segunda-feira, 27 de julho de 2015

Micropoesia para Dispositivos Móveis: Doze

Alimentava meus demônios com ração industrial. Carboidratos, cigarros, versos de canções com milhões de views no YouTube. Tanta composição química me morreria de cansaço no final da vida. Mas já alimentei meus demônios com minha carne humana. Suculenta, devoravam-na aos finais de semana. Enquanto explodiam edifícios gentrificados para gentrificá-los ainda mais. Pra não morrer de tédio antes do final da vida, até porque depois seria difícil, fui vender minha arte na selva, e admito ter encontrado razoável recepção dentre jaguatiricas e corretores imobiliários.

Hoje em dia alimento meus demônios com uma bomba nuclear. Que pulsa e explode dentro da gente, dentro do mar. Destruindo qualquer verdade aos rasgos com a mesma energia que uma criança dilacera uma embalagem de presente numa manhã de Natal. Aqui humildemente imploro qualquer pedaço de ti, pois necessito. Até ante-ontem eu morreria de amor no final da vida. E essa era a pior das hipóteses.

Micropoesia Para Dispositivos Móveis: Quinze

Ai, Iolanda. Que amor é esse que se embrutece assim? Saudade é essa folgada entre os dentes? Comecei a ensaiar um samba pra lhe fazer surpresa mas não levo de fábrica esse seu jeito sincopado. Encontrei barulho estranho vindo do seu quarto e comecei escrever (mas parei, que a luz dos olhos do novo smartphone me tirava também o sono). Continuei hoje cedo e a outra coisa a me deixar de pé era o seu respiro num compasso mudo, acariciando a almofada recém comprada que tenho certeza ter valor ou afeto algum pois ainda levava a etiqueta. Perguntei me batucando, agora escrevendo de dentro da minha cabeça, Que afeto é esse que lhe sangra à punhos? Toca seu rumo. Não que eu seja de sorrir tão facilmente ou tenha uma cura instantânea, dessas de se dissolver em água fervente, para o seu dilema. Desculpa inclusive se eu meto a colher nessa poluição e vai que nem era ruído o que eu ouvia mas uma canção? O outro verso se seguia assim. Que punho é esse que lhe sangra os sonhos/ Mas lhe recusa a estender a mão? Só queria dizer, Iolanda, amiga, que se precisar de um café ou  um cafuné (que, além de serem as duas únicas coisas que sei fazer decente, foram as palavras que calhei rimar), estou ainda logo no quarto ao lado. 

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Urgência

Todo desespero emergencial de se viver a vida
Após uma experiência de quase morte:

Engasgo,
Logo existo.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

A sombra do meu samba
Sincopada
Resguardada
Requebra mais que eu
Cilada

Binbou Yusuri

Que hora tu acha que chega aqui no tiroteio?
Que horas teu receio bate ponto neste fim de mundo?

Quando tu acha que consegue derreter essa calota polar?
Que eu tô morrendo de câimbra
Juro

Dentro do meu lacrimejo cabe outro mar
Com o dente rangendo encaixa mais um samba
Nessa rua deserta cabe outro rio
Baita secura danada de beber uma nuvem escura
Eita! essa sede de tempestade

"Nesse desespero cabem dois", sorrio
"Fique à vontade."

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Soslaios

Vejo sombras pela minha visão periférica com frequência. Às vezes é só uma mancha de gordura no óculos, poeira ou leite em pó, mas noutras eu tenho certeza que são uma espécie catiço. Elas se mexem, dançam, rebolam, acenam. Tudo bem que tem vez que eu viro bem rápido para pegá-las no flagra e dou de cara com o fio do fone de ouvido balançando da beira da mesa. Mas é impossível que seja sempre isso. Tem vez que era só uma barata se mexendo mesmo, ter o raio de um azulejo branco no quarto favorece essas coisas, qualquer bicho passando tu já acha que é um demonho rastejando pra puxar teu pé. Deve de ser mesmo. Só que juro que teve aquele dia que a sombra tava no canto, eu virava, não achava, continuava lendo sei lá o que tava lendo no dia, daí o escuro de novo acenava, como que pra me provocar, e eu virava, e bem rápido que teve uma hora que eu vi, e olhei bem nos olhos da entidade, sei lá como posso chamar aquilo, e aquilo me olhou de volta, e tava com a vista vermelha, e pediu um dinheiro pra comprar uma cachaça, até que um segurança veio e a puxou pelo braço e é verdade, eu tava naquela Biblioteca ali do lado da Central. Não tô de deboche não, sério, porque teve uma vez que a escuridão veio e se amarrou feito cachecol no meu pescoço, eu tava deitado, e tava gelado nesse dia, mas eu não sou de amarrar essas coisas em mim não porque tenho medo justamente de sufocar assim como sufoquei quando isso veio, se enrolou, e tava quente pra carai, e eu puxando, e o negócio era peludo e fazia um barulho estranho que parecia uma onomatopeia de terremoto e eu, já com dificuldade de respirar, comecei a espirrar, engasgar, e antes de gritar ou resolver me sossegar com minha morte percebi que era meu gato que devia ter entrado aqui no quarto quando a moça que trabalhava aqui em casa veio apagar a luz. 

Confesso: Confessei

Guardo um segredo gritado
que confesso pros muros
em nosso idioma particular

"Sou uma mancha velha
Na sua roupa de dormir"

Nem tão específico assim
E sem seu endereço
Conto com a sorte
Espero você passar e ver
Espero a América Latina ir parar no Polo Norte
Espero dar as seis da tarde numa véspera de feriado
Espero o 438.

O que der pra acontecer primeiro.

Quedas

Cai, a gravidade
Cai a pressão
Cai o Eixo
Cai a pele, com a idade
Cai a cotação
Cai o queixo.