Minha amiga só bebeu uma água. 200 ml, 5 reais. Descubro a pólvora. Um sinal de "x2", leia-se, vezes dois, em todos os pedidos, com uma fonte menor. Os pastéis se multiplicavam por quatro. O garçom que nunca trouxe o pedido esqueceu de atender mas lembrou de incluir o valor na conta. Já mencionei que o bar estava lotado? Sexta feira na Lapa é assim mesmo. Rimos muito. Saímos sem pagar. 

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