quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Histeria

A cor da primavera eu sei de cor
Sobretudo nas tardes de Verão quando ela já passou
Eu sei
Apesar dos neurologistas jurarem que sonhamos em preto e branco
Eu sei.

Queimado de Sol, estendido no varal com os demais corpos lavados, observo,
Junto das outras cores que por acaso decorei,
Que se o Sol brilhasse um pouco mais escuro a cor já seria outra.
Invenção estranha essa da nossa cabeça,
Mania esquisita essa de dar cor as coisas!

Eu sei de cor o som que faz quando a primavera cai
Dando espaço ao calor, à tempestade, ao desespero veraneio
Que a andorinha, acompanhada pela multidão de seus iguais, decreta e faz
E os demais daltônicos animais enxergam a cor de que precisam
E sequer dão por falta disso
E sobrevivem muito bem, obrigado
E fazem piadas secretas aos ouvidos nossos sobre esses mamíferos que veem necessidade em tirar verso de algo trivial assim enquanto fatos importantes passam despercebidos!
Como o quão suculento é este inseto que saboreiam hoje.

Concluo, humildemente, que eu sei de cor a cor da primavera
Junto de outra meia dúzia de coisas que decorei ou aprendi nesta vida
E me vejo inútil como o dente de ciso encravado na boca que até nasceu mas nunca conseguiu morder sequer uma maçã
Eu sei
Apesar da minha fobia desesperada de saber pouco e mais do que preciso
Que eu sou apenas exagerado
E que ando precisando de um abraço.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

(Retrô)spectiva

Comecei a organizar um conjunto de votos para 2015 mas percebi que não acredito em votação de qualquer tipo e me perdi do assunto e escrevi as prolixias abaixo. Ao garoto de 1987 chamavam anarquista... mentira, sou nada, sou porra nenhuma e o que importa vai por aí. E o que importa? Importa o pulo do gato que eu não dei, nem torci tornozelo esse ano, nem pulei pela janela: afinal, moro no segundo andar e o máximo que conseguiria seria um membro torcido com uma costela quebrada e uma conta de hospital que não poderia pagar ou, ainda, três semanas numa fila do SUS com uma escoliose mal diagnosticada. Mas agradeço com gosto e gesto, agradeço o atalho, muito embora errado, que me fez mais perder. Desde cedo, bem cedinho, já me encontrava atrasado e a isso também sou grato. 

Importam as metas não cumpridas pois são a realidade e eu me comprometo com o que é. Ganhei peso, aumentei um tamanho na escala de tamanho de roupas e tive que trocar metade do armário inteiro. Espinhas ressurgiram na testa! Uma mancha vermelha que aparece e reaparece esporadicamente no mesmo lugar. A gentrificação irá me remover de onde eu moro, tenho certeza que desse ano não passa. Não progredi no alemão como planejei que progrediria, e olha que eu sou de fazer poucos planos, de criar poucas expectativas, as quais nem assim pude atender. Encontrei o amor, é verdade, o amor pelos antibióticos, anti-inflamatórios, por tratamentos diversos para remover sinais na pele já referidos e os da idade. Apaixonei-me por umas três peças musicais, obviamente não escritas nem lançadas durante este ano que vos escrevo, mas frustrei-me proporcionalmente a este apreço com a minha incapacidade de executá-las. 

Este ano passado, este que está para acabar depois de amanhã, a despeito de meu pessimismo travestido de realismo, teve seus lados bons. Larguei os cigarros de vez, ou melhor, eles que largaram de mim quando resolveram armazenar um tumor benigno na minha garganta. Tomei birra e falei que era recíproco. Podia comemorar a economia financeira disto mas gastei a quantia economizada com os remédios e tratamentos para retirar a denominada coisa do lugar referido. Cadê vitória? Atualizei o anti-vírus do computador de mesa, é verdade. Arrumei meu quarto um número recorde de vezes, as quais foram exatamente três, e acho de grande valia dizer que varri o chão e espanei os móveis em cada uma das empreitadas, embora com variada dedicação e afinco a cada execução.  Finalmente visitei o tal do Cristo, aquele que fica lá de cima da Zona Sul brilhando em uma cor roxa, cafona, que não combina com nada no céu da noite. Bem, antes essa do que aquele verde e amarelo anacrônico durante a Copa. Fui mas só me convenci de vez porque descobri que ainda vale aquela meia entrada de morador. Detestei, estava quente, cheio de gente branca e loira, menos mal uns asiáticos, a vista era linda, claro, mas para ver metade dela posso fazer aquela trilhazinha pelo Parque Lage, de graça. 

