Do caroço ao chão do quintal nasceu a Macieira.
A Macieira deu Limão
que deu suco de Laranja,
cuja semente presa do dente cuspida pela janela do banheiro
fez nascer pé de Jaca.
Da Jaca ninguém gostava muito que a bicha fedia,
embora o que nascesse de fato fossem Cenouras
que caiam na mesma terra onde se enterravam os passarinhos.
De vez em quando surgiam Tomates na beira
ninguém nunca entendeu porquê.
As Cenouras um dia caíram no cimento do quintal,
que agora era estacionamento.
Os carros e os motoristas passavam por cima
e pensavam em lombadas.
Um belo dia um pedestre resolveu parar e pegar uma ou duas
pra fazer Sopa em casa.
Era o pai a caminho da janta
A mãe esperando o jornal
o caldo de Feijão virou tempero improvisado
acompanhando o Repolho cortado
que caíra àquela manhã de um Pinheiro
duas quadras abaixo.
Os guris elogiaram o aroma
pensando, porém, na sobremesa
tanto que o mais novo, escondido, jogou o resto do prato pro gato comer.
O gato comeu e teve diarréia
saiu correndo pela portinhola e cagou na casa da vizinha do lado
porque não morava lá
e por defecar enterrou o treco;
do dejeto, exatamente 6 meses depois
nasceu um pé de Bergamota
que, por incrível que pareça,
dava Bergamota.
As Bergamotas tinham caroço demais
engasgaram e mataram o avô da família
que já ia morrer de diabetes mesmo
essa outra mãe, até então uma filha, de raiva cortou o pé com um machado
ficou manca por ter cortado o Pé errado
e contratou um jardineiro pra tirar a bergamoteira fora.
Esse outro, que também era chefe de família,
plantou o Pé feito de Planta no próprio quintal
que depois de 5 anos virou sombra gigante
salvando da insolação as crianças da família
durante o fatídico verão do ano de 2077
que viria a matar metade da população do Rio de Janeiro.
Já em 2098, o Pé de Bergamota passou a dar Maçãs.
O milagre foi recebido com espanto pois até então,
acreditava-se,
estavam extintas todas as Macieiras do planeta Terra.
segunda-feira, 25 de junho de 2012
sábado, 2 de junho de 2012
Aliás
Nas manhãs de céu azul que se cura Cancêr. Quando de cedinho meu amor me abraça pelas costas, me penetra, me roça a barba, me espreme as espinhas; nas manhãs de céu azul de sábado, porque se for domingo amanhã é segunda, e começa de novo, tem que ser sábado, ou dia de folga, e não pode estar nublado; o café quentinho no fogo na real meio queimado porque esqueci; e o que importa quando sobe o cheiro de louça suja quando se entra na cozinha e o que importa porque é preciso lavar depois. Dia bonito, fim de semana, não tem trabalho, não tem cursinho, não tem vestibular, não tem pressão, não tem panela; só microondas; um mendigo na esquina pede dinheiro, você joga até uma moeda de 1 real, meiodouradameioprata; a inspiração bate forte e se criam até substantivos enquanto se morde a torrada e se fazem planos leves, bem leves, para o restante do dia, noite que vem, beberemos, talvez, aniversário de namoro Bia e Renata, que juntaram os trapos há três meses, e estão quase tão felizes quanto nós estamos aqui. Parece até que é primavera, te amo, meu amor, no som, um jazz leve, Ella Fitzgerald, p'ra nos lembrar que somos mortais; uma Maria Rita, p'ra nos lembrar da Elis, e depois a Elis de fato, como nossos pais ouviam; e que porra de bagunça em cima da mesa do computador; e o que importa? Vale à pena abrir conta poupança na Caixa Econômica?sim, eu jurei que hoje evitaria falar de trabalhar, mas cê sabe como é, meu pequeno. Segunda que vem começam a pagar a rescisão do pessoal, e queria me livrar daquela conta corrente do Itaú; e sim, vou calar a boca, já calei, parece que o Sol já vai se pôr - mas, espera, era só