Comecei a organizar um conjunto de votos para 2015 mas percebi que não acredito em votação de qualquer tipo e me perdi do assunto e escrevi as prolixias abaixo. Ao garoto de 1987 chamavam anarquista... mentira, sou nada, sou porra nenhuma e o que importa vai por aí. E o que importa? Importa o pulo do gato que eu não dei, nem torci tornozelo esse ano, nem pulei pela janela: afinal, moro no segundo andar e o máximo que conseguiria seria um membro torcido com uma costela quebrada e uma conta de hospital que não poderia pagar ou, ainda, três semanas numa fila do SUS com uma escoliose mal diagnosticada. Mas agradeço com gosto e gesto, agradeço o atalho, muito embora errado, que me fez mais perder. Desde cedo, bem cedinho, já me encontrava atrasado e a isso também sou grato.
Importam as metas não cumpridas pois são a realidade e eu me comprometo com o que é. Ganhei peso, aumentei um tamanho na escala de tamanho de roupas e tive que trocar metade do armário inteiro. Espinhas ressurgiram na testa! Uma mancha vermelha que aparece e reaparece esporadicamente no mesmo lugar. A gentrificação irá me remover de onde eu moro, tenho certeza que desse ano não passa. Não progredi no alemão como planejei que progrediria, e olha que eu sou de fazer poucos planos, de criar poucas expectativas, as quais nem assim pude atender. Encontrei o amor, é verdade, o amor pelos antibióticos, anti-inflamatórios, por tratamentos diversos para remover sinais na pele já referidos e os da idade. Apaixonei-me por umas três peças musicais, obviamente não escritas nem lançadas durante este ano que vos escrevo, mas frustrei-me proporcionalmente a este apreço com a minha incapacidade de executá-las.
Este ano passado, este que está para acabar depois de amanhã, a despeito de meu pessimismo travestido de realismo, teve seus lados bons. Larguei os cigarros de vez, ou melhor, eles que largaram de mim quando resolveram armazenar um tumor benigno na minha garganta. Tomei birra e falei que era recíproco. Podia comemorar a economia financeira disto mas gastei a quantia economizada com os remédios e tratamentos para retirar a denominada coisa do lugar referido. Cadê vitória? Atualizei o anti-vírus do computador de mesa, é verdade. Arrumei meu quarto um número recorde de vezes, as quais foram exatamente três, e acho de grande valia dizer que varri o chão e espanei os móveis em cada uma das empreitadas, embora com variada dedicação e afinco a cada execução. Finalmente visitei o tal do Cristo, aquele que fica lá de cima da Zona Sul brilhando em uma cor roxa, cafona, que não combina com nada no céu da noite. Bem, antes essa do que aquele verde e amarelo anacrônico durante a Copa. Fui mas só me convenci de vez porque descobri que ainda vale aquela meia entrada de morador. Detestei, estava quente, cheio de gente branca e loira, menos mal uns asiáticos, a vista era linda, claro, mas para ver metade dela posso fazer aquela trilhazinha pelo Parque Lage, de graça.
Lembrei de outro ato de humanidade e transcendência que aprendi este ano: aceitar e respeitar quem expressa e escreve risada com "kkkkkkk". Politicamente não progredi praticamente nada, já que tive que me controlar emocionalmente, inclusive recorrendo à medicamentos, para não cometer um genocídio em determinada parcela da população brasileira que, a julgar pelos seus padrões éticos e morais, acredita que estamos na década de 20. (Deste ano que se inicia também não passa a confirmação definitiva de minha hipocondria.) Em contrapartida, meu gato, o Sucrilhos, expressou algum sentimento por mim pela primeira vez. Foi assim: "Amor, você não vai botar a porra da comida pra mim não? Se você continuar me enrolando eu vou embora." Não sabia se me sentia lisonjeado pelo gesto de carinho dele me chamar de "amor" ou se me revoltava com a grosseria. Fazia apenas doze horas que eu o alimentara pela última vez.
Nasceu uma flor, do meio do cimento da calçada aqui da rua. Não era bem uma flor, era verde, devia ser uma hortaliça, mas era viva, respirava via clorofila, nasceu. Se isso aqui fosse uma poesia ela me rendia um verso! Mas só rendeu em mais entulho pra varrer quando a prefeitura desmoronou o pavimento inteiro para trocar o encanamento embaixo. Fibra ótica já está marcada também para ser instalada agora em janeiro. Dizem que a atual gestão de urbanismo está trazendo saneamento e tecnologia decente pras bandas de cá. E eu? Quais meus planos pro ano que se inicia? Meu filho, eu só consigo pensar no aluguel que vai subir, e na bolsa que deve acabar bem no meio do ano. Já disse, a gentrificação ainda vai me tirar daqui. Devia ter ouvido meus pais e prestado concurso. É duro ser de humanas. Feliz ano novo, camaradas.
P.S: Contudo, tenho um remoto planejamento de finalmente fazer minha primeira tatuagem. Será um dragão nas costas com um balãozinho desses de quadrinhos dizendo "Eu avisei". Ainda está em tempo de me impedirem.
Nasceu uma flor, do meio do cimento da calçada aqui da rua. Não era bem uma flor, era verde, devia ser uma hortaliça, mas era viva, respirava via clorofila, nasceu. Se isso aqui fosse uma poesia ela me rendia um verso! Mas só rendeu em mais entulho pra varrer quando a prefeitura desmoronou o pavimento inteiro para trocar o encanamento embaixo. Fibra ótica já está marcada também para ser instalada agora em janeiro. Dizem que a atual gestão de urbanismo está trazendo saneamento e tecnologia decente pras bandas de cá. E eu? Quais meus planos pro ano que se inicia? Meu filho, eu só consigo pensar no aluguel que vai subir, e na bolsa que deve acabar bem no meio do ano. Já disse, a gentrificação ainda vai me tirar daqui. Devia ter ouvido meus pais e prestado concurso. É duro ser de humanas. Feliz ano novo, camaradas.
P.S: Contudo, tenho um remoto planejamento de finalmente fazer minha primeira tatuagem. Será um dragão nas costas com um balãozinho desses de quadrinhos dizendo "Eu avisei". Ainda está em tempo de me impedirem.

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