Lembrei de outro ato de humanidade e transcendência que aprendi este ano: aceitar e respeitar quem expressa e escreve risada com "kkkkkkk". Politicamente não progredi praticamente nada, já que tive que me controlar emocionalmente, inclusive recorrendo à medicamentos, para não cometer um genocídio em determinada parcela da população brasileira que, a julgar pelos seus padrões éticos e morais, acredita que estamos na década de 20. (Deste ano que se inicia também não passa a confirmação definitiva de minha hipocondria.) Em contrapartida, meu gato, o Sucrilhos, expressou algum sentimento por mim pela primeira vez. Foi assim: "Amor, você não vai botar a porra da comida pra mim não? Se você continuar me enrolando eu vou embora." Não sabia se me sentia lisonjeado pelo gesto de carinho dele me chamar de "amor" ou se me revoltava com a grosseria. Fazia apenas doze horas que eu o alimentara pela última vez.

Nasceu uma flor, do meio do cimento da calçada aqui da rua. Não era bem uma flor, era verde, devia ser uma hortaliça, mas era viva, respirava via clorofila, nasceu. Se isso aqui fosse uma poesia ela me rendia um verso! Mas só rendeu em mais entulho pra varrer quando a prefeitura desmoronou o pavimento inteiro para trocar o encanamento embaixo. Fibra ótica já está marcada também para ser instalada agora em janeiro. Dizem que a atual gestão de urbanismo está trazendo saneamento e tecnologia decente pras bandas de cá. E eu? Quais meus planos pro ano que se inicia? Meu filho, eu só consigo pensar no aluguel que vai subir, e na bolsa que deve acabar bem no meio do ano. Já disse, a gentrificação ainda vai me tirar daqui. Devia ter ouvido meus pais e prestado concurso. É duro ser de humanas. Feliz ano novo, camaradas.

P.S: Contudo, tenho um remoto planejamento de finalmente fazer minha primeira tatuagem. Será um dragão nas costas com um balãozinho desses de quadrinhos dizendo "Eu avisei". Ainda está em tempo de me impedirem. 

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

24 Versos

Aproveitando a ocasião para me auto-esclarecer alguns pensamentos conclui que; Amo-a, e falo aqui do amor imaterial por uma fictícia órfã que lhe cativa em uma película de sessão da tarde, como quem contempla o próprio vazio do estômago. Amo-a também porque sou a maçã mordida e ela pouco se importa com as intactas. Quero-a pronta, e falo da prontidão de se estar de pé e firme quando vem uma ventania arrastando um piano um sua direção, que grande pena que ser um piano, mas é, e é preciso se estar pronto pois a única saída é se esquivar e continuar de encontro ao vento; Quero-a pronta no desespero nobre de arrumar sua casa às vésperas de uma visita importante, de aparar uma bala mesmo que ela venha inesperada porque definitivamente agora hora ali não era o momento apropriado para parar e morrer. Quero-a, e este querer se configura no contrário do desejar estúpido de que aquela estante que nem lhe pertence seja mais curta para que lhe alcance o topo; Quero-a ágil quão rápido a flecha mal disparada do cupido sagitário puder desviar seu rumo e lhe atravessar, ao invés, uma avenida inteira.

Enxergo-a do alto do meu astigmatismo já corrigido pelas ciências especializadas; Como as vitrines que protagonizam as ruas, quero-lhe o protagonismo e os enfeitos que existem nas mais magníficas vitrines nas vésperas dos Natais, digo, quero-lhe o protagonismo sobretudo nas ruas belas e ladrinhadas e semi-desconhecidas do Centro da cidade, onde ainda encontramos a raridade de senhoras e famílias passeando e jovens introspectivos apertando seus cigarros e doces enquanto ouvem a própria trilha sonora; protagonista que mesmo quando de madrugada, mesmo os embriagados safos cortando caminho ou apenas os perdidos vindos do bar lhe sejam só olhos, porque, pasmem, aquela vitrine tão protagoniza que na verdade tem voz e se mexe e está correndo atrás de suas almas; quero-lhe o protagonismo, o estrelato e o espanto deste tipo de audiência, e todo outro que você provavelmente ainda quererá. Embora seja ingênuo desejá-lo, eu quero, ou melhor, gostaria, que apenas lhe fitassem os cães cuja fome sincera e sem ódio se expressa na saliva e olhar.  

