domingo, 30 de setembro de 2012

Chapisco Cimento

Outro dia foi o abacaxi. Deixei na geladeira do trabalho a segunda metade, embolada num saco plástico, um indício claro de que queria mantê-lo fresco p'ra comer posteriormente. Batata. Comeram. Caralho. Fiquei puto, xinguei, falei que era meu, entre palavrões e dedos levantados. Atravessei a rua nesse dia p'ra chegar no Fast Food onde almoço e chegando na outra calçada uma família vinha na direção perpendicular à minha. Eles eram três, pai, mãe, filho, eu era um, eu, tentei apressar o passo mas a criança tropeçou em mim. Eles pediram desculpas mas eu tinha como desculpar aquele absurdo? mandei tomar no cu e ensinar o pirralho a olhar por onde anda, que eu só poupava a porrada com pedaço de madeira farpada porque estava atrasado para porra da minha comida e morria de fome. De volta ao emprego foi outro calo no meu cérebro, 3 minutos sentado recebo a vigésima ligação do dia da minha chefe falando que o relatório que entreguei há 1 hora tava ótimo mas que ela ia precisar de uma nova coluna informando o indíce de erro para cada solicitação aberta naquele período. E porque essa vaca não me avisou disso 3 horas atrás? Minha vontade era meter um cuspe dentro do nariz dela e dar cabeçadas até desfigurar-lhe (ela que adora falar assim) a cara. A sorte é que ela estava em São Paulo à negócios e só voltaria dentro de duas semanas. Os novos atendentes que ela contratou também merecem ter as caras esfregadas em cacto regado à álcool. Jegues. Se eu tiver que falar mais uma vez como se calcula o índice de juros de acordo com o número de parcelas acordadas para expectativa de pagamento, eu juro, eu juro, juro.. Hoje deixei o carro em casa e peguei metrô, a merda do radiador tá com crise de meia idade ou eu simplesmente esqueci 90% do discurso do mecânico pra justificar a facada que ele me deu de expectativa da conta p'ro conserto. Se eu tivesse que pegar a Estação da Carioca cheia desse jeito às 18h de segunda à sexta já teria comprado um bomba de pimenta e largado no primeiro vagão trajeto Saens-Peña - General Osório. Minha mulher quer engravidar. Tentamos todo dia, ainda nada. Dela evito ter raiva, pois já se ferra naquele escritório filho da puta que ela arranjou de trabalhar na Barra da Tijuca, com o viado de chefe mal comido que tenta esticar as horas extras não remuneradas de serviço dia sim-dia não. Já tenho organizada a papelada, quando engravidarmos, a primeira gracinha repassada vai render definitivamente um processo trabalhista no cu deles. Maldita contabilidade, maldito mercado de crédito. Sim, senhora, fazemos consulta ao SERASA e ao SPC, se você tá endividada o problema não pode ser meu. Entendo, entendo muito bem que a senhora, moradora de Copacabana, nunca foi tão desrespeitada em sua vida, mas entenda bem que em sua vida inteira a senhora também nunca levou uma tijolada na cara por ser tão abusada ou teve essa sua cara enrugada esfregada em muro de cimento com chapisco - o que já é uma questão da péssima criação que você teve daquela vaca da sua mãe. Ela era uma puta fazendo programas, planejando dar o golpe do baú em qualquer velho caquético dono de imóvel na zona sul mas sem grana, ela toda banha, herpes e gonorreia se achando rainha da Barata Ribeiro, certo, certo, certo? Aposto que você adora fular fila do mercado e fazer as pessoas levantarem dos assentos preferenciais de ônibus fingindo ter mais de 65 anos, embora sua identidade aqui na minha mão aponte que você é de dezembro de 1949, portanto nem tem 63 anos.

Ando calado demais, tanto em casa, na rua, quanto no trabalho, na verdade. Eu que sequer tenho histórico de enxaqueca na família já tive que ir cinco vezes no neurologista esse ano para tentar descobrir a causa dessa maldita dor de cabeça. O meu último terapeuta me indicou uns recursos para aliviar o stress, como corrida, sexo, boxe, música, ou até mesmo me recomendou abrir um blog privado. Na minha cabeça mandei ele tomar suco de jaca com caroço e se engasgar, mas as únicas palavras que cuspi foram "boa tarde, obrigado". Semana que vem marquei pela primeira vez um terapeuta (coberto pelo plano de saúde) para verificar se preciso auxílio para controle de raiva. Acho que o meu problema é justamente saber controlá-la perfeitamente. Ainda não matei ninguém.

Primavera

Te ofereci meu amor em 1983, desde então um presidente caiu, a bolsa parou cinco vezes, a dívida externa triplicou e nossos pais se mataram; vendi mate na praia, me formei em economia, aprendi a fumar maconha e crack e larguei, viajei p'ro Nepal onde encontrei sua prima, lembrei de você e lhe escrevi esta carta; você, pelo que disseram, aprendeu a voar, digo, literalmente, virou piloto de avião, está esperando gêmeos e foi escalado para trabalhar na campanha para reeleição do atual prefeito da cidade que eu odeio - cidade e prefeito; te ofereci meu amor, minha coleção de pecinhas de LEGO, e sexo livre de culpa em 1997; em 1977, 6 anos antes de te conhecer, numa ciranda de roda quando ainda se brincava de ciranda, te amava já, e comecei a cultivar três pedras: uma pro peito, outra pra um dos meus rins, a última para arremessar contra sua janela em sua casa na rua Visconde do Pirajá, número 75, apetê 32, terceiro andar. P.s: espero realmente ter acertado o andar, na verdade, certos prédios contam o térreo como primeiro andar e outros não; tentei perguntar isso pro porteiro, porém ele ficou desconfiado e ameaçou chamar a polícia; a propósito, deixo aqui minha reclamação, se possível o demita em breve (seu nome rima mais ou menos com pudim); em caso de eu simplesmente ter incomodado seu vizinho de baixo ou de cima, deixo aqui minhas sinceras desculpas e um desejo de ótima primavera.