nuvem. Era só vertigem, as freiras na rua pensando em sexo, a janela aberta, o carro à 200 por hora na estrada de 120, e eu queria saber voar de vez em quando, tocar o Sol, o Sol que eu só escrevo com letra maiúscula, como você, querido, e que dia vamos esquecer de pagar as contas pra viajar pro Chile? Fica p'ras férias que vem. Repare que Ícaro deve ser a criatura da mitologia grega mais citada em canções. Voltando ao assunto, que venha o Serasa, que venha o fim do mundo, 2012 tá aí, e quem me deixa mentir? Já limpei e dei comida aos cachorros, sua gata está na varanda, vai lá falar com ela, de almoço tem batata, tem amanhã, te ligaram do trabalho, te digo amanhã quem foi, vai ser domingo mesmo, minúsculo, e depois segunda feira, minúscula, mesmo em início de frase; meio em cima da hora lembrei de despedida, que eu pronuncio e canto DISpedida; te amo e deixei isso de aviso na geladeira, num papel preso no imã da festa de aniversário dos seus sobrinhos; a geladeira ainda dá choque, o liquidificador, aliás, porque fazem tantas palavras e poemas com liquidificador no meio? A língua portuguesa é cacofônica - consequentemente, agora sem trema, -a poesia portuguesa é cacofônica; Arnaldo Antunes sabe das coisas. Marisa Monte, não. Ainda tem Pringles. Vista sua toalha, meu anjo, a tarde vem aí, me lembrei daquela nossa viagem à Bahia, o Pelourinho com swing e percussão 24horas por dia, sinto falta disso; nem os caixas eletrônicas funcionam tanto assim, hoje em dia; estive pensando que deviam fazer buzinas harmônicas e musicais, para cada vez que fizesse trânsito na Presidente Vargas os carros enfileirados virassem uma orquestra. A propósito, o próximo dia útil, te juro, será mais breve. As águas de maio passaram, e vem o inverno carioca, duas semanas de frio que valem a pena A lifetime. Isso me lembra Cecília Meireles, que me lembra Cecília, da faculdade, que nunca mais vi, saudade. A noite escura mais eu, ninguém reparou, mas saíamos de braços dados com duas garrafas de Antártica. Veja bem, meu bem, quantos dias já passaram desde que amanheceu? Acho que o cisto das minhas costas sumiu. Acho que a ruga da tua testa evaporou. Esse creme azul faz milagres.
Andaime Nº 2
Se eu soubesse que o mundo cheio de graça e saco
Me cutucava e beijava às três da manhã de língua
Me jogava do chão agora, pisava o céu e ria
Que isso estranho boiando na minha caneca de chá?
Que riso estranho vindo do meu guarda roupa?
Meu amor, não venha com mais feriado
Se eu fosse artista largava esse emprego
"Prefiro morrer cego, sem dente, jogado na esquina"
Se eu soubesse que crer e ter são verbos metafísicos
Pesquisava no Google o que é metafísica
Saía de casa como que se fosse trabalho
E ía parar, perdido, em Jacutinga
Se cai um toró, os filhos perguntam "'quê isso?"
No meio do nó, do cadarço, talvez paraíso
Talvez em Londres eu me encontre contigo
"Prefiro abrir o paraquedas e me jogar do andaime"
Se eu soubesse curar o câncer, a preguiça
A babaquice, o rock, o samba; eu curava
Se eu soubesse curar essa necessidade idiota por Deus
Se eu soubesse curar essa carência idiota: a Ciência
Eu vendia o remédio e fazia fortuna
Mas já que não sei, não curo coisa nenhuma
Muito mal minha boca cicatrizada da noite passada
Se eu soubesse rimar, virava poeta, te roubava um beijo e transava
Corria sem roupa de madrugada
Só pra ver em plena quinta feira a cara de susto
De quem, ao contrário de mim, vai trabalhar
Prefiro morrer, bem cedo, de acidente vascular
Com seu corpo bem quente abraçado dizendo que o meio do mar
É coisa muito estranha porque não é um lugar.
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