Nota-a do repente ainda desconhecido de seus terremotos que quero; Como e quando me chama com a chama e a periodicidade dos cometas milenares descobertos por astrônomos cujo qualquer átomo já esteja diluído pela terra ou mar. Como me aparece nesta explosão desta tarde cujo arco íris rasura o céu dos desatentos. Nem sei porque merece meu atento ou intento, só sei que sim, e que mesmo seu silêncio me satisfaz muito contudo prefira eu a festa. Corro para vê-la e o sinal dos carros se abre como se pressa me faltasse para lhe ver, e o que acontece é que este se equivoca! É que aqui nada de bom falta: só falta ela, o meu bem.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Ensaio Sobre Redenção

I

Existe um mundo lá fora
E o mundo aqui dentro de mim
E o mundo aí dentro de ti
Espalhado no ar feito o cheiro do almoço
Feito a altivez do rosto que não me pertence e eu quero tocar
Como também um espelho e a imagem do outro lado do espelho
Estamos todos cansados desta metáfora, mas juro que é como descrevo:
Aquela mão de sentido invertido que afaga o lado errado do rosto
Esta imperfeição dos gestos a física explica
A arquitetura urbana disserta sobre o prédio tombado, esquina dentre uma viela e uma rua
Sobre o cruzamento confuso e perigoso da Avenida, o departamento de trânsito
Sustentamo-nos nestes alicerces para errar menos ou para justificar os erros anteriores
Como arqueologia explica algumas pessoas terem testas tão grandes
E crânios enterrados estarem tão inusitadamente deformados
O curso de artes plásticas explica a aquarela
Dessas cores-coisas de baixo concreto compondo a cidade:
Canto.
Existe um mundo lá fora
E o mundo aqui dentro, e o dentro de ti
Cada um e cada qual com sua ciência
Mas aqui trato da metafísica da palavra
E da metalinguística do fracasso.

II

Perdão, mas aquela... Desculpa se embriagado já essa hora! mas:
Aquela, soluço
Vontade de gritar de manhã cedo, soluço
Me faz milagre!
Aquela vontade de voltar de manhã cedo com o diabo do corpo cansado
E com o diabo cansado do corpo
Me queima
Me cabe bem
Me escorre a garganta roçando e guiando o caminho até minha boca do estômago
Que, tagarela, já te disseste tudo o que havia de saber sobre mim.

(Esta noite sonhei novamente que os dentes da frente caiam da boca
E mesmo aos 27 anos eu torcia para que fossem os de leite
Despertado conclui que eram! pois acordei
E acabavam de cavar de volta seus últimos centímetros gengiva à fora
Suados, choravam como todo bom recém nascido
Ah, estes destes incisivos.)

III

Sou homem de palavra
SOU homem de palavra despedaçada
Viciado em antibióticos e multidões
Inflamado pelas palavras que me disseste ontem de noite ao dedo mindinho do pé do ouvido
Sou homem mas quereria ser mulher
Estou enjoado de tanta necessidade de tanta masculinidade
Queria poder escolher
Mas não é opção, vide o fracasso em sê-la
Sou homem de pequenos gestos e dores nas costas
Inflamado pelas palavras que me jogaste ontem do vigésimo quarto andar
Porque evitavas de descer à recepção me receber.

(Repito o refrão dos becos
O estribilhos das ruas
O coro das quebradas
Nunca estaria presente ao teu lado em quarto de motel ou hospital
Em minha insignificância e covardia, respectivamente
Mas tua cuja beleza e saúde admiro e respeito devido a distância
Com a devida distância.)

IV

Outra reflexo de fracasso é a limitada opressão que sofro
Mesmo a falta que me faz a carteira de identidade no bolso
Falta-me menos pois minha pele é branca
De nem tão branca assim, só o suficiente
A falta que faz falta me menos
A violência me é menos casual e isolada
A violência me é menos pontual e marcada
Pelo drama simbólico e vazio de me fazer a vitima
Morro e corro, baldio e vadio
Embora domesticadamente:
Civilizadamente revoltado
Grafito mentalmente
O estribilho mais nu dos muros
Das quadras que faltam pra cidade acabar.

V

Fracassa-me também a euforia
A folia cansada de quarta feira
Nem é Carnaval, é dia útil
O corpo faz e finge que desconhece o calendário
Insere no mês, arbitrariamente, um novo feriado
E ginga pro lado com uma fome pinicando a boca
Uma sede roçando a língua como se ônibus lotado
Ginga e caminha e tropeça rumo sincopado
Onde o barulho está mais quente para
Descobrir que o lado bom da vida
Está do lado dessa gente trabalhada em teimosia
Está do lado do coro menos confortável, mais descontente
Que zumbe suave o fundo desta madrugada
Embora apenas outro ponto da cor de lápis de cor errada
Nisto fracasso menos, portanto.

Contudo, como tantas doenças perdidas neste universo amostral de chagas
Havia um resto de febre ali à espreita
Uma sequela quente fervendo uma parte outrora fria do corpo
Ora a testa, ora a nuca, ora a virilha
As pernas ferviam mais cada degrau daquela escadaria
A caixa torácica ardia de doer conforme as noites se repetiam
Como toda boa febre, esta trazia outros sintomas
A tosse tossia para abrir a garganta
Outras vezes tossia pura pelo sádico prazer de se quebrar o silêncio
Ver se assustava uma ave, roedor ou inseto escondidos de dentro de casa
Roubando-lhes o prazer e a vez de espantar
A febre passava para os móveis e azulejos
Todo aparelho daquela casa parecia ferver às vezes
Perguntava-se, a esta altura da existência e Verão, o que havia ali para se congelar?
"Nada", a resposta vinha entre aspas
O septo nasal aquecido
O labirinto do ouvido afinado e agudo
Seria uma noite de suor adiante.

As telhas, por sua vez, certa vez, inclusive
Chegaram a derreter
Aí, além de febril, este que vos fala
Permanecera soterrado por semanas
Nisto e neste sentido se configurara um sucesso
Semanas depois, pois
Percebeu, finalmente, que sua temperatura havia baixado
Quando seu gato sentou-se, ronronante, em seu colo feito só câimbra e poeira
Sabido era o calor natural do organismo bichano
Viu, ali e portanto, que o carinho felino praticamente lhe queimara a roupa e a pele
Assim chegou o Inverno.

VI

Um caroço
Um calo
No tempo presente, fracasso aterrado
Duzentas bactérias na garganta para viagem, por favor
Mal curado estou, bem curado eu vou, mas, perdão
Cansei da posição horizontal, por favor, escuta
O inverno em Salvador é equatorial, meu amigo
Desculpa, ouve,
Escuta, por favor:
Preciso justificar, lá em casa
O trago de cachaça com mel
Que vou entornar esta tarde
Então, faça me esta gentileza, uma laringite fresquinha
E o corpo inteiro faz viagem, faz favor
Que o baile ali no morro, hoje, vai durar até amanhá
Que essa gente toda assim ainda
Tão macia, tão suada, tão risonha e disponível
Embora nem tão lúdica, poética e simbolicamente quanto eu descrevo,
Ainda vai me redimir a humanidade.

Dois Finados

Muita calma nessa hora quando a arma a cabeça explode
e o ar quente desce o pescoço
fervendo metal e quente o corpo
pela última vez a caixa torácica se abre
e a última voz sai até mais grave
no suspiro curto do morto
pelo calor explodido da cuca
sua garganta barítona sua e seca
calma que a premissa é esta
a canção de uma nota só
sai baixa e dolorida
pra compensar do desastre a festa
do cupido a ferida.

Calma que morreu, está aqui, está morto
não adianta outro morrer de novo que esse barco já saiu do porto
nem correr, que o despertador tocou há meia hora atrás
atardado, que cruz se afeita mais?

Porque não importa um grão de areia
na velocidade do luz
furando o muro
a sorte afiada causando na veia um furo
porque hipótese científica ou catastrófica nenhuma vai compensar a frustração
menos ainda importa o som do sim, do talvez ou do não
que só se sara a carne quando a carne é viva
rima nenhuma indeniza a vida
ou a porta que não se abriu
Serenidade, viu?
Que por um ou mais bilhão de anos ainda gira o mundo:
sem pressa.
Morreu? Respira fundo
aproveita que se decompor é bonito à